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GEOPOLÍTICA

A base dos EUA na Ásia central

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Para deslanchar a guerra contra o terrorismo internacional, os Estados Unidos estabeleceram bases militares, na Ásia central, no Uzbequistão, na Quirguízia e no Tadjiquistão. Mas, evidentemente, há o projeto do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan

Vicken Cheterian - (01/02/2003)

As primeiras tropas norte-americanas chegaram à base uzbeque de Khanabad, de onde tiveram um papel importante na campanha aérea contra as forças taliban

Os veículos militares deixam a base das forças da coalizão no aeroporto de Manas, perto da capital da Quirguízia. Dirigem-se para o vilarejo vizinho de Marmanaya. Chegando àquela aldeia de 1.700 habitantes, os carros param na estrada e os soldados dão início à patrulha de rotina. O ambiente é descontraído; alguns militares norte-americanos e noruegueses distribuem biscoitos às crianças. No centro do vilarejo, o prefeito Jindizbele Mazhitov e muitos moradores começam uma discussão. Queixam-se do barulho dos aviões militares que passam por ali dia e noite, do fato de ninguém da aldeia trabalhar na base, das estradas em mau estado, das escolas que precisam de reforma. Os moradores do vilarejo esperam que a chegada de 1.900 soldados procedentes de sete países mais ou menos próximos provoque uma mudança em suas vidas.

Para travar sua guerra contra o terrorismo internacional, Washington enviou tropas sob seu comando a muitos países da ex-União Soviética. As primeiras chegaram à base aérea uzbeque de Khanabad, de onde tiveram um papel importante na campanha aérea contra as forças taliban estabelecidas no norte do Afeganistão. Desde então as forças norte-americanas estão estacionadas em outras bases – no Tadjiquistão e nas proximidades do aeroporto de Manas, na Quirguízia. Um grupo de 200 soldados das forças especiais chegou à Geórgia para organizar o exército local e ajudá-lo a conduzir operações anti-terroristas nos desfiladeiros de Pankisi, nas imediações da conturbada fronteira da Chechênia. Na realidade, os eventos de 11 de setembro aceleraram as tendências que já se manifestavam há uma década: o enfraquecimento do poder de Moscou, e a presença da nova hiperpotência mundial.

Pressões políticas dos EUA

O 11 de setembro acelerou uma tendência que já se manifestava há uma década: a perda de poder de Moscou e a presença da nova hiperpotência mundial

A chegada dos americanos despertou a esperança das populações. A Quirguízia recebeu 24 milhões de dólares em benefícios econômicos, a ajuda militar à Geórgia para a formação de quatro batalhões, cada um com cem soldados, é avaliada em 64 milhões de dólares e, ainda, 100 milhões para auxiliar o desenvolvimento. Mas quem tem mais razão para se alegrar é o presidente uzbeque, Islam Karimov: “Os Estados Unidos tiveram um importante papel na eliminação dos taliban e da máquina terrorista. Por tabela, libertaram o Uzbequistão de qualquer ameaça de agressão militar ou ideológica”, explicou pela rádio nacional1. E acrescentou: “Penso que ficarão aqui o tempo que for necessário para nos proteger”.

Não só a campanha militar norte-americana ajudou o presidente uzbeque a destruir as bases afegãs do Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU) -cujas incursões até a fronteira o incomodavam cada vez mais - mas também lhe deu um cheque de 160 milhões de dólares. E o mais importante, a visão de mundo do Washington coincide com a que Tachkent faz de si há anos: a ameaça à ordem do lugar provém dos militantes islâmicos radicais, que devem ser combatidos com determinação.

