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DOSSIÊ IRAQUE

O exército, a grande incógnita

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Desempenhando um papel fundamental na tomada do poder, em 1968, pelo Partido Ba’ath, o exército iraquiano foi progressivamente despolitizado até 1991, quando foi derrotado e humilhado na guerra do Golfo, rebelando-se contra o regime

Faleh A. Jabar - (01/01/2003)

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Na previsível guerra entre Washington e Bagdá, será o desempenho do exército iraquiano que irá determinar o futuro do regime ba’atista. Nos Estados Unidos, admite-se, em geral, que o exército regular iraquiano abandonará rapidamente o combate, mas que a Guarda Republicana poderia resistir muito mais. Mais motivada, melhor equipada e mais bem paga que as unidades regulares, esta poderia, sem dúvida, permanecer leal e combater.

No entanto, esse paralelo simplificado entre as tropas de elite e o exército poderia induzir a erros de avaliação. Ele resume as causas de coesão ou desintegração a fatores militares importantes, mas demasiado genéricos. Ignora os complexos vínculos entre a guerra e a política, especialmente nessa próxima guerra.

O controle total de Saddam Hussein

Em 1974, o Partido Ba’ath fixou dois objetivos: submeter o exército ao controle do partido, doutrinando-o, e reestruturá-lo, modernizá-lo e ampliá-lo

Para melhor compreendê-los, é necessário começar por reavaliar a natureza do Partido Ba’ath e sua tomada do poder em 1968. Na época, seus dirigentes estavam traumatizados pelas divisões entre o corpo de oficiais e por uma década de regime militar, permanentemente ameaçado por golpes de Estado. O 8º Congresso do partido, em 1974, fixou dois objetivos principais. Primeiro: submeter o exército ao controle do partido, expurgando de suas fileiras “elementos duvidosos, conspiradores ou aventureiros” e doutrinando todos os seus membros – o exército deveria ser “ba’atificado” ou, no vocabulário oficial, “doutrinado”. Segundo: reestruturar, modernizar e ampliar esse mesmo exército.

Essa “ba’atificação” do exército era necessária, mas não suficiente. Para garantir maior lealdade, injetaram-se nele grupos familiares ou clânicos. Surgia, então, um duplo sistema: o partido controlava o exército e o clã controlava o partido. Este fornecia os homens necessários à vigilância; o clã dava as garantias da confiança. Além do Estado-Maior, foram criados três centros de controle: a comissão militar do partido, a comissão de segurança nacional (encarregada, especificamente, da área de informações) e as redes familiares, informais.

Graças a essa estrutura encavalada, o presidente Saddam Hussein obteve um poder adicional sobre a gestão e supervisão da vida nacional. Pôde, por exemplo, ignorar a hierarquia de comando e exercer um controle direto sobre qualquer setor militar. Durante a guerra com o Irã (1980-1988), aliás, alguns militares reclamaram, pois, se é útil à segurança interna, a personalização dos mecanismos de controle também constitui uma desvantagem nas guerras modernas.

A despolitização do exército

A “ba’atificação” do exército era necessária, mas não suficiente. Para garantir uma maior lealdade, injetaram-se nele grupos familiares, ou clânicos

Anteriormente, durante a presidência dos irmãos Aref (1963-1968), as forças militares tinham uma dupla estrutura: o exército regular e a Guarda Republicana. O Partido Ba’ath manteve essa dualidade, mas a Guarda Republicana foi modificada e ampliada, passando o exército a contar com dois corpos. De maneira perfeitamente consciente, o regime dissociava a defesa nacional, a cargo do exército, da segurança interna, assumida pela Guarda Republicana – embora esta última continuasse ativa durante a guerra contra o Irã, assim como durante a conquista do Kuait e durante a guerra contra os Estados Unidos e seus aliados.

