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A celebração da blasfêmia

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Baseando-se em uma farsa anticlerical do século XVI, Goytisolo transporta para o século XX um frade devasso que narra suas façanhas (sobretudo homossexuais) e detalha suas luxúrias, pervertendo o breviário da Opus Dei, Caminho – escrito por Escrivá de Balaguer

Guy Scarpetta - (01/11/2002)

Seria ainda possível ser anticlerical? Agora, não seria a televisão, muito mais que a religião, que aparece como o verdadeiro ópio do povo? O que aconteceu com a grande tradição de histórias satíricas, blasfemas, que relatavam as infâmias de monges e de padres devassos, desenvolvida desde os iambos da Idade Média até os romances libertinos do século XVIII, passando por Rabelais? Teria ela deixado de ser subversiva?

O que teria acontecido com a tradição de histórias satíricas, blasfemas, anticlericais, que relatavam a perversão de monges e de padres devassos?

Juan Goytisolo não acha anacrônico reavivar essa veia. Talvez por não considerar o anticlericalismo tão obsoleto, queira nos convencer disso (basta observar o papel desempenhado pela Opus Dei no regime franquista, e em um grande número de ditaduras da América Latina). O ponto de partida de seu último romance é justamente um desses sacrilégios antigos, aliás cuidadosamente ocultado pela cultura espanhola oficial: essa Carajicomedia (ou “comédia de futricas”) escrita no século XVI por frei Bugeo, e que evoca, parodiando, o tom dos livros de devoção da época, as proezas atingidas pelo membro viril de um renomado prelado, Diego Fajardo – “que suas majestades católicas recompensaram, dando-lhe a concessão das rendas de vários bordéis para o resto da vida”...

Um turbilhão de truculência iconoclasta

Goytisolo, então, inventa projetar isso para o século XX. Frei Bugeo reincarnou-se, no final de sucessivas transmigrações, em um demoníaco “pai de Trennes” (nome extraído de um personagem de Amitiés Particulières, de Peyrefitte), que declina suas façanhas (de predominância homossexual), detalha suas luxúrias, pervertendo para isso o breviário do Opus Dei, Caminho – escrito por aquele que a igreja católica canonizou no dia 6 de outubro de 2002. A “evangelização”, aqui, consiste em levar o maior número possível de adeptos (de preferência, árabes ou turcos, fortes, bigodudos) à depravação. E descobre-se, então, o que escondem as “orações jaculatórias” e os “instrumentos de mortificação” tratados ao longo de todo o romance; ou o sentido que pode ter, em um contexto como esse, uma fórmula como: “Abramos, com a ajuda de Deus, as grandes vias do consolo com o vigor da verdade e sua virtude maciça”...

Eis-nos, aqui, conduzidos em um périplo extravagante, em que passamos dos conventos da Espanha medieval aos urinóis de Stalingrado e de Barbès, dos cinemas pornôs da Gare du Nord aos bares suspeitos de Tânger, do banho turco do Boulevard Voltaire aos quartos dos fundos de Greenwich Village; em que se encontram personagens desconhecidos e celebridades (Severo Sarduy, Jean Genet); em que o passado da Espanha (por intermédio de Juan de la Cruz, Guzmán de Alfarache, la Celestina e Góngora) e o presente se interpenetram; em que a realidade histórica (as manifestações dos gazolines1 em Paris, na esteira de maio de 68) se confunde com a ficção (a presença de dois travestis explicitamente provenientes de um romance de Sarduy); em que se encontra um irresistível pastiche de Roland Barthes... Tudo isso em um turbilhão de truculência, de farsa, de falta de respeito, alimentado por uma verve iconoclasta pertencente à própria língua religiosa.

O livro mais insolente da temporada

O livro corre o risco de escandalizar todos os devotos: tanto os da religião clássica, quanto os gays que defendem uma homossexualidade respeitável

Talvez o mais surpreendente seja a maneira como esses dois registros – o do discurso edificante e o da obscenidade – contaminam-se. Pois, na verdade, esse livro não poupa nada: a paródia se volta contra si, a ironia é generalizada e afeta o discurso da lei moral (indireto, pervertido em seu conteúdo) da mesma maneira que o da transgressão (levado a uma tamanha exasperação que aniquila nitidamente qualquer ilusão de sexualidade “inocente”). O que corre o risco de escandalizar, em suma, todos os devotos: tanto os da religião clássica (continuamente ultrajada) quanto os gays convencionais – adeptos de uma homossexualidade conveniente, respeitável, integrada.

Finalmente, é preciso salientar a extraordinária sutileza da composição desse romance. O discurso atribuído ao “pai de Trennes” encaixa-se no de um segundo narrador, que tem um olhar crítico; esse narrador tem, por sua vez, um status muito ambíguo: seria ele o próprio autor, Juan Goytisolo? Nesse caso, como explicar que Goytisolo apareça também como personagem? E ele seria realmente distinto desse Saint Jean Barbès Rochechouart, que se junta à galeria de fotos? Os pontos de vista multiplicam-se, misturam-se, contradizem-se, cada narrador acusa o outro de plágio. E o leitor acaba sendo tomado por uma vertigem diante desse jogo de espelhos, em que, por outro lado, não é mais possível discernir muito bem o que tem origem na experiência real, biográfica, e o que nasce da biblioteca (pois, na verdade, toda a cultura hispânica é revisitada, reativada, desavergonhada). Em resumo, esse romance consegue a proeza de dissipar, em um mesmo movimento, as heranças de Rabelais, de Genet e de Borges: conjunção que não existe em parte alguma, exceto na obra de Goytisolo, única em condições de reunir e fundir novamente essas referências comumente separadas. Em suma, o livro mais engraçado e mais insolente desta temporada.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

n trem

Referência Foutricomédie, de Juan Goytisolo, tradução do espanhol por Claude Bleton, ed. Fayard, Paris 2002, 288 páginas, 20 euros (72,50 reais).

1 - N.T.: Gazolines era o apelido pelo qual eram conhecidos os travestis que participaram do movimento de maio de 68 e, posteriormente, fundaram a Frente Homossexual de Ação Revolucionária.




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