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PALESTINA

O câncer das colônias israelenses

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Habitadas por uma população fanatizada, defendidas a todo custo por Ariel Sharon e cada vez mais influentes, elas se transformaram no motor da ocupação da Palestina

Marwan Bishara - (01/06/2002)

Por que a paz é tão difícil de ser construída no Oriente Médio? O maior obstáculo é, sem dúvida, a existência das colônias israelenses, razão de ser e motor da ocupação. Trinta anos de objeções norte-americanas e européias nada conseguiram. Embora ilegais, elas se estenderam, minando qualquer tentativa de construção de um Estado palestino. E, se continuarem a proliferar, acabarão precipitando – e a que preço! – o fim do Estado de Israel que seus criadores tinham imaginado.

A dinâmica e a ideologia das colônias tornaram-se, nos últimos anos, a pedra angular da identidade israelense moderna. A política de colonização e suas atuais manifestações violentas transcenderam as divisões étnicas e religiosas do país para constituir um novo “israelismo”, baseado em um novo nacionalismo judaico. Os colonos e seus aliados reproduzem Israel à sua imagem: uma teocracia em eterno conflito. E a cada dia que passa, sob a direção de Ariel Sharon e com o apoio explícito do presidente George W. Bush, essa evolução torna-se uma profecia autodestruidora.

A etapa da “limpeza étnica”

Os colonos reproduzem Israel à sua imagem: uma teocracia em conflito. E a cada dia que passa, essa evolução torna-se uma profecia autodestruidora

Os colonos da nova geração não têm o menor ponto comum com seus antecessores do período anterior a 1948, que criaram o sionismo e construíram o Estado em bases laicas, socialistas e, em sua maioria, européias. Os que vieram depois de 1967 são principalmente neoliberais muitas vezes originários dos países árabes, religiosos e conservadores do tipo Reagan. Além disso, ao contrário dos colonos de outrora, sua ocupação é apadrinhada pelo Estado de Israel.

Para garantir o sucesso do nacionalismo “grande-israelense”, como seus antecessores fizeram com o nacionalismo israelense, será necessário, segundo os novos sionistas, passar por uma nova limpeza étnica. Já se lê nos lábios de um grande número de membros do gabinete de Sharon a “transferência” dos palestinos.

E o que é pior: o ex-general Efi Eitam, ministro recentemente nomeado, colono angustiado e chefe do Partido Nacional Religioso, qualificou a idéia de “transferência” como politicamente “atraente”, embora irrealista na ausência de uma guerra. Segundo esse ex-trabalhista, no caso de um conflito generalizado, “sobrariam poucos árabes”. E é bom lembrar que Eitam apelou para ataques preventivos contra o Iraque e o Irã1

O sonho do “Grande Israel”

Já se lê nos lábios de um grande número de membros do gabinete do general Sharon a “transferência” – eufemismo para limpeza étnica – dos palestinos

Por sua vez, o atual primeiro-ministro de Israel reconheceu que, se as colônias não existissem, o exército teria saído dos territórios palestinos há muito tempo. Mas elas apresentam uma grande vantagem: permitem aos dirigentes israelenses convencerem seus concidadãos de que “seu exército não é um exército estrangeiro que exerce o poder sobre uma população estrangeira”. Em 1977, quando presidia o Comitê Ministerial das Colônias, o ministro Sharon supervisionou o estabelecimento de novas colônias na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Previa instalar ali dois milhões de judeus. Vinte e cinco anos depois, o primeiro-ministro Sharon continua intransigente com relação ao “direito moral” de Israel modificar a demografia dos territórios. Desde sua eleição em janeiro de 2001, Sharon mandou construir trinta e cinco novos postos avançados de colônias2.

Na segunda metade da década de 70, durante a transição do governo trabalhista para o do Likud, Sharon apareceu como um dirigente capaz de realizar o sonho de um “Grande Israel”, para além das fronteiras reconhecidas internacionalmente. Ao estimular os israelenses a se instalar “por toda parte” nos territórios ocupados, Shimon Péres encorajou os esforços de Sharon para colocar em ação o programa do poderoso movimento bipartidário (Likud/trabalhistas), favorável à “ampliação da Terra de Israel”, do rio Jordão ao Mediterrâneo.

As colônias no caminho da paz

Vinte e cinco anos depois, o número de colonos nos territórios ocupados passou de 7 mil, em 1977, para mais de 200 mil em 2002 – e mais 200 mil em Jerusalém Oriental. Suas 200 colônias ocupam 1,7% do território da Cisjordânia, mas controlam 41,9% dele3. Uma parte delas é constituída por perigosos fanáticos armados, autorizados pelo exército israelense a matar. Ano após ano, os esquadrões da morte dos colonos abateram civis desarmados, efetuaram ataques terroristas contra políticos, torturaram e mataram inúmeros palestinos.

