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ANTI-TERRORISMO

As prioridades estratégicas dos EUA

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A estratégia norte-americana apóia-se em três pontos – fortalecimento da capacidade militar, busca de novas fontes de petróleo e guerra contra o terrorismo – que se fundem num único objetivo: a supremacia e o domínio do mundo inteiro

Michael T. Klare - (01/11/2002)

É inegável que um enorme esforço lhe vem sendo dedicado, mas a luta contra o terrorismo está longe de ser a única preocupação do governo norte-americano

Após o 11 de setembro, os Estados Unidos envolveram-se de tal maneira na guerra contra o terrorismo, que esta parece ter-se tornado o único objetivo da política externa do governo Bush. E o presidente norte-americano reafirmou, em várias ocasiões, que a organização dessa campanha era sua tarefa de maior responsabilidade. Porém, embora não restem dúvidas de que um enorme esforço lhe vem sendo dedicado, a luta contra o terrorismo está longe de ser a única preocupação do governo norte-americano.

Desde sua posse, o presidente dos Estados Unidos definiu duas outras prioridades estratégicas: a modernização e ampliação da capacidade militar norte-americana e a obtenção de reservas suplementares de petróleo junto a países estrangeiros. Embora suas origens sejam distintas, esses dois objetivos fundiram-se com a guerra contra o terrorismo para dar forma à estratégia unificada que orienta atualmente a política externa norte-americana.

Essa nova estratégia não responde por um nome formal, nem consta de uma declaração de princípios – na verdade, nem parece ter sido explicitamente formulada por Washington. Mas não existe qualquer dúvida de que essas três prioridades, fundidas, modificaram profundamente o comportamento militar norte-americano. A análise de algumas iniciativas recentes permite compreender a natureza dessa evolução.

Exemplos das prioridades estratégicas

Desde sua posse, Bush definiu duas outras prioridades estratégicas: a ampliação da capacidade militar e a obtenção de reservas suplementares de petróleo

- O Iraque e o Golfo Pérsico. Atualmente, parece quase certo que o governo Bush prepara uma invasão maciça do Iraque com o objetivo de derrubar Saddam Hussein e substituí-lo por um governo pró-americano em Bagdá. Para preparar essa operação, o Departamento de Defesa vem reforçando sua presença militar na região do Golfo. O objetivo da invasão seria a destruição da capacidade que o Iraque supostamente tivesse para produzir armas nucleares, químicas e bacteriológicas. Mas é óbvio que a decisão de Washington obedece à eliminação de qualquer ameaça que possa vir a ocorrer no transporte de petróleo daquela região. Para os estrategistas norte-americanos, trata-se também de garantir o acesso às vastas reservas petrolíferas iraquianas – ou seja, que estas não venham a ficar sob o controle exclusivo de empresas petrolíferas russas, chinesas e européias.

- A Ásia Central e o Cáucaso. Quando foram levadas tropas norte-americanas para aquela região, pouco após o 11 de setembro, o único objetivo – ou, pelo menos, foi o que constou – era o de dar apoio às operações militares dirigidas contra os taliban, no Afeganistão. Embora estes tenham sido vencidos, aparentemente essas tropas irão permanecer na região para cumprir outra missão. Provavelmente, esta consistirá em dar proteção ao transporte do petróleo e gás destinados aos mercados ocidentais, já que os Estados Unidos estão decididos a ter acesso às imensas reservas energéticas da bacia do Mar Cáspio –. Essa hipótese tem como sustentação o fato de terem sido enviados instrutores militares norte-americanos para a Geórgia, etapa crucial do oleoduto que liga o Mar Cáspio ao Mar Negro e ao Mediterrâneo, assim como a decisão, já anunciada, de estabelecer uma base aérea no Cazaquistão, às margens do Mar Cáspio.

- Colômbia. Até recentemente, dizia-se que o objetivo do envolvimento militar norte-americano na Colômbia obedecia, exclusivamente, à luta contra o tráfico de drogas. Porém, nos últimos meses, a Casa Branca acrescentou dois novos objetivos ao programa de assistência militar norte-americano: combater a violência política e o “terrorismo” praticados pela guerrilha e proteger os oleodutos que transportam petróleo das jazidas do interior do país para as refinarias, situadas no litoral. Para financiar essas novas prioridades, o governo Bush pediu que o Congresso votasse um aumento da ajuda militar a Bogotá – do qual, 100 milhões de dólares se destinariam especificamente à proteção dos oleodutos.

