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CULTURA

Quem são, afinal, os reacionários?

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Em mesas-redondas e palestras, intelectuais que se reivindicam “modernos” “debatem” questões “da sociedade”, como identidade, nação e autoridade. No fundo, porém, são os velhos “reformadores liberais” de sempre, e o “debate” é um monólogo

Serge Halimi - (01/01/2003)

Eram duas correntes de intelectuais que se defrontavam. De um lado, aqueles que, sob o discurso da “reforma”, da “abertura”, da ruptura com os “tabus”, saudavam o movimento do mundo – e os avanços da esquerda, quando das eleições. Com o apoio da maioria dos meios de comunicação, estavam sempre dispostos a se mobilizar em nome de um “progresso” que incentivava as estruturas econômicas que seu pensamento único popularizara. Na outra corrente estavam aqueles a quem essa “modernidade” preocupava, ou repugnava, pois viam nela uma forma de regressão na organização da sociedade e na solidariedade que a costura. Eram considerados “reacionários” pelos primeiros. Estávamos em 19951.

Estamos agora em 2002. Durante esse meio tempo, as linhas de clivagem foram abaladas. Isso porque, no atual “debate”, os “reformadores” neoliberais de 1995 são os únicos a ocupar a cena. Eles se dividem, mas sobre questões “da sociedade”, abertos contra fechados, “modernos” contra “reacionários”. Seria esta uma boa notícia? Não necessariamente. A natureza espetacular desse confronto salienta, ao contrário, que os atuais protagonistas sentem-se suficientemente fortes para circunscrever a batalha de idéias a suas quizilas familiares.

Um debate que exclui o povo

A natureza do atual confronto salienta que os protagonistas sentem-se suficientemente fortes para circunscrever a batalha de idéias a quizilas familiares

Essa sua avaliação – ou presunção – baseia-se numa série de fatores. A começar pela morte de Pierre Bourdieu, há um ano, e a aparente astenia em que mergulharam alguns de seus aliados intelectuais e acadêmicos que, “optando pelas virtuosas facilidades do encerramento em suas torres de marfim”, pareceram mais propensos a se deixar absorver por conferências comemorativas do que pela obrigação de “abrir caminho aos conhecimentos para fora da cidade dos sábios2”. Alguns meses após seu falecimento, um combate bastante virtuoso contra Jean-Marie Le Pen permitiria à burguesia bem-pensante atribuir mais uma vez às presumivelmente culpadas camadas populares, conservadoras e “populistas”, o espetacular avanço eleitoral da Frente Nacional3. Finalmente, a volta ao poder da direita oficial incentivou a imantação da vida pública e intelectual pelo tema obsessivo da “insegurança” física – um tropismo que raramente propicia avanços progressistas.

Se o contexto mudou (indiscutivelmente para pior), também mudaram os temas do debate. Em 1995, o que opunha os “reformistas” partidários do Plano Juppé e a “esquerda da esquerda” era a questão social, a da igualdade. No debate intelectual de 2002, que desenvolve temas – às vezes de forma verborrágica, etérea e confusa – como a “identidade”, a “nação”, a “mestiçagem”, a “autoridade” etc., sindicalistas, assim como o movimento popular, estão ausentes. O que permite aos meios de comunicação, mas também aos pensadores que essa mídia idolatra, porem em cena, tranqüilamente, a quizila entre essas duas camarilhas parisienses, sacrificando, em nome dos detalhes dessa rixa de grupelhos, hectares de florestas e toneladas de pasta de papel. Alguns dos atuais protagonistas criticavam com veemência, através das greves de 1995, uma “sociedade fechada, voltada para a defesa de amenidades”. Foi justamente em defesa da “sociedade aberta e pluralista”, desejada pela “esquerda igualitária e pela direita liberal”, que Daniel Lindenberg – signatário, na época, de um abaixo-assinado em defesa do Plano Juppé – escreveu seu livreto4. A promoção que dele fizeram Le Monde, Libération e Le Nouvel Observateur chegou às raias da saturação, enquanto Le Figaro, Marianne e L’Express acumulavam críticas indignadas5.

