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RÚSSIA

Putin: liberado para agir

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Aderindo ao discurso, liderado pelos Estados Unidos, da “guerra ao terrorismo”, o presidente russo, Vladimir Putin, acredita poder silenciar os críticos da guerra da Chechênia e já pensa até num ’boom’ econômico, em troca de petróleo

Nina Bachkatov - (01/12/2002)

Abandonando a psicologia da “guerra fria”, Putin conseguiu reinserir seu país no jogo como ator internacional e fonte de soluções alternativas

Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, a decisão do presidente russo, Vladimir Putin, de participar da coalizão internacional contra o terrorismo deu início a uma partida de xadrez em escala planetária. Passado um ano – e principalmente após o episódio da tomada de reféns em Moscou, no dia 23 de outubro de 2002 –, ele enfrenta o desafio de conservar as vantagens que obteve.

Abandonando a psicologia da “guerra fria”, Putin conseguiu reinserir seu país no jogo como ator internacional e fonte de soluções alternativas, como prova sua colaboração com a França para alterar o texto da resolução das Nações Unidas sobre o desarmamento do Iraque.

Não é obra do acaso que essa colaboração se tenha realizado fora do âmbito da União Européia. As relações entre a Comissão Européia (Bruxelas) e Moscou oscilam, na realidade, entre a preocupação por parte dos países da UE de preservar a relação transatlântica (“Somos todos norte-americanos”) e bloqueios internos à burocracia européia. Aliás, a décima reunião de cúpula entre a Rússia e a União Européia, realizada em Bruxelas no dia 11 de novembro de 2002, tornou a demonstrar a dificuldade que enfrenta a UE em construir um modo de relações com um gigante europeu que, ainda que não seja candidato, não está disposto a se submeter às condições humilhantes das “conquistas comunitárias”, nem a aceitar sutilezas burocráticas que são compreendidas, em Bruxelas, como o supra-sumo da sagacidade geoestratégica.

A jogada do antiterrorismo

A Rússia não está disposta a se submeter às humilhações das “conquistas comunitárias” européias, nem a aceitar sutilezas burocráticas incompreensíveis

Por outro lado, durante essa reunião de cúpula, o terrorismo permitiu encontrar uma linguagem comum e prever formas de colaboração, principalmente no intercâmbio de informações. Foi também uma maneira indireta de se falar da Chechênia que, ao contrário do que se pensa, é um tema que nunca ficou de fora dos encontros entre europeus e russos. De outra forma, como se explicaria a irritação dos russos, permanentemente confrontados por protestos, reunião após reunião, sobre a brutalidade das forças federais e por apelos a uma solução política?

Mas essa questão ilustra bem os trunfos armazenados por Vladimir Putin na interseção do internacional e do nacional. Não só ninguém mais contesta a versão de Moscou de que a Chechênia é um assunto interno, mas também se aceita que o problema seja abordado no contexto da luta contra o terrorismo internacional. A mais recente fita atribuída a Osama bin Laden – divulgada em 13 de novembro de 2002 e que inclui a ação da tomada de reféns em Moscou entre as vitórias conseguidas pela Al-Qaida contra os Estados Unidos e seus aliados – representa um maná para o Kremlin. Antes, já se pudera ler, nos sites chechenos da Internet, declarações sensacionalistas reivindicando vínculos com os taliban e com grupos extremistas político-religiosos. Ou ainda, informações que teriam sido coletadas por tropas de elite norte-americanas estacionadas na Geórgia1 – com o acordo de Moscou na esteira da nova cooperação antiterrorista e os depoimentos sobre vínculos com a Al-Qaida revelados pelos acusados do processo de Hamburgo.