No entanto, a intervenção norte-americana na Ásia central também suscita expectativas entre os grupos de oposição. Para Boris Shikhmuradov - fundador do Movimento Democrático Popular do Turcomenistão e ex-ministro das Relações Exteriores, preso em condições obscuras em dezembro de 2002 - e para Akezhan Kazhegeldin, ex-primeiro-ministro cazaque, o envolvimento norte-americano e ocidental representa um avanço para a democracia2. Realmente, a quase totalidade da ajuda dos Estados Unidos ao Uzbequistão, ao Cazaquistão e à Geórgia contribui para o desenvolvimento, não apenas da economia de mercado, mas também de um sistema político democrático. A pressão política exercida por Washington levou o Uzbequistão a assinar, em março de 2002, uma declaração conjunta com os Estados Unidos na qual se comprometeu a garantir “uma sociedade civil forte e aberta”, “o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades”, “um verdadeiro sistema multipartidário”, “eleições livres e eqüitativas”, “a pluralidade política, a diversidade de opiniões e a liberdade de expressá-las”, “a independência da imprensa” e “a independência da justiça”.

Conciliação e choque de interesses

A visão de mundo do Washington coincide com a que Tachkent faz de si há anos: a ameaça à ordem do lugar provém dos militantes islâmicos radicais

E, segundo Washington, esses compromissos já começam a se traduzir em realidade, mesmo com as dificuldades do Uzbequistão: no início deste ano, Tachkent aboliu a censura e autorizou oficialmente a presença de uma organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos. O secretário de Estado Colin Powell relatou ao Congresso norte-americano que o Uzbequistão está fazendo “progressos substanciais e contínuos” em matéria de direitos humanos e adesão à democracia. A Human Rights Watch e outras ONGs assinalam que esses progressos permanecem muito limitados e desejam mais pressões de Washington3.

A situação nos países vizinhos parece muito pior. Em Almaty, vários jornalistas foram atacados ou mortos - Sergei Duvanov, preso sob a alegação de estupro, permanece preso. Na Quirguízia, Feliks Kulov, um dirigente da oposição, foi condenado em maio de 2002 a dez anos de prisão por corrupção; em junho, a prisão do deputado Azimbek Beknazarov, de oposição, provocou manifestações na cidade de Jalalabad - as forças armadas abriram fogo e mataram pelo menos cinco manifestantes. Quanto ao Turcomenistão, a tentativa de assassinato de seu chefe de Estado, em 25 de novembro de 2002, provocou uma nova onda de repressão e levou o país à beira da guerra com o Uzbequistão.

Dez anos atrás, o colapso da União Soviética representava uma mistura de esperança, incerteza e decepção. As forças de oposição compunham-se, então, de nacionalistas e reformadores pró-ocidentais. Desde então, o nível de vida caiu brutalmente e a ideologia nacionalista foi usurpada pelas elites que se aproveitaram da recém-nascida independência. O Islã afirmou-se como a principal barreira da contestação, do Uzbequistão ao norte do Cáucaso. Porém, mesmo para os islâmicos radicais, o inimigo número um era a Rússia: os dirigentes locais não passavam de apêndices da nomenklatura soviética ligados a Moscou. As forças de oposição – inclusive muitos islâmicos radicais – não punham Washington entre seus adversários: ao contrário, desejavam uma maior influência dos ocidentais sobre as autoridades locais. Mas a aliança militar direta concluída entre Washington e os dirigentes da Ásia central, assim como a continuidade da presença das tropas norte-americanas na região, poderiam modificar este sentimento e difundir a crença de que as elites locais são diretamente dependentes de uma América em guerra contra os movimentos islâmicos do mundo inteiro.

Uma coexistência difícil

O secretário de Estado Colin Powell declarou que o Uzbequistão está fazendo “progressos substanciais e contínuos” em matéria de direitos humanos

A política norte-americana preocupa bastante Moscou. “Apesar de suas posições amplamente pró-russas, os dois últimos governos norte-americanos não impediram iniciativas políticas importantes que prejudicaram a Rússia – o Kosovo, a constituição de uma zona de influência no ‘exterior próximo4’, o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, a ampliação da Otan, as bases militares na Ásia central”, explica Charles Fairbanks, especialista em assuntos relativos à Rússia e professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados de Washington.