O general reformado Efi Eitam considera “atraente” a idéia de “transferência” e diz que, no caso de um conflito generalizado, “sobrariam poucos árabes”

Somente durante os anos em que vigoraram os acordos de Oslo, Israel triplicou o número de seus colonos e duplicou o de suas colônias, que foram interligadas por uma rede de estradas de contorno e de zonas industriais que garantiram seu domínio espacial sobre os territórios palestinos. Ministro da Infra-estrutura do governo de Benyamin Netanyahu, Sharon concentrou nesse objetivo os programas de investimento de Israel. Os governos de Rabin e de Barak não foram menos atuantes. Deu-se uma verdadeira proliferação de colônias no governo de Ehud Barak, sob a supervisão de Itzak Lévy, na época dirigente do Partido Nacional Religioso e ministro das Colônias4.

Quando, na reunião de cúpula de Camp David, em julho de 2000, parecia chegada a hora de pôr fim a esse caos, as negociações tropeçaram e acabaram fracassando, devido à obstinação israelense de conservar as colônias e 9% da Cisjordânia. Solicitou-se aos palestinos que assinassem um acordo final baseado na promessa de uma espécie de Estado dividido em quatro regiões separadas, cercadas por blocos de colônias. Em síntese, a manutenção dessas últimas sabotou a tentativa de pôr fim à ocupação e comprometeu os esforços de paz.

Colonos no gabinete de Sharon

Depois do fracasso da reunião de cúpula de Camp David e logo após a explosão da segunda Intifada, a relação estabelecida pela comissão internacional dirigida pelo senador norte-americano George Mitchell ressaltou o fato de que as colônias judaicas não podiam coexistir lado a lado com o estabelecimento da paz. A comissão recomendou a suspensão, apresentada como condição para um cessar-fogo e uma retomada das negociações. Ao contrário, o gabinete de Sharon aprovou um orçamento suplementar de 400 milhões de dólares para as colônias.

Atualmente, 7 mil colonos controlam 30% dos 224 km2 da Faixa de Gaza. Ora, esta conta com 1,2 milhão de palestinos, a maioria de refugiados. É impossível que eles circulem sem passar pelas colônias fortificadas, que abrigam piscinas e campos de basquete no centro de um território arenoso e superpovoado, em que a água é rara e em que cada pedacinho de terra é precioso. Umas 400 casas palestinas foram ali destruídas por Israel durante o primeiro ano da Intifada, com a cobertura e proteção das colônias vizinhas.

Em 1977, o ministro Sharon supervisionou a implantação de novas colônias na Cisjordânia e na Faixa de Gaza: previa instalar ali dois milhões de judeus

Quando o exército pediu a Sharon para mudar algumas colônias afastadas e reagrupá-las com outras, mais próximas e melhor defendidas, o primeiro-ministro recusou e jurou não desmantelar nenhuma enquanto estivesse no poder. Designou, então, dois novos ministros do Partido Nacional Religioso (NRP), a parte mais intransigente dos dirigentes da colonização, e os nomeou para o gabinete de segurança que supervisiona os territórios ocupados.

Destruindo a economia palestina

Não há melhor maneira de descrever a nova geografia das colônias do que recortando o mapa da Cisjordânia como se fosse um pedaço de queijo gruyère. Os pequenos buracos negros, vazios e desconectados uns dos outros, são os cantões palestinos, denominados autônomos, e as ricas partes amarelas, ao redor deles, as colônias judaicas.

Vigoram duas leis na Palestina: uma para os colonos, outra para os palestinos. Os primeiros podem circular, construir e se desenvolver, enquanto os segundos são bloqueados por cerca de duzentos cantões cercados. Os israelenses continuam a expropriar cada vez mais terras, enquanto os palestinos ficam cada vez com menos.

Nos últimos anos, Israel multiplicou os bloqueios às zonas palestinas, impostos de maneira hermética, global ou localmente, para facilitar a circulação dos colonos. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, esses bloqueios causaram mais prejuízos à economia palestina e à construção nacional do que qualquer outro fator5. E tornaram a vida dos palestinos impossível.

Ideologia cada vez mais de direita

O número de colonos israelenses nos territórios ocupados passou de 7 mil, em 1977, para mais de 200 mil em 2002 – e mais 200 mil em Jerusalém Oriental

Alguns amigos ocidentais de Israel, como o jornalista Thomas Friedman, avaliam que, se a lógica dos colonos vencesse, Israel seria transformado em um verdadeiro regime de apartheid. O ex-procurador-geral israelense Michael Ben-Yair avalia que a lógica dos colonos fundamentalistas já ganhou e que Israel “estabeleceu um regime de apartheid nos territórios ocupados6”.

Não é esse o ponto de vista dos colonos. Para o general aposentado Eitam – estrela em ascensão da direita religiosa – o “Grande Israel” é “o Estado de Deus; os judeus são a alma desse mundo; o povo judaico tem por missão revelar a imagem de Deus na terra”. Aliás, ele próprio se considera “no lugar de Moisés e do Rei David”; onde “um mundo sem judeus é um mundo de robôs, um mundo morto; e o Estado de Israel é a Arca de Noé do mundo futuro. Sua tarefa é mostrar a todos a imagem de Deus7”.

