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AGRICULTURA

O genocídio da grande fome do século 19

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Esquecida pelos historiadores modernos, a fome que devastou o chamado “Terceiro Mundo” no século 19 foi decorrência de uma combinação de catástrofes climáticas e lógica liberal de preços, que resultou no aprofundamento da desigualdade entre nações

Mike Davis - (01/04/2003)

O número total de vítimas desses três períodos de seca (1876 – 1879, 1889 – 1891, 1896 e 1902) e de fome e de epidemias não foi, definitivamente, inferior a 30 milhões.

Como os leitores contemporâneos de Nature e de outras revistas científicas poderiam perceber na época, a grande seca dos anos 1876 a 1879 foi um desastre de proporções verdadeiramente planetárias, pois foram assinalados casos de seca e de fome em Java, nas Filipinas, na Nova Caledônia, na Coréia, no Brasil, na África austral e na África do Norte. Até então ninguém havia suspeitado que uma perturbação climática maior poderia se produzir de modo sincronizado sobre toda a extensão da zona tropical das monções, assim como sobre a China do Norte e o Magrebe.

Evidentemente, só se podia calcular o número de vítimas de maneira bastante aproximada, mas era terrivelmente evidente que o milhão de mortos pela fome irlandesa de 1845-1847 seria multiplicado pelo menos por dez. Segundo os cálculos de um jornalista britânico, mesmo acrescentando todas as vítimas das guerras convencionais desde Austerlitz até Antietam e Sedan, provavelmente não se atingiria o nível de mortalidade da Índia do Sul durante essa crise1. Só a revolução de Taiping (1851-1864), ou seja, a guerra civil mais sanguinária da história da humanidade, com seus supostos 20 a 30 milhões de mortos, poderia reivindicar um número tão grande de vítimas2.

Uma tragédia esquecida pela história

A tragédia que matou milhões de pessoas, ocorreu em plena idade de ouro do capitalismo. Elas foram as vítimas da aplicação teológica dos princípios liberais

Mas a grande seca dos anos 1876-1879 só foi a primeira das três crises de subsistência que, em escala planetária, marcaram a segunda metade do reinado vitoriano. Entre 1889 e 1891, novas secas espalharam a fome na Índia, na Coréia, no Brasil e na Rússia, ainda que, na Etiópia e no Sudão, a crise tenha sido mais grave, com a possível morte de um terço da população. Depois, entre 1896 e 1902, por várias vezes a monção faltou novamente em toda a zona tropical e na China do Norte. Epidemias devastadoras de maleita, de peste bubônica, de disenteria, de varíola e de cólera fizeram milhões de vítimas entre os habitantes dessas regiões debilitadas pela fome.

Com uma voracidade inigualável, os impérios europeus, imitados pelo Japão e os Estados Unidos, aproveitaram a oportunidade para conquistar novas colônias, expropriar terras comunais e apoderar-se de novos recursos minerais e agrícolas. O que, do ponto de vista das metrópoles, poderia passar como o último brilho crepuscular de um século de glória imperial, apresentava-se aos olhos das massas africanas ou asiáticas sob a luz sinistra de uma imensa pira funerária.

O número total de vítimas desses três períodos de seca, de fome e de epidemias não foi, definitivamente, inferior a 30 milhões. (...) Mas, se os casebres dos operários descritos por Dickens permaneceram impressos na memória histórica, as crianças famintas de 1876 e de 1899 desapareceram de cena. Quase sem exceção, os historiadores modernos – que escrevem sobre o século 19 no mundo de um ponto de vista euro-americano – ignoram as secas excepcionais e os grandes períodos de fome que atingiram então o que chamamos hoje de “Terceiro Mundo”. (...)

O mercado livre de cereais na origem da fome

Na Índia, o dogma do livre comércio e o frio cálculo egoísta do Império justificavam a exportação de cereais para a Inglaterra, no meio da mais horrível hecatombe

Ora, não somente dezenas de milhões de camponeses pobres morreram de maneira atroz, mas morreram em condições e por razões que contradizem amplamente a interpretação convencional da história econômica desse século. Como explicar, por exemplo, o fato de que, ao longo do mesmo meio século que viu a fome em tempos de paz desaparecer da Europa ocidental, ela tenha se propagado de maneira tão devastadora através de todo o mundo colonial? Da mesma forma, como considerar as declarações auto-elogiosas sobre os efeitos benéficos e salvadores das estradas de ferro e dos modernos mercados cerealistas, quando se sabe que milhões de pessoas, em particular na Índia britânica, deram seu último suspiro ao longo das vias férreas e às portas dos entrepostos de cereais? E, no caso da China, como explicar o declínio impressionante da capacidade de intervenção do Estado em favor da população, em particular em matéria de prevenção da fome, que parece estar estreitamente associado à “abertura” forçada do império à modernidade imposta pelos britânicos e as outras potências coloniais?

