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CULTURA

A obsessão “filo-americana”

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Jean-François Revel é um abnegado. Membro da Academia Francesa, escritor e jornalista, com presença constante e contínua nos meios de comunicação, não baixa a guarda: é o paladino da defesa dos valores humanitários e generosos do capitalismo

Serge Halimi - (01/11/2002)

A influência de Revel permite certas ousadias, como a de fustigar a “obsessão antiamericana” da França, que jamais deixou de guerrear ao lado dos EUA

Jean-François Revel não é um dissidente comum. Seus panfletos são publicados pela Editora Plon, adulados pela “crítica” e vendidos às dezenas de milhares de exemplares. Se o perseguem, é para oferecer-lhe prêmios literários. Sua fama pesa – ele o confessou em duas edições de Commentaires –, mas lhe permite ver cada um de seus novos textos, idêntico ao anterior, tornar-se o centro de todos os “debates”. Le Monde des Livres acaba de consagrá-lo como “a honra dos intelectuais1”: tem uma cadeira na Academia Francesa, participa do júri do prêmio Interallié, escreve crônicas para a revista Point e para a RTL e a France Culture não existe sem ele.

Tamanha influência permite certas ousadias. Tais como a de fustigar a “obsessão antiamericana” de um país, a França, que, durante os últimos dez anos, jamais deixou de guerrear ao lado dos Estados Unidos – em 1991, no Golfo, em 1999, no Kosovo, e em 2001-2002, no Afeganistão. Outra ousadia é a de trespassar, com a espada e a caneta desembainhadas, os flancos de uma desinformação que ele afirma ser generalizada2. É o que faz em relação à violência escolar na França, por exemplo: “Logicamente, é um assunto tabu” (p. 1563). Ou à história contemporânea: “A crônica dos crimes do comunismo continua sendo objeto de uma censura vigilante” (p. 270). Ou sobre a realidade nos Estados Unidos: “Difamar os Estados Unidos ocupa nove décimos do pensamento francês” (p. 237).

Os esforços humanitários de Bush

JFR identifica o inimigo: “a recusa em prestar uma informação verdadeira e verificável sobre os Estados Unidos e sobre os inimigos da democracia”

Uma vez identificado o inimigo – “a recusa em prestar uma informação verdadeira e verificável sobre os Estados Unidos e sobre os inimigos da democracia” (p. 15) –, Jean-François Revel, da Academia Francesa, sai a combatê-lo com abnegação. Porém – sem dúvida por pensar que ainda está cercado por adversários totalitários –, algumas de suas técnicas retóricas merecem ser classificadas como stalino-reaganianas.

Aliás, esse corpo híbrido corresponde aos métodos e percursos de uma fração considerável da direita intelectual norte-americana, próxima a Jean-François Revel, que não deixa de citar vários neoconservadores (Norman Podhoretz, Gertrude Himmelfarb ou Dinesh D’Souza). A admiração é mútua: embora nos Estados Unidos quase ninguém conheça Alain Duhamel ou Pascal Bruckner, os livros do nosso acadêmico são bastante traduzidos (este, quase certamente o será) e ele é apreciado pela intelligentsia ultra-conservadora que apóia atualmente George W. Bush em seus inúmeros esforços humanitários. Já em agosto de 1984, Jean Kirkpatrick, na época embaixatriz dos Estados Unidos junto à ONU, citava o nome de Jean-François Revel em seu célebre discurso perante a convenção do Partido Republicano, quando criticou asperamente seus compatriotas (do Partido Democrata) que “só sabem acusar os Estados Unidos” (“they always blame America first”). Ou seja, norte-americanos antiamericanos4...

