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PALESTINA

Rumo a soluções catastróficas?

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Por não considerar que os atentados-suicidas são uma forma de luta dos palestinos contra a ocupação e as agressões de seu exército, a tese da “transferência”, ou melhor, expulsão maciça dos palestinos ganha adeptos em Israel

Amira Hass - (01/02/2003)

Os israelenses não consideram os atentados-suicidas como uma forma de luta contra a ocupação, nem como uma vingança contra as agressões de seu exército

No final do mês de dezembro de 2002, um diplomata europeu descobriu uma nova placa numa estrada do vale do Jordão: chamava-se, agora, “Ghandi” – paradoxalmente, o nome-de-guerra do general Rehavam Zeevi, fundador do partido Moledet, que defendera explicitamente a “transferência” dos palestinos para os países árabes. Seria uma brincadeira de mau gosto ou um cinismo deliberado? A placa estava pouco antes da bifurcação da estrada na direção Leste, onde leva para a ponte Allenby (divisa com a fronteira jordaniana) – justamente a direção da “transferência” desejada pelo homem que um comando da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) assassinou em outubro de 2001.

Pouco antes de sua morte, após um novo atentado-suicida, Rehavam Zeevi ousara novamente declarar, em alto e bom som, que a única “solução” era a “transferência” (“aceita”) dos árabes. Sentindo-se suficientemente seguro, transmitiu por rádio, abertamente, a mensagem que, durante anos, fora obrigado a camuflar. Isso porque os israelenses não consideram os atentados-suicidas como uma forma de luta contra a ocupação, nem como uma vingança contra as agressões do exército – que fizeram pelo menos 2 mil mortos palestinos, 1.500 dos quais, civis: o que vêem é a prova de que os palestinos pretendem apagar o Estado de Israel do mapa e “matar os judeus porque são judeus”.

Cresce o peso da extrema-direita

Assim sendo, a “iniciativa da transferência” apresenta-se como uma solução defensiva, uma “resposta humana” para uma situação sem saída. E as autoridades legais nada fazem para impedir a propagação dessa idéia. O que fica pouco claro é quem é a população alvejada. Os palestinos que moram na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Os refugiados? Ou todos os árabes que vivem entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, inclusive os cidadãos israelenses?

A “iniciativa da transferência” apresenta-se como uma solução defensiva, uma “resposta humana” para uma situação sem saída

Ao recomendar às escolas que se comemorasse o aniversário da morte de Rehavam Zeevi, o ministro da Educação legitimou esse debate. E, de fato, surgiram bandeirolas com dizeres como: “Sem árabes, sem atentados”, “Transferência = paz”, ou “A Palestina é a Jordânia”. Uma pesquisa revela que 20% dos judeus “considerariam” votar no partido de extrema-direita Kach (que significa “É assim”), fundado pelo rabino Meir Kahane e proibido desde 1988, caso este tivesse autorização para concorrer às eleições. E 73% dos moradores das novas cidades-satélites avaliam que Israel deveria incentivar a emigração dos árabes israelenses – 87% dos religiosos e 76% dos imigrantes da ex-União Soviética partilham da mesma opinião. Na década de 80, o partido Kach obtivera uma única cadeira no Parlamento, ou seja, 1,5% dos votos.

Comparações com a expulsão de 1948

Com a ajuda de empresas de recursos humanos sediadas em outros países, que publicam ofertas de emprego nos jornais árabes, os militantes do partido Moledet (“Pátria”) propõem trabalho no exterior para os palestinos. Procuram, dessa maneira, provar que é legal, e até “humano”, “incentivar a emigração”. Mas todos concordam que uma “transferência voluntária” de centenas de milhares de pessoas está fora de cogitação: seria, necessariamente, “forçada”. No entanto, o segundo candidato mais importante da lista do Moledet, professor Arieh Eldad, ex-comandante do serviço de saúde do exército, faz uma distinção entre a transferência “voluntária” e a “aceita”: a primeira pressupõe que todos os palestinos aceitem emigrar (embora seja pouco provável, como reconhece o próprio Eldad, que um fellah1 abandone sua terra por vontade própria); a segunda, prossegue, ocorreria com o aval da comunidade internacional, o que o Moledet vem tentando conseguir.

