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AGRICULTURA

Quando os camponeses servem de cobaia

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A obsessão pela produtividade e a preocupação de por fim às crises alimentares levou à importação do modelo agrícola norte-americano. Mas além da fatura ecológica, o meio rural francês pagou com seu despovoamento e a desestruturação de seus modos de vida tradicionais

Patrik Champagne - (01/04/2003)

No começo dos anos 70, os estudos sobre o meio camponês na França visavam principalmente o que se chamava “a modernização da agricultura” e a “divulgação das inovações técnicas”. A preocupação de por um fim, depois da Segunda Guerra mundial, às crises alimentares e de assegurar uma auto-suficiência agrícola levou a importar os métodos norte-americanos que os jovens agrônomos e economistas rurais iam aprender nos Estados Unidos durante as “missões de produtividade”, em grande número imediatamente após a guerra.

Como conseqüência, a corrida ao rendimento levou à perturbação das práticas agrícolas e da paisagem nacional: utilização maciça de adubos, sulcos na terra mais e mais profundos, derrubada do mato, criação em bateria de centenas de porcos e de milhares de frangos. A hiper-especialização das regiões fez desaparecer o sistema dito de “policultura de criação” considerado “arcaico” e favoreceu uma mecanização freqüentemente superdimensionada em relação às necessidades dos cultivos familiares. A diminuição da população agrícola, do número de cultivos e a constituição de uma indústria agroalimentar possante vieram em seguida.

A "Revolução Silenciosa"

A corrida ao rendimento levou à perturbação das práticas agrícolas e da paisagem nacional : utilização maciça de adubos, derrubada do mato, hiper-especialização e mecanização

As transformações foram a tal ponto consideráveis que alguns puderam então falar de “revolução silenciosa”. Mas se esta teve seus ardentes defensores, suscitou, igualmente, em seu tempo, reações dissidentes que não foram sequer ouvidas na época, tendo a eficácia da nova agricultura produtivista varrido antecipadamente todas as objeções. Alguns camponeses encaravam, entretanto, com inquietude as aplicações maciças de adubo aconselhadas pelos técnicos agrícolas e as indústrias agro-alimentares e estimavam, baseados na experiência de sua vida na terra transmitida há muitas gerações, que um dia ou outro, “a terra vingar-se-ia” do tratamento que a faziam suportar.

Na época muito minoritários, agrônomos achavam perigosas, eles também, muitas inovações agronômicas introduzidas maciçamente e sem precaução. Do ponto de vista da regularização do ciclo da água e dos equilíbrios naturais, denunciavam a derrubada do mato (que fazia igualmente desaparecerem os pássaros, predadores naturais dos insetos e dos parasitas das lavouras); inquietavam-se com a aplicação muito intensa de adubos (que tendia a estragar o solo e a impedir a reconstituição do húmus); da hiper-especialização (certas regiões especializadas na criação intensiva não sabiam mais o que fazer do esterco que poluía os lençóis freáticos e o ar do campo, enquanto outras, especializadas nas lavouras de cereais, não sabiam o que fazer das palhas1)...

Quem paga a fatura ecológica

Trinta anos mais tarde, um curto prazo diante do ritmo muito lento que é próprio da natureza, os mesmos órgãos de pesquisa devem dar lugar, mais e mais, ao que se pode chamar de “prejuízos do progresso” (problemas ambientais, de segurança sanitária, de poluição agrícola, etc), conseqüências das inconseqüências de ontem. Acompanhando essas mudanças, observa-se uma degradação progressiva da imagem do camponês, o que não deixou de assestar um duro golpe sobre o moral do grupo, desencorajando muitos jovens a assumir a sucessão dos pais: o camponês não é mais aquele que alimenta os seres humanos e que, como um acréscimo, tem a seu cargo o cuidado com a natureza; ele tornou-se o pequeno industrial que polui a água, destrói as paisagens legadas pelas gerações anteriores e ameaça até a saúde dos cidadãos.

Observa-se uma degradação progressiva da imagem do camponês, que tornou-se o pequeno industrial que polui a água, destrói as paisagens e ameaça até a saúde dos cidadãos

Sem dúvida esta transformação da agricultura pôs fim às situações de penúria alimentar em nossos países, ficando a França mesmo com grandes excedentes. Sem dúvida, também, a segurança sanitária dos alimentos está melhor garantida do que antes, mesmo se as expectativas, mais exigentes, fazem às vezes pensar o contrário. Acontece ainda que a fatura ecológica, paga não pelas indústrias, agro-alimentares, mas pela coletividade, é alta. A Bretanha, que esteve na ponta desta nova agricultura, paga sua conta: água da torneira proibida aos lactentes2 por causa do nitrato, inundações, poluição pelo esterco das criações intensivas fora do solo, etc.

