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EDITORIAL

Neo-imperialismo

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Ao nomear um general reformado para administrar um país vencido, os Estados Unidos mais uma vez ignoram o direito internacional, relembrando de forma deplorável as velhas práticas do tempo dos impérios coloniais e dos mandatos

Ignacio Ramonet - (01/05/2003)

É visto como normal que, no século 21, Washington designe um oficial (reformado) das forças armadas norte-americanas para governar um Estado soberano..

“Hoje é um grande dia para o Iraque”, declarou o general norte-americano Jay Garner ao desembarcar em Bagdá, bombardeada e saqueada, como se sua augusta aparição significasse o milagroso fim dos mil e um problemas que angustiam a antiga Mesopotâmia. O mais estarrecedor não é tanto a indecência da frase quanto a maneira resignada, apática, com que os grandes meios de comunicação fizeram a cobertura da investidura de quem não pode deixar de ser chamado o “procônsul norte-americano”. Como se o direito internacional tivesse deixado de existir. Como se estivéssemos de volta à época dos mandatos1. Enfim, como se fosse normal que, no século 21, Washington designasse um oficial (reformado) das forças armadas norte-americanas para governar um Estado soberano...

Tomada sem mesmo consultar os demais membros fantoches da “coalizão”, a decisão de nomear um “administrador civil” para gerir um país vencido relembra de forma deplorável as velhas práticas do tempo dos impérios coloniais. Como evitar pensar em Clive governando a Índia, Lorde Kitchener comandando a África do Sul ou Lyautey administrando o Marrocos? E pensar que se acreditava que esses abusos tivessem sido, de uma vez por todas, condenados pela ética política e pela história...

Comparação com o Japão

Nada a ver, é a explicação que dão. A comparação desta “transição no Iraque” deve ser feita é com a experiência do general Douglas MacArthur no Japão, depois de 1945.

Não seria isso ainda mais inquietante? Não foi necessária a destruição atômica das cidades de Hiroshima e Nagasaki – ou seja, quase o Apocalipse – para que os Estados Unidos nomeassem um general como gestor de uma potência adversária vencida? E isso numa época em que a Organização das Nações Unidas (ONU) ainda não existia.

O neo-imperialismo norte-americano renova a concepção romana de um domínio moral, mas também militar e midiático, exercido sobre povos considerados inferiores

Ora, a ONU existe, pelo menos teoricamente2. E a invasão do Iraque pelas forças norte-americanas (com suas tropas adicionais britânicas) não vem exatamente coroar uma terceira ou uma quarta guerra mundial... A não ser que o presidente Goerge W. Bush e seus assessores considerem os atentados de 11 de setembro de 2001 como o equivalente a um conflito mundial...

”Missão sagrada da civukuzação”

É verdade que o general Garner deu a entender que esta ocupação não seria eterna: “Ficaremos pelo tempo que for necessário”, afirmou, “e sairemos o mais rapidamente possível. 3” Mas a história ensina que esse “tempo que for necessário” pode ser longo. Quando invadiram as Filipinas e Porto Rico em 1898, sob o pretexto altruísta de “libertar” aqueles territórios do jugo colonial, os Estados Unidos rapidamente passaram a substituir a antiga potência dominante. Após reprimirem a resistência nacionalista, só deixaram as Filipinas em 1946, embora tenham continuado a intervir nos assuntos internos do novo Estado e apoiando, a cada eleição presidencial, o candidato de sua escolha – o ditador Ferdinand Marcos –, que ficou no poder de 1965 a 1986... E continuam ocupando Porto Rico... O mesmo ocorre no Japão e na Alemanha: 58 anos depois do final da guerra, a presença do exército norte-americano continua maciça.

Rumsfeld apressou-se a explicar que “Washington se recusaria a reconhecer um regime islâmico no Iraque, mesmo que isto refletisse o resultado das urnas

Ao assistir ao desembarque, em Bagdá, desse general Garner e sua equipe de 450 administradores, era inevitável pensar que os Estados Unidos, nesta nova fase neo-imperial, assumem para si aquilo que Joseph Conrad chamou “o fardo do homem branco”. Ou o que, em 1918, a Liga das Nações qualificava de “missão sagrada da civilização” em relação aos povos incapazes “de se dirigir por si próprios nas condições particularmente difíceis do mundo moderno4”.

Democracia: só sem regime islâmico

O neo-imperialismo norte-americano renova a concepção romana de um domínio moral – baseado na convicção de que o livre comércio, a globalização e a divulgação da sociedade ocidental são coisas boas para todo mundo –, mas também militar e midiático, exercido sobre povos considerados mais ou menos inferiores5.

Após a deposição da odiosa ditadura, Washington prometeu estabelecer no Iraque uma democracia exemplar, cuja influência, impulsionada pelo novo Império, significaria a queda de todos os regimes ditatoriais da região. Inclusive – segundo afirma James Woolsey6, ex-diretor da CIA e próximo ao presidente Bush – os da Arábia Saudita e do Egito...

Daria para acreditar em tal promessa? Claro que não. Donald Rumsfeld, o secretário da Defesa, apressou-se a explicar, aliás, que “Washington se recusaria a reconhecer um regime islâmico no Iraque, mesmo que este fosse o desejo da maioria dos iraquianos e refletisse o resultado das urnas7”. É uma velha lição da história: o Império impõe sua lei ao vencido. No entanto, há uma outra: quem vive pelo Império, morrerá por ele.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Inventado no final da guerra de 1914-1918, o regime do “mandato” substituiu o do “protetorado”, termo que o presidente norte-americano Wilson considerava muito colonialista…
2 - Mesmo que alguns dos “falcões” mais fanáticos de Washington, como Richard Perle, já anunciem a sua queda. Entrevista a. Le Figaro, 11 de abril de 2003.
3 - El País, Madri, 22 de abril de 2003.
4 - Ler, de Yves Lacoste, Dictionnaire de géopolitique, ed. Flammarion, Paris, 1993, p. 964.
5 - A atitude da França e da Alemanha, opondo-se à guerra contra o Iraque, permitiu evitar que, no interior da opinião pública árabe, este conflito surgisse como a expressão de um choque de civilizações.
6 - International Herald Tribune, Paris, 8 de abril de 2003.
7 - El País, op. Cit.




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