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ORIENTE MÉDIO

A hora de buscar a paz

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A três semanas das eleições legislativas, num clima de insegurança sem precedentes, com a economia descontrolada, o desemprego crescente a população cansada de guerra e deprimida, o grande favorito, segundo as pesquisas, é o general Ariel Sharon

Amnon Kapeliouk - (01/01/2003)

Acontece um grande paradoxo na campanha para a eleição do novo parlamento israelense em 28 de janeiro de 2003. A segurança, a economia nacional e o moral da população se encontram em seu nível mais baixo. As negociações com os palestinos estão completamente congeladas, dando lugar, por um lado, a um terrível repressão anti-palestina – com a destruição da sociedade e das instituições do povo inteiro, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza – e, por outro, à Intifada e aos atentados-suicidas nas cidades de Israel.

A responsabilidade por essa situação catastrófica, inédita na história do Estado judeu, cabe principalmente ao Likud (partido da direita nacionalista) e a seu líder, o general Ariel Sharon, primeiro-ministro há dois anos. No entanto, nas pesquisas já realizadas, o chamado “pai de todos os fracassos” tem uma ampla vantagem nas intenções de voto.

Pacifistas continuam minoria

Em 2001, Sharon prometeu paz e segurança. Nos dois anos de seu governo foram batidos todos os recordes em matéria de israelenses mortos: são cerca de 700

Para conquistar a eleição em 2001, Sharon prometeu instaurar a paz e a segurança no país. Ora, em seu governo foram batidos todos os recordes em matéria de israelenses mortos: são cerca de 700, civis em sua maioria (entre os palestinos, esse número é três vezes superior).

A economia também foi severamente atingida durante seu reinado. Pelo segundo ano consecutivo, o crescimento será negativo, fato sem precedentes desde 1953. O desemprego é oficialmente de 10% (na realidade, de 13%, pois muitos desempregados, desesperados, deixaram de se registrar). Após vários anos de estabilidade, a inflação voltou a galopar, a um ritmo de 8% ao ano. O turismo recuou em dois terços, com conseqüências desastrosas para os restaurantes – dois mil fecharam as portas no ano 2002 – e para os hotéis. O percentual recorde de pessoas vivendo abaixo do limiar de pobreza supera os 18%. O moral está baixo. Basta conversar com pessoas na rua para ter uma noção de como receiam o futuro. A ponto de milhares de jovens casais emigrarem para tentar a sorte em outro lugar. Já a imigração não pára de cair – teve uma queda de 28% entre 2000 e 2001.

Em tal situação, seria razoável que o discurso pacifista tendesse a se reforçar e tornar a ganhar a simpatia da opinião pública, pois só ele – para além das divergências que existem entre suas correntes – tem condições de propor uma solução justa para o sangrento conflito com os palestinos. Ocorre o contrário: segundo as pesquisas, continua minoritário.

O “Estado palestino” de Sharon

O paradoxo aumenta quando se constata que dois terços da população – e um pouco mais da metade dos simpatizantes do Likud – defendem a criação de um Estado palestino. Assim como 63% se declaram favoráveis à demolição das colônias de judeus nos territórios ocupados, para contribuir para a solução do conflito. A todos esses sinais o primeiro-ministro resiste. Quando Yehuda Lancry, representante de Israel junto às Nações Unidas, garantiu, da tribuna da Assembléia-Geral, no dia 29 de novembro de 2002 – no 54º aniversário do voto de partilha da Palestina – que seu governo apoiava a criação de um Estado palestino, Sharon emitiu imediatamente um desmentido, classificando a declaração de “opinião particular”. Para o chefe de governo, a única solução é a militar e a colonização continua tendo uma importância crucial para a segurança do país.