O mecanismo social do "progresso"

Só se percebe hoje, já que “o mal” está feito, que as advertências dos camponeses e de alguns agrônomos não eram unicamente palavras de gente que recusava o “progresso” ou se ligava, de maneira irracional, a um passado ultrapassado. Uma forte reação, freqüentemente excessiva, era inevitável contra um produtivismo que foi ele próprio excessivo. Um retorno do repelido, em suma.

Como tudo isso foi possível ? Como, em alguns anos, um grupo social inteiro quase desapareceu e com ele uma soma de conhecimentos agrários pacientemente acumulados ? Como estes milhares de vilas rurais que formavam pequenas sociedades relativamente fechadas para o exterior, tendo suas próprias regras sociais, foram desestruturadas pela irrupção do modo de vida citadino? Como passou-se de uma situação na qual os filhos dos camponeses brigavam para ficar com o negócio da família para uma que vê os agricultores tentarem em vão reter um único dos seus filhos? Os mecanismos sociais que estão na origem desta fuga para o que parece prometer uma condição de vida melhor não são específicos do modo de vida camponês. São os mesmos que permitem notar os fluxos migratórios dos países em via de desenvolvimento para os países desenvolvidos ou, dentro dos próprios países desenvolvidos, a importação e imposição do american way of lifespan class="texto_desc" title="Em inglês no original (N.T.).">3.

A desintegração do grupo social camponês

A transformação da agricultura pôs fim às situações de penúria alimentar em nossos países, ficando a França mesmo com grandes excedentes, mas a fatura paga foi alta

As pesquisas feitas no meio camponês nos anos 19704, período em que se intensificaram as migrações rurais, permitem evidenciar esta evolução. Primeiro, há todo um trabalho ideológico preparatório traduzido por medidas legislativas (ajuda para a instalação, incentivo inicial, etc) que tinham explicitamente por objetivo fazer com que os métodos culturais antigos fossem percebidos como “ultrapassados” e “arcaicos”. Ao mesmo tempo, os camponeses foram, com o apoio do seu sindicato, solidamente orientados por consultores agrícolas, comerciantes de material agrícola e pelas indústrias agro-alimentares. As antigas feiras onde os camponeses iam vender seus produtos pouco a pouco desapareceram, com o essencial da produção passando, a partir de então, pelas companhias.

Mas, sobretudo, paralelamente a estas transformações econômicas, houve o que se pode chamar de unificação dos mercados simbólicos (mercado político, modos de vida urbanos dominantes, etc ) engendrada pelo prolongamento da escolaridade e misturas sociais que ele provocou, pela extensão do espaço social vivido dos camponeses (graças ao automóvel e à televisão) e, enfim, pelos contatos com a fração das famílias que deixou a terra e se instalou na condição assalariada. Esta brutal abertura de concorrência entre modos de vida profundamente desiguais teve por efeito minar pelo interior os mecanismos de reprodução social do grupo camponês. Ele então desapareceu por si mesmo, só deixando no setor um pequeno grupo de empresários agrícolas (de agora em diante, ser do ramo implica em ser um bom mecânico) “modernistas”, mas freqüentemente muito endividados e ameaçados pelo menor “arrocho”.

A introdução da lógica neoliberal

Como estes milhares de vilas rurais que formavam pequenas sociedades foram desestruturadas pela irrupção do modo de vida citadino?

Podemos considerar que essa “caminhada para o progresso” também deve trazer proveito para os camponeses; que não há razão alguma de deixá-los à beira da estrada. Mas uma tal visão, economicista, ignora que a felicidade das pessoas, antes do que a um grau de bem-estar material, está mais provavelmente ligada a uma estabilidade mínima das estruturas sociais. Se José Bové, a figura emblemática e tão propagada pelos meios de comunicação, da Confederação Camponesa, serve de ponto de ligação para um conjunto de movimentos sociais mais ou menos díspares, que nada têm a ver com a agricultura, mas que estão de acordo, entretanto, quanto ao repúdio da “mundialização” 5, é que as transformações que atingiram o setor agrícola, com seu cortejo de sofrimentos, prefiguravam as que afligem atualmente a quase totalidade dos setores.

Por isso é possível fazer uma outra leitura dos trabalhos realizados nos anos 70 sobre a agricultura. O que se designava, nos anos 60, sob o nome enobrecedor de “revolução” agrícola (quem pode dizer que é contra o progresso, a melhoria das condições de vida e de trabalho, etc ?) marcava, na realidade, sem que se soubesse verdadeiramente, a entrada da lógica neoliberal na França. O retorno às transformações que o mundo camponês conheceu nos anos 60–80 – seria mais exato falar do desaparecimento do campesinato – se revela então rico de ensinamentos para compreender nosso presente, com suas incessantes reconversões, a instabilidade do emprego, a dispersão das famílias, a concorrência generalizada.