Com a chegada de Vladimir Putin ao poder, o exército russo esperava pôr fim ao declínio de sua influência. O Estado-Maior russo pretendia esmagar a resistência chechena, aumentar sua influência no sul do Cáucaso e sobre a Ásia central. Mas viu suas expectativas frustradas com a guerra do Afeganistão e a presença militar norte-americana na região. Na Geórgia, na Quirguízia e no Tadjiquistão estão agora lado a lado as antigas bases soviéticas, dirigidas por oficiais russos com recrutas locais, e as tropas da coalizão internacional dirigida pelos Estados Unidos.

Como irão essas forças coexistir a médio ou longo prazo? Ninguém sabe. Nos bastidores, a luta pela hegemonia vai crescendo. Segundo Oksana Antenenko, especialista em assuntos relativos à Rússia do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, “já se pode observar certas tensões nos países em que há presença militar paralela, como o Tadjiquistão ou a Quirguízia, assim como em países em que há cooperação militar com ambos - Rússia e Estados Unidos - como o Cazaquistão ou a Armênia. Os Estados Unidos reformam as estruturas de defesa e treinam oficiais, enquanto os russos se contentam a fornecer armas baratas. Em resumo, esses países dependem dos russos para seu armamento, mas sua direção militar depende cada vez mais dos Estados Unidos”.

A questão da Chechênia

Nos últimos dez anos, o nível de vida caiu brutalmente nos países da Ásia central e a ideologia nacionalista foi usurpada pelas elites

Conseqüentemente, a influência política de Moscou está em queda livre. Em 5 de novembro, os dirigentes russos convocaram, às pressas, uma reunião do Tratado de Segurança Coletiva da Comunidade dos Estados Independentes (CEI): Imomali Rakhmonov, presidente do Tadjiquistão, onde estão sediados 25 mil soldados russos, acabava de declarar que colaboraria com os Estados Unidos no caso de uma guerra contra o Iraque. A reunião não conseguiu alinhar firmemente os países membros da CEI à orientação de Moscou5.

Se Moscou soube manter a calma após os atentados de 11 de setembro de 2002 – ao anunciar publicamente sua intenção de colaborar com os Estados Unidos na campanha militar no Afeganistão – o Kremlin e seu exército reagiram com muito mais violência no caso do Cáucaso. Durante um certo período, Moscou acusou Tbilisi de proteger os combatentes chechenos na região dos desfiladeiros de Pankisi (região da Geórgia habitada por uma minoria étnica chechena e que acolhe refugiados da Chechênia). Tbilisi negou. Os combatentes chechenos, contudo, estavam de fato no território da Geórgia e, o que é pior, colaboravam ativamente com o Ministério do Interior da Geórgia: em outubro de 2001, forças chechenas comandadas por Ruslan Gelayev atacaram posições abkases a leste de Soukhoumi6. Ora, sem a ajuda da Geórgia, essas tropas não teriam tido nem motivação, nem a capacidade logística necessária para se deslocarem da região do Pankisi, no nordeste da Geórgia, até a Svanétia, região do noroeste do país, para atacar a partir daí. Os oficiais georgianos não apenas recusaram qualquer intervenção militar em seu território, mas também tentam utilizar o problema checheno como meio de pressão para modificar a posição de Moscou sobre um certo número de causas pendentes, particularmente, sobre os conflitos na Abkásia e na Ossétia do Sul. A posição da Geórgia acabou mudando e aceitou que os Estados Unidos enviassem duzentos especialistas militares para lutar contra os remanescentes da Al-Qaida nos desfiladeiros de Pankisi.

Construindo o exército da Geórgia

A estratégia norte-americana preocupa bastante Moscou: o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, a ampliação da Otan e as bases militares na Ásia central

Ao contrário dos acontecimentos da Ásia central, os que se ocorreram ao sul de suas fronteiras caucasianas irritaram os dirigentes em Moscou. Por várias vezes, a aviação russa bombardeou posições na Geórgia7. O discurso de Moscou era tão agressivo que, em setembro de 2002, acreditava-se que a Rússia se preparava para invadir a Geórgia. Depois, a ameaça de guerra diminuiu, mas a pressão de Moscou sobre a Geórgia continuou; a Rússia dispõe de uma arma que utilizou no passado: cortar o envio de gás à Geórgia, causando cortes de eletricidade, especialmente em Tbilisi, durante os meses de inverno.