A “honra dos intelectuais franceses”

Ainda cercado por imaginários adversários totalitários, JFR adota algumas técnicas retóricas que merecem ser classificadas como stalino-reaganianas

Os neoconservadores estão viúvos há dez anos. Seu inimigo preferido, o comunismo, deixou de ser uma ameaça, esgotou-se a grande discussão que alimentava suas vidas (que chegam ao fim). Porém, ao invés de celebrarem sua vitória e de se darem um pouco de paz (e a nós, também), conservaram o registro apocalíptico que estrutura sua identidade. E fingem, então, acreditar que o inimigo – destruído, recuperado, em debandada – ainda paira sobre o presente. O comunismo não morreu, trata-se de uma artimanha; o lobo disfarçou-se em vovozinha, mas para melhor nos comer. O terrorismo, o islamismo, o movimento antiglobalização e o multiculturalismo constituiriam, portanto, os mais recentes avatares do eterno Império do Mal.

Com o aval que lhe permite a certeza de ser incluído entre os ensaístas franceses que mais se equivocaram sobre tudo (tema no qual Alain Minc é seu único rival), Jean-François Revel vai à luta, obstinado, correndo o risco de se repetir. Em 1981, previu que a eleição de François Mitterrand transformaria a França numa democracia popular5. Defendeu, com absoluta convicção, que Mikhail Gorbatchev pretendia, com sua Perestroika, adormecer o Ocidente para melhor o destruir. É lógico que atualmente todo mundo bajula e faz citações do nosso acadêmico do Point, chegando mesmo a cantarolar o refrão de que ele mais gosta, o do “Somos todos norte-americanos”. Apesar disso, “a honra dos intelectuais franceses” continua desconfiado, convencido de que ainda vem sendo desejada a morte da hiper-potenciazinha tão generosa que ele defende de todas as difamações.

Um inimigo fantasmagórico

Nosso acadêmico é bastante apreciado pela intelligentsia ultra-conservadora que apóia atualmente George W. Bush em seus inúmeros esforços humanitários

O panfleto reaganiano de Revel está repleto de erros. Sem problema: ninguém, ou praticamente ninguém, os apontará, pois a crítica literária francesa é, antes de tudo, uma máfia. Qual, dentre esses críticos, ainda lê um livro desse jornalista e acadêmico, antes de se curvar, em veneração, no dia de seu lançamento? Vendo e escutando Revel – durante um mês, em tudo quanto é jornal e canal de televisão – é possível compreender melhor a diretriz literária de sua editora: “Gostamos de publicar escritores que interessam à mídia. Os editores que disserem o contrario estarão mentindo6.”

Revel salienta que “a falsidade nunca impediu que prosperasse uma teoria, se esta for sustentada por uma ideologia e protegida pela ignorância” (p. 25). Esse princípio resume seu último livro. Sua arquitetura intelectual é simples: constrói um inimigo fantasmagórico e depois zomba dele. Em seu alvo, Revel junta “o antiamericanismo de extrema-direita” e “o de extrema-esquerda”, que teriam “como motor o ódio à democracia e à economia liberal, que é sua condição necessária” (p. 16). Isso dá lugar a atalhos do tipo: “No dia 6 de fevereiro de 1934, arruaceiros de extrema-direita dirigiram-se ao Palácio Bourbon7 com o objetivo de forçar a entrada e expulsar dali os deputados – exatamente o que fazem atualmente os ativistas anti-globalização, em escala internacional, durante as reuniões de cúpula” (p. 67).

Uma jóia rara de “omissões”

O terrorismo, o islamismo, o movimento antiglobalização e o multiculturalismo constituiriam os mais recentes avatares do eterno Império do Mal

Se alguém pretendesse voltar contra o autor essa técnica da fusão, seria fácil confrontá-lo com inúmeros trechos de seu livro que, manifestando expressões recuperáveis pela extrema-direita, mencionam desde o “ ódio pelo Ocidente que tem a maioria8 dos muçulmanos que vive entre nós” (p.129) até o “absoluto desprezo pelas leis da República que professam e praticam tantos beurs9” (p. 171). Sem esquecer, numa referência que faz aos recentes atentados anti-semitas na França: “Portanto, é evidente que é como uma comunidade que os muçulmanos atacam outra comunidade” (p. 177).