Uma “revolução no pensamento militar”

Parece quase certo que o governo Bush prepara uma invasão maciça do Iraque para derrubar Saddam Hussein e substituí-lo por um governo pró-americano

Percebem-se, nesses exemplos – e em muitos outros, pelo mundo afora –, as três grandes prioridades acima citadas. Mas é sua fusão, numa estratégia única e idêntica, que chama a atenção. É impossível, atualmente, compreender a direção global da política externa norte-americana sem levar em conta as implicações de tal integração. Para o fazer, é necessário examinar essas três prioridades separadamente, para analisar, em seguida, a maneira pela qual se interligam.

O fortalecimento da capacidade militar norte-americana vem sendo uma das principais prioridades de George W. Bush desde a campanha eleitoral de 2000. Num discurso fundamental, que pronunciou na prestigiosa academia militar “The Citadel”, em Charleston, Carolina do Sul, em setembro de 1999, Bush explicou como pretendia conseguir a “transformação” das forças armadas norte-americanas. Depois de afirmar que o governo Clinton não soubera ajustar os programas militares às novas realidades do pós-guerra fria, o candidato republicano prometeu realizar uma reavaliação completa da estratégia norte-americana para “começar a construir o exército do próximo século”.

Essa transformação do exército teria dois objetivos principais: o primeiro, garantir a invulnerabilidade do território, construindo um escudo antimísseis e preservando a superioridade norte-americana no setor de armas de alta tecnologia; o segundo, desenvolver a capacidade dos Estados Unidos de invadir potências regionais hostis, como o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte. Bush enfatizou seu apoio à construção de um escudo antimísseis que protegesse os cinqüenta Estados norte-americanos, assim como uma “revolução do pensamento militar”, implicando o uso sistemático de computadores, o aperfeiçoamento de sensores sofisticados, de objetos “invisíveis” e de outros sistemas de alta tecnologia em futuras operações de combate. Segundo o atual presidente, essa política garantiria a supremacia norte-americana a longo prazo.

Um exército “mais ágil e mais mortal”

É óbvio que a decisão de Washington obedece à eliminação de qualquer ameaça que possa vir a ocorrer no transporte de petróleo do Oriente Médio

Para conseguir o segundo objetivo, Bush apelou para o desenvolvimento da capacidade norte-americana de “projetar sua força” – em outras palavras, a capacidade de deslocar para zonas de conflito distantes contingentes militares significativos, capazes de vencer qualquer adversário. Isto implicaria a aquisição de equipamentos modernos, tais como sensores avançados e aviões sem piloto, assim como a diminuição do tamanho das unidades de combate, de modo a tornar seu deslocamento mais rápido. Bush explicou: “Nossas forças armadas devem ser ágeis, mortais e com capacidade de se deslocarem rapidamente com um mínimo de apoio logístico. Devemos ser capazes de projetar nossa força a grandes distâncias num prazo de dias ou poucas semanas, e não de alguns meses. [...] Nossas forças terrestres devem ser mais ágeis, nossas unidades leves devem ser mais mortais. Todas elas devem se deslocar com maior facilidade1.”

Assim que tomou posse, Bush, imediatamente deu ordens ao seu Departamento de Defesa para pôr em prática essas propostas. “Por iniciativa minha, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, começou um estudo minucioso das forças armadas norte-americanas”, declarou o presidente no início de 2001. “Dei-lhe liberdade total de reavaliar o status quo para que seja possível planejar uma nova arquitetura capaz de defender os Estados Unidos e seus aliados.” Essa nova arquitetura se apoiaria, em grande parte, em novas tecnologias, mas sua principal orientação continuaria sendo a de projetar com rapidez as unidades militares. Retomando as palavras do discurso que fizera na academia The Citadel, Bush avaliou que o exército norte-americano deve ser “mais ágil e mais mortal”, a força aérea, “capaz de bombardear objetivos distantes com precisão absoluta”, e a marinha poderá “projetar nossa força a lugares remotos e distantes2”.