Os georgianos esperam pelo apoio militar e auxílio ao desenvolvimento por parte dos Estados Unidos para resistir às pressões russas. Porém, sua economia vai mal: ineficiência, corrupção governamental e clientelismo somam-se às preocupações de um país cujas autoridades centrais não controlam a maior parte do território. Nos últimos dois anos, a comunidade de estrangeiros - especialmente os que estão em missão de ajuda humanitária, os diplomatas ou homens de negócios - tem sido alvo da criminalidade. Construir as forças armadas na Geórgia é o objetivo da presença militar norte-americana, e nesse contexto mostra ser um duro desafio.

Oficialmente, o país conta com 20 mil homens armados, um número pequeno, mas fontes bem informadas avaliam que esse número é exagerado. O orçamento anual do exército é de 23 milhões de dólares, ou seja 0,59% do PIB8. A maioria dos soldados e oficiais não são remunerados. Um oficial contava recentemente que deixou o exército três anos antes, pois não havia recebido salário algum durante dez meses seguidos. No entanto, ele ainda é considerado oficial, o que lhe permite pagar a metade do preço de todos os serviços públicos. Para os consultores militares norte-americanos, o mais difícil será reformar as estruturas do comando militar: a Geórgia tem sete – e a do exército regular não é a mais poderosa. Essa é uma divisão clássica nos países em que os dirigentes, por não confiarem na lealdade das forças armadas, multiplicam os organismos para controlá-los melhor.

O “grande jogo do petróleo”

Na Geórgia, na Quirguízia e no Tadjiquistão estão agora lado a lado as antigas bases soviéticas e as tropas da coalizão comandada pelos Estados Unidos

Uma coisa é certa: a ajuda militar norte-americana reacenderá as rivalidade locais. Na Ásia central, o poder e a influência crescentes do Uzbequistão reanimarão os medos e os invejas dos países vizinhos, que buscam meios de garantir sua segurança. Pela primeira vez, no final de novembro de 2002, forças chinesas participaram de manobras militares na Quirguízia, que abriga uma nova base militar russa em seu território9. No Cáucaso, a chegada dos conselheiros militares norte-americanos à Geórgia suscitou críticas em Erevan onde, contudo, as relações com Washington são boas - a Armênia está, depois de Israel, no topo do auxílio norte-americano por habitante. Erevan inquieta-se que a presença militar norte-americana na Geórgia não enfraqueça a presença dos russos e intensifique a influência de Ancara. Especialistas turcos já reformaram a antiga base aérea russa situada nas proximidades da cidade de Marneuli, no sul da Geórgia. Erevan também se preocupa com as pressões norte-americanas pelo desmantelamento das bases russas da Geórgia, especialmente as Batumi e Akhalkalaki, cuja evacuação levará a restringir as forças russas em terras armênias. Onze anos depois do colapso da União Soviética, Ancara continua a recusar abrir suas fronteiras e estabelecer laços diplomáticos com a Armênia.

A chegada das forças especiais norte-americanas à Geórgia - tão longe do campo de batalha afegão - reacendeu especulações a respeito do grande jogo do petróleo. Os investimentos ocidentais no setor petrolífero da região do Mar Cáspio revelam sua importância. Empresas ocidentais investiram aproximadamente 13 bilhões de dólares no Cazaquistão desde 1993, e perto de 8 bilhões de dólares no Azerbaijão desde 1994, enquanto seus investimentos na Rússia desde 1993 totalizam apenas 5 bilhões de dólares10. Ao contrário do Cazaquistão e do Azerbaijão, a Rússia recusa-se a ceder aos estrangeiros a propriedade ou a gestão de seus recursos energéticos.

