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CINEMA

O Mal e o menino salvador

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Na época do fim de ano, os filmes ’Harry Potter e a câmara secreta’ e o ’Senhor dos anéis II, As duas torres’ invadem as salas. Com um ponto em comum: a tarefa de salvar o mundo nas mãos de uma criança e o “Bem” combatendo os “guerreiros do Mal”

Isabelle Smadja - (01/12/2002)

Em O Senhor dos Anéis, a tarefa de salvar o planeta do perigo que representa Sauron, a personagem que encarna as “forças do mal”, cabe a um hobbit

Previsto inicialmente para crianças, Harry Potter, de Joanne Kathleen Rowling, aproveitou-se, quase simultaneamente, do apetite dos pais e seu sucesso junto aos adultos não pára de aumentar. Ora, esse romance, construído ao redor do crescente risco da guerra e da destruição que ela produz, põe em cena uma criança, encarregada de salvar o mundo das catástrofes que o ameaçam e de partir para a guerra contra as forças do mal. O Senhor dos Anéis, de John Ronald Tolkien, cuja adaptação cinematográfica está obtendo um sucesso sem precedentes desde a publicação do livro, na década de 40, foi construído com base no mesmo esquema. A tarefa, quase insuperável, de salvar o planeta do perigo que faz pesar sobre ele Sauron, personagem maléfico que encarna as “forças do mal”, cabe a uma criança, ou melhor, a seu equivalente simbólico: um “hobbit” – jovem sem experiência, com menos de 90 centímetros de altura e ainda sob a tutela de um adulto, o mago Gandalf.

É claro que o tema do Salvador é muito antigo, e ninguém ignora que o Messias foi, desde o nascimento, destinado a um futuro extraordinário. Nada, portanto, além do ressurgimento do clássico tema do menino Salvador. Com uma diferença, entretanto, que é essencial: só quando se tornam adultos, e por terem adquirido uma certa experiência, é que Jesus, Moisés etc... conseguem realizar sua tarefa. Agora, nos romances contemporâneos, não há que esperar a idade adulta: é como crianças – e porque são crianças – que Harry Potter e outros jovens heróis são chamados a salvar o mundo1. Por que? Que qualidades, que virtudes mágicas teria, então, a criança – que o adulto não mais teria – para que lhe confiássemos, a julgar por esses livros, a imensa tarefa de nos proteger? Seria a simples bajulação de uma geração da qual se inveja a juventude dinâmica? Ou seria ressentimento? Seria uma decepção diante de um mundo adulto em relação ao qual só temos desconfiança e que julgamos incapaz de generosidade e altruísmo?

Alusões à II Guerra Mundial

Que qualidades, que virtudes mágicas teria uma criança – que o adulto não mais teria – para que lhe confiássemos a imensa tarefa de nos proteger?

Sem dúvida a escolha de uma criança como herói também é a prova indireta da impressão, sentida por um grande número de adultos, de que a luta contra os males que rondam o planeta supera a vontade de um Estado e, a fortiori, a dos indivíduos. Mais do que nunca, ante o tamanho imponente das catástrofes que desfilam em nossas telas, sentimo-nos como crianças num mundo de adultos: às vezes, impressionados; muitas vezes, amedrontados; e sempre dominados. Ao nos mostrar que um humilde “hobbit”, amedrontado e baixinho, triunfa sobre o imenso poder de Sauron, soberano dotado de forças obscuras e maléficas; ou que um orfãozinho combate com determinação Voldemort, um temível ditador, estes romances nos permitem ler o que perdemos a esperança de ver na realidade: o combate de Davi contra Golias, ou nossa pequenez triunfando sobre os gigantes.

Seria essa análise suficiente para explicar o imenso sucesso de Harry Potter e do Senhor dos Anéis? Haveria entre essas duas histórias outros pontos comuns que pudessem explicar a simultaneidade de seu sucesso?

O Senhor dos Anéis descreve uma guerra mundial, um combate travado por uma coalizão política contra Sauron, ditador cruel e implacável, a ponto de lançar seus exércitos à conquista do planeta. Revela a traição de uns e a covardia de outros. Narra, também, a coragem e determinação de alguns, apesar da ameaça dos cavaleiros servidores de Sauron, seres desencarnados, cuja visão evoca a de “Mordor”, o país do Mal, porém que ainda vivem, espalhados no que parecem ser “campos da morte”. Ainda que Tolkien tenha se defendido tenazmente, é difícil não ver alusões à II Guerra Mundial, por exemplo no nome de “Nazgul”, dado aos terríveis servidores de Sauron, que oscila entre “nazi” e uma sonoridade mais oriental.