Ao longo dos anos, tanto as famílias modestas como os novos imigrantes foram incitados a se instalarem nas colônias: ofereceram-lhes casas a baixo preço e vantagens financeiras, às vezes graças ao dinheiro proveniente da ajuda norte-americana. E quanto mais as promessas de uma vida melhor transformaram-se em pesadelo colonial, mais os colonos pragmáticos se dotaram de uma ideologia cada vez mais de direita. Mais de 94% deles votaram em Netanyahu e, depois, nas últimas eleições, em Sharon.

Religiosos ameaçam a região

Atualmente, fundamentalistas fanáticos dominam o conselho que reúne os organismos de gestão das colônias e exercem uma influência considerável sobre as decisões do governo. Cerca de um décimo dos deputados da Knesset (Parlamento) são colonos, e todos fazem parte da coalizão no poder. Três colonos já foram ministros do governo de Sharon e dois o são atualmente, sem falar de um grande número de dirigentes das agências governamentais.

A melhor maneira de descrever a nova geografia é recortando o mapa da Cisjordânia como um queijo gruyère: os pequenos buracos são os cantões palestinos

Embora sejam consideradas “extraterritoriais” pela comunidade internacional, as colônias representam a chama ardente do nacionalismo “grande-israelense”. Ao contrário de seus concidadãos, que desejam um “Estado judaico” reconhecido internacionalmente dentro das fronteiras soberanas, esses novos fanáticos insistem no fato de que sua pátria é a “terra de Israel”, e não o “Estado de Israel”: portanto, não aceitarão a existência de um outro Estado entre o Jordão e o Mediterrâneo.

O poder dos colonos vai além de sua influência eleitoral. Nos últimos vinte e cinco anos, com exceção dos efêmeros governos de Rabin e de Barak, a influência dos colonos religiosos não parou de crescer, tornando-se o grupo mais intransigente das coalizões dirigidas pelo Likud. Dessa maneira, ameaçam não só a Palestina e a normalização de Israel, mas também toda a região.

A nova geografia do conflito

Isso porque os think tanks instalados nas colônias desenvolvem teorias baseadas na guerra, adaptadas aos novos conceitos norte-americanos, tais como a “guerra contra o terrorismo” e o “eixo do mal”, assim como aos novos sistemas de mísseis e à pior literatura sensacionalista produzida pelo Pentágono. Sonhando conduzir guerras à moda norte-americana, os colonos não se preocupam muito em coabitar com seus vizinhos. Por um motivo evidente: acreditam que “Israel é a esperança do mundo” e que “a selvageria moral palestina é organizada para nos impedir disso”.

Paradoxalmente e de modo involuntário, a última onda de atentados suicidas palestinos serviu aos interesses dos colonos. A idéia, evidentemente errônea, de que os palestinos exigiriam não só a retirada de Israel dos territórios ocupados, mas de todo Israel, diminuiu a pressão exercida sobre as colônias – consideradas até então um obstáculo para a paz – e radicalizou toda a sociedade israelense.

O ex-procurador-geral Michael Ben-Yair acha que a lógica dos colonos já ganhou e Israel implantou “um regime de apartheid nos territórios ocupados”

A política de colonização, empreendida contra e apesar de todos os acordos assinados, delineou uma nova geografia do conflito. Embora milhões de palestinos e de israelenses vivam amedrontados com o fato de colonos ilegais deixarem a região imersa em uma guerra colonial e comunitária. Se Israel conduzir seu plano no mesmo ritmo que o faz desde os acordos de Oslo, logo o número de colonos será de um milhão. Então será impossível separar os palestinos de Israel e de seus colonos sem realizar uma limpeza étnica.

A lógica de Sharon e dos colonos

Uma evolução dessas não comprometerá apenas o futuro do Estado palestino, mas também qualquer chance de manter a longo prazo o Estado judaico, já que a maioria judaica no território da Palestina mandatária (Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza) não cessará de diminuir. Em dez anos, os palestinos vão, inclusive, tornar-se majoritários, uma maioria que continuará crescendo. E esses milhões de judeus e de árabes serão cada vez mais inseparáveis.

No momento, a lógica de Sharon e de seus colonos continua a alimentar uma situação de conflito permanente e de guerra na Palestina e no Oriente Médio. Se a comunidade internacional não intervier, a lógica das colônias conduzirá ao mesmo bloqueio das vésperas da guerra de 1948: será preciso optar entre um Estado binacional e uma nova tentativa de limpeza étnica. Mas esta última representaria para Israel um erro estratégico dramático: pensemos no destino de Slobodan Milosevic…
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Haaretz, Tel-Aviv, 12 de abril de 2002.
2 - New York Times, 27 de abril de 2001.
3 - Ver www.btselem, “Israel’s Settlement Policy in the West Bank”, Tel-Aviv, 13 de maio de 2002.
4 - É sabido que a quarta Convenção Genebra, assinada por Israel e pelos Estados-Unidos, estipula que “o poder que ocupa não deportará nem transferirá parte alguma de sua população civil para os territórios por ele ocupados”.
5 - Conversa com Osama Kina’an, coordenador do escritório do FMI para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
6 - Haaretz, 3 de março de 2002.
7 - Haaretz, 28 de abril de 2002.




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