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Metade da humanidade sobrevive com menos de dois dólares por dia – a série "A Face Oculta da Terra" mostra quem são as pessoas por trás destas estatísticas e sugere uma trilha para se chegar a “uma Porto Alegre do documentário”

Dominique Vidal - (01/04/2003)

Gostaria de ter uma vida diferente? Maria Sanchez não entende a questão. Em meio a este terreno repleto de lixo a perder de vista, cercada pelos filhos, ela procura, com a ajuda do ancinho, roupas, papelão, plásticos e panos, que ela poderá vender por alguns pesos, para alimentar os seus. Seu mundo é o depósito de lixo Neza, um dos maiores do mundo, localizado no sul da cidade do México, no mesmo lugar ... da antiga capital asteca ! “É a vontade de Deus ”, diz ela simplesmente.

O lucro é reinvestido na série e o critério para vendê-la às cadeias de emissoras é que não haja exclusividade, privilegiando TV’s públicas, escolas e associações

Como ela, 13 outras pessoas figuram nesta série de mini-retratos (dois minutos e trinta segundos) intitulada “A face oculta da Terra “. Inspirados num relatório do Banco Mundial, os realizadores, membros do grupo Alterdoc1, decidiram, há dois anos, ir, de um lado a outro do planeta, ao encontro desta metade da humanidade que sobrevive com menos de dois dólares por dia. Debaixo das estatísticas, os seres humanos... Mas, seria suficiente descrever a pobreza ? “ Não fazemos isso com o intuito de oferecer soluções prontas ou para solicitar depósitos de 10 euros para esta ou aquela associação”, esclarece Gonzalo Arijon. A palavra chave da Alterdoc é a autonomia dos (tele)espectadores. “Se nossos filmes mostrarem bem a realidade, levarão os que os assistem a refletir e a se sentir responsáveis pelo que vêem. Um olhar vale mais que um discurso e ... que uma esmola. Aqui como em outro lugar.”

Nada de exclusividade

A originalidade do empreendimento não está somente no tema, pouco usual na telinha, nem na confiança, não menos rara, na capacidade de análise do público. Ela reside também em sua economia muito particular: “No início, reconhece José Maldavsky, fazíamos esses curtas paralelamente a outras filmagens. Muito rapidamente, decidimos legalizar esse “contrabando”, informando aos produtores, que aceitaram nos apoiar”. Isso permite economizar despesas consideráveis com viagens e estada. Os realizadores filmam a título benevolente, sendo apenas remunerada a coordenação. “Quanto ao lucro, quando há, ele é reinvestido na série, em outros projetos com o mesmo espírito, como a organização de estágios de formação no Sul”.

Os projetos futuros dos realizadores incluem os indígenas na América Latina, a memória audiovisual dos curdos e uma oficina de roteiros de TV em Ruanda

Vários eventos audiovisuais2 acolheram “A face oculta da Terra” e cadeias de televisão já se dizem também interessadas. No entanto, a Alterdoc impõe critérios bastante exigentes : “Claro que queremos vender a série, mas não com exclusividade, insiste José Maldavsky. Queremos que várias cadeias de televisão a transmitam, em particular as públicas. E também escolas e associações”. E no Sul ? “Quem quer que produza um mini-retrato, terá direito de divulgação sobre todos os outros, gratuitamente”, responde Gonzalo Arijon.

Uma TV Social Mundial

Porque não somente os realizadores não se consideram como uma sociedade de produção, como não pretendem ser os únicos a ter poder sobre sua aventura. Esperam, ao contrário, que outros – tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul – dela se apropriem e proponham seus próprios mini-filmes. A Alterdoc se vê como uma “ONG audiovisual”. Ela recusa qualquer patrocínio e financiamento do Banco Mundial – “mas uma parceria com o Programa das Nacões Unidas para o Desenvolvimento seria benvinda”, concede Gonzalo Arijon. Em compensação, a entidade está aberta à toda contribuição engajada e beneficente. Não faltam projetos à Alterdoc. Primeiro, completar a série dos mini-retratos. Em seguida, realizar um filme de "90 minutos", contando a jornada de vida desta humanidade abandonada, “como um colar de pérolas, uma sucessão de histórias”. Enfim, transformar algumas utopias em realidade: o financiamento e o acompanhamento de experiências como o vídeo sobre os indígenas na América Latina, a coleção sobre a memória audiovisual dos curdos, uma oficina de roteiros de TV em Ruanda... “No fundo, sonhamos com uma televisão social mundial”, deixam escapar quase simultaneamente Gonzalo Arijon e José Maldavsky. “E de uma Porto Alegre do documentário ?” Ainda que não ousem responder “sim”, visivelmente é o que desejam...

(Trad.: Nena Mello)

1 - Alterdoc (Gonzalo Arijon, Laurence Jourdan, Jean Christophe Klotz, Baudouin Koenig, José Maldavsky Alberto Marquardt e José Reynes) : Rua Dupetit-Thouars, 16, 75003, Paris. Tel. : 01-43-57-56-14 (alterdoc@noos.fr).
2 - Assim foi com os Estados Gerais do documentário de Lussas, o Festival dos três continentes de Amiens, o Festival internacional de programas audiovisuais (FIPA) de Biarritz, o Festival internacional de grandes reportagens da atualidade (FIGRA) de Touquet, e “Sonho com uma noite DVD” (“ Songe d’une nuit DV ”) de Saint-Denis…




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