Idéias proibidas de discutir

No debate intelectual de 2002, que pretende desenvolver questões “da sociedade”, os sindicalistas, assim como o movimento popular, estão ausentes

Foram alguns dos tenores da revista Esprit que atiraram primeiro. Os da revista Le Débat responderam ao fogo. Teórico da “guinada para o centro” da central sindical CFDT, Pierre Rosanvallon metralhou, com Daniel Lindenberg na linha de tiro, seus ex-aliados da Fundação Saint-Simon – Pierre Nora e Marcel Gauchet6. A briga pode parecer confusa. E não deixa de expressar ambições, num momento de desordem ideológica. Isso porque a denúncia da guinada à direita de certos intelectuais (os “novos reacionários”) parece ter por objetivo permitir aos social-liberais, varridos do mapa nas últimas eleições, reivindicar um lugar – o único lugar – na esquerda, ao enfocar a discórdia intelectual sobre questões “da sociedade”.

Listando uma série de citações bizarras – umas ao lado das outras, para desqualificá-las por meio de sucessivas insinuações – o livreto Rappel à l’ordre foi apadrinhado, e promovido em Paris, por Pierre Rosanvallon, professor titular, havia um ano, da cadeira de História Contemporânea no Collège de France... O objetivo do livro não dá margem a dúvidas. Defensor do “projeto democrático”, Daniel Lindenberg compôs o breviário das idéias que, segundo ele, deveriam deixar de ser discutidas. Sua lista de “totens” e “intocáveis” é longa: “Maio de 68”, “a indústria cultural”, “direitos humanos”, “pluralidade da informação”, “democracia parlamentar”, “globalização”, “sociedade ‘mestiçada’”, “turismo de massa”, “a segunda esquerda”, “economia de mercado”...

Questão de “moinhos de vento”

Alguns dos atuais protagonistas criticavam com veemência, através das greves de 1995, uma “sociedade fechada, voltada para a defesa de amenidades”

Longe de se limitar a proibir a crítica dos ideais acima citados, o autor também queria tornar ilícita sua aplicação desvantajosa ou sua manipulação interesseira. Isso porque, afinal, que “maio de 68” deveria ser defendido? A “cultura massificada” seria a cultura das massas ou aquela vendida por um comerciante “convencido de que baixar o nível intelectual é o caminho mais curto para aumentar os lucros7”? A “pluralidade da informação” continua garantida pela pluralidade dos títulos quando estes passam a ser controlados pelos mesmos grupos do mercado editorial? Seria a “economia de mercado” consubstancial ao “projeto democrático”? No entanto, são muitas as perguntas, quase elementares, que foram proscritas, pois, como nos explicam, qualquer “ambigüidade” – ou seja, no fundo, qualquer questionamento – “nos leva de volta à década de 30”. É bom não esquecer que este “rappel à l’ordre” (“convocação à ordem”) tem por objetivo despertar “um espaço público intelectual que não anda muito bem”...

Trata-se, também, de “caráter”. Adepto de um “esfriamento geral das paixões políticas”, Daniel Lindenberg condena, como François Furet já o fizera antes, a “busca de emoções fortes e a simpatia generalizada pela ruptura com a ordem das coisas”. Um tal ecumenismo lembra as vulgatas sobre o “fim das ideologias” e a “República do centro” que precederam, respectivamente, o movimento social do outono de 1995 e as passeatas contra a globalização. Logicamente, Daniel Lindenberg nega a existência da ortodoxia da qual é o agente: “Quem anunciava o reino do pensamento único batia-se contra moinhos de vento.” Aparentemente, os moinhos continuam rodando.

“Não tenhamos medo...”

