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CULTURA

A resistência segundo Ivan Illich

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O famoso teórico Ivan Illich acaba de falecer, aos 76 anos de idade, em Bremen, onde lecionava na universidade. Publicava regularmente e fazia conferências no mundo inteiro. Sua obra, ardente, não podia ser resumida a slogans espetaculares

Thierry Paquot - (01/01/2003)

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A obra de Illich é abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu auto, que raramente estava onde se esperava que estivesse

Na segunda-feira, 2 de dezembro, Ivan Illich esticou sua sesta a ponto de partir para a eternidade. Agora está morto. Escrevo “agora” porque, já há muitos anos, quando mencionava seu nome, invariavelmente meus interlocutores me perguntavam sobre a data de seu falecimento. Ele morreu e, proximamente, sua obra completa será reeditada1, permitindo que alguns a descubram e que outros a revisitem. Uma obra exigente, abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu autor que raramente está onde se espera que esteja.

Bastante alto, magro, com um olhar envolvente, um sorriso caloroso e um perfil fino, exceto do lado da protuberância impressionante que o desfigurava, Ivan Illich sabia deixar as pessoas à vontade. Depois, feitas as primeiras trocas de palavras sobre as coisas banais de cada dia, seu pensamento se acelerava, se engrenava com sua elocução e nos encantava com sua inteligência. Falava dos “humores” de um médico alemão do século XVIII, recuava até Aristóteles, fazia um desvio passando por Diderot e Lavoisier, evocava Claude Bernard, se detinha em Balint, voltava ao médico alemão e se perguntava, em voz alta, sobre o diagnóstico, a consulta, a espoliação de si por um outro - o médico -, a recusa da dor e descrevia, com precisão, a máquina hospitalar atual, atropelando de passagem algumas de suas próprias análises já antigas e que se encontram em Némèsis médicale.

Vice-reitor aos 30 anos

Ivan Illisch era dono de um incrível enciclopedismo, apoiado na grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e numa curiosidade sem fim

Num outro dia, a palavra errante tomava outro rumo, demonstrava que o silêncio pode ser uma arma de contestação como a não-violência, expunha a reflexão filosófica de Max Picard, comparando-a com a de Emmanuel Lévinas, aproveitava a oportunidade para contar uma discussão com Michel de Certeau sobre o “uso da palavra” e o silêncio, falava dos padres da Igreja e da vida eremita, lembrava vários happenings silenciosos de que participara, recolocava a palavra numa sociedade da escrita, depois na sociedade da imagem e se entusiasmava com o século XII, seu século predileto. Essas duas histórias, de que sou a modesta testemunha, estão bem de acordo com os relatos com que outros comensais - impacientes ou maravilhados - enriquecem a respeito desse incrível enciclopedismo que se apóia numa grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e, ao mesmo tempo, numa curiosidade sem fim.

Realmente, o jovem Ivan, nascido em Viena, filho de pai dálmata e católico e de mãe alemã e judia, não tem só uma língua materna e, sim, várias - o francês, o italiano e o alemão - antes de aprender, a partir dos oito anos, o serbo-croata, língua de seus avós. Na seqüência, estudaria grego e latim - o que lhe facilitaria a abordagem etimológica das palavras e dos conceitos -, o espanhol, o português, o hindi etc. Matriculou-se em Cristalografia em Florença, em Filosofia e Teologia em Roma, em História Medieval em Salzburgo, foi ordenado padre, partiu para Nova York em 1951, reivindicou uma paróquia porto-riquenha, tornou-se vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico em 1956 - aos trinta anos! -, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero, criou seminários paralelos e diversos grupos de trabalho.

As preocupações do Vaticano

Aos 30 anos, vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero

Três anos mais tarde, atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, opôs-se à concepção norte-americana de desenvolvimento, instalou-se em Cuernavaca, no México, e abriu o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc). Freqüentado inicialmente por “voluntários” norte-americanos - do programa “Aliança para o Progresso”, lançado por Kennedy - que para lá se dirigiram para aprender o espanhol e a civilização do país para onde iriam, o Cidoc tornou-se conhecido principalmente pelo trabalho crítico sobre a sociedade capitalista que numerosos intelectuais, de todas as nacionalidades, ali iriam desenvolver sob a orientação de seu fundador.

