Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Para entender o fascismo dos impotentes

» Previdência, o retrato de um país desigual — e cruel

» Quando os cientistas enfrentam o sistema

» Moro tenta escapulir em latim

» Dinheiro: o novo sonho de controle do Facebook

» Mulheres na política: uma nova onda a caminho

» Sertanejo, brasilidade e Nelson Pereira Santos

» A crise do Brexit e o capitalismo impotente

» Pilger: é hora de salvar o jornalismo

» Missão: extinguir o BNDES

Rede Social


Edição francesa


» Pauvre et femme : la double peine

» M. Sarkozy déjà couronné par les oligarques des médias ?

» La Cisjordanie, nouveau « Far Est » du capitalisme israélien

» Protester avec l'électrochoc de la musique

» Canicule, médias et énergies renouvelables

» Autopsie d'une canicule

» Quand la gauche renonçait au nom de l'Europe

» Un « New Deal » pour l'école

» La Chine bouscule l'ordre mondial

» L'affirmation homosexuelle


Edição em inglês


» US against Iran: war by other means

» How US climate deniers are working with far-right racists to hijack Brexit for Big Oil

» Confessions of a map-maker

» The Spaniards who liberated Paris

» Fighting for communication control

» June: the longer view

» Niger, a migration crossroads

» Niger, a migration crossroads

» Whatever happened to Bob Woodward?

» Europe in space


Edição portuguesa


» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto

» EUROPA: As CaUsas das Esquerdas

» Edição de Maio de 2019

» Os professores no muro europeu

» Chernobil mediático

» Edição de Abril de 2019

» A nossa informação, as vossas escolhas


EDITORIAL

A guerra social

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

As desigualdades atingem proporções inéditas. Um terço da humanidade vive na miséria, 800 milhões sofrem de desnutrição, quase um bilhão de analfabetos, um bilhão e meio não tem acesso a água potável, dois bilhões não conhecem luz elétrica...

Ignacio Ramonet - (01/11/2002)

Depois dos acontecimentos do 11 de setembro de 2001 e da guerra do Afeganistão, as pessoas sentem-se mergulhadas num mundo dominado pela violência política e pelo terrorismo.Há mais de um ano, através de imagens terríveis e depoimentos alucinantes, os grandes meios de comunicação semeiam o horror com relatos de atentados assustadores, explosões sangrentas, tomadas de reféns espetaculares...

Não se passa uma semana sem que um doloroso tributo de sangue tenha que ser pago, de Israel a Bali, de Karachi a Moscou, do Iêmen à Palestina... Gera-se a impressão de que o planeta estaria sendo varrido pelo furacão de um novo tipo de conflito mundial – “a guerra contra o terrorismo internacional” – ainda mais atroz que aqueles que o precederam. Nesse contexto, a eventual guerra norte-americana contra o Iraque não passaria de um simples episódio.

Apaga-se a centelha da luta armada

Contrariando as aparências, a violência política nunca foi tão frágil. As revoltas e insurreições de natureza política raramente foram tão poucas

Essa impressão é falsa. Contrariando as aparências, a violência política nunca foi tão frágil. As revoltas e insurreições de natureza política, assim como as guerras e os conflitos, raramente foram tão poucos. Por mais surpreendente que possa parecer – e para amargura da mídia – o mundo está calmo, tranqüilo, amplamente pacificado.

Para se convencer disso, basta comparar a atual paisagem geopolítica com a de vinte e cinco ou trinta anos atrás. Os grupos radicais contestadores, adeptos da luta armada, desapareceram praticamente por completo. A maioria desses conflitos que, em maior ou menor intensidade, causavam anualmente, em todos os continentes, dezenas de milhares de mortos, terminou.

Quase todos os braseiros, em que a centelha da perspectiva marxista de construir um mundo melhor havia inflamado, apagaram-se ou estão em vias de extinção. Em escala planetária, sobra apenas uma dezena desses palcos de violência: Colômbia, País Basco, Chechênia, Oriente Médio, Costa do Marfim, Sudão, Congo, Caxemira, Nepal, Sri Lanka e Filipinas... É evidente que um novo adepto da luta armada surgiu e ocupa atualmente a atenção e a cena da mídia – o islamismo radical. Porém, por mais espetaculares que sejam suas ações, não se deve fugir do principal: a luta política armada tornou-se mais rara.