Uma vez preparado esse patê “antiamericano” – composto pelo cavalo xenófobo e a andorinha internacionalista –, nosso cozinheiro avalia que ainda falta alguma coisa: “As duas características mais marcantes do antiamericanismo obsessivo [são] a seleção de provas e as contradições internas das acusações” (p. 257). No capítulo da seleção de provas, entretanto, o livro é uma jóia rara. Examinando as condições que cercaram a eleição de George W. Bush à presidência, Revel recusa confortavelmente as críticas, escolhendo as piores. E “esquece” um dado simples e irrefutável: o atual presidente teve 540 mil votos a menos que seu adversário. Por outro lado, evocando – ou evacuando – a questão, um tanto constrangedora, da pena de morte nos Estados Unidos, nosso escritor sugere que “o governo federal nem sempre tem o poder para impor suas preferências aos legisladores estaduais, que aprovam ou revogam suas leis de acordo com os votos de seus eleitores locais” (p. 256). Será que Revel ignora o papel decisivo que tem sobre esse tema a Corte Suprema, cujos membros – todos eles – têm cargos vitalícios e são nomeados pelo presidente e confirmados pelo Senado, tanto um quanto outro residentes em Washington?

Conclusões e afirmações extraordinárias

O livro resume-se a um princípio: “a falsidade não impede que prospere uma teoria, se esta for sustentada por uma ideologia e protegida pela ignorância

Numa comparação entre “a União dos Estados americanos” e a “União Européia”, nosso acadêmico avalia que o caráter menos democrático desta última é patente, pois “o peso proporcional de cada um dos países europeus no Parlamento e na Comissão está longe de ter qualquer relação com seu peso demográfico real” (p. 50). Revel “esquece” de ressaltar que a representatividade demográfica do Senado norte-americano é ainda mais imperfeita (o Estado de Wyoming, com uma população de 494.423 pessoas, elege dois senadores como a Califórnia, com 34,5 milhões de habitantes).

O autor revela que “nas últimas cinco décadas, toda a América Latina teve um progresso de cerca de 5% ao ano”. Para sustentar conclusão tão extraordinária, infelizmente, Revel se baseia num estudo... de 1985. Teria sido realmente essa a última fonte que pesquisou sobre o assunto? Na verdade, pouco importa: quando os dados observáveis contradizem as virtudes de um capitalismo que Revel defende cegamente, ele os atribui ao comunismo de antigamente. A África, por exemplo, “único continente do mundo onde se constata uma pauperização absoluta concreta” (p. 91), deveria sua desgraça ao fato de ter “adotado os sistemas soviético e chinês”. Ora, vejam só... E a Nigéria dos militares? E a África do Sul do apartheid? E o Zaire de Mobutu? E a Costa do Marfim da África francesa?

No fundo, Jean-François Revel só tem razão em relação a uma única coisa: “A boa fé nada pode contra a má fé” (p. 94).

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Roger-Pol Droit, “Jean-François Revel au combat”, Le Monde, 13 de setembro de 2002.
2 - Em sua ira, Revel poupa, no entanto, Le Point, Le Monde, Le Nouvel Observateur, L’Express, Le Figaro e algumas outras publicações menores, nunca deixando, principalmente, de saudar os jornalistas-vedetes, especialmente quando são diretores do jornal ou revista citados.
3 - As páginas assinaladas referem-se todas ao último livro de Jean-François Revel, L’obsession anti-américaine, ed. Plon, Paris, 2002.
4 - Em relação ao conceito de “antiamericanismo”, ler “A palavra supérflua” e “Os ‘filo-americanos’ à beira de um ataque dos nervos”, Le Monde diplomatique, maio de 2000.
5 - Ler, de Jean-François Revel, La Grâce de l’Etat. Alain Minc, por seu lado, previu, em 1986, a “finlandização” da Europa pela União Soviética...
6 - Declaração de Muriel Beyer, diretora literária da editora Plon, Le Figaro, 4 de junho de 2002.
7 - N.T.: Sede da Assembléia Nacional francesa, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil.
8 - O grifo é nosso.
9 - N.T.: Beur é um termo pejorativo com que os franceses designam jovens de origem magrebina, principalmente marroquinos.




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