O Centro funcionaria de 1966 a 1976 e, a partir de 1967, Ivan Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA – mas que se preocupava, sobretudo, com a audiência de alguns textos publicados em Libérer l’avenir (ed. Seuil, 1971), como “Disparition de l’ecclésiastique” (1959). Ele mencionou pressões sobre o Cidoc e até violência física que teria sofrido, sem, contudo, insistir... A passagem por Cuernavaca tornou-se, para uma certa esquerda radical e terceiro-mundista, um desvio obrigatório. A seriedade dos estudos convivia de perto com encontros festivos - duas atividades marcadas pelo cristianismo. Além do mais, mesmo assumindo o estado leigo, Ivan Illich continuou convencido de que “a maioria das idéias-chave, que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular, é de origem cristã2”.

A libertação da singularidade individual

Atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, instalou-se em Cuernavaca, no México, e criou o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc)

É com Une société sans école e La convivialité que se firma a fama de Ivan Illich: ainda não havia chegado aos cinqüenta anos e suas idéias já eram discutidas no mundo inteiro3. Seus primeiros livros visam a demonstrar que os “instrumentos” (entenda-se: as “instituições” e as grandes “máquinas” sociais, como a Igreja, a Escola, o Hospital, os Transportes etc.), depois de um certo patamar, tornam-se contraproducentes - de uma “contraprodutividade paradoxal”, esclarece ele, porque não desejada por seus idealizadores. Quanto mais avança um sistema técnico, mais aumenta a parte de heteronomia do indivíduo médio e mais diminui sua parte de autonomia, deixando-o cada vez mais dependente daquilo que não pode dominar: a energia nuclear, a rodovia, a quimioterapia, as manipulações genéticas etc.

Por trás de constatações demasiado simplificadas pelos seus seguidores - como, por exemplo, a “escola desescoloriza”, o “hospital torna doente”, o “carro emperra o tráfego” - encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e daquilo que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades4”. Ivan Illich recusa o ponto de vista do ataque dos membros do Clube de Roma que, em 1972, convidaram os líderes políticos a deterem o crescimento para se postergar a escassez de matérias-primas e para se reduzir o desperdício das reservas energéticas. Ele não acreditava de modo algum numa medíocre “proteção da natureza” e denunciava o desenvolvimento inconseqüente das técnicas, bem como a economia política do desenvolvimento, que alguns autores como René Passet e Serge Latouche retomariam e aprofundariam. Esses livros devem ser lidos juntos, de tal modo pertencem ao mesmo projeto: a libertação total da singularidade de cada indivíduo - quaisquer que sejam sua cultura, sua renda, sua posição no sistema produtivo etc.

Irritando o “esquerdismo” e o feminismo

A partir de 1967, Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA, mas, na verdade, se preocupava com a audiência de seus textos

Esta libertação do sujeito - palavras que não pertencem a seu vocabulário - baseia-se no domínio de seu próprio corpo e de suas próprias necessidades, independentemente das técnicas disponíveis. Ivan Illich conta a história de uma estudante a quem ele oferece um copo de sidra e que lhe responde: “Não, obrigada, minhas necessidades de açúcar já foram satisfeitas para o dia todo.” Suas necessidades foram confiscadas pelos calculadores de calorias e pelos normatizadores... Partilhar uma bebida durante uma reunião não cabe nesse tipo de medida, e se situa na esfera de um ritual que, justamente, faz com que uma necessidade seja sempre cultural e histórica. O estudo da invenção das necessidades padronizadas e válidas para todos ocuparia Ivan Illich durante vários anos, obrigando-o, durante a trajetória, a estabelecer outras genealogias, como a de “ser humano”, “vida”, “pessoa”, “gênero”, “saúde” 5 etc., donde uma retomada da história do Ocidente.