A economia foi severamente atingida durante o governo Sharon. Pelo segundo ano consecutivo, o crescimento será negativo, fato sem precedentes desde 1953

É claro que, para não desgastar a componente moderada do eleitorado de direita e para tranqüilizar a comunidade internacional, o primeiro-ministro se declara disposto a aceitar um Estado palestino. Mas este seria um Estado desmilitarizado, sua segurança seria exercida por policiais exclusivamente equipados com armamento leve e, principalmente, apenas abrangeria as ex-zonas A e B (ou seja, 42% da Cisjordânia), com os diferentes enclaves interligados por túneis ou pontes. Israel controlaria as fronteiras externas e o espaço aéreo. E, por fim, a atual direção palestina deveria ser substituída: Sharon sonha com uma liderança composta por entreguistas que aceitassem a perpetuação do fato da invasão e da colonização israelense.

O bloqueio às negociações

Outra questão controvertida: deve se negociar com Yasser Arafat? Mais de dois terços (68%) das pessoas entrevistadas – eleitores trabalhistas, do Likud e do Shinui (centrista) – são favoráveis à negociação com o líder palestino1. Mas, em sua maioria, também votam em Sharon. Quando se pergunta a um cidadão israelense comum o motivo dessa contradição, ele responde: “É verdade que a situação está insuportável, mas será que existe uma solução alternativa à do atual poder para nos retirar do impasse? Não, e é por isso que tornarei a votar em Sharon...” E tudo continua como se nada tivesse ocorrido durante os últimos dois anos.

Seria razoável que o discurso pacifista tendesse a ganhar a simpatia da população. Ocorre o contrário: segundo as pesquisas, continua minoritário

Na verdade, o refluxo do discurso pacifista não começou com a chegada de Ariel Sharon ao poder, mas muito antes. Seu declínio teve início logo após os acordos de Oslo (1993-1996), quando os trabalhistas e o Meretz (esquerda sionista) ocupavam o poder. Em maio de 1996, liderado por Benyamin Netanyahu, o Likud venceria as eleições – seis meses após o assassinato de Itzhak Rabin. Multiplicando provocações, da abertura de um túnel sob a Esplanada das Mesquitas (setembro de 1996) até a inauguração da construção da colônia de Abu Ghneim (conhecida por Har Homa, em fevereiro de 1997), o novo chefe de governo bloqueou, durante três anos, as negociações entre israelenses e palestinos. Mesmo a pequena abertura anunciada pela reunião de cúpula de Wye River (1998) não chegou a vingar. Os pacifistas protestaram, mobilizaram-se e a esperada mudança ocorreu: no final de maio de 1999, o trabalhista Ehud Barak tornou-se primeiro-ministro.

A campanha orquestrada contra Arafat

A autodestruição dos partidários da paz iria acontecer quatorze meses depois. Por ocasião da reunião de cúpula de Camp David (julho de 2000), o primeiro-ministro tentou impor aos palestinos um acordo definitivo para o conflito que não atendia às mínimas exigências e aspirações2. Se os palestinos aceitassem esse plano, isso significaria o maior sucesso do sionismo; e, ao lado de Bem Gurion, pai do Estado de Israel, Ehud Barak se transformaria em seu maior dirigente, o primeiro a trazer paz e segurança àquela terra ensangüentada. Mas o chefe de governo também se preparara para a hipótese de uma recusa, por parte dos palestinos, em aceitar sua imposição. Por isso surgiu a campanha com o tema “tirar a máscara de Yasser Arafat”, apresentado como o homem que “recusou as mais generosas propostas jamais oferecidas aos palestinos”.

Na realidade, por ocasião das negociações, o general proibira formalmente que os negociadores mostrassem aos palestinos qualquer documento escrito, para que estes – assim como a opinião pública – ficassem no escuro. Era o fracasso – e, para os partidários da paz, um autêntico choque. O primeiro-ministro levaria seu estratagema até o fim, com a declaração: “Arafat já não é um parceiro para a paz.” Os defensores dos acordos de Oslo, com Shimon Peres à frente, quase não reagiram. Mas a jogada de propaganda convenceu a opinião pública israelense.