Em outras palavras, não se trata de “terras de fome” atoladas nas águas estagnadas da história mundial, mas do destino da humanidade tropical no momento exato (1870-1914) em que sua força de trabalho e seus recursos são absorvidos pela dinâmica de uma economia mundial centrada em Londres3. Esses milhões de mortos não eram estranhos ao “sistema do mundo moderno”, mas estavam em pleno processo de incorporação de suas estruturas econômicas e políticas. Seu fim trágico ocorreu em plena idade de ouro do capitalismo liberal; de fato, pode-se até dizer que muitos deles foram as vítimas mortais da aplicação literalmente teológica dos princípios sagrados de Adam Smith, de Jeremy Bentham e de John Stuart Mill. No entanto, o único historiador econômico do século 19 que parece ter percebido bem que os grandes períodos de fome vitorianos (pelo mesmo no caso da Índia) eram capítulos incontornáveis da história da modernidade capitalista foi Karl Polanyi, em seu livro La grande transformation (A grande transformação), de 1944. “A origem real da fome dos últimos cinqüenta anos”, dizia ele, “é o mercado livre dos cereais, combinado com uma falta local de rendimentos.” (...)

Catástrofe nacional, perversidade política

A década de 1870 apresentou numerosos exemplos do novo círculo vicioso que ligava o clima e a movimentação dos preços por intermédio do mercado mundial dos cereais

“A morte de milhões de pessoas” foi, em última instância, uma opção política: o advento de semelhantes hecatombes exigia (para retomar a fórmula sarcástica de Brecht) “uma maneira brilhante de organizar a fome4”. As vítimas já deviam estar completamente vencidas muito tempo antes de sua lenta degradação e seu retorno ao pó. (...)

Embora as más colheitas e a falta d’água tenham atingido proporções dramáticas – às vezes nunca vistas há séculos –, quase sempre, as reservas de cereais disponíveis em outras regiões dos países atingidos teriam permitido salvar as vítimas dessas secas. Nunca foi o caso de uma falta absoluta, talvez com exceção da Etiópia em 1899. Dois fatores decidiam realmente a sobrevivência ou a morte certa das populações atingidas: de um lado, os novíssimos mercados de matérias primas e as especulações sobre os preços que estes estimulavam; de outro lado, a vontade dos Estados, mais ou menos influenciada pelo protesto das massas. A capacidade de compensar as más colheitas e a maneira pela qual as políticas de luta contra a fome refletiam os recursos disponíveis eram muito variáveis, segundo os casos.

Num extremo, temos a Índia britânica governada por vice-reis tais como Lytton, o segundo Elgin e Curzon, onde o dogma do livre comércio e o frio cálculo egoísta do Império justificavam a exportação de enormes quantidades de cereais para a Inglaterra, bem no meio da mais horrível hecatombe. No outro extremo, temos o trágico exemplo do imperador Menelik II, que lutou heroicamente, mas com recursos insuficientes demais, para salvar o povo etíope de uma conjunção verdadeiramente bíblica de catástrofes naturais e sociais.

Círculo vicioso de fome e preços

A seca que atingiu o Nordeste brasileiro, em 1889 e 1891, fragilizou ainda mais a população rural diante dos efeitos das crises políticas e econômicas da nova república

De um ponto de vista ligeiramente diferente, pode-se dizer que os mortos desses períodos de fome foram esmagados por três das engrenagens mais implacáveis da história moderna. Em primeiro lugar, foram vítimas da coincidência fatal e sem precedentes entre uma série de mudanças do sistema climático planetário e os mecanismos da economia mundial da era vitoriana. Até a década de 1870, na falta de um sistema internacional de vigilância meteorológica, por mais rudimentar que fosse, os meios científicos estavam pouco conscientes de que era possível uma seca de proporções planetárias; da mesma forma, até o começo dessa mesma década, os campos da Ásia ainda não estavam suficientemente integrados à economia mundial para poder projetar ou receber ondas de choques capazes de atingir a metade do globo.

Mas a década de 1870 apresentou numerosos exemplos do novo círculo vicioso que ligava o clima e a movimentação dos preços por intermédio do mercado mundial dos cereais. De repente, o preço do trigo em Liverpool e os imprevistos da monção em Madras tornavam-se, no mesmo patamar, as variáveis de uma gigantesca equação que punha em questão a sobrevivência de grandes massas da humanidade.

A maioria dos camponeses indianos, brasileiros e marroquinos que sucumbiram à fome entre 1877 e 1878 eram ainda mais vulneráveis a esse flagelo, na medida em que haviam sido anteriormente reduzidos à miséria e debilitados pela crise econômica mundial (a “Grande depressão” do século 19), iniciada em 1873. Da mesma forma, o déficit comercial crescente da China dos Qing – amplamente estimulado na origem pelas manobras dos narcotraficantes britânicos – acelerou o declínio dos celeiros do Império, que eram, em tempo normal, a primeira linha de defesa do país contra a seca e as inundações. Inversamente, os períodos de seca que atingiram o Nordeste brasileiro em 1889 e 1891 puseram de joelhos a população rural do interior e a fragilizaram ainda mais diante dos efeitos das crises políticas e econômicas da nova república.