A guerra aos grupos islâmicos

A chegada das tropas norte-americanas à Geórgia - tão longe do campo de batalha afegão - reacendeu especulações a respeito do grande jogo do petróleo

A importância do petróleo nessa região foi superestimada em meados da década de 90. Os 200 bilhões de barris de reservas repetidamente anunciados por uma fonte norte-americana eram irreais e provavelmente refletiam os interesses estratégicos dos Estados Unidos. A queda do preço do petróleo, no final daquela década, e a escassez dos novos recursos petrolíferos no Azerbaijão na região do Mar Cáspio provocaram a partida de inúmeros gigantes do petróleo de Baku. Por outro lado, a descoberta em 1999 de um imenso campo em Kashagan, em território cazaque, reabriu as discussões e o debate sobre a construção do maior oleoduto entre Baku (Azerbaijão) e Ceyhan (Turquia). As tensões crescentes nas relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, além da incerteza da Venezuela e a perspectiva de uma guerra no Iraque, levarão os países ocidentais, entre os quais os Estados Unidos, a buscar novas fontes confiáveis de petróleo pelo mundo afora.

Por isso, a região do Cáspio poderia novamente tornar-se um ponto de interesse para Washington e Moscou. A Rússia tenta aumentar seu poder de negociação com a Europa e os norte-americanos tornando-se a alternativa ao Golfo no fornecimento de petróleo e gás, e se impondo novamente aos seus antigos satélites através do domínio de seus setores energéticos. Mas os Estados Unidos rejeitaram suas tentativas de trocar a dívida de gás da Geórgia, de 90 milhões de dólares, por sua companhia distribuidora de gás11.

De momento, os temores de Washington quanto à segurança e os da maioria dos Estados do Cáucaso e da Ásia central coincidem. Washington focaliza os grupos islâmicos radicais, que considera seus inimigos tanto na região quanto no mundo inteiro. Procurando esmagá-los, os Estados Unidos pensam simultaneamente controlar as fontes de hidrocarbonetos. Com esta visão de curto prazo, são incapazes de compreender e conduzir as causas internas da dissidência nesses países: os dirigentes locais não atendem às necessidades dos cidadãos e se apóiam cada vez mais na repressão para se manterem no poder. O auxílio militar norte-americano e a aliança com Washington lhes permite fazer calar um pouco mais as vozes liberais e reformistas. E o campo político permanecerá dividido entre regimes ilegítimos e repressivos, de um lado, e as forças clandestinas, radicais e violentas.

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Citado pela BBC Monitoring, 30 de agosto de 2002.
2 - Ler, de Zamira Eshanova, Asie Centrale, Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL), Praga, 4 de julho de 2002.
3 - Human Rights Watch, Nova York, 9 de setembro de 2002, site: http://www.hrw.org/press/2002/09/uz...
4 - Expressão que, no jargão político russo, designava as repúblicas asiáticas da ex-URSS.
5 - Oleg Yelenskii, Nezavisimaya Gazeta, Moscou, 6 de novembro de 2002. O Tratado de Segurança Coletiva da CEI reúne a Rússia, a Armênia, a Bielorússia, o Cazaquistão, a Quirguízia e o Tadjiquistão.
6 - A Abkázia é uma região da Geórgia que se dividiu após o desaparecimento da União Soviética e que Tbilisi não conseguiu reunificar. Cf. “La Géorgie face à ses minorités”, Le Monde diplomatique, dezembro de 1998.
7 - Novaya Gazeta, Moscou, 9 de setembro de 2002.
8 - Ler CIA, The World Factbook, 2002, no site: www.cia.gov/cia/publications...
9 - Ler, de Sanobar Shermatova, “Russia’s Motives in Kyrgyzstan”, Moscow News, 29 de dezembro de 2002 (www.mn.ru/english/issue.php?... ou www.mn.ru/english/issue.php?...).
10 - Neela Banerjee e Sabrina Tavernise, New York Times, Nova York, 24 de novembro de 2002.
11 - Michael Lelyveld, RFE/RL, Boston, 1º de outubro de 2002.




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