O paradoxo aumenta quando se constata que dois terços da população (entre oposição e simpatizantes do governo) defendem a criação de um Estado palestino

No dia 28 de setembro de 2000, Ariel Sharon, o líder do Likud, “visitou” a esplanada de Haram al-Sharif (o Monte do Templo). A polícia reagiu aos protestos dos jovens palestinos enraivecidos de maneira desproporcional: em três dias, 28 foram mortos e 500 feridos com balas verdadeiras – além de treze árabes israelenses, que também foram mortos a tiro. Em poucos dias, uma campanha orquestrada acusava Arafat de “provocar tumultos sangrentos com o objetivo de arrancar das ruas o que não conseguira obter na mesa de negociações”. Algumas autoridades chegam a insinuar que o presidente palestino “procura, na realidade, destruir o Estado judeu”. Também dessa vez, pacifistas e moderados ficaram calados. O campo da paz resumia-se a um fiapo.

“Matar Arafat ou apenas expulsá-lo?”

No dia 6 de fevereiro de 2001, sem surpresas, as eleições antecipadas deram maioria absoluta a Sharon3, que compôs um governo de união nacional. A presença do Partido Trabalhista daria ao novo chefe de governo a legitimidade necessária para voltar a invadir as cidades autônomas e destruir a Autoridade Nacional Palestina. Chegou, inclusive, a receber do presidente norte-americano, George W. Bush, o epíteto de “homem de paz”. Uma campanha sem precedentes visaria, então, a denegrir, desqualificar e demonizar o líder palestino. Arafat voltaria a ser, como antes dos acordos de Oslo, um “inimigo de Israel”, um “terrorista”.

Quando começou o cerco da Muqatta, no dia 13 de dezembro de 2001, o governo israelense declarou solenemente que, a partir de então, considerava Arafat “irrelevante” (sem importância) e que jamais negociaria com ele. O objetivo era claro: tratava-se de afastar o líder palestino – único dirigente democraticamente eleito do mundo árabe, com a fiscalização de dois mil observadores internacionais. E deu-se o inacreditável: em alguns meios de comunicação, chegou-se a colocar, de forma séria e erudita, a interrogação: “Será necessário matar Arafat ou simplesmente expulsá-lo do país?” Eminentes professores, dirigentes políticos e jornalistas participaram desses debates. E ninguém – ou quase ninguém – denunciou a natureza criminosa daquela idéia.

Conceito de “esquerda” é só político

Eleito em 1996, o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu bloqueou as negociações entre israelenses e palestinos durante os três anos seguintes

Na ausência de uma reação por parte dos partidários da paz, a guerra psicológica funcionou junto à opinião pública. Até o líder da oposição, e dirigente do Meretz, Yossi Sarid, fez críticas veementes contra o líder palestino, comparando-o a... Sharon. Shimon Peres, o “pai de Oslo” também se juntou, embora tardiamente, aos acusadores de Arafat. O único líder trabalhista cuja honestidade e integridade não lhe permitiram difamar o líder palestino foi o ex-ministro da Justiça, Yossi Beilin4.

Entre os pacifistas israelenses existem duas correntes. Uma, moderada, social-democrata, abrangendo o Partido Trabalhista, o Meretz e o movimento extra-parlamentar A Paz Agora. A outra, composta por grupos radicais corajosos, como o Goush Shalom, liderado pelo ex-deputado Uri Avnery, o grupo de jovens judeus-árabes Taayush (“Coexistência”), assim como os comunistas, únicos dessa ala que têm deputados. Existem diferenças notáveis entre as duas correntes. A primeira delas filtra as mensagens, citando a “modificação das fronteiras de 1967”, a demolição de uma “parte” das colônias e faz reservas quanto a negociar com Yasser Arafat. A segunda defende a volta às fronteiras anteriores a 1967 e a demolição de todas as colônias. O presidente palestino, sitiado em seu quartel-general, recebe alguns de seus membros em Ramallah.

Em Israel, também chamam de “esquerda” os partidários da paz, embora alguns elementos dessa corrente não tenham qualquer afinidade com o sentido social da palavra. Vários trabalhistas e membros do Meretz situam-se entre os três décimos da camada mais rica do país. Portanto, no Estado de Israel de hoje, o conceito de “esquerda” praticamente só tem um sentido político: trata-se de um conjunto de moderados que aspiram a uma solução honrosa com os palestinos e com quem não se podem associar lutas sociais, a bandeira vermelha ou o 1º de Maio.