Defensor do “projeto democrático”, Daniel Lindenberg compôs um breviário das idéias que, segundo ele, deveriam deixar de ser discutidas

Mas estamos em 1994. São poucas as chances de que a operação Rosanvallon seja bem-sucedida, na medida em que as categorias intelectuais que esboça são obsoletas ou desprovidas de base social. Na França, a “direita liberal” de que trata mostra-se cada vez mais autoritária. A “esquerda igualitária”, por seu lado, acaba de perder o poder após ter permitido que se aprofundassem as desigualdades. Ainda que reaquecidas por um professor do Collège de France, as noções de “progressista” e de “reacionário” dificilmente poderiam ser reduzidas a uma coisa tão grosseira quanto o postulado de Daniel Lindenberg: “Para o progressista, as coisas vão cada vez melhor. Para o reacionário, tudo vai de mal a pior8.”

Nos últimos anos, “tudo” vai tão “cada vez melhor”, que boa parte dos “progressistas” se tornaram “reacionários” 9. Piedoso para com seus amigos, Daniel Lindenberg não dispara, em seu livro, contra Olivier Mongin, Mona Ozouf, Paul Thibaud ou Jacques Julliard, todos próximos às suas posições, nem contra Blandine Kriegel, ex-diretora da coleção que ele editava e que recentemente se converteu ao chiraquismo. Todos eles, no entanto, assinaram em 1998 (com Régis Debray e Max Gallo) um texto significativo, “Républicains, n’ayons plus peur” (“Republicanos, não tenhamos mais medo”): “Brigamos muito entre nós. [...] Parece-nos que chegou a hora de enfrentarmos juntos uma polêmica que atualmente é mais urgente.” E, sem rodeios ou ambigüidades, os autores denunciavam “a aberração que surge, na periferia de nossas cidades, de zonas de povoamento étnico”, a “recusa de punir”. E comemoravam, “juntos”, a “sucessão de respeitos ancestrais de ressonância quase bucólica”, a “chamada doutrina da ‘vidraça quebrada’”, a “tolerância zero”, a repressão de menores, “reduzindo a idade de responsabilidade penal10”.

A crítica da esquerda

A denúncia da guinada à direita dos “novos reacionários” parece ter por objetivo permitir aos social-liberais reivindicar um lugar na esquerda

Daqui a vinte anos, talvez um historiador das idéias venha a notar que o debate que agitou a intelectualidade francesa em 2002 sobre os “novos reacionários” não abordou a ameaça de guerra contra o Iraque, nem a concentração dos meios de comunicação, nem o questionamento do direito à aposentadoria pelos patrões e pelo governo. A ironia poderia ser má conselheira, pois, quando são mal colocados, alguns problemas podem gerar uma confusão séria – e onerosa.

É o caso da questão progressista. No livro Impasse Adam Smith, Jean-Claude Michéa lembra, citando Marx, que o liberalismo econômico não é conservador, que o “progresso” é o seu motor, que ele revoluciona permanentemente o mundo e a sociedade11. E sugere que o socialismo compartilhou de tal forma esse entusiasmo, que ambos os sistemas comungaram do culto às elites modernizadoras e do desprezo por um povo que, humilhado, se arrasta diante de cada benfeitoria anunciada. Daí que, “renunciando por toda parte ao compromisso histórico que a unia às classes populares, a esquerda acabou se submetendo à sua própria verdade”. Ironicamente, são autores como Lindenberg e Rosanvallon que representam a esquerda, enquanto Michéa, defensor de um socialismo anti-produtivista baseado nas “virtudes cotidianas das pessoas comuns”, se vê tachado pela encarnação daquilo que combate: o nomadismo de burguês com o álibi de sua compaixão pelos “excluídos”.