Interpretações maniqueístas

Harry Potter também recorre ao trauma da II Guerra Mundial: se o jovem Harry é órfão, é por culpa de um ditador que assassinou seus pais

Harry Potter também recorre ao trauma da II Guerra Mundial: se o jovem Harry é órfão, é por culpa de um ditador que, ao assassinar seus pais, livrou-se de seus principais opositores que, apesar do terror que ele fazia reinar, tinham a coragem de resistir. Movido por um ódio racista contra “os Trouxas”, ou seja, por aqueles que não têm sangue de “bruxos” nas veias, Voldemort promete exterminar todos eles assim que chegar ao poder. A alusão ao nazismo, embora não sendo totalmente explícita – já que muitos dos leitores de Harry Potter não a perceberam –, é real, ainda que apenas pelas iniciais SS de Salazar Serpentard, pai espiritual do tirano.

O romance de Joanne Kathleen Rowling narra, por exemplo, como, depois de ter sido reduzido a quase nada graças à coragem de uns poucos, Voldemort retoma pouco a pouco suas forças e volta, progressivamente, a reunir em torno de si um grupo de seguidores. No final do quarto volume, o último publicado, é iminente o confronto entre o Bem – encarnado por Dumbledore, protetor de Harry Potter, movido por valores democráticos e humanistas, entre os quais a rejeição da pena de morte, uma grande desconfiança pelos métodos excessivamente repressivos e uma vontade de promover a cultura e a educação – e o Mal, encarnado por Voldemort.

A história da II Guerra Mundial deu razão às interpretações maniqueístas do mundo: houve realmente, sob a ditadura de Adolf Hitler, de um lado o Mal, o ódio e uma vontade de destruição; do outro, o Bem, a coragem e os valores morais. Grande trauma do século XX, a barbárie nazista foi essa realidade incompreensível que continuamos a questionar. Paul Ricoeur diz que a principal função do imaginário é explorar a vida, revirá-la em todos os sentidos para tentar compreendê-la2. É o que fazem romances como Harry Potter ou o Senhor dos Anéis. Propõem um modelo restrito do universo, colocando-o, dessa forma, ao alcance de nossa compreensão.

Um vínculo com o real

No final do quarto volume de Harry Potter é iminente o confronto entre o Bem, encarnado por Dumbledore, e o Mal, encarnado por Voldemort

Quanto ao nosso prazer de leitor adulto, ele não provém apenas de uma regressão; não se trata simplesmente de ler a “repetição de nossa infância”, nem a saída da infância. Trata-se de projetar-se para um futuro ameaçador para o controlar, ou melhor, para o exorcizar. É a função que Claude Lévi-Strauss dá aos modelos restritos: “Quanto menor, a totalidade do objeto parece menos ameaçadora; por ser quantitativamente diminuída, ela parece qualitativamente simplificada. Através da miniatura, a realidade pode ser apreendida, apalpada e rapidamente percebida3”. Poder, desta forma, dominar o mundo, apreendê-lo e circunscrevê-lo, poder torná-lo menos ameaçador por sua miniaturização seriam algumas das virtudes desses livros que, como Harry Potter ou O Senhor dos Anéis, constroem um universo e encerram a vida no interior de um único objeto.

A história de Joanne Kathleen Rowling, em particular, é ainda mais reconfortante porque, por ser inacabada, consegue se introduzir no real. Enquanto outros livros acabam quando são publicados – se encerram em si mesmos e, por isso, não participam da realidade temporal –, o romance de Rowling, ao contrário, na medida em que contém uma considerável incerteza quanto à seqüência, enraíza-se fortemente no presente. Por ignorar o final das Aventuras de Harry Potter, o leitor é confrontado com o inacabado e com as incertezas que são, normalmente, as da realidade – e não da ficção. É o caso de todas as interrogações que se colocam em relação às forças com que poderão contar, em caso de guerra, Voldemort, de um lado, e Dumbledore, de outro: são idênticas às incertezas vinculadas a nosso próprio futuro.

