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TUNÍSIA

Renasce o projeto de renovação

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Exatamente um ano após a assinatura, em 1986, de um acordo de ajustes estruturais com o Fundo Monetário Internacional, como se fosse obra do acaso, o general Ben Ali tomou posse como presidente. Atualmente está de olho no quarto mandato

Kamel Jendoubi - (01/03/2003)

Apesar da persistência da repressão, foram-se os tempos da resignação na Tunísia. A perspectiva de ver o atual chefe de Estado, o presidente Ben Ali, disputar um quarto mandato em 2004, na realidade vem dinamizando o movimento de renovação que, há alguns anos, mobiliza redes de associações e partidos de oposição laica em torno de um projeto de reconstrução democrática.

Os países ocidentais nunca desmentiram seu apoio ao regime do general Ben Ali, instituído com o objetivo de aplicar na Tunísia as receitas neoliberais

Publicado por iniciativa da revista Confluence Méditerranée, o livro La Tunisie de Ben Ali: la societé contre le regime1 (Confluência Mediterrânea, a Tunísia de Ben Ali) expõe essa evolução com a importante participação de tunisianos mais ou menos envolvidos nesse movimento. Pesquisadores e ativistas traçam um primeiro balanço crítico do regime onde vemos como, através da prática e dos discursos, o chefe de Estado e seus assessores estão vêm abordando a economia e a sociedade conforme as reformas impostas pela globalização liberal. Lembra-se, com muita propriedade, que o general Ben Ali tomou o poder em novembro de 1987 – exatamente um ano após a assinatura em 1986, como se fosse obra do acaso, de um acordo de ajustes estruturais com o Fundo Monetário Internacional. Desde então, nunca foi desmentido o apoio dos dirigentes ocidentais ao regime estabelecido com o objetivo de aplicar na Tunísia as receitas neoliberais. Pior ainda: o acordo de parceria, assinado em 1995 com a União Européia, iria permitir aos parentes e aliados do presidente acelerar sua apropriação das estruturas financeiras e econômicas. Não se encontrará no livro uma descrição dos meios empregados com essa finalidade, mas os escândalos são publicamente conhecidos e, aliás, foi por isso que a irritação acabou contaminando toda a sociedade, inclusive os homens de negócios.

As posições do partido islamita

A organização pela retomada do movimento renovador pode ser acompanhada ao longo das entrevistas com os principais atores – e, principalmente, os dirigentes dos partidos reunidos numa espécie de coalizão em torno do Congresso para a República (CPR), criado em 2001 por Moncef Marzouki, ex-candidato à Presidência da República e um dos principais alvos da ditadura. O objetivo é convocar uma “conferência nacional democrática”, na qual será escrito o rascunho da nova “constituição da República”.

Em nome do partido que preside, Marzouki enfatiza que a alternância democrática deve ser preparada com a participação de “toda a oposição real”

Em nome do CPR, que preside, Marzouki deixa claro que a alternância democrática deve, logicamente, ser preparada com a participação de “toda a oposição real”. Coloca-se, então, a questão da participação do partido islamita Ennahda que, antes de sua proibição em 1992, era a principal força de oposição. Seu líder, Rachid Ghannouchi, exilado em Londres, defende posições seguras a esse respeito num “documento” em que responde às perguntas de Olfa Lamloum: “Os ‘fundamentalistas’ da Tunísia”, diz ele, “aprenderam a distinguir entre o que é devido e o que é possível, focalizando seu projeto, no curto prazo, sobre o desenvolvimento de sua visão social (...) e se satisfazendo com uma participação política simbólica (...).”

As “interpretações humanas” do Corão

Se é esta a hora de superar o confronto entre “modernizadores” e “tradicionalistas” – que custou a liberdade ao povo tunisiano, desde a independência em 1956 –, o livro do filósofo e historiador Mohamed Talbi, Penseur libre en terre d’Islam (O pensador livre na terra do Islã), pretende contribuir nesse sentido. Ele reserva sua fúria contra os dois ditadores que ocuparam o poder, sem interrupção, até os nossos dias, e lembra que foi Bourguiba o grande responsável, por ter desde o início eliminado seus opositores e mantido os “tradicionalistas” afastados da tarefa da modernização.

Entretanto, as preocupações do autor vão muito além do caso da Tunísia. Muçulmano convicto, ele se exprime com muita erudição e clareza sobre o Corão e a cultura muçulmana, oferecendo ao leitor o fruto de um longo trabalho de reflexão por ocasião de um diálogo com a filósofa cristã Gwendoline Jarczyk – conversa que ocupa três quartos do volume. É, da mesma forma, uma maneira de enriquecer o atual debate dos democratas tunisianos, do qual quer participar, apesar de nunca “ter feito política”. Retém-se do livro, principalmente, que de sua vivência da história o filósofo apreendeu “a que descaminhos (podem levar) as interpretações humanas” do Corão: cada um deve ser livre para se orientar pela religião, conclui, mas “a política deve continuar sendo assunto dos homens”.

(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Organizado por Olfa Lamboum e Bernard Ravenil, ed. L’ Harmattan, coleção “Les Cahiers des Confluences”, Paris , 2002, 282 páginas.




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