Violência de pobres contra pobres

Existiriam outras formas de violência? Claro que sim. A começar pela violência econômica que exercem os dominantes contra os dominados

Significaria isso que não existem outras formas de violência? É claro que não. A começar pela violência econômica que exercem, estimulados pela globalização liberal, os dominantes contra os dominados.

As desigualdades atingem proporções inéditas. Literalmente revoltantes. Metade da humanidade vive na pobreza; mais de um terço, na miséria; 800 milhões de pessoas sofrem de desnutrição; quase um bilhão de analfabetos; um bilhão e meio não tem acesso a água potável; dois bilhões não conhecem luz elétrica...

E, por incrível que pareça, esses bilhões de condenados da terra vivem politicamente tranqüilos. Isto chega a ser um dos grandes paradoxos da nossa era: mais pobres do que nunca e menos revoltados do que nunca.

Irá essa situação persistir? É pouco provável. Talvez devido ao esgotamento do marxismo como motor internacional da revolta social, o mundo passa por uma espécie de transição. Entre dois ciclos de revoluções políticas. E se as injustiças são mais escandalosas do que nunca, nota-se que certas formas de violência já atingem dimensões de paroxismo. Especialmente a violência de pobres contra pobres, assim como outras formas de revolta primitiva1 que se manifestam pela delinqüência, pela criminalidade, pela insegurança e que – praticamente por toda parte, não apenas na França – ganha características de uma autêntica guerra social.

Brasil, o país das desigualdades

Apenas no Rio de Janeiro, entre 1987 e 2000, foram mortos à bala mais menores do que nas guerras da Colômbia, Iugoslávia, Afeganistão, Israel e Palestina

Trinta anos atrás, na América Latina e em outras regiões do planeta, um jovem que conseguisse um revólver alistava-se numa organização de luta armada para mudar o destino da humanidade. Hoje em dia, um jovem que consiga um revólver sonhará, antes de tudo, consigo próprio e, sentindo-se vítima da ruptura do contrato social por parte das classes dominantes, também tratará de romper esse contrato, assaltando um banco ou roubando uma loja. Desde o início da grande crise econômica de dezembro de 2001 – e com a pauperização maciça das classes médias – o índice de “delinqüência” na Argentina foi multiplicado por quatro...

No Brasil, um dos países com mais desigualdades do mundo – e cujos eleitores votaram esmagadoramente a favor do “candidato dos pobres”, Luís Inácio Lula da Silva –, a guerra social assume proporções insólitas. Apenas na cidade do Rio de Janeiro, entre 1987 e 2000, foram mortos, à bala, mais menores de idade do que nos conflitos da Colômbia, Iugoslávia, Serra Leoa, Afeganistão, Israel e Palestina. Durante os últimos treze anos, por exemplo, milhares de jovens foram mortos na guerra entre Israel e Palestina; no mesmo período, 3.937 menores foram assassinados no Rio de Janeiro2...

Uma vida em “liberdade condicional”

Diante dessa onda crescente daquilo que os meios de comunicação chamam “insegurança”, vários países – México, Colômbia, Nigéria, África do Sul etc. – gastam atualmente mais na condução dessa guerra social do que em sua própria defesa nacional. O Brasil, por exemplo, destina 2% de sua riqueza anual (PIB) às forças armadas, porém mais de 10,6% para proteger os ricos contra o desespero dos pobres...

A grande lição da história da humanidade é a seguinte: os seres humanos sempre acabam se revoltando diante do crescimento das desigualdades. A atual escalada – tanto no hemisfério Sul quanto no hemisfério Norte – da delinqüência e da criminalidade, que muitas vezes não passam de manifestações primitivas e arcaicas de agitação social, constitui um sinal indiscutível do desespero dos mais pobres diante da injustiça do mundo. Ainda não se foi condenado à violência política. Mas todo mundo sabe que se vive numa “liberdade condicional”. Até quando?

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Eric J. Hobsbawm, Les Primitifs de la révolte dans l’Europe moderne, ed. Fayard, Paris, 1966.
2 - El País, Madri, 11 de setembro de 2001.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Desigualdades Internacionais
» Neoliberalismo
» Pobreza
» Capitalismo Financeirizado

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos