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Ação humanitária na Etiópia

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No meio de um deserto no Nordeste da Etiópia, funciona um hospital insólito, mantido por organizações humanitárias e com o empenho dos Médicos Sem Fronteiras, para atender ao flagelo que dizima as populações nômades da região: a tuberculose

Cédric Gouverneur - (01/01/2003)

O dispensário da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) de Galaha, na Etiópia, ergue-se à beira do rio Mille, cujas margens plantadas de acácias e de eucaliptos constituem, para os afares1 e seus rebanhos, uma pausa bem escolhida no coração do deserto do Danakil. Uns vinte europeus e afares djibutienses ali tratam centenas de nômades, a maior parte acometidos de tuberculose, alguns dos quais percorreram centenas de quilômetros, a pé e de taxi-brousse2, atraídos pela promessa de tratamento confiável e gratuito. Um hospital singular, sem quartos fechados – a noção de parede é antinômica à cultura nômade –, mas onde se construíram entre as dunas mais de 200 daibotas – tendas afares semi-esféricas de ganchos e esteiras. Para o paciente e seu acompanhante – algum parente encarregado de ajudá-lo em sua vida cotidiana no hospital – ver o deserto e se hospedar numa daibota compensa – um pouco – a dor de estar separado de seu clã e de seu rebanho durante os longos meses de tratamento.

Tuberculosa, Abida se dirigiu primeiro ao hospital da aldeia mais próxima: “O tratamento e a comida eram caros, os médicos habachas3, arrogantes, e seu tratamento ineficaz”, resume a jovem. “Meu clã me aconselhou ir até o hospital farenje4 de Galaha.” Todos os pacientes afares entrevistados exprimem a mesma desconfiança em relação aos médicos dos planaltos, acusados de serem condescendentes, de cobrar demasiado caro das pessoas do mato e até de lhes dar medicamentos vencidos ou inadequados. Simples diletantismo de profissionais ressentidos porque transferidos para o meio do deserto, ou discriminação real? Seja como for, o resultado é o mesmo: os afares do mato praticamente não freqüentam os serviços de educação e de saúde das cidades.

As dificuldades dos nômades

Os pacientes entrevistados desconfiam dos médicos dos planaltos, que acusam de ser condescendentes, cobrar demasiado caro e de dar medicamentos vencidos

Valerie Browning, uma parteira australiana, dirige há quase dez anos, com seu marido afar djibutiense Ismael Ali Garde, a organização não governamental Afar Pastoralism Development Association (APDA). Verdadeira passionária dos afares, ela faz um paralelo com a situação dos ciganos: “Seriam os viajantes melhor tratados na Europa? A noção de Estado, associada à idéia de instituições fixas, de fronteiras estáveis e de obrigações para com os cidadãos é hostil aos nômades.” A essa dualidade nômade-sedentária acrescenta-se a falta de recursos da Etiópia, 158o país, num total de 162, na classificação mundial do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Portanto, os nômades afares devem enfrentar muitas dificuldades. Em primeiro lugar, os serviços públicos são fixos, longe do mato, portanto quase inacessíveis aos nômades. Poucos afares são vacinados e sua taxa de mortalidade infantil ultrapassa amplamente, segundo os observadores das ONG, aquela, já muito elevada, dos outros etíopes5.

Em segundo lugar, as regiões superpovoadas dos planaltos já não são suficientes para as populações sedentárias. Diante da pressão demográfica – e obedecendo a um processo de colonização da periferia pelo centro – os agricultores amaras e tigrés estabelecem-se, pouco a pouco, nas zonas férteis das terras baixas, ao longo dos rios, reduzindo os pastos disponíveis aos nômades. Finalmente, as fronteiras coloniais fracionaram o triângulo afar entre a Etiópia, a Eritréia e o Djibuti. Durante a guerra de trincheiras entre a Etiópia e a Eritréia6, muitos afares se recusaram a combater seus semelhantes. Para Adis Abeba, a lealdade de seus 1,3 milhão de cidadãos afares está, portanto, sujeita a caução.

Serviços paramédicos e alfabetização

Valerie Browning, uma parteira, dirige com seu marido há quase dez anos a organização não governamental Afar Pastoralism Development Association

É verdade que existe, na República Federal e Democrática da Etiópia, um Estado Regional Afar. Mas seus funcionários, filiados ao poder tigré, são, por sua educação e modo de vida citadino, sociologicamente muito diferentes dos afares nômades, a quem praticamente não compreendem. “Mesmo se há progressos”, contemporiza Valérie Browning, “eles desejariam, assim como o governo central, tornar os afares sedentários.”

Diante das dificuldades das instituições etíopes para administrar o nomadismo, as ONG parecem dispensar melhor os serviços adaptados à cultura afar. A APDA, por exemplo, forma desde 1994 paramédicos (health workers) dentro das próprias comunidades afares. “No momento, 140 paramédicos cuidam de afares em seus acampamentos e fazem prevenção contra a AIDS. As ONG européias nos fornecem os medicamentos”, explica Ismael Ali Garde, presidente da entidade. Seguindo o mesmo modelo, a Ação Contra a Fome (ACF), que cava poços e dá cursos de educação para a saúde na região afar, instrui, desde 1999, auxiliares de veterinários no mato, escolhidos e remunerados pelos clãs. A APDA forma, além disso, professores – 145 atualmente – que, munidos de seu quadro-negro, fazem visitas de um acampamento a outro. Professores nômades para alunos nômades. “As crianças antigamente tinham de percorrer quilômetros até à escola da aldeia e mudar de professor e de classe a cada viagem.” Desta maneira, trinta mil pessoas foram alfabetizadas desde 1996.

Adaptando higiene e saneamento

Poucos afares são vacinados e sua taxa de mortalidade infantil ultrapassa amplamente, segundo as ONG, aquela, já muito elevada, dos outros etíopes

A entidade não hesita em questionar certas tradições: “Nossos paramédicos explicam às parteiras como a excisão e a infibulação sistemáticas são nefastas para as meninas pequenas. E a mensagem passa.” Valerie Browning publica livretos em língua afar comparando a cultura nômade e a cultura muçulmana, a fim de demonstrar que o casamento forçado é contrário ao Islã. Além do mais, a APDA divulga um vídeo denunciando a exploração da mulher afar. “O analfabetismo implica na obediência às estruturas familiares”, explica Valerie. “Para as mulheres, traduz-se pela aceitação da excisão e da escravidão doméstica.” Contrariamente às ONG farenjes ou habachas, a especificidade da APDA – uma associação afar, muçulmana e empenhada em preservar uma economia baseada na criação de gado – permite-lhe, a seus olhos, suscitar esse debate. Se ainda está longe de terminar o casamento forçado e a infibulação, alguns interessados, confrontados com essas idéias novas, começam a interrogar-se sobre a pertinência de práticas que até agora passavam por imutáveis.

É sob esta mesma óptica de adaptação dos serviços sanitários e sociais ao modo de vida dos nômades que nasceu o centro de tratamentos dos Médicos Sem Fronteiras em Galaha. Em 1997, a equipe dos MSF no hospital de Dubti fez um levantamento da incidência da tuberculose na terra afar: as daibotas confinadas, enfumaçadas e escuras são um meio propício para o bacilo de Koch. A ONG percebeu também que os hospitais etíopes são inadequados para os nômades. Os afares do mato têm perfeita consciência de que a doença – que eles chamam labhadore (a que ataca os guerreiros) – dizima seu povo. Os depoimentos coletados em Galaha mostram ainda que eles conhecem a impotência da medicina tradicional do curandeiro (hara dagué) diante da labhadore. Daí o pedido por serviços de saúde eficientes.

Compreendendo a sociedade

Diante da pressão demográfica, os amaras e tigrés estabelecem-se nas zonas férteis ao longo dos rios, reduzindo os pastos disponíveis aos nômades

O médico canadense dos MSF Milton Tectonidis, fortalecido pelo apoio político do sultão Ali Mirah – alta autoridade moral dos afares – e da APDA, se esforçou, durante meses, para abrir em Galaha, em pleno deserto, o hospital autônomo para os nômades: uma heresia para um ministério da saúde etíope mais habituado à assimilação dos povos periféricos. Uma pessoa próxima ao sultão revela que “em novembro de 2000, durante negociações com os issas e o governo, pusemos na balança o projeto de Galaha, sendo a tuberculose, a nossos olhos, mais crítica do que o conflito”: a estabilidade contra a saúde.

As 400 ONG que trabalham na Etiópia relacionam-se com um Ministério do Humanitarismo e um organismo de controle, a Disaster prevention and preparedness commission (DPPC), cheios de burocracia, segundo uma tradição burocrática herdada do Império e do Conselho Revolucionário (DERG), pró-soviético. Sendo um dos raros países africanos a nunca ter sido colonizado pelo imperialismo europeu – com exceção da sangrenta invasão mussoliniana – a Etiópia tira disso um orgulho legítimo mesclado de desconfiança em relação ao exterior. Para as ONG, disso resulta um contexto burocrático que restringe o acesso às populações. Paralelamente a essas iniciativas, um médico antropólogo, Karim Rahem, realiza um importante trabalho de campo para identificar as necessidades e permitir aos estrangeiros a compreensão de uma sociedade das mais complexas. Por fim, o programa começou em janeiro de 2001. Galaha acolhe hoje mais de 400 tuberculosos e acompanhantes, afares ou não, aos quais se juntam, diariamente, dezenas de consultas para infecções diversas, impaludismo, desnutrição e, às vezes, partos. Os pacientes deixam Galaha ao fim de oito semanas ou de um semestre, com a obrigação de voltar todos os meses buscar o tratamento.

A ameaça de contágio

Diante das dificuldades das instituições etíopes para administrar o nomadismo, as ONG parecem dispensar melhor os serviços adaptados à cultura afar

Apesar desses problemas, o programa é um sucesso, com somente 1% de abandono: a pressão social do clã é forte sobre o paciente que, interrompendo seu tratamento, ameaça a integridade do grupo. Povo marginalizado, lutando constantemente pela sobrevivência, os afares têm consciência da fragilidade de sua existência coletiva. Obrigatórios em Galaha, os cursos de educação em saúde e higiene são uma prova adicional disso: os pacientes entrevistados exprimem todos a vontade de divulgar os ensinamentos uma vez de volta a sua terra, a fim de melhorar a vida da coletividade. Sucesso também no plano institucional, onde se inicia uma lenta tomada de consciência da especificidade do modo de vida pastoril: as autoridades regionais proclamam hoje os méritos de Galaha e se preparam para trabalhar com os professores nômades da APDA.

Adoecer é um drama social para o nômade: transformado em ameaça de contágio e uma carga para o clã, ele deve confiar a alguém seu rebanho. Em Galaha, ele e seu acompanhante ficam isolados, longe de sua comunidade. Entre os pacientes, as solidariedades sociais se desmontam: os voluntários para enterrar as pessoas mortas são raros, por medo do contágio. E para azar do islamismo, que quer que os mortos sejam enterrados rapidamente, como também para o dever de assistência aos que morreram longe de sua terra.

Os limites da missão humanitária

Os afares do mato têm perfeita consciência de que a tuberculose – que eles chamam labhadore (a que ataca os guerreiros) – dizima seu povo

Essa decomposição da solidariedade também se traduz por relações conflituosas com certos elementos dos Igahs e dos Abakrités, clãs nos territórios dos quais se encontra o hospital. Para que o dispensário traga concretamente proveito a estas comunidades, os MSF criaram dez empregos no local, pouco qualificados mas bem pagos. Mas nesses clãs – que conhecem o regime de salário desde a instalação das plantações por Mengistu – esta dádiva envenena a competição social: os MSF recrutam, na realidade, segundo critérios objetivos de competência, nove Igahs e... só um Abakrité. Os Abakrités ligados ao chefe exigem trabalho, com o fuzil kalachnikov bem em evidência, indiferentes aos riscos de que os MSF fechem o programa se a segurança deixar de ser garantida. Um incidente que mostra o impacto de toda missão humanitária sobre a sociedade receptora e a dificuldade, para os estrangeiros, de compreender o conjunto das articulações políticas locais: mesmo dentro de uma sociedade tradicional, os interesses particulares prevalecem para alguns sobre o interesse geral.

“Este programa prova aos MSF e a outras ONG que as populações podem ser senhoras de seu destino, e não apenas esperar uma ajuda externa”, avalia Moussa Zidour, chefe de missão dos MSF para a Etiópia. Mas, apesar dos progressos no cotidiano, os ativistas humanitários estão conscientes dos limites de suas missões, frágeis contragolpes diante dos cataclismos globalizados das desigualdades norte-sul7. “Em Galaha, não fazemos testes de HIV”, suspira Zidour. “Por quê? Por não termos meios financeiros, e levando em conta os custos proibitivos dos tratamentos, não teríamos, infelizmente, condições de oferecer acompanhamento médico a um soropositivo.

(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - N.T.: O povo afar vive na República do Djibuti e na região Nordeste da Etiópia.
2 - N.T.: A expressão francesa taxi-brousse refere-se a um tipo de transporte coletivo, normalmente uma espécie de “lotação”, utilizado em alguns países africanos para deslocamentos a longa distância (brousse = mato).
3 - Termo afar que designa os etíopes originários dos planaltos (amaras, tigres e oromos).
4 - Termo que designa os brancos, na Etiópia, e cuja etimologia viria de “francos”, isto é, dos cruzados.
5 - Relatório mundial sobre o desenvolvimento humano 2001, PNUD, Éditions De Boeck universités ou http://www.undp.org. Os depoimentos recolhidos no campo, em 1998, por Valerie Browning, evidenciam que, em média, uma criança em três de cada mulher afar entrevistada tinha morrido antes de completar um ano.
6 - Ler, de Jean-Louis Péninou, “Ethiopie Erythrée, une paix en trompe l’œil” , Le Monde diplomatique, julho de 2000, e também “Guerre absurde entre l’Ethiopie et l’Erythrée”, Le Monde diplomatique, julho de 1998.
7 - Ler, de Joseph E. Stiglitz, “FMI, la preuve par l’Ethiopie”, Le Monde diplomatique, abril de 2002.




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