Concessões pouco previsíveis

Atualmente, ninguém contesta a versão de que a Chechênia é assunto interno e se aceita que o problema seja abordado no âmbito da luta contra o terrorismo

O presidente Putin fantasiou-se de George W. Bush para esboçar um quadro apocalíptico de um mundo entregue ao terror cego e pediu o apoio do “mundo civilizado” a sua luta contra o terrorismo. Para ele, a guerra na Chechênia representa a participação russa nesse combate internacional: portanto, assim como no caso dos Estados Unidos, a ameaça terrorista lhe dá o direito de intervir de maneira preventiva e ainda fora de seu território. Foi lançada uma política de “afeganização” da Chechênia, com base no modelo adotado pelos norte-americanos em Cabul: também os russos estão procurando um Hamid Karzai cuja nomeação seja aprovada por uma assembléia do povo e seguida por um plebiscito sobre a nova Constituição e eleições.

Concebida e apresentada à opinião pública como o 11 de setembro da Rússia, a ação da tomada de reféns de outubro de 2002 radicalizou ainda mais o discurso oficial, assim como os sentimentos populares. Ouviu-se da boca do chefe do Kremlin a mesma frase do presidente Bush – “quem não está conosco, é contra nós” – e seu ministro da Defesa, Igor Ivanov, declarou: “Nossas relações bilaterais dependerão cada vez mais da abordagem que cada país fizer do problema do terrorismo2.”

Apesar dos toques “bushistas”, o senhor da Rússia sabe que a debilidade econômica, política e militar de seu país lhe impõe limitações que os Estados Unidos não têm. Apesar do contexto antiterrorista, a própria guerra da Chechênia, por exemplo, tem seu preço, como Putin descobriu por ocasião da última reunião entre a União Européia e a Rússia. Temendo comprometer as negociações sobre o tema da “cooperação antiterrorista”, Putin teve que fazer certas concessões sobre a questão de Kaliningrad: embora, durante meses a fio, o Kremlin e as autoridades políticas tussas tenham repetido que “o direito de um cidadão russo de transitar livremente através de todo o território da Federação não pode depender da boa vontade de uma potência externa”, Moscou teve que reconhecer como válido o princípio de um documento de trânsito emitido pela Lituânia – uma espécie de visto.

A “diplomacia do petróleo”

Putin fantasiou-se de Bush para esboçar o quadro de um mundo entregue à fúria cega e pediu o apoio do “mundo civilizado” à luta contra o terrorismo

Se, por um lado, o aval internacional permite marginalizar ainda mais os adversários da política russa na Chechênia e no Norte do Cáucaso, no plano interno essa cruzada “contra o terrorismo internacional” ganhou uma conotação anti-muçulmana que não deixa de representar sérios riscos para a coesão da Federação da Rússia. Na esteira dos acontecimentos de 23 de outubro, orientalistas famosos da Rússia manifestaram sua preocupação de que o alinhamento de seu país com uma “cruzada” contra militantes islamitas – com suas inevitáveis alianças e composições – possa introduzir uma fratura na sociedade multicultural russa3. Especificamente, receiam que a atual violência verbal radicalize os jovens muçulmano russos, da mesma forma que a violência armada radicalizou os chechenos. Para os dirigentes russos, portanto, o êxito não foi total.

Um outro setor em que a política nacional e a internacional se cruzam é o da energia. Em abril de 2002, o ministro das Relações Exteriores, Igor Ivanov, divulgou a famosa fórmula da “diplomacia do petróleo” numa nova publicação russa, a World Energy Policy. Em sua opinião, graças a seus recursos, o país tem uma diplomacia da energia. Juntando seus “recursos naturais, base industrial, potencial intelectual e a participação no G-8”, a Rússia pode ocupar um lugar de destaque no cenário internacional.

O Fórum de Energia de Houston

A recente “diplomacia do petróleo” teve um papel considerável para atenuar as tensões que afetavam as relações bilaterais russo-americanas

Essa convicção cresceu quando a Rússia – nova aliada na luta antiterrorista – afirmou sua independência em relação à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), recusando-se a diminuir sua produção. Ao fazê-lo, o governo russo estava consciente do desejo norte-americano de desenvolver uma rede alternativa de abastecimento para diminuir sua dependência em relação aos países do Golfo. Quanto mais se agravava a crise do Iraque, mais remotas ficavam as chances de paz entre israelenses e palestinos e maior era a vontade – por parte de outros fornecedores – de se aproximar da política do presidente Bush.