À direita, há quem vá mais longe: ligam a “transferência” ao conflito. Effi Eitam, principal liderança do Partido Nacional Religioso (Mafdal), imagina uma soberania israelense que abranja todo o território entre o Mediterrâneo e o rio Jordão e um Estado palestino que surgiria na Jordânia e no Sinai. Os palestinos teriam, então, a alternativa de viver num “domicílio revelado”, na Grande Israel, ou uma “cidadania obscura”, no Estado palestino. “Eu não falaria de transferência”, explica2. “Não a considero uma opção política, nem uma coisa moralmente aceitável”, mas uma guerra é “um jogo com outras regras”. O ex-general afirmou que não procura a guerra, mas acha que, quando esta eclodir, “inúmeros cidadãos árabes não ficarão aqui”. E fez um paralelo com a guerra de 1948, quando cerca de 800 mil palestinos foram expulsos...

Guardando trunfos “catastróficos”

Com a ajuda de empresas de recursos humanos sediadas em outros países, os militantes do partido Moledet propõem emprego no exterior para os palestinos

Mais direto, o prefeito da colônia de Kyriat Arba, Zvi Katzover, um dos fundadores do movimento colonizador Gush Emunim (“Bloco da Fé”), deu a seguinte resposta a um jornalista no final de novembro de 2002, após a batalha de Hebron, que deixou 12 soldados israelenses e três palestinos mortos: “Quando começar a grande guerra e os árabes forem embora, será possível reocupar as casas.” (As “casas” mencionadas são aquelas em que judeus moravam antes do massacre de 1929.)

Os partidários da “transferência” continuam sendo minoritários e suas idéias, consideradas irrealistas e imorais. Nos jornais, editoriais e cartas de leitores os condenam, ainda que algumas, mais freqüentes do que antes, os aprovem. O Likud e a maioria dos outros partidos de direita não discutem esse tema. No entanto, vale perguntar se, por trás dos esforços para preparar a opinião pública, algumas lideranças políticas e militares não estarão guardando em suas gavetas roteiros verdadeiramente catastróficos. Estarão as forças democráticas em condições de os impedir a tempo? Todos os palestinos – sejam eles cidadãos israelenses ou moradores de Gaza e da Cisjordânia – guardam em sua memória a expulsão de 1948. Constantemente, juram: “Desta vez não permitiremos que nos expulsem.” Essa consciência do perigo, assim como o conhecimento que adquiriram em matéria de recorrer a instâncias legais e os vínculos que estabeleceram, de um e do outro lado da Linha Verde, com a comunidade internacional, representam inúmeros obstáculos.

A lei contra o racismo

A comissão eleitoral do Parlamento, majoritariamente de direita, tentou impedir a participação, nas eleições de 28 de janeiro de 2003, de uma lista árabe (a da Aliança Nacional Democrática) e de dois candidatos: Ahmad Tibi e Azmi Bishara. Elyakim Rubinstein, assessor jurídico do governo, criticou Bishara, acusando-o de defender a destruição do Estado de Israel e de apoiar o terrorismo. Mas também atacou a candidatura do ex-número 2 do Kach, Baruch Marzel, atualmente candidato por outro partido de extrema-direita, o Herut (“Liberdade”), que tenta atenuar a mensagem da “transferência”, mas se recusa a opinar sobre as tentativas de criar a “transferência aceita”, que propõe aos palestinos empregos no exterior.

A esquerda convocou uma mobilização contra essa tentativa de “transferência por via parlamentar”: 20% de cidadãos árabes, de nacionalidade israelense, teriam sido privados de seus direitos civis. Mas as manifestações não juntaram grandes multidões. A reviravolta veio da Corte Suprema que, no dia 9 de janeiro de 2003, autorizou, finalmente, a participação da Aliança Nacional Democrática, oferecendo assim à democracia israelense uma bóia de salvação contra a perspectiva de um boicote maciço da votação por parte dos palestinos...

