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O novo filme de Pierre Carles não é um ajuste de contas, como já foi dito, mas, principalmente, um aperfeiçoamento, um complemento – útil e irresistivelmente cômico – de seus dois trabalhos anteriores

Carlos Pardo - (01/11/2002)

O filme Enfin pris? torna-se uma análise poderosa de um comportamento de “dois pesos e duas medidas”: o de um jornalista, Daniel Schneidermann

Pierre Carles é um homem teimoso. Depois de dedicar um documentário aos compromissos públicos de Pierre Bourdieu no final de sua vida (La Sociologie est un sport de combat1), chega Enfin pris? para fechar – provisoriamente? – o ciclo inaugurado com Pas vu, pas pris, filme que já denunciava as conivências “naturais” existentes entre políticos e vedetes jornalísticas. Banido da telinha, onde iniciou sua carreira, Pierre Carles instala-se nas salas de cinema. Seu novo filme não é um ajuste de contas, como já foi dito, mas, principalmente, um aperfeiçoamento, um complemento – útil e irresistivelmente cômico – de seus dois trabalhos anteriores.

Quando fez do autor de La Misère du monde o principal protagonista de La Sociologie..., Pierre Carles foi criticado pela ausência de opiniões contrárias em seu filme. As mesmas críticas, por sinal – como lembra Pierre Carles –, que foram feitas a Serge Halimi por se recusar a comparecer aos programas de televisão que criticava em seu livro Les Nouveaux chiens de garde. Críticas que eram feitas em nome de um silogismo implacável: “se não houver debate (de preferência, num programa de televisão), não há democracia”.

Princípios éticos “não-negociáveis”

Examinemos de perto esse tipo de raciocínio, parece dizer Pierre Carles. Retomemos, por exemplo, a polêmica criada pela participação de Pierre Bourdieu no programa de Daniel Schneidermann, Arrêt sur images, que tinha por tema a forma pela qual foram apresentadas as greves de dezembro de 1995 na televisão2. O sociólogo tentava explicar os mecanismos de censura da televisão – os cortes, as imposições inquisitoriais de alguns jornalistas para com um delegado sindical etc. Pierre Bourdieu pensava ter “amarrado” o assunto quando criou uma coleção de “livros de intervenção”, cujos primeiros títulos abordavam a televisão e seus simulacros de democracia3.

n em

Schneidermann diz a Jean-Marie Messier que não lhe fará perguntas sobre os números de seu império. “Vamos falar de coisas muito mais fúteis”, explica

No entanto, isso não leva em conta a ambição do diretor do programa Arrêt sur images e sua vontade de ter a última palavra. Após o lançamento do livro de Pierre Bourdieu, Daniel Schneidermann queria reinventar o sociólogo. Dessa vez, o autor de Sur la télévision encarregou Pierre Carles de negociar as condições de um novo comparecimento seu ao programa. O diretor de Enfin pris? explicou ao seu interlocutor que Pierre Bourdieu gostaria de ser o único convidado do programa, o que Schneidermann recusou no ato, argumentando que Arrêt sur images propõe o “debate” e, portanto, opiniões contrárias. Enfin pris? torna-se, então, uma análise poderosa de um comportamento de “dois pesos e duas medidas”. O de um jornalista, Daniel Schneidermann, que embora não hesitasse em criticar – com veemência e frente-a-frente – o diretor do jornal Libération, durante um programa de que participara dez anos antes, se mostraria mais do que afável e renunciaria a princípios éticos – apresentados como “não negociáveis” – quando se tratou de receber em seu programa Jean-Marie Messier, o ex-chefão da Vivendi Universal.

Uma intrépida foto-reportagem

E de o receber como convidado único! Assiste-se, inclusive, a um estranho espetáculo: o dos ajustes finais para a gravação do “debate democrático”. Na ocasião, Daniel Schneidermann comunica a seu convidado que as perguntas que lhe fará não serão sobre os números – já contestados, naquela época – de seu império. “Vamos falar de coisas muito mais fúteis”, explica. Um trecho do programa irá confirmar que foi isso, de fato, o que aconteceu. Naquele dia, foram amplamente discutidas as condições de preparar um sanduíche que Messier devorara na frente de um fotógrafo, assim como se dissertou sobre um buraco no sapato do ex-chefão da Vivendi – revelado por uma intrépida foto-reportagem publicada pelo semanário Paris-Match.

Com a colaboração de um gozadíssimo psicanalista, Pierre Carles dedica a última parte de seu filme a se interrogar sobre seu papel de Zorro libertário dos meios de comunicação. Não esconderia essa obstinação um desejo profundo de reconhecimento, uma inveja latente? O debate está aberto... para quem o quiser. Mas, como lembra Bourdieu no filme, “os maus espíritos nos fazem ganhar tempo”...

(Trad.: Jô Amado)

1 - Em relação a este filme, ler “Pierre Bourdieu contre les ‘mauvais coups’”, Le Monde diplomatique, junho de 2001.
2 - Ler, em relação ao assunto, a análise de Pierre Bourdieu e a resposta de Daniel Schneidermann publicadas pelo Monde diplomatique, respectivamente em abril e maio de 1996.
3 - Ler, de Pierre Bourdieu, Sur la televisión, ed. Liber-Raisons d’agir, Paris, 1996, e, de Serge Halimi, Les Nouveaux chiens de garde, ed. Liber-Raisons d’agir, Paris, 1997.




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