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Embora as comunidades judaicas organizadas manifestem ostensivamente – após o 11 de setembro – uma “guinada para a direita”, existem, no mundo inteiro, inúmeras instituições judaicas que incentivam o diálogo e a compreensão entre árabes e judeus

Jean-Yves Camus - (01/12/2002)

A maioria das comunidades judaicas rechaça a tentação islamofóbica e procura preservar o diálogo com minorias árabes e muçulmanas

A cada dois anos, o Instituto Stephen Roth, da Universidade de Tel-Aviv, dirigido pela professora Dina Porat, reúne, num simpósio, dirigentes políticos das comunidades judaicas e professores universitários dos cinco continentes para avaliar a natureza e o alcance do anti-semitismo. O último desses colóquios, realizado em outubro de 2002, na Cidade do México, confirmou que as instâncias comunitárias – a partir da série de ações contra judeus que se seguiram à segunda Intifada – mudaram de inimigo prioritário: o islamismo radical e a extrema-esquerda superaram o anti-semitismo da extrema-direita e dos nacional-populismos. No entanto, segundo o historiador israelense Raphaël Vago, estes últimos continuam sendo considerados como a principal ameaça nos países do ex-bloco comunista (com exceção da Rússia), onde o islamismo autóctone e a imigração muçulmana continuam insignificantes e os Estados, querendo romper vínculos que anteriormente tinham no tempo da União Soviética, guardaram distância do mundo árabe.

Portanto, as comunidades organizadas adotaram, por toda parte, uma “guinada à direita”. Traumatizadas pela virulência anti-israelense que se observou durante a reunião de cúpula de Durban, em 2001, algumas instituições já nem hesitam – como é o caso de um delegado da Anti-Deafamation League norte-americana – em descrever o movimento pelos direitos humanos como “globalmente hostil” e procuram novas alianças, como, por exemplo, com os fundamentalistas protestantes, apesar do trabalho de conversão de judeus que estes vêm realizando em Israel. No entanto – e contrariamente ao que ocorre na França, onde há quem defina o próprio islamismo como patogênico e “a esquerda” e os movimentos anti-globalização liberal em seu conjunto como anti-israelenses –, a maioria das comunidades rechaça a tentação islamofóbica e procura preservar o diálogo com minorias árabes e muçulmanas.

A radicalização decorre do racismo

No Chile, 98% das 500 mil pessoas de origem palestina – e que hoje se opõem ostensivamente a Israel – pertencem à religião grega ortodoxa

É o caso das comunidades latino-americanas, confrontadas com a emergência política de pessoas de origem árabe que, atualmente, detêm cargos eletivos importantes na Argentina, no Equador e no Brasil. O chileno Jorge Zeballos, por exemplo, lembra que 98% das 500 mil pessoas de origem palestina que vivem no país – e que hoje manifestam de forma ostensiva sua oposição a Israel – pertencem à religião grega ortodoxa. Raphaël Hodara, de Montevidéu, lamenta o “banho de água fria” nas relações entre judeus e árabes, mas atenua os contrastes por meio de uma pesquisa feita pelo jornal El Observador, segundo a qual Ariel Sharon contaria com mais simpatizantes uruguaios do que Arafat (19% e 16%, respectivamente) e Israel gozaria de maior apoio que os palestinos (14% e 13%) – embora quase 70% dos entrevistados se tenham declarado sem opinião sobre o assunto.

Talvez por ser o caso de um comunitarismo institucionalizado, várias instituições judaicas de países anglo-saxônicos chegaram a optar por uma atitude que consiste em ajudar a estruturar um islamismo organizado – em que as únicas premissas exigidas para a discussão sejam o direito de existência do Estado de Israel e a rejeição do terrorismo. Mike Whine, do Board of Deputies of British Jews e profundo conhecedor do Londonistan, salienta a importância de se aproveitar a experiência judaica em matéria de integração dos muçulmanos que desejam fundar escolas religiosas financiadas pelo Estado. Reconhece a existência, por parte de seus interlocutores, de “um receio justificado de islamofobia” e avalia que a “a radicalização da juventude muçulmana resulta do racismo e de questões específicas do Oriente Médio”. As instâncias judaicas canadenses também apóiam o financiamento público das escolas muçulmanas e das mesquitas e mantêm diálogo aberto com o Canadian Council of Imams. Jeremy Jones, da Austrália, judeu religioso e praticante rigoroso – que também participou, em Durban, como membro da delegação australiana e é vice-presidente da comunidade – empenhou-se, por ocasião do pico da onda anti-judaica, em abril de 2002, na criação de um “grupo de diálogo entre cristãos, muçulmanos e judeus”.

Direitos nacionais, e não religiões

O judeu britânico Mike Whine reconhece a existência, por parte de seus interlocutores muçulmanos, de “um receio justificado de islamofobia”

Diante das generalizações abusivas, a islamóloga Esther Webamn, da Universidade de Tel-Aviv, apresenta um balanço atenuado do anti-semitismo no mundo árabe-muçulmano. Na opinião dela, “constata-se uma diminuição de ataques anti-semitas na imprensa palestina e um aumento na imprensa árabe, como para compensar o apoio meramente formal dos governos árabes aos palestinos”. Consciente de que a situação no Oriente Médio decorre do choque entre dois direitos nacionais, e não entre duas crenças religiosas, ela conclui: “O anti-semitismo no mundo árabe não é o principal obstáculo a uma solução para o conflito.” Num momento em que a teoria do “choque de civilizações” ganha adeptos nas comunidades judaicas e cada atentado-suicida radicaliza um pouco mais as opiniões, algumas pessoas continuam rejeitando a fórmula “sozinhos contra todos”. Para Jeremy Jones, é necessário “manter a luta contra o anti-semitismo no âmbito da luta pelos direitos humanos”.

(Trad.: Jô Amado)




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