Todos concordam que uma “transferência voluntária” de centenas de milhares de pessoas está fora de cogitação: seria, necessariamente, “forçada”

O mesmo Elyakim Rubinstein assumira posição contra a “transferência”, mas se recusara a processar os que a defendiam. Resposta de um parlamentar trabalhista, que exigia a realização de uma pesquisa para apurar quem era favorável à “emigração voluntária”: a lei fundamental contra o racismo proíbe distinguir “transferência” voluntária de “transferência” forçada. Nessa mesma linha de pensamento, a juventude do Partido Trabalhista participou de uma iniciativa de militantes da organização “Coragem de recusar” – que reúne oficiais que se recusam a servir nos territórios ocupados – que consistia em apagar pichações racistas. Alguns dos mais velhos, porém, revoltaram-se, pois consideravam os opositores ao alistamento como “traidores anti-sionistas”.

“Mini-transferências” já começaram

Há outras correntes de esquerda que se opõem à recusa a servir ao exército: o exército não deve ser deixado nas mãos da direita e dos colonos que, a qualquer momento, podem resolver pôr em prática a “transferência”. De fato, várias pesquisas revelam que a proporção de imigrantes originários da ex-URSS nas unidades em combate aumentou muito, assim como a de adeptos da direita religiosa entre os oficiais superiores – dois grupos em que a idéia da “transferência” goza de um sólido apoio. Nos territórios ocupados, a presença de militares pacifistas não impede que se façam “mini-transferências”. A velha cidade de Hebron, onde moram 500 colonos judeus bastante agressivos, viu esvaziar-se boa parte de sua população palestina, que não suportava mais as constantes perseguições de seus “vizinhos” judeus. Assim como não suportam o toque de recolher, praticamente permanente, que lhes é imposto pelo exército em nome da segurança desses “vizinhos”. No norte da Cisjordânia, cerca de 180 moradores do vilarejo de Yanoun tiveram que abandonar suas casas e se instalar mais longe devido à crescente pressão e às agressões dos habitantes de Itamar, a colônia vizinha.

Essas “mini-transferências” foram percebidas pela opinião pública israelense e realizaram-se manifestações. Estas não impediram, entretanto, que nos dois últimos anos os palestinos fossem perdendo, num ritmo acelerado, suas terras e seu espaço.

Enclaves-prisões incomunicáveis

Todos os palestinos guardam em sua memória a expulsão de 1948. Constantemente, juram: “Desta vez não permitiremos que nos expulsem...”

Esse “bloqueio interno” mantém aprisionados, em suas cidades e aldeias, dois milhões e meio de palestinos na Cisjordânia e um milhão na Faixa de Gaza: devido ao sangrento conflito que eclodiu em setembro de 2000, o exército os proibiu (com exceção de um pequeno número de pessoas portadoras de salvo-condutos) de se deslocarem pelas estradas principais, de sair dos municípios em que residem e de viajarem a outras cidades. Ao redor das cidades, construiu-se um sistema de barreiras, portões de ferro, montes de areia, tanques e patrulhas militares que dificulta a mobilidade – mas não impede que continuem sendo praticados atentados em Israel por pessoas que furam esses cercos. Quem consiga viajar pelas estradas reservadas aos israelenses pode ter a impressão de que a expulsão já se concretizou: estradas vazias, vilarejos palestinos desertos, terras e hortas abandonadas. Muitos habitantes foram morar nas cidades, para evitar a revista diária das patrulhas.