Surge novo líder trabalhista

Em dezembro de 2001, o governo israelense declarou que considerava Arafat “irrelevante”. O objetivo era claro: tratava-se de afastar o líder palestino

O Partido Trabalhista encontra-se numa encruzilhada: ou continua patinando, sem sair do lugar, ou adota uma linha clara que o tiraria do marasmo. Se esse partido deseja voltar a trilhar os caminhos da paz, como o fez nos primeiros anos dos acordos de Oslo, deve renunciar totalmente aos três mitos básicos de Barak: “Demos tudo a Arafat, que nos virou as costas”; “o líder da OLP desencadeou uma ação militar para destruir ainda mais israelenses”; e “trata-se de um terrorista, e não de um parceiro de paz”. Se não o fizerem, os trabalhistas estarão dando razão a Barak e a Sharon.

O grande erro do general Barak foi abalar a confiança na paz. Aliás, ele o continua fazendo. Ao novo líder do Partido Trabalhista e prefeito de Haifa, Amram Mitzna – que teve uma vitória esmagadora contra Benyamin Ben-Eliezer, ex-ministro da Defesa de Sharon –, Barak afirmou: “A esquerda não voltará a levantar a cabeça, a menos que proclame Arafat como culpado pela atual escalada sangrenta.” Mitzna dispensou, com desprezo, esse aviso. Numa entrevista, um jornalista perguntou-lhe:

– Arafat convoca o senhor para uma “paz dos bravos”. O senhor está disposto a retomar o diálogo? – Quando eu for eleito chefe do governo, convocarei os palestinos para voltarem à mesa de negociações e conversarei com quem quer que seja seu líder – respondeu. – Mesmo com Arafat? – Se os palestinos optarem por pôr Arafat na minha frente, conversarei com ele5.

Pressões sobre Amram Mitzna

Os atentados-suicidas representam uma desvantagem considerável para a esquerda. Todo mundo o compreende, inclusive a Autoridade Palestina, que os condena, consciente de que esses crimes prejudicam sua causa – 80% dos palestinos entrevistados exigem o fim dessas “operações” para que Israel também ponha fim a seus ataques6... Mas o “fenômeno Mitzna” pode contribuir para o fim dessas ações, incentivando, dessa forma, o movimento pela paz.

É claro que o novo líder trabalhista sofre pressões de todos os lados, inclusive de seu próprio partido. A lista de candidatos aprovada pelos trabalhistas em meados de dezembro está repleta de “falcões”, partidários de Ben Eliezer, enquanto Yossi Beilin, Yael Dayan e Tsali Reshef não constam entre os elegíveis – os dois primeiros, aliás, filiaram-se ao Meretz, que lhes deu espaço em sua lista. Mas Mitzna não deixa de manifestar suas idéias com franqueza. Opõe-se claramente à política de Sharon. Defende uma retirada imediata da Faixa de Gaza e a demolição de suas colônias, assim como a da maioria dos assentamentos na Cisjordânia. Diz ser favorável a um Estado palestino viável. Não é de surpreender, portanto, que Arafat tenha recebido com satisfação a eleição de Mitzna para a chefia do Partido Trabalhista, convocando-o a “caminhar a trilha de Rabin”.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Haaretz, Tel Aviv, 29 de novembro de 2002.
2 - Ler, de Alain Gresh, “Le véritable visage de M. Ehoud Barak”, Le Monde diplomatique, julho de 2002.
3 - Ler, de Amnon Kapeliouk, “Les antécédents du general Sharon”, Le Monde diplomatique, novembro de 2001.
4 - Ler, de Yossi Beilin, “Apprendre à vivre ensemble”, Le Monde diplomatique, abril de 2002.
5 - Maariv, Tel Aviv, 23 de novembro de 2002.
6 - Haaretz, 28 de novembro de 2002.




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