A noção da “guerra preventiva”

A missão das tropas norte-americanas instaladas na Ásia Central é dar proteção ao transporte do petróleo e gás destinados aos mercados ocidentais

São esses objetivos que atualmente determinam as propostas orçamentárias de longo prazo do Pentágono. Exemplo disto foi a declaração de Donald Rumsfeld quando apresentou o orçamento da Defesa para o ano fiscal de 2003 (que começa no dia 1º de outubro do ano precedente), no valor de 379 bilhões de dólares (45 bilhões a mais do que em 2002): “Necessitamos que nosso exército se desloque rapidamente, agindo de maneira perfeitamente integrada, e que seja capaz de chegar rapidamente a locais de batalha distantes. Sua ação deve ser em cooperação com as forças aéreas e navais, de forma a atingir o adversário rapidamente, com precisão e de forma devastadora3.” Portanto, mesmo que recursos suplementares venham a ser alocados para o desenvolvimento do escudo antimísseis, é a capacidade de projeção de sua força que definirá os investimentos e a organização das forças armadas norte-americanas durante os próximos anos.

Após o 11 de setembro, um novo aspecto passou a constar da concepção estratégica do governo: a idéia segundo a qual os Estados Unidos devem empregar a força como alternativa preventiva contra potências hostis, suscetíveis de usarem armas de destruição maciça. A Casa Branca argumenta que ataques preventivos podem tornar-se necessários para defender cidadãos norte-americanos da ameaça representada por “Estados delinqüentes”. Se é óbvio para todo mundo que representa uma mudança radical na estratégia norte-americana, tal afirmação não deixa de ser perfeitamente coerente em relação aos dois outros objetivos do governo: garantir a invulnerabilidade dos Estados Unidos e reforçar sua capacidade de invadir e dominar potências hostis.

A dependência crescente de petróleo

A segunda prioridade do governo – a aquisição de novas reservas de petróleo junto a países estrangeiros – foi analisada pela primeira vez num relatório do National Energy Policy Development Group (Grupo de Desenvolvimento da Política Energética Nacional), divulgado em 17 de maio de 2001. Redigido pelo vice-presidente, Richard Cheney, esse documento estabelece uma estratégia destinada a atender às crescentes necessidades de petróleo dos Estados Unidos durante os próximos vinte e cinco anos. Embora o relatório mencione algumas medidas com o objetivo de poupar energia, a maioria das propostas visa a aumentar as reservas energéticas norte-americanas.

O governo pediu que o Congresso votasse um aumento da ajuda militar a Bogotá – do qual, 100 milhões de dólares se destinariam à proteção dos oleodutos

A partir de sua publicação, o relatório Cheney desencadeou uma dupla polêmica. Em primeiro lugar, por recomendar que fosse feita prospecção de petróleo no Parque Nacional do Alasca; depois, porque os autores do relatório tiveram contatos freqüentes com representantes da Enron – hoje, falida – enquanto redigiam as recomendações. A polêmica contribuiu para que passassem desapercebidos outros aspectos do relatório, principalmente os que se referem às verdadeiras implicações internacionais da nova política energética. É somente no último capítulo (“Reforçar as Alianças Globais”) que o verdadeiro significado do relatório Cheney se torna claro, pois é ali que se fica conhecendo a solução planejada para a iminente penúria de petróleo nos Estados Unidos: o aumento substancial das importações de petróleo estrangeiro.

Arábia Saudita, o alvo principal

Segundo dados do relatório, a dependência norte-americana de petróleo estrangeiro deve passar dos 52% do consumo total durante o ano de 2001, para 66% em 20204. Como o consumo total também aumenta, os Estados Unidos deverão importar, em 2020, 60% de petróleo a mais do que fazem hoje, passando de 10,4 milhões de barris por dia, para 16,7 milhões5. A única forma de conseguir isso seria persuadindo os fornecedores a aumentarem sua produção, vendendo-a, prioritariamente, aos Estados Unidos.

Mas a maioria dos países produtores não dispõe dos recursos financeiros necessários para investir na infra-estrutura de produção e/ou reluta em permitir que as empresas norte-americanas dominem seu setor energético. Consciente disso, o relatório recomenda à Casa Branca que o aumento das importações de petróleo seja “uma prioridade de nossa política comercial e de nossa política externa6”. Para atender às necessidades do país, o relatório recomenda que o governo se concentre em dois objetivos.

O primeiro deles consiste em aumentar as importações originárias dos países do Golfo Pérsico, que detêm cerca de dois terços das reservas energéticas do mundo. Como nenhuma outra região do planeta tem condições de aumentar a produção tão rapidamente quanto ali, o relatório recomenda enérgicos esforços diplomáticos no sentido de persuadir a Arábia Saudita e os países vizinhos a permitirem que empresas norte-americanas realizem os necessários trabalhos de modernização da infra-estrutura de sua indústria petrolífera.