Cada um por si

O que se designava, nos anos 60, sob o nome enobrecedor de “revolução” agrícola marcava, na realidade, sem que se soubesse verdadeiramente, a entrada da lógica neoliberal na França

No plano econômico, a razão financeira se impôs progressivamente aos agricultores, sendo dado o primado ao lucro a curto prazo sem ver ou querer levar em conta os custos a médio e a longo prazo das novas técnicas de cultivo. As cooperativas agrícolas, criadas para e pelos camponeses, tiveram de alinhar-se com as empresas privadas6, perdendo em parte sua especificidade, enquanto o banco dos camponeses, o Crédit Agricole, se tornava um grande organismo financeiro cada vez menos agrícola e cada vez mais inserido na lógica do capitalismo financeiro. As indústrias agro-alimentares transformaram os camponeses em assalariados agrícolas, introduzindo no coração mesmo da agricultura familiar a intensificação do trabalho e uma submissão total à demanda, o que obrigou os agricultores a adaptar sua produção sem cessar.

Essas mudanças técnicas e econômicas foram principalmente acompanhadas por uma crise social, pela destruição das solidariedades locais e pelo reino do “cada um por si”. Como essas populações dos países do terceiro mundo que emigram para os países desenvolvidos com a esperança de ali viverem melhor, o meio rural conheceu a fuga dos seus filhos para a cidade, às vezes empurrados pelos pais. Conheceu também o fosso crescente entre as necessidades suscitadas pela publicidade de um desempenho cada vez melhor e as necessidades financiáveis, a desregulação generalizada das expectativas e esperanças e a comparação generalizada dos modos de vida.

Um custo ambiental, social, humano

Como as populações dos países do terceiro mundo que emigram para os desenvolvidos com a esperança de ali viverem melhor, o campo conheceu a fuga dos seus filhos para a cidade

Todas essas dinâmicas agiram no mesmo sentido. Elas explicam a crise da reprodução que sofreram o pequeno e médio campesinato – com seus conflitos familiares, suas chantagens no início, o abandono de terras transmitidas de pai para filho. Bem antes de outros meios sociais, o mundo camponês deve ter enfrentado o problema de manter ou não o que se poderia chamar, usando uma expressão voluntariamente anacrônica, de uma “exceção camponesa”, isto é, do direito à existência, ao lado de uma agricultura industrial, de uma agricultura “tradicional”, “à antiga”, ou “biológica”. Bem antes das populações citadinas, os agricultores, freqüentemente obrigados a se endividarem além de limites razoáveis, foram movidos por razões puramente financeiras.

Se a modernização neoliberal da agricultura é agora uma realidade, podemos nos interrogar legitimamente sobre os custos que engendrou. Além do custo ambiental do qual mal se começa a tomar consciência, esta modernização ocasionou um custo social e humano considerável. Compreender o que a imposição de uma certa política econômica fez ao mundo agrícola – e o que continua a lhe fazer – é talvez dar-se os meios de enxergar melhor e por aí melhor reagir ao que esta mesma economia ameaça fazer em escala planetária.

(Trad.: Maria Elizabete de Almeida)

1 - Igualmente, no caso da África e dos paises do leste, a agricultura de subsistência que assegurava, entrava ano, saia ano, o sustento das populações locais, foram substituídas por uma monocultura especulativa destinada a exportação (de amendoim, principalmente) que, em alguns anos, destruiu, definitivamente o solo e acabou com um equilíbrio que era fruto da experiência secular das populações locais. Cf. Claude Reboul, Monsieur le Capital et Madame la terre. Fertilite agronomique et fertilite economique, co-edition EDI-INRA, Paris, 1989.
2 - Na França, a água da torneira é potável (N.T.).
3 - Em inglês no original (N. T.).
4 - Cf. A herança recusada. A crise da reprodução do campesinato francês (1950-2000), coll. “ Points-essai ”, Le Seuil, Paris, 2002, que agrupa um conjunto de trabalhos realizados entre 1975 e 1985 em duas regiões agrícolas francesas.
5 - Um conceito-armadilha que designa de fato a imposição de uma economia neoliberal amplamente dominada pelos Estados Unidos.
6 - Ver « Les administrateurs de cooperatives agricoles sont-ils indispensables?”, Revue des etudes cooperatives, mutualistes et associatives, Paris, julho de 1998, pp. 32-45.




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