A reestruturação do exército, por seu lado, também provocou uma alteração radical na origem social dos chefes militares de alta patente. O papel político que desempenhava até então o corpo de oficiais foi gradativamente reduzido; o exército foi confinado à caserna e os oficiais viram-se limitados ao papel de meros executores. O primeiro Conselho do Comando da Revolução (CCR), que tomou o poder em 1968 e foi o órgão supremo do país, era integralmente constituído por militares. Três anos depois, o segundo CCR só contava com cinco oficiais entre seus quinze membros. E em 1979, quando Saddam Hussein concentrou em suas mãos todos os poderes, nenhum militar tinha assento no CCR. Como explica o historiador Majid Khadduri, “o Partido Ba’ath foi o primeiro regime a submeter o exército ao controle civil”.

Um monstro incontrolável

Graças a essa estrutura encavalada, o presidente Saddam Hussein ignora a hierarquia de comando e exerce um controle direto sobre qualquer setor militar

Mas essas mudanças também se fizeram acompanhar por um profundo abalo quantitativo. A época do soldado-político chegava ao fim, dando lugar à era de um exército superabundante. Em pouco mais de uma década, as forças armadas multiplicaram-se por dez, passando de 50 mil homens, em 1968, para 430 mil, em 1980. O número de militares em relação à população aumentou numa proporção de 6% para 31%. Por meio desse rápido crescimento, o regime demonstrava sua estabilidade, mas também suas ambições na região.

A guerra com o Irã assinalou o início de um período de sérias crises para a nação e para seu exército. O custo foi assumido graças à riqueza em petróleo, ao apoio internacional e regional, assim como a uma mistura de patriotismo popular com nacionalismo oficial. O exército inchou até chegar a um milhão de homens – sem contar as organizações paramilitares da milícia do partido (o Exército Popular) e os 150 mil homens que compõem as unidades mercenárias tribais curdas, os chamados “Batalhões de Defesa Nacional”.

Tudo isso iria sugar os recursos do país que se endividou de maneira colossal. Assumindo o papel de gigante militar, o Iraque transformou-se num anão econômico. O cansaço, associado aos combates prolongados, às dificuldades econômicas e à mobilidade social provocados pela política do regime acabaram levando a geração da guerra às raias da rebelião. As redes do partido e dos clãs, por um momento muito densas, se estreitaram pouco a pouco. O exército podia tornar-se um Leviatã1 incontrolável.

Rebelião, capitulação e coesão

De maneira perfeitamente consciente, o regime dissociou a defesa nacional, a cargo do exército, da segurança interna, assumida pela Guarda Republicana

A partir de 1988-1990, com o final do conflito, emergiram fissuras na tradicional união entre nacionalismo popular e oficial. O regime teria que optar por continuar alimentando seu milhão de homens fardados ou por financiar seu retorno à vida civil com dignidade. Saudados como “os heróis de Saddam”, amedrontavam a elite no poder com sua atitude selvagem e indócil. O alto comando militar estava dividido: uns temiam que os soldados – desmobilizados, esfomeados e enraivecidos – se tornassem um flagelo para a vida civil, semeando a desordem e cometendo crimes; outros temiam uma implosão dentro do exército, se este ficasse inativo por muito tempo.

Era absolutamente necessário procurar recursos suplementares e promover reformas políticas visando a atenuar as tensões. A invasão do Kuait, que deveria ser um remédio para todos esses males, teve um efeito de bumerangue. A derrota humilhante e as pesadas perdas humanas transformaram essa desventura num catalisador de desintegração e rebeliões. As insurreições de 1991 (curda, na região Norte, e xiita, na região Sul), nas quais alguns setores do exército tiveram um papel catalisador, assinalaram a primeira desintegração parcial das forças armadas.

Na realidade, a guerra do Golfo expôs a existência de três tendências – importantes, mas contraditórias – no exército: rebelião, capitulação e coesão. Não era novidade. A deserção, por exemplo, já representava um problema mesmo antes de 1990. Mas, por ocasião da guerra terrestre, em fevereiro de 1991, poucas unidades presentes em território do Kuait lutaram, de fato: 70 mil homens renderam-se no primeiro dia de combate.