Os russos aguardaram, conscientes de que, apesar de todos os seus problemas e das gentilezas limitadas dos investidores norte-americanos, eles representavam, em termos dessa pesquisa, a fonte de abastecimento mais estável. Após uma série de iniciativas de ordem técnica (tais como a proposta da LukOil de construir um terminal para superpetroleiros em Murmansk, para o transporte do petróleo para os Estados Unidos), a “diplomacia do petróleo” encontrou seu grande auditório por ocasião do Fórum de Energia de Houston, nos dias 1º e 2 de outubro de 2002 – as bases de participação nesse evento haviam sido previamente discutidas em maio de 2002, durante a reunião de cúpula entre Bush e Putin.

O sonho do boom econômico

Sem quaisquer preocupações ideológicas, a política externa de Putin tem como principal objetivo criar condições favoráveis ao desenvolvimento econômico

Essa recente aliança petrolífera teve um papel considerável para atenuar as tensões que afetavam as relações bilaterais russo-americanas. O exemplo mais óbvio é o da Geórgia, onde, finalmente, os norte-americanos estão fazendo o “trabalho” que os próprios russos não podem fazer – militar e politicamente. O governo norte-americano até herdou uma dúzia de combatentes presos junto à fronteira entre a Geórgia e a Chechênia, o que poupa Moscou de ter que organizar um inquérito que poderia servir de pretexto para uma nova tomada de reféns.

Essa diplomacia suscitou críticas de uma parte das elites russas, irritadas não só com o fato de terem sido postas de lado por ocasião das decisões do pós-11 de setembro, mas também pelo que consideram um excesso de concessões: desde o aval para o estacionamento de tropas norte-americanas na Ásia Central e na Geórgia até o fechamento das bases militares russas em Cuba e no Vietnã, sem esquecer a morte do tratado ABM. Esse setor da elite não se deixou convencer pela posição oficial de que é preferível capitalizar em função de concessões livremente consentidas do que travar combates perdidos por antecipação. E tem dificuldade em aceitar a perda de influência em termos de política externa – em relação à que tinha quando Boris Ieltsin era o presidente. Por outro lado, sabem muito bem que se Putin reagiu com a rapidez que o fez ao 11 de setembro, isso se deveu a ter consultado poucas pessoas.

O presidente russo pretende, antes de tudo, tirar proveito de suas novas relações com os ocidentais para poder avançar num projeto que já existe há dois anos. Sem quaisquer preocupações ideológicas, sua política externa tem como objetivo prioritário criar condições favoráveis ao desenvolvimento econômico. A partir daí, Moscou pode engolir seus sapos, desde que, paralelamente, essas concessões lhe permitam, in fine, reconstituir suas forças.

Enquanto conseguir demonstrar que sua política de participação na coalizão antiterrorista contribui para o desenvolvimento do país e que, além disso, a população lucrará com o boom econômico que daí irá decorrer, Putin terá condições de enfrentar seus críticos e continuará capitalizando a reviravolta política iniciada em 11 de setembro de 2001.

(Trad.: Jô Amado)

1 - No dia 27 de maio de 2002, em Tbilisi, uma cerimônia assinalou o início oficial da operação “Train and Equip”. Algumas semanas mais tarde, após dois anos de desmentidos, as autoridades da Geórgia admitiram a presença de combatentes chechenos em seu território.
2 - Izvestia, Moscou, 4 de novembro de 2002.
3 - Ler, por exemplo, de Evgeni Primakov, “La guerre avec l’Islam peut éclater la Russie”, Izvestia, 5 de novembro de 2002.




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