Perseguidos pelo medo dos atentados, os israelenses continuam insensíveis ao argumento segundo o qual o bloqueio é uma punição coletiva que reforça o apoio aos atentados. Oficiais graduados apresentam a medida como “reversível”, que será suspensa desde que os palestinos renunciem ao terrorismo. De momento, essa é uma política que convém perfeitamente aos projetos de “acordo definitivo” sustentados por vários partidos de direita – justamente aqueles que tomam o cuidado de não falar em “transferência”. É o caso dos russos da colônia Israel-Beitenu (“Israel-Nossa Casa”), aliados do Moledet, que propõem a criação de vários enclaves-prisões isolados uns dos outros. A única diferença entre esse projeto e o “Estado palestino” de Ariel Sharon está na dimensão dos enclaves...

O perigo da anuência passiva

A juventude do Partido Trabalhista participou de uma ação de militantes da organização “Coragem de recusar” e que consistia em apagar pichações racistas

Existe o receio de que a operação dos Estados Unidos contra o Iraque crie condições para uma expulsão maciça – principalmente se Bagdá lançar contra Israel mísseis com carga química ou se os palestinos lhe oferecerem apoio, as coisas podem ficar fora de qualquer controle. Por outro lado, Washington precisa de estabilidade no Oriente Médio para pôr em prática seus planos – e uma expulsão maciça teria o efeito contrário.

Também há quem tema que alguma organização palestina venha a perpetrar um mega-atentado particularmente sangrento. Um oficial graduado declarou – e ele estava sinceramente preocupado – que, num caso desses, duvidaria que o exército quisesse ou pudesse impedir uma “iniciativa” local com o objetivo de expulsar, por exemplo, os moradores do vilarejo de onde os terroristas fossem originários. E citou a ausência de reação por parte das autoridades e do exército quando, no outono de 2002, os colonos impediram pela força que camponeses palestinos fizessem a colheita da oliva. Os grupos que continuam a enviar jovens para cometer atentados em Israel (e que poderiam estar planejando o já citado mega-atentado) parecem não ter consciência de que suas ações podem provocar uma reação – a expulsão – que, em última instância, poderia ser absorvida por grande parte da opinião pública israelense e mesmo pelos países ocidentais. Esses movimentos fundamentalistas palestinos expressam sua fé – simétrica à dos fundamentalistas judeus – na oportunidade que proporcionaria uma “grande guerra” de inverter a atual correlação de forças.

Expulsão é ameaça real

O “bloqueio interno” mantém aprisionados, em suas cidades e aldeias, dois milhões e meio de palestinos na Cisjordânia e um milhão na Faixa de Gaza

Nos últimos dois anos, a Jordânia endureceu progressivamente as normas vigentes para a entrada em seu território de habitantes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. O governo de Amã receia, naturalmente, uma ondar de palestinos fugindo do sofrimento da ocupação, mas também teme eventuais cenários-catástrofe. E com razão: no dia 28 de novembro de 2002, o primeiro-ministro Ariel Sharon declarou ao jornal Haaretz que se recusava a assumir um compromisso público de que os palestinos não seriam expulsos para a Jordânia pelo simples motivo de que considerava essa suspeita uma ofensa. Coube, então, ao primeiro-ministro da Jordânia lembrar que o tratado entre seu país e Israel excluía qualquer possibilidade de expulsão. Ocorre que os defensores da “transferência” estão pouco ligando para os acordos de paz...

De momento, a adoção progressiva de “mini-transferências” e de uma “transferência” interna nos territórios ocupados vem tendo um efeito soporífico junto à opinião pública israelense e mundial. Portanto, embora convenha reagir prioritariamente a essas práticas – tão ilegais quanto perigosas –, não há como considerar imaginária a ameaça de uma expulsão maciça. Além do que a escalada de concepções fundamentalistas e catastróficas, o desaparecimento de referências morais na política israelense, a diversificação dos métodos repressivos do exército, a ausência de uma direção palestina capaz de orientar a resistência à ocupação e a inexistência de um empenho internacional constituem dados inquietantes.

(Trad.: Jô Amado)

1 - N.T.: Fellah significa “camponês”, em árabe.
2 - Haaretz, 22 de fevereiro de 2002.




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