O antiamericanismo latente

Bush explicou: “Nossas forças armadas devem ser ágeis, mortais e com capacidade de se deslocarem rapidamente com um mínimo de apoio logístico”

O segundo objetivo seria o aumento da diversidade geográfica das importações norte-americanas, de forma a reduzir as conseqüências econômicas de futuros sobressaltos numa região, o Oriente Médio, cronicamente instável. “A concentração da produção de petróleo em uma única região do planeta pode pôr em risco a estabilidade do mercado”, diz o relatório. Conseqüentemente, “a diversificação das fontes de abastecimento é da maior importância7”. Para conseguir essa “diversificação”, o relatório sugere uma estreita colaboração com as empresas norte-americanas do setor energético, destinada a aumentar as importações a partir das jazidas da bacia do Mar Cáspio (em especial, do Azerbaijão e do Cazaquistão), da África sub-saariana (Angola e Nigéria) e da América Latina (Colômbia, México e Venezuela).

Porém, o relatório Cheney omite aquilo que qualquer leitor medianamente informado é obrigado a concluir: todas as regiões designadas como potenciais fontes de petróleo são instáveis e/ou alimentam um forte sentimento antiamericano. Se uma parte das elites dessas regiões é favorável ao desenvolvimento de uma cooperação econômica com os Estados Unidos, outra parte importante de suas populações rejeita a idéia – seja por nacionalismo ou por motivos econômicos e ideológicos. Portanto, as tentativas norte-americanas de comprar mais petróleo junto a esses países correm o risco de serem recebidas por diversas formas de resistência, que poderão, inclusive, chegar ao terrorismo e a outros tipos de violência. O relatório implica, portanto, conseqüências envolvendo a segurança de uma importância considerável para a estratégia internacional norte-americana.

A “guerra prolongada” ao terrorismo

E é aí que surgem os evidentes paralelos entre a estratégia militar e a política energética do governo Bush. Na verdade, uma política energética que tem por objetivo permitir o acesso norte-americano a reservas de petróleo situadas em regiões de instabilidade crônica só seria viável na medida em que os Estados Unidos disponham de meios para projetar sua força militar em tais regiões. Tenham ou não as lideranças políticas chegado a essa conclusão, é indiscutível que as autoridades militares o fizeram.

No relatório de setembro de 2001, publicado por sua revista Quadrennial Defense Review (QDR), o Departamento de Defesa reconhece que “os Estados Unidos e seus aliados continuarão a depender dos recursos energéticos do Oriente Médio8” e que seu acesso poderia ser obstruído por diversas formas de ações militares. A QDR descreve, em seguida, os tipos de armamento e de tropas de que os Estados Unidos necessitariam para enfrentar essas ameaças – precisamente aqueles relacionados por Bush nas declarações acima mencionadas. A estratégia militar norte-americana “baseia-se na capacidade de projetar a potência das tropas norte-americanas através do mundo inteiro”, conclui o relatório9.

A Casa Branca argumenta que ataques preventivos podem tornar-se necessários para defender norte-americanos da ameaça representada por “Estados delinqüentes”

A terceira grande prioridade do governo Bush é a campanha contra o terrorismo, que seria explicitada pelo presidente em seu discurso perante o Congresso, no dia 20 de setembro de 2001, nove dias após os atentados de Nova York e Washington. Essa campanha não se limitaria a ser uma série de ataques punitivos ou uma grande batalha e, sim, uma “campanha prolongada”, abrangendo vários cenários de operação, até que “cada grupo terrorista com bases internacionais tenha sido descoberto, detido e destruído”. Posteriormente, o presidente Bush incluiria na guerra contra o terrorismo o Irã e o Iraque, que representariam uma ameaça devido a seus projetos de desenvolver armas nucleares, químicas e bacteriológicas.

A Operação Iraque

Essa estratégia exige dois tipos de esforços: no plano da informação, para poder detectar e neutralizar as redes terroristas, e no plano militar, para destruir os refúgios dos terroristas e os países que os protegem. Ambas as atividades parecem cruciais para vencer, mas foi o aspecto militar que mais chamou a atenção do núcleo dirigente, pois converge, de maneira bastante precisa, com as duas outras grandes prioridades do governo.