Resistência à ordem imperial

As populações rurais da Ásia, da África e da América do Sul, não se curvaram à nova ordem imperial, transformando períodos de fome em guerras pelo direito à existência

(...) A terceira engrenagem desse mecanismo histórico catastrófico é o imperialismo moderno. Como demonstrou brilhantemente Jill Dias no caso da dominação portuguesa em Angola no século XIX, o ritmo da expansão colonial correspondia, com uma estranha regularidade, ao das catástrofes naturais e das epidemias5. Cada grande período de seca deixava aberto o caminho para um novo avanço imperialista. A seca de 1877 na África do Sul, por exemplo, permitiu a Carnarvon minar a independência do reino zulu, enquanto o italiano Crispi aproveitou o período de fome etíope de 1889-1891 para estimular seu sonho de um novo império romano no Chifre da África.

A Alemanha de Guilherme II também soube explorar as inundações e a seca que devastaram a província de Shandong, no final dos anos 1890, para ampliar agressivamente sua esfera de influência na China do Norte, enquanto os Estados Unidos usavam a fome provocada pela seca, e a doença, como outras tantas armas para melhor aniquilar a resistência da república filipina de Aguinaldo.

Mas as populações rurais da Ásia, da África e da América do Sul não se curvaram com docilidade à nova ordem imperial. Os períodos de fome são verdadeiras guerras em nome do direito à existência. Se é verdade que, na década de 1870, os movimentos de resistência à fome se limitaram essencialmente (exceto na África do Sul) a rebeliões locais, pode-se provavelmente ver aí, em grande parte, o efeito da lembrança ainda recente do terror do Estado aplicado contra a revolta dos Sipaios na Índia e a revolução de Taiping na China.

Cresce a desigualdade entre as nações

O resultado do processo foi a divisão da humanidade – no final da era vitoriana, a desigualdade entre as nações já era tão profunda quanto entre as classes

Mas a década de 1890 apresenta um cenário bem diferente, e os historiadores contemporâneos mostraram claramente o importante papel desempenhado pela fome e a seca na revolta dos Boxers, o movimento Tonghak na Coréia, a emergência do nacionalismo extremista na Índia e a guerra de Canudos no Brasil, bem como incontáveis revoltas na África austral e oriental. Os movimentos milenaristas, que foram muito intensos no futuro “Terceiro Mundo” no final do século XIX, devem uma boa parte de sua violência escatológica à acuidade dessas crises ecológicas de subsistência.

(...) O que hoje denominamos “Terceiro Mundo” (um termo forjado durante a Guerra Fria6) é o resultado de desigualdades de renda e de recursos – o famoso “fosso do desenvolvimento” – que se formaram de maneira decisiva durante o último quarto do século 19, no momento em que vastas populações camponesas do mundo não-europeu se integraram à economia mundial. Como outros historiadores destacaram recentemente, se é verdade que, na época da tomada da Bastilha, as principais formações sociais do planeta passavam, em seu interior, por uma forte diferenciação vertical entre as classes, tal diferenciação não se reproduzia sob a forma de uma diferença abissal de renda entre essas diversas sociedades. A diferença de padrão de vida entre, por exemplo, um sans-culotte francês e um camponês indiano era relativamente pequena em relação à que separava cada um deles de sua respectiva classe dirigente7. Por outro lado, no final da era vitoriana, a desigualdade entre as nações já era tão profunda quanto a desigualdade entre as classes. A humanidade estava irreversivelmente dividida em dois.

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - William Digby, "Prosperous" British India: A Revelation from Official Records, Londres, 1901, p. 118.
2 - NDLR: conduzida por Hung Hsiu-Ch’uan, essa revolta popular e messiânica contra a dinastia manchu conquistou grandes territórios ao sul e no centro da China, e tomou Nanquim como capital antes de ser aniquilada.
3 - W. Arthur Lewis, Growth and Fluctuations, 1870-1913, Londres, 1978, p. 29, 187 e 215 em especial.
4 - Bertold Brecht, Poems 1913-1956, Londres, 1076, p. 204.
5 - Jill Dias, "Famine and Disease in the History of Angola, 1830-1930", Journal of African History, 22, 1981.
6 - Alfred Sauvy, "Trois mondes, une planète", L’Observateur, Paris, n. 118, 14 de agosto de 1952, p. 5.
7 - Cf. Kenneth Pomeranz, The Great Divergence: China, Europe, and the Making of the Modern World Economy, Princeton, N.J., 2000.




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