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Chechênia ganha o palco e deixa dúvidas no ar

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A ação de um comando checheno, que fez todos os espectadores de um teatro em Moscou de reféns, resultou na morte de 169 pessoas, voltando a chamar a atenção do mundo para uma guerra “esquecida”. Ficaram, porém, várias perguntas sem resposta

Denis Paillard - (01/12/2002)

Nas duas principais bombas, colocadas no centro da sala de espetáculos, os dispositivos de detonação que acionariam a explosão não foram acionados

“Libertar e exterminar”: a manchete de Vlast1 resume com precisão a política das autoridades russas por ocasião da ação que resultou na tomada de centenas de civis, como reféns, por um comando checheno, no dia 23 de outubro, em Moscou. Balanço da operação: 128 reféns mortos – cinco, à bala, e os restantes asfixiados pelo gás utilizado pelos policiais na invasão do teatro. Do lado dos chechenos, 41 mortos (19 dos quais, mulheres), em sua ampla maioria com menos de 30 anos de idade, liquidados por um “tiro de misericórdia”.

O processo das negociações e a tomada do prédio de assalto levantam inúmeras questões. As autoridades optaram pelo silêncio e a Duma2 recusou por duas vezes a instalação de uma comissão parlamentar. Com respeito à questão de saber por que os membros do comando não acionaram os explosivos, o jornal Komersant de 1º de novembro divulga a opinião de vários peritos e membros dos serviços especiais: os dispositivos que detonariam as duas principais bombas, colocadas no centro da sala de espetáculos, não tinham sido acionados. O jornal acrescenta que, no momento da tomada de assalto pela polícia, eram basicamente as mulheres do comando que se encontravam no teatro – os homens, entre os quais os dois principais responsáveis pela ação, Mosvar Baraev e Abubakar, estavam em outra dependência do prédio. O que é confirmado pelas imagens macabras, divulgadas incessantemente, na manhã de 26 de outubro, por todos os canais de televisão russos.

“Terroristas em potencial”

A execução pura e simples de todos os chechenos indica a vontade das autoridades russas de não fazer presos que poderiam fazer revelações desagradáveis

Uma outra questão, que corre o sério risco de ficar sem resposta, refere-se aos próprios objetivos do comando. De qualquer maneira, a execução pura e simples de todos os chechenos3 é indicadora da vontade das autoridades russas de não arcar com o ônus de prisioneiros que, durante um eventual inquérito, mesmo a portas fechadas, poderiam fazer revelações desagradáveis. Diversos depoimentos levam a crer que não se tratava, necessariamente, de uma operação-suicida, e que o comando pretendia negociar.

De uma maneira ou de outra, aqueles trágicos acontecimentos lembraram de uma forma brutal a guerra esquecida da Chechênia. Em primeiro lugar, à própria sociedade russa que, se não apóia ativamente a guerra, pelo menos manifesta uma total indiferença. Ora, o contexto criado pela tomada de reféns parece, no mínimo, pouco propício a alimentar o surgimento de um sentimento anti-guerra. A Conferência pela Paz na Chechênia, por exemplo, organizada no início de novembro em Moscou, foi, em grande parte, boicotada por autoridades que, antes, tinham dado sua concordância.

A guerra que eclodiu em Moscou é prova de uma evolução profunda da situação na Chechênia, onde o exército russo saqueia, estupra e chantageia a população civil. As “operações de limpeza”, realizadas diariamente, atingem principalmente os jovens: em outubro de 1999, um oficial russo declarou que todo o garoto com mais de 12 anos de idade era um terrorista em potencial... Como salientam pessoas como Ruslan Khasbulatov, ex-presidente do Soviete Supremo em 1993 e eterno adversário da guerra4, esses constantes abusos e essa prepotência fazem dos jovens um viveiro para os guerrilheiros pró-independência e as correntes radicais do islamismo vêm se tornando majoritárias.