A maneira pela qual foi conduzida a guerra no Afeganistão, por exemplo, é ilustrativa da capacidade de “projetar a força” mencionada pelo presidente Bush em seu discurso de 1999, na academia militar The Citadel. Antes de dar início à campanha, os Estados Unidos enviaram, por avião, grandes quantidades de armas e equipamentos para países aliados e instalaram uma frota impressionante no Mar da Arábia. Os combates propriamente ditos foram prioritariamente travados por tropas de infantaria ligeira, apoiadas por bombardeiros de longa distância, equipados com armas teleguiadas de alta precisão. Deu-se especial importância à agilidade das tropas terrestres e ao uso de aparelhos de observação aperfeiçoados que permitem localizar o inimigo tanto de dia como de noite.

Uma operação do mesmo tipo contra o Iraque provavelmente implicaria na presença de dezenas de milhares de soldados em pontos-chave do território, combinada com bombardeios maciços. Ao contrário do que ocorreu em 1991, “não seria necessário ocupar o território, nem proteger os flancos”, explicou ao New York Times um oficial superior: “Seria priorizado o deslocamento rápido das tropas, concentrando-as em alvos precisos. 10” E, como no Afeganistão, a invasão se apoiaria no uso maciço de forças especiais (boinas verdes, atiradores de elite etc.), que combateriam ao lado de grupos armados dissidentes.

Bases semi-permanentes no Mar Cáspio

O relatório Cheney estabelece uma estratégia destinada a atender às crescentes necessidades de petróleo dos Estados Unidos durante os próximos 25 anos

A guerra contra o terrorismo, portanto, passa a contribuir para concretizar o esforço norte-americano de proteger o acesso ao petróleo – principalmente no Golfo Pérsico e na bacia do Mar Cáspio. E a guerra do Afeganistão emerge, então, como o prolongamento da guerra secreta que vem sendo travada na Arábia Saudita entre os adversários da monarquia e a família real, apoiada pelos Estados Unidos. Desde que o rei Fahd decidiu, após a invasão do Kuait em 1990, autorizar os norte-americanos a utilizarem seu país como base para atacar o Iraque, grupos extremistas sauditas, dirigidos por Osama bin Laden, vêm lutando, na clandestinidade, para derrubar a monarquia e expulsar os norte-americanos do país. Dessa perspectiva, o empenho norte-americano em destruir a Al-Qaida no Afeganistão parece ter sido motivado pela necessidade de proteger a família real saudita, garantindo o acesso norte-americano ao petróleo daquele país11.

Nota-se uma evolução do mesmo tipo na região vizinha ao Mar Cáspio. Durante o governo Clinton, o Departamento de Defesa estabeleceu relações com as forças armadas do Azerbaijão, da Geórgia, do Cazaquistão, da Quirguízia e do Uzbequistão, começando a fornecer-lhes armas e treinamento militar12. Porém, após o 11 de setembro, esses esforços foram consideravelmente intensificados. As bases provisórias no Uzbequistão e na Quirguízia, por exemplo, vêm se transformando em instalações semi-permanentes. No Cazaquistão, os Estados Unidos também vêm ajudando na “reforma de uma base aérea de importância estratégica”.

A guerra pelo domínio total

Segundo o Departamento de Estado, essa iniciativa teria por objetivo “melhorar a cooperação entre os Estados Unidos e o Cazaquistão, estabelecendo uma base norte-americana interoperacional nessa região rica em petróleo13”. Os Estados Unidos irão também ajudar o Azerbaijão a criar uma frota no Mar Cáspio, onde, recentemente, ocorreram vários incidentes entre navios petroleiros daquele país e navios militares iranianos. Se tais iniciativas se justificam pela necessidade de facilitar a participação desses países na luta contra o terrorismo, elas também se inserem nos esforços que os Estados Unidos vêm desenvolvendo com o objetivo de estabelecer condições seguras para a produção e transporte de petróleo.

Fossem quais fossem as intenções iniciais dos dirigentes norte-americanos, as três prioridades do governo em matéria de segurança internacional – o aperfeiçoamento da capacidade militar, a busca de novas fontes de petróleo e a guerra contra o terrorismo – acabaram se fundindo num único objetivo estratégico. A partir de agora, será cada vez mais difícil analisar separadamente as três iniciativas. A única maneira de descrever com precisão a tendência global da estratégia norte-americana é em termos de um objetivo único, que se poderia resumir como uma “guerra pelo domínio norte-americano”. Se ainda é cedo para se avaliarem as conseqüências que essa fusão num único objetivo pode ter a longo prazo, é possível, no entanto, fazer várias observações.

