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Lançado recentemente, o livro ’La Face cachée du Monde’ causou um abalo sísmico no jornalismo ao atacar, baseado em uma investigação rigorosa de dois conhecidos jornalistas, o vespertino que se tornou referência de qualidade e competência tanto dentro como fora da França

Redação do Le Monde Diplomatique - (01/04/2003)

O funcionamento das mídias interessa um número cada vez mais considerável de cidadãos, inquietos por verem que elas constituem o único poder sem verdadeiro contra-poder

A investigação de Pierre Péan e Philippe Cohen, La Face cachée du Monde (A Face oculta do Monde)1, provocou um verdadeiro sismo no jornalismo francês. No momento em que a televisão e a imprensa norte-americanas confundem propaganda de guerra e informação, o funcionamento das mídias interessa um número cada vez mais considerável de cidadãos, inquietos por verem que elas constituem a partir de agora, nas nossas sociedades, o único poder sem verdadeiro contra-poder. "A história do jornalismo moderno é a de sua emancipação em relação a todos os poderes e portanto de sua afirmação como poder autônomo, capaz de fazer face aos outros. Mas quem fará face ao poder dos jornalistas?", questiona-se com pertinência um historiador das mídias2. Neste sentido – e mesmo se, na França, são outros grandes grupos ligados às indústrias do armamento (Dassault et Lagardère) quem ameaçam o pluralismo – não seria ilegítimo "investigar" o Le Monde. Para além do que podem apurar os tribunais, para além dos exageros e dos excessos – inclusive quando os autores aplicam em seu trabalho métodos que eles reprovam no Monde – para além de apreciações políticas que podem ser contestadas, a pesquisa de Pierre Péan3 e Philippe Cohen faz, no fundo, duas perguntas centrais: 1) o que chamamos de "jornalismo investigativo", quais são seus limites deontológicos? 2) Que tipo de barreira uma mídia deve estabelecer entre a redação e a empresa ?

A verdade e os conchavos

Não é raro que um "jornalista investigativo" se obstine contra um suspeito, o assedie para além de qualquer decência e busque, custe o que custar, seu assassinato social ou político.

No último período, o termo "jornalismo investigativo" designou principalmente o desvendamento de "negócios" relevantes para a Justiça. Se ele pode servir para impedir o sepultamento de alguns destes negócios, na Quinta República, que sempre privilegiou o segredo, ele chega também ao estabelecimento de laços às vezes duvidosos entre jornalistas, policiais e juízes de instrução. Cada um tentando manipular o outro. Por outro lado, não é raro que um "jornalista investigativo" se obstine contra um suspeito, o assedie para além de qualquer decência e busque, custe o que custar, seu assassinato social ou político. A verdade e o desvendamento de conchavos ocultos são duas missões importantes do jornalismo. Que a razão de Estado não saberia proibir. Mas o exercício destas missões supõe também o respeito de certos princípios e a noção das responsabilidades. Qualquer um que exerça uma influência sobre a vida pública não deve se questionar sobre o uso que faz dela e sobre as conseqüências que possam dela resultar ?

Amoralidade do mundo dos negócios

O capital principal de uma mídia é sua credibilidade e sua ética. Um contrato de confiança é feito entre a redação e seus leitores e é imperativo conservar esta confiança na redação

Por outro lado, é preciso se questionar sobre a razão que leva uma mídia a escolher certas investigações em vez de outras. Da influência oculta do grupo Lagardère à agonia silenciosa da população iraquiana sob embargo, passando pelo impacto das armas de urânio empobrecido, só há temas que mereceriam mais "primeiras páginas" e mais cobertura...

No que diz respeito às relações entre a redação e a empresa, os problemas surgem quando uma empresa de informação decide – o que se pode compreender – construir uma ambiciosa arquitetura de grupo. Ela é então conduzida a adotar uma estratégia industrial que a compele a multiplicar as alianças e a tramar laços de interesses com outros grandes grupos, atores chave da vida econômica contemporânea. Ora, sabe-se que reina, nestes meios, uma certa amoralidade própria ao mundo dos negócios. O obstáculo entre a empresa e a redação, entre a lógica de um grupo midiático e a de uma equipe de jornalistas deve então ser estanque, a toda e qualquer prova. O capital principal de uma mídia é sua credibilidade e sua ética. Um contrato de confiança é feito entre a redação e seus leitores e é imperativo conservar esta confiança e esta fé na redação. Estas questões não dizem respeito a um jornal em particular, mas à totalidade das mídias. E ao conjunto dos cidadãos.

)Trad.: Fabio de Castro)

1 - Les Mille et Une Nuits, Paris, 2003.
2 - Thomas Ferenczi, “ Ils l’ont tué ! L’affaire Salengro ”, Plon, Paris, 1995, p. 187.
3 - Pierre Péan é um colaborador ocasional do Monde diplomatique (ler, por exemplo, os números de agosto de 1999 e setembro de 2002), cujas qualidades de investigador rigoroso nossos leitores conhecem.




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