A rebelião na frente Sul

O exército chegou a ter um milhão de homens. As redes do partido e dos clãs se estreitaram, pois o exército podia tornar-se um Leviatã incontrolável

Após o cessar-fogo, o nível de rebeliões e de deserção nas tropas da frente Sul era tamanho que o exército se desintegrou totalmente. Na região Norte, as unidades – cerca de 150 mil soldados – depuseram as armas, determinadas a não se rebelar nem a defender o regime. No centro do país, na região de Bagdá, o nível de homogeneidade e de lealdade foi muito mais significativo.

Por quê essas diferenças? Primeiramente, porque os soldados estavam bastante indiferentes àquela “guerra do Kuait”, como a chamavam. Sentiam-se esgotados pelo esforço empregado na guerra travada contra o Irã. A união entre os nacionalismos oficial e popular foi o preço que pagaram. As pesadas perdas, uma logística ineficiente, mantimentos insuficientes, uma má gestão das operações, a derrota e, depois, a retirada desorganizada, tudo isso, enfim, aumentou o ressentimento das unidades estacionadas no Sul. Além do que os comissários do partido e as redes familiares eram pouco numerosos entre as tropas enviadas para o Sul e as que ficaram no Kuait. O controle do partido e dos clãs era frágil.

Paradoxalmente, a devastadora campanha aérea da coalizão aliada – que, inicialmente, provocou uma reação de raiva entre os soldados que batiam em retirada, no Sul – acabou por desmantelar essas unidades rebeladas, tornando-as, assim, incapazes de lutar eficazmente contra o regime. A visão dos Estados Unidos, acentuada por seu receio de ver uma ingerência do Irã nos assuntos iraquianos, bem como sua vontade de manter um contrapeso militar diante dessas ameaças – o que os levou a não destruir por completo a Guarda Republicana – contribuiu, involuntariamente, para ajudar Saddam Hussein a se livrar da ameaça que representava seu exército derrotado no Sul. Pouco após a retirada, desorganizadas e dispersas, essas unidades se rebelaram. Um tanque que batia em retirada atirou sobre um gigantesco painel com o retrato de Saddam quando passava pelo centro da cidade de Basra. Foi esse o primeiro sinal da insurreição.

A fidelidade da Guarda Republicana

A guerra do Golfo expôs a existência de três fatores – importantes, mas contraditórios – no exército: rebelião, capitulação e coesão: não era novidade

Na região Norte, observaram-se situações semelhantes. Estouraram rebeliões lideradas pelos comandantes dos batalhões tribais curdos e pela população urbana mobilizada. Pressentindo a derrota e o isolamento, as unidades militares tomaram a difícil decisão de se render aos curdos. Cento e cinqüenta mil soldados e oficiais desertaram de suas posições. Viram-se cenas bastante estranhas, de milhares de homens desarmados, fardados, vagando pelas ruas de Erbil, Suleimaniya e Duhuk. Com pena desses soldados desiludidos, famílias curdas lhes davam dinheiro e comida. Os comandantes explicavam sua posição: a política de Saddam prejudicara a nação e humilhara o exército.

Mas esses militares não sabiam para onde ir. Com coragem para desafiar a disciplina militar, não a tinham suficiente para marchar sobre Bagdá. Em sua hesitação, depuseram deliberadamente as armas. Mesmo no Sul, a insurreição mais parecia de desespero do que um movimento com objetivos políticos claros. No Norte, como no Sul, o nível de despolitização dos militares era gritante.

Já a terceira seção do exército, sediada no centro do país, deu provas de coesão e manteve sua fidelidade ao regime. Composta, basicamente, por unidades da Guarda Republicana – como as divisões Madina e Hamurabi –, tornou-se a principal arma do presidente Saddam Hussein. O alto comando mantivera ali essas unidades para a eventualidade de um contra-ataque que nunca ocorreu. Ilesos, esses soldados atacaram os insurrectos, dizimados e mal armados, e acabaram por salvar o regime. Essas tropas – que haviam sido poupadas pelo governo de Bush pai para garantir a defesa nacional – cumpriram com perfeição seu papel de baluarte do regime.