A “esquerda reacionária”

A “direita liberal” mostra-se cada vez mais autoritária e a “esquerda igualitária”perdeu o poder após ter permitido que se aprofundassem as desigualdades

Mas configura-se uma situação confusa. A existência, bastante concreta, de liberais-libertários não significa que eventuais reformas “da sociedade” progressistas e necessárias (direito ao aborto, igualdade para homossexuais, abolição da pena dupla) sejam, necessariamente, atribuídas ao liberalismo econômico e às elites globalizadas que o dirigem. Ora, ao considerar “delirante a idéia de que o espírito do capitalismo seja conservador, autoritário e patriarcal”, Jean-Claude Michéa associa, de forma demasiado rápida, a “economia da concorrência” a questões como “a união de homossexuais, a delinqüência, festivais musicais” etc. E, no entanto, o capitalismo que navega de vento em popa nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França é repressivo e paternalista – e não, libertário. Em meio a essa desordem liberal e à ordem social, como nos tempos da revolução industrial vitoriana, nunca os patrões gozaram de tanta liberdade e, simultaneamente, nunca as prisões estiveram tão cheias – quase sempre, de pobres.

Lutar simultaneamente contra esses dois campos implica, portanto, recusar as representações feitas pela mídia, que os contrapõem sob a forma de caricaturas invertidas: burgueses libertários contra o povo reacionário. Afinal, o direito ao aborto beneficiou principalmente as mulheres das camadas populares (as outras já o faziam em clínicas particulares, no exterior), os homossexuais já não são apenas arquitetos, mas também operários da construção ou caixas de supermercado, e os banqueiros são um tanto raros no movimento dos “sem-documentos”. E, longe de se resumir a um tumulto de jovens pequeno-burgueses hedonistas, maio de 68 continuará o “Maio do proletariado”, ou seja, o movimento operário mais importante da história da França.

Hoje, os reacionários triunfam. Sem dúvida – pelo menos em parte – graças à sua capacidade de manter a esquerda afastada de lutas que já a levaram a muitas vitórias.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Julien Duval et al., Le décembre des intelectuels français, ed. Raisons d’agir, Paris, 1998.
2 - Retomando os termos do próprio Pierre Bourdieu em Contre-feux 2, ed. Raisons d’agir, Paris, 2000. Ler também, de Bourdieu, “Les chercheurs et le mouvement social”, in Interventions 1961-2001, ed. Agone, Marselha, 2002.
3 - Em relação às raízes históricas de um discurso que justifica o abandono das camadas populares – imputando-lhes toda espécie de patologias políticas, ler “Le populisme, voilà l’ennemi!”, Le Monde diplomatique, abril de 1996. Ler também, de Christopher Lasch, Le seul et vrai paradis, ed. Climats, 2002.
4 - Ler, de Daniel Lindenberg, Rappel à l’ordre: Enquête sur les nouveaux réactionnaires, ed. Seuil, Paris, 2002.
5 - A mais raivosa delas foi, sem dúvida, o “Manifeste pour une pensée libre”, assinado por Alain Finkielkraut, Marcel Gauchet, Pierre Manent, Philippe Muray, Pierre-André Taguieff, Shmuel Trigano e Paul Yonnet, in L’Express, 28 de novembro de 2002.
6 - Membro do conselho editorial da revista Esprit, Daniel Lindenberg critica acidamente – em seu ensaio publicado pela editora Seuil, numa coleção dirigida por Pierre Ronsavallon – Marcel Gauchet, que dirige a revista Le Débat com Pierre Nora. Nora, Rosanvallon, Alain Minc e François Furet foram os arquitetos da Fundação Saint-Simon, auto-dissolvida em 1999. A respeito da Fundação Saint-Simon, ler, de Vincent Laurent, “Les architectes du social-libéralisme”, Le Monde diplomatique, setembro de 1998.
7 - Ler, de André Schiffrin, L’édition sans éditeurs, ed. La Frabrique, 1999, p. 49.
8 - Entrevista de Daniel Lindenberg, Libération, 30 de novembro de 2002. Na mesma ocasião, o autor avalia que “a República” e os “serviços públicos” são conceitos “muito regressivos”.
9 - Cf. Maurice Maschino, “Les nouveaux réactionnaires”, Le Monde diplomatique, outubro de 2002.
10 - Le Monde, 4 de setembro de 1998.
11 - Ler, de Jean-Claude Michéa, Impasse Adam Smith, ed. Climats, 2002.




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