A urgência de negociações de paz

A guerra que eclodiu em Moscou prova a evolução profunda da situação na Chechênia, onde o exército russo saqueia, estupra e chantageia a população civil

A tomada de reféns em Moscou inicia um novo capítulo. No final de outubro, Anna Politkovskaia, entre vários outros jornalistas, frisava que a diáspora chechena encontra-se atualmente impotente para impedir operações em território russo. O jornal Izvestia de 26 de outubro publicou uma reportagem com o título “A revolta das viúvas”: em vários vilarejos da Chechênia, homens e mulheres que perderam toda a família na guerra declaravam-se prontos a dar continuidade à ação do comando Baraev.

No entanto, apesar do crescimento das correntes radicais islâmicas, observa-se, entre os defensores do movimento pró-independência, o surgimento de um “campo de paz”. Realizado em Copenhague nos dias 30 e 31 de outubro, o Congresso Mundial Checheno reuniu representantes das diáspora chechena vindos de todos os países ocidentais e também da Rússia – com a significativa presença de Ruslan Khasbulatov, que sempre se distanciou claramente dos militantes pró-independência e de representantes do presidente Aslan Maskhadov. Os únicos ausentes foram os radicais islâmicos. No dia 10 de novembro, após solicitarem uma audiência, alguns membros importantes da diáspora chechena foram recebidos pelo presidente Vladimir Putin e insistiram na urgência de iniciar negociações de paz. Finalmente, o jornal Novaya Gazeta de 12 de novembro publicou o fac-símile de um documento assinado por Aslan Maskhadov em que este reafirma sua condenação da tomada de reféns e anuncia o rompimento com o comandante checheno Chamil Bassaev e a decisão de o levar perante um tribunal da República de Itchquéria.

Perseguição aos chechenos

O jornal Novaya Gazeta publicou cópia de um documento assinado pelo presidente da Chechênia em que este reafirma sua condenação da tomada de reféns

As autoridades russas, por seu lado, repetem à exaustão o discurso linha-dura que já era o seu durante os acontecimentos do final de outubro. A Duma, e em seguida a Câmara Alta, aprovaram emendas restringindo a liberdade de imprensa e sobre a luta contra o terrorismo – emendas que dão liberdade ao poder, que pode designar seus alvos de maneira arbitrária.

Em Moscou, invasões de domicílio e prisões abateram-se sobre a comunidade chechena. No dia 9 de novembro, Svetlana Ganuchkina – da associação Grajdanskoe Sodejstvie, de ajuda a refugiados, e membro da Comissão de Direitos Humanos junto ao presidente da Federação Russa – denunciou a enxurrada de medidas contra os chechenos residentes em Moscou: expulsão das crianças da escola, das famílias de sua residência, demissões do emprego... Essa política foi objeto de críticas dentro do próprio establishment político russo. Alexei Arbatov, por exemplo, deputado e presidente da Comissão de Defesa na Duma, reconheceu que, atualmente, a maioria da população chechena é favorável ao movimento pró-independência, acrescentando: “Devemos reavaliar a política adotada durante os últimos três anos, tanto no plano militar, como econômico e político. Afinal, o próprio ministro da Defesa, Sergei Ivanov, referiu-se recentemente ao que se passa na Chechênia como uma guerra, quando o termo oficialmente adotado é o de uma operação anti-terrorista. Isso prova que os acontecimentos estão ficando fora de controle. 5

(Trad.: Jô Amado)

1 - Suplemento semanal do jornal Komersant, 5 de novembro de 2002.
2 - N.T.: O equivalente à Câmara de Deputados.
3 - Também seria válido questionar se não existiria um vínculo entre o longo e impreciso período de tempo que transcorreu para se saber o número exato de membros do comando – e a decisão de incinerar seus corpos – e o considerável número de “desaparecidos”. Sabe-se que pelo menos um espectador, aluno de uma escola militar, foi abatido por engano (seu corpo foi localizado na morgue da prisão de Lefortovo, entre outros que seriam incinerados).
4 - Le Monde, 4 de novembro de 2002.
5 - Entrevista ao jornal Komsomolskaia Pravda, 9 de novembro de 2002.




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