A “tribalização” da sociedade e as mudanças

Vários fatores podem explicar essa coesão. A alta densidade de redes do partido e dos clãs dentro da Guarda Republicana – se comparada com sua presença no exército regular – desempenhou um papel crucial. Esses oficiais e soldados deixaram-se unir pelo sentimento de uma ameaça coletiva que pairava sobre eles, o que permitiu ao governo enviá-los para esmagar a rebelião. Seu moral estava bem mais alto, já que suas posições haviam sido relativamente poupadas durante a guerra.

A partir de 1991, o regime adotou uma estratégia de reestruturação destinada a pôr ordem no comando e nas instituições. Preparou um remanejamento do grupo dirigente, que já começava a dar sinais de desunião; preparou uma sucessão lenta e gradual; impôs um retorno à “tribalização” da sociedade e reorganizou integralmente o exército. Em 22 anos, de 1968 a 1990, sucederam-se quatro ministros da Defesa; de 1991 a 1996 ocorreram quatro mudanças. Saddam Hussein sempre havia deixado o ministério nas mãos do clã al-Majid, mas em 1996 – procurando agradar às instituições militares e levantar o moral da tropa – escolheu um veterano militar da geração jovem. Fruto dessa política, Thabit Sultan, o atual ministro da Defesa, substituiu o sinistro Ali Hassan al-Majid.

Paradoxalmente, a devastadora campanha aérea da coalizão aliada desmantelou as unidades rebeladas, impedindo-as de lutar eficazmente contra o regime

Mas a grande mudança foi a redução das forças armadas, que passaram de um contingente de um milhão para 350 mil homens. O estoque de armamento caiu para a metade do que existia antes de 1991; excetuando-se os sistemas de defesa aérea, não houve qualquer melhoria no material. A diminuição de efetivos militares permitiu ao regime reduzir as despesas e aumentar a densidade dos grupos clânicos que, antes da guerra, se encontravam perigosamente diluídos. Por outro lado, aumentou o fosso que separava o exército regular das tropas de elite. Em termos quantitativos, a Guarda Republicana conta atualmente com o mesmo número de divisões blindadas e mecanizadas que o exército regular, perdendo para este apenas no número de divisões de infantaria.

A coesão da elite no poder

Na realidade, as forças armadas abrangem atualmente quatro seções: as unidades especiais da Guarda Republicana, compostas por um corpo com três divisões (algumas avaliações calculam um número de oito brigadas); a Guarda Republicana propriamente dita, com três divisões blindadas, três divisões mecanizadas e duas divisões de infantaria; o exército regular, que compreende quatro divisões blindadas, três mecanizadas e quinze de infantaria; e uma série de unidades tribais, encarregadas de abafar qualquer desordem civil, mas que também podem representar uma força formidável em caso de combates de rua. Finalmente, é necessário frisar que o número de pessoas originárias do mesmo clã de Saddam Hussein representa, respectivamente, 35% e 85% dos oficiais de patente superior e média: um fator de coesão impressionante!

A guerra atualmente prevista é de natureza diferente daquela de 1991, tanto em termos de objetivos, quanto da conduta das operações e zonas de combates. A dimensão política da campanha determinará, de maneira bem mais importante do que antes, a atitude do exército. Como os Estados Unidos procuram abertamente derrubar o regime, as operações deverão se concentrar para a tomada da sede do poder, Bagdá. Sem reviravoltas em algumas unidades iraquianas importantes e sem um golpe de Estado bem-sucedido, o principal objetivo não será alcançado senão por uma invasão e ocupação total. A rápida vitória no Afeganistão não serve de modelo para o Iraque. Quebrar a unidade da “classe-clã” no poder pode se mostrar uma tarefa difícil, principalmente porque os Estados Unidos não parecem se preocupar com a coesão da elite no poder.

A rivalidade entre sunitas e xiitas

Após o final da guerra do Golfo, a grande mudança foi a redução das forças armadas, que passaram de um contingente de um milhão para 350 mil homens

O regime de Bagdá enfrenta dois problemas aparentemente insuperáveis. Em primeiro lugar, a natureza do conflito que se anuncia: desta vez, é a sobrevivência do regime que está em pauta. Além disso, a classe que está no poder está plenamente consciente do fosso intransponível que se impôs entre o nacionalismo oficial e o nacionalismo popular. E também compreende, angustiada, que o exército iraquiano não tem condições de enfrentar as tropas norte-americanas e eventuais aliados.