Bush desconhece advertências

A guerra contra o terrorismo passa a contribuir para concretizar o esforço norte-americano para proteger o acesso ao petróleo no Golfo Pérsico e no Mar Cáspio

A primeira delas é que a combinação dessas três orientações cria uma dinâmica mais forte do que quando não se fundem. Na verdade, torna-se muito difícil criticar uma estratégia que abrange tantos aspectos vitais da segurança nacional. Se apresentados separadamente, talvez fosse possível impor-lhes restrições específicas. Poderia, por exemplo, ser exigido um limite para os orçamentos militares, ou a redução de tropas enviadas para as proximidades de regiões ricas em petróleo. Porém, quando esses aspectos são apresentados sob a bandeira da guerra contra o terrorismo, a possibilidade de discuti-los torna-se praticamente impensável. Portanto, é razoável imaginar que a política da Casa Branca encontre uma certa sustentação por parte do Congresso e da população norte-americana.

No entanto, pelas mesmas razões, essa estratégia implica um risco significativo de uma escalada, de uma expansão imprevisível e de um atoleiro. Ela pode, na realidade, levar a uma série de operações militares com duração indeterminada, que se poderiam tornar cada vez mais complexas e perigosas, exigindo um envolvimento de recursos e de tropas cada vez maior. Trata-se precisamente do tipo de estratégia contra a qual alertava George W. Bush antes das eleições de 2000 – e que agora parece ter adotado com entusiasmo. É isso, pelo menos, o que parece estar ocorrendo no Golfo Pérsico, na Ásia Central e na Colômbia. Nesses casos, é justamente a combinação dos três aspectos da estratégia que torna difícil que se estabeleçam limites para o envolvimento norte-americano.

O maior desafio ao modelo defendido pela Casa Branca poderá ocorrer no Iraque. George W. Bush não esconde suas intenções de depor o presidente Saddam Hussein e o Departamento de Defesa já prepara os planos para a invasão norte-americana. Inúmeros dirigentes árabes já o alertaram para o fato de que essa invasão irá desencadear uma onda de desordens e violência por todo o Oriente Médio. Alguns dirigentes do próprio Pentágono manifestaram reservas no que se refere aos custos e à manutenção de um significativo contingente militar norte-americano no Iraque – após a deposição do regime de Bagdá. Esses alertas, entretanto, não parecem demover a Casa Branca, que continua decidida a atacar o Iraque por todos os meios possíveis.

(Trad.: Jô Amado)

1 - O texto desse discurso está disponível no site: www.georgewbush.com/speeches... (2 de dezembro de 1999).
2 - Discurso pronunciado na base naval de Norfolk em 13 de fevereiro de 2001. Site: www.whitehouse.gov/news/rele...
3 - National Defese University, Washington, D.C., 31 de janeiro de 2002. Site: www.defenselink.mil/cgi-bin/...
4 - National Energy Policy Development Group, capítulo 8, p. 3, Washington, D.C., maio de 2001.
5 - U.S. Department of Energy, Energy Information Administration, International Energy Outlook 2002, pp. 183-242, Washington, D.C., 2002.
6 - National Energy Policy Development Group, capítulo 8, p. 4, Washington, D.C., maio de 2001.
7 - National Energy Policy Development Group, capítulo 8, p. 6, Washington, D.C., maio de 2001.
8 - Departamento de Defesa, Relatório da Qadrennial Defense Review, p. 4, Washington, D.C., 30 de setembro de 2001.
9 - Departamento de Defesa, Relatório da Qadrennial Defense Review, p. 43, Washington, D.C., 30 de setembro de 2001.
10 - The New York Times, 28 de abril de 2002.
11 - Ler “The Geopolitics of War”, The Nation, 5 de novembro de 2001. Ler também “Line in the Sand: Saudi Role in Alliance Fuels Religious Tension in Oil-Rich Kingdom”, The Wall Street Journal, 4 de outubro de 2001.
12 - Para informação suplementar sobre o assunto, ler, de Michael Klare, Resource Wars: The New Landscape of Global Conflict, ed. Metropolitan Books/Henry Holt, Nova York, 2001.
13 - Departamento de Estado, Congressional Budget Justification: Foreign Operations, Fiscal Year 2003, p. 309, Washington, D.C., 2002.




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