O combate do Bem contra o Mal

Romances como Harry Potter ou o Senhor dos Anéis propõem um modelo restrito do universo, colocando-o, dessa forma, ao alcance de nossa compreensão

Mas, enquanto na vida não sabemos o que nos espera, no que se refere ao prosseguimento das aventuras de Harry, por seu lado, sabemos pelo menos uma coisa que é essencial: o garoto se sairá bem; o Bem vencerá o Mal. Seria inimaginável que a escritora terminasse As Aventuras de Harry Potter com Voldemort vencendo Harry e seus seguidores. Aí está, sem dúvida, uma parte do sucesso: o fato de ser inacabado – com as perguntas e expectativas que suscita – cria um espaço-limite entre o fictício e o vivido e quase consegue fazer com que o fictício entre na realidade. Dessa maneira, dá a ilusão de que tanto no livro, quanto na realidade, um autor todo-poderoso domina sua criação e que nada de irreversível pode acontecer, apesar de todas as ameaças do desencadear do mal...

Indo ainda mais longe: o sucesso desses dois romances junto aos adultos não corresponderia, em última análise, a uma forte necessidade de termos segurança a respeito das forças em jogo no mundo geopolítico atual? Tanto Harry Potter quanto O Senhor dos Anéis dariam uma resposta clara – mas enormemente redutora! – a uma das mais maiores angústias do período atual: seria verdade que há no mundo um combate do Bem contra o Mal, como afirma, por exemplo, o presidente George W. Bush? Não seria melhor pensar que há culturas ou sociedades diferentes e que, cada uma à sua maneira, geram sua contribuição de crueldades, de injustiça e de violência?

A premissa latente da guerra

Não corresponderia o sucesso desses romances a uma forte necessidade de termos segurança a respeito das forças em jogo no mundo geopolítico atual?

Embora todos saibamos quanta destruição as guerras causam e também saibamos, inversamente, como pode ser perigoso reagir tarde demais à escalada de um conflito mundial, raras são as pessoas que se sentem capazes de elucidar essas questões, assim como são raras as que podem responder, em plena serenidade e consciência, que uma parte do planeta concentraria em si o Bem, a Virtude e a Moral.

Da mesma maneira, selecionando os romances que, incessantemente, fazem reviver a história do nazismo, não procurariam os leitores se convencer, ainda que inconscientemente, é verdade, que o esquema que presidiu o combate contra a Alemanha de Hitler ainda é pertinente? E, apresentando-nos personagens maléficos que encarnam o Mal, não estariam os romances e filmes de sucesso exercendo a tarefa de reconfortar e desculpabilizar? Ao permitirem que se acredite que uma das forças presentes é consagrada ao Mal e à destruição, poderiam aliviar a consciência daqueles que, de um lado e do outro, anunciam o “choque das civilizações”.

Enfim, há algo de inquietante no fascínio que exercem esses livros, como se a eventualidade de uma guerra já fosse dada como certa e como se já tivéssemos chegado à etapa imediatamente anterior ao início do combate – aquela última etapa antes da decisão, em que temos que nos persuadir que o combate a ser travado é exatamente o da moral e do humanismo contra as forças do Mal. Dessa maneira, o sucesso desses romances seria a premissa de que aceitamos a eventualidade da guerra e que nada nos resta senão persuadirmo-nos de seu bom fundamento. Pois, para aceitar não apenas ir à guerra, mas também enviar os filhos ao front, é indispensável, sem dúvida, pensar que certas forças podem encarnar um Mal absoluto, que nos é necessário combater a qualquer custo. Sem que nada perturbe a consciência, nem que nos surjam dúvidas, é certo que as aventuras de “Frodo, o hobbit” ou “Harry o feiticeiro” nos ajudam nessa persuasão.

Talvez, então, tenhamos respondido à nossa pergunta inicial: por que, então, a tarefa de partir para a guerra é confiada aos meninos Harry Potter e Frodo? ... Subitamente, frases gravadas nos monumentos aos mortos se remexem nas nossas memórias: “Em memória de nossos filhos, mortos pela França.” “Allons enfants de la patrie...”

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Aos livros de Rowling e Tolkien deveriam acrescentar-se os de Loïs Lowry, assim como a trilogia À la croisée des mondes, de Philip Pulman, em que uma menina tem que enfrentar sozinha seu próprio pai, o lorde Asriel, diabólico manipulador de energias maléficas, e consegue evitar a destruição do planeta.
2 - Ler, de Paul Ricoeur, Le conflit des interprétations, ed. Seuil, Paris, 1969.
3 - Ler La pensée sauvage, ed. Plon, Paris, 1962, p. 38.




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