Bagdá vem imaginando várias alternativas. Inicialmente, o regime tentou manipular o sentimento de ameaça coletiva induzido pelos Estados Unidos, estendendo-o ao conjunto da elite no poder. Diante do medo de uma aniquilação total, seus membros poderiam, na verdade, unir-se para lutar em massa até o fim. Esse sentimento de vulnerabilidade coletiva é reforçado pelo fato de que os Estados Unidos não tentaram provocar fraturas entre a elite.

Em segundo lugar, diante da fragilidade intrínseca do nacionalismo oficial, o regime apelou para formas religiosas populares e institucionais – respectivamente o sentimento comunitário anti-xiita entre os sunitas e as fatwas2 das autoridades xiitas para condenar a oposição xiita.

Dois (ou três) centros de poder

Em terceiro lugar, o regime fez da fortificação das cidades o ponto central de sua estratégia militar, considerando-as como o melhor dos campos de batalha. Isto aumenta o risco de consideráveis perdas civis e pode atrasar ou restringir as operações norte-americanas, compensando, assim, a fragilidade do exército iraquiano e permitindo alcançar o sonho do regime: provocar o máximo número possível de baixas entre os norte-americanos.

Em quarto lugar, um minucioso plano de utilização dos meios de comunicação internacionais foi elaborado na esperança de deter as forças de invasão antes de sua chegada a Bagdá. No deserto, são raras as ocasiões de uma cobertura espetacular por parte da imprensa. Durante a guerra do Golfo de 1991, as forças da coalizão controlavam a cobertura da mídia. O regime iraquiano pretende reverter essa situação. Foram instalados dez centros de informação para a mídia em diversos locais subterrâneos.

Em quinto lugar, para garantir a continuidade do poder, o regime criou um sistema bipolar: Saddam Hussein e seu filho, Qusai, o atual presidente e seu sucessor. Também vem sendo avaliada a possibilidade de um terceiro centro de poder, embora não tenha sido divulgado, com o comandante da Guarda Republicana, general Kamal Mustapha.

Os riscos de uma guerra civil

Sem reviravoltas em unidades iraquianas importantes e sem um golpe de Estado bem-sucedido, o principal objetivo não será alcançado senão por uma invasão e ocupação total

Finalmente, para impedir qualquer tipo de revolta entre a população civil, os comandantes militares ocuparam os postos dos governadores civis através do país. As unidades tribais leais a Saddam Hussein também foram deslocadas maciçamente para os centros urbanos. Com todas essas medidas – e ainda mais algumas – o regime demonstra conhecer suas próprias fraquezas, assim como as limitações do campo adversário.

A acreditar na experiência de 1991, as duas alas do exército – o exército regular e a Guarda Republicana – poderiam, conforme as circunstâncias, lutar, rebelar-se ou desintegrar-se. Qualquer dessas possibilidades sairia vencedora, de acordo com o momento e o lugar. Quanto à organização de um golpe de Estado, é uma hipótese que parece mais complicada. O exército já não se encontra politizado, como estava em 1958; nessa época, bastava que uma décima parte das forças armadas aderisse a um movimento golpista para que o restante fosse neutralizado. Nas atuais circunstâncias, seria necessário mobilizar um autêntico corpo do exército (três ou quatro divisões) e neutralizar politicamente outras três. Sem a cooperação de uma proporção considerável dos membros do clã Beijat – o do presidente – isso é bastante improvável.

Conseguirá a política dos Estados Unidos e de seus aliados atrair uma parte das elites tribais atualmente no poder? Uma tentativa abortada de golpe de Estado poderia resultar em insurreições dispersas, aumentando os riscos de uma guerra civil. Então, o número de perdas civis seria dramático, o ritmo da guerra se banalizaria e a multiplicação de forças incontroláveis desafiaria nossos piores pesadelos.

(Trad.: Jô Amado)

1 - N.T.: “Monstro do caos”, na mitologia fenícia.
2 - N.T.: Decretos religiosos.




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