Em que momento, em que circunstâncias e para quê, por exemplo, o trabalho se torna o principal tempo da existência individual e coletiva? Le Travail fantôme e Le Genre vernaculaire completam os primeiros ensaios e os elucidam, insistindo na linguagem como principal enraizamento existencial de cada um, a sexualização da sociedade como discriminação entre os gêneros e a crença errônea no homo œconomicus como modelo de comportamento etc. Essas obras, lidas depressa demais, irritam os terceiro-mundistas, para os quais o “trabalho fantasma” não valoriza os “pobres” tributários do “setor informal”, e as feministas, que recusam a diferença de gêneros de Illich e militam por uma igualdade jurídica e econômica homem/mulher. Quanto a suas últimas pesquisas sobre o oral, o escrito e a imagem, elas passarão despercebidas.

Originalidade vs. perplexidade

Por trás de constatações “simplistas” encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e do que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades”

Bajulado pelos adeptos da “segunda esquerda” francesa ao longo da década de 70, Ivan Illich pareceu-lhes demasiado pessimista quando eles assumiram responsabilidades políticas com a eleição de François Mitterrand, em 1981. Os terceiro-mundistas procuravam reagir ao fim da guerra fria e à globalização das economias e das telecomunicações: não encontram mais em Illich motivos para reagir a seus questionamentos. Os ambientalistas não gostam de sua crítica ao princípio da responsabilidade, iniciado por Hans Jonas, e não aderem à sua crítica da técnica, inspirada por Jacques Ellul, Lewis Mumford e alguns outros.

Em resumo, havia uma interrupção no circuito entre um pensador de uma originalidade desconcertante e uma intelligentsia desnorteada. Fora da França, as redes implantadas por Illich seguiram divulgando suas pesquisas e se engajaram nos caminhos abertos por ele, e sua influência - difícil de ser apreendida - é certa, como demonstram a popularidade de seus conceitos e sua presença nas citações bibliográficas. De Vancouver (“Habitat I”, em 1976) ao Rio (“Cúpula da Terra”, 1992), dos comitês de bairros por um orçamento participativo às associações por uma alternativa à globalização neoliberal, as idéias de Ivan Illich não parecem esquecidas, ao contrário.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Pela editora Fayard, em 2003.
2 - Cf. David Cayley, Entretiens avec Ivan Illich, tradução francesa, Bellarmin, Saint-Laurent, Québec, 1996, p. 146.
3 - Cf. Jean-Marie Domenach põe a revista Esprit, que ele dirige, a serviço do pensamento de Illich, publicando vários de seus artigos em 1970 e 1971 e dedicando-lhe dois números: “Illich en débat”, n°3, de março de 1972, e “Avancer avec Illich”, n°7-8, de julho-agosto de 1973. Nos fragmentos escolhidos de seu Journal 1944-1977 e Beaucoup de gueule et peu d’or, ed. Seuil, 2001, Domenach dedica-lhe apenas algumas linhas, p. 291, ao passo que, em nossas conversas, me confirmou a importância, para ele, de sua leitura de Illich (ler sua crônica em L’Express de 21 de setembro de 1990). Illich está no índice da revista Les Temps Modernes em 1969 e 1970, e Herbert Gintis redige uma “Critique de l’illichisme” no n° 314-315, setembro-outubro de 1972. Ler n° 109, de dezembro de 1972, da revista Les Cahiers Pédagogiques e o n° 62 da revista L’ARC, em 1975, ambos inteiramente dedicados a Illich. Em Le Nouvel Observateur, Michel Bosquet (pseudônimo de André Gorz) vulgariza, discute e populariza as teses de Illich, construindo sua obra original.
4 - Cf. “Needs”, de Ivan Illich, The Development Dictionary, publicado por Wolfgang Sachs, ed. Zed Books, Londres, 1992, p. 88 e s.
5 - Cf. “L’obsession de la pensée parfaite”, Le Monde Diplomatqiue, março de 1999, p. 28.




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