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ESTADOS UNIDOS

Para onde vai o império?

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Os objetivos reais da política imperial norte-americana continuam difíceis de serem compreendidos. Baseada na afirmação de sua força militar e tecnológica em escala global, ela gera impopularidade e instabilidade em todo o mundo.

Eric Hobsbawm - (01/06/2003)

O poder militar em escala global requer o domínio de tecnologia, combinado com um Estado geograficamente muito amplo. Antigamente, esse aspecto era irrelevante

A atual situação mundial não tem precedentes. Os grandes impérios globais que já existiram, como o império espanhol dos séculos XVI e XVII e, em particular, o império britânico dos séculos XIX e XX, pouco têm em comum com o atual império norte-americano.

A globalização atingiu um estágio inédito em três planos: a integração, a tecnologia e a política.

Para começar, vivemos num mundo de tal forma interdependente, que operações banais se encadeiam e qualquer interrupção tem conseqüências globais imediatas. Tomemos o exemplo da Sars (Severely Acute Respiratory Syndrome), cuja origem, desconhecida, surgiu em algum ponto da China: em poucos dias, ganhou proporções de um fenômeno global. Com uma rapidez inimaginável em épocas anteriores, seus efeitos se fizeram sentir sobre a rede mundial de transportes, sobre o turismo, sobre todo tipo de simpósios e instituições internacionais, sobre os mercados mundiais e até sobre as economias inteiras de alguns países.

Em seguida, há o enorme poder de uma tecnologia constantemente revolucionada, tanto no plano econômico, como, e principalmente, no militar. Em questões militares, a tecnologia é hoje mais decisiva do que nunca. O poder militar em escala global requer o domínio dessa tecnologia, combinado com um Estado geograficamente muito amplo. Antigamente, esse aspecto das dimensões era irrelevante. A Grã-Bretanha, que comandou o maior império existente em seu tempo, era um Estado de porte médio, mesmo para os padrões dos séculos XVIII e XIX. E, no século XVII, a Holanda – um Estado de dimensões comparáveis às da Suíça – podia desempenhar o papel de um ator global. Hoje em dia, é inconcebível que um Estado – por mais rico e tecnologicamente avançado que seja – possa se tornar uma potência mundial se não for relativamente gigantesco.

Domínio isolado

Ao contrário do projeto imperial dos EUA, todas as grandes potências e os impérios sabiam que não estavam isolados e não procuravam dominar o mundo sozinho

Finalmente, há o caráter complexo da atual política. Nossa época ainda é a dos Estados-nação – único elemento em que a globalização não funciona. Mas se trata de um tipo particular de Estado em que – virtualmente em todos eles – a população comum desempenha um papel importante. No passado, quem tomava as decisões governava sem se preocupar com o que a maioria da população pensava. No final do século XIX e início do século XX, os governos podiam confiar na mobilização de seus povos. Atualmente, muito mais do que em qualquer outra época, eles devem levar em conta o que a população pensa e o que está disposta a fazer.

Ao contrário do projeto imperial norte-americano – e é aí que reside a grande novidade –, todas as outras grandes potências e todos os impérios sabiam que não estavam isolados e nenhum deles procurava dominar o mundo sozinho. Nenhum deles acreditava ser invulnerável, embora todos pensassem ser o centro do mundo, como a China, por exemplo, ou o império romano em seu apogeu. No sistema de relações internacionais que regeu o mundo até a guerra fria, a dominação regional representava o máximo dos perigos previsíveis. Não se deve confundir a possibilidade de acesso global – o que se tornou possível a partir de 1492 – com a dominação global.

O império “global” britânico

O império britânico foi, no século XIX, o único realmente “global”, no sentido em que agia sobre o todo o planeta e, desse ponto de vista, é, sem dúvida, um precedente para o império norte-americano. Contrariamente, os russos da era comunista, que também sonhavam com um mundo novo, sabiam muito bem, mesmo no auge do poder da União Soviética, que a dominação do mundo estava fora de seu alcance: ao contrário do que dizia a retórica da guerra fria, nunca tentaram seriamente consegui-lo.

Nada é mais perigoso do que impérios que defendem exclusivamente seus interesses, acreditando que, assim, estão prestando um serviço a toda a humanidade.

Mas as atuais ambições norte-americanas são totalmente distintas daquelas que tinha a Grã-Bretanha há um século, ou pouco mais. Os Estados Unidos são um país fisicamente vasto, com uma das maiores populações do planeta e uma demografia crescente (ao contrário da União Européia), devido a uma imigração praticamente ilimitada.

Além disso, há diferenças de estilo. Em seu apogeu, o império britânico ocupava e administrava uma quarta parte da superfície terrestre1. Os Estados Unidos nunca praticaram, realmente, o colonialismo – exceto por um breve período, durante a moda do imperialismo colonial, no final do século XIX e início do século XX. Preferiram se apoiar em Estados dependentes, ou satélites, principalmente no hemisfério ocidental, onde, na prática, não tinham concorrentes. Ao contrário da Grã-Bretanha, adotaram uma política de intervenção militar nesses Estados durante o século XX.

Os perigos do objetivo universal

Como a marinha era, na época, a ponta-de-lança do império mundial, a Grã-Bretanha apoderou-se de bases marítimas e portos de importância estratégica pelo mundo inteiro. É por essa razão que a bandeira inglesa tremulava – e ainda o faz – de Gibraltar às Ilhas Malvinas, passando pela ilha de Santa Helena. Com exceção do Oceano Pacífico, os norte-americanos não tiveram necessidade desse tipo de bases até 1941 e o fizeram com a concordância do que, naquela época, poderia realmente se chamar uma “coalizão de boa vontade” (coalition of the willing). Atualmente, essa situação é diferente. Os Estados Unidos perceberam a necessidade de garantir, de forma direta, um número considerável de bases militares, continuando a controlar os países de forma indireta.

Existem, por fim, diferenças importantes na estrutura do Estado, no plano interno, e em sua ideologia. O império britânico tinha um objetivo britânico, e não universal, embora, evidentemente, seus adeptos também vissem nele motivos mais altruístas. A abolição do tráfico de escravos, por exemplo, foi usada para justificar a potência naval britânica, da mesma maneira que os direitos humanos servem, nos dias de hoje, para justificar a potência militar norte-americana. Tal como a França e a Rússia revolucionária, os Estados Unidos representam uma grande potência baseada numa revolução universalista e, conseqüentemente, dotada da crença de que o resto do mundo deve seguir seu exemplo – e, mesmo, que deveriam ser ajudados na tarefa de libertar o resto do mundo. Nada é mais perigoso do que impérios que defendem exclusivamente seus interesses, acreditando que, assim, estão prestando um serviço a toda a humanidade.

Império para atender vender produtos britânicos

Os Estados Unidos importam do resto do mundo enormes quantidades de bens manufaturados, o que provoca internamente uma reação protecionista

A diferença fundamental, no entanto, é a de que o império britânico, embora fosse global – e, num certo sentido, até mais global do que o atual império norte-americano, pois detinha, sozinho, o domínio de todos os mares, o que nenhum outro país conseguiu fazer dos céus –, não procurava um poder global, nem mesmo um poder militar ou político terrestre em regiões como a Europa e a América. O império buscava atender aos interesses fundamentais da Grã-Bretanha, que eram econômicos, com a mínima ingerência possível nos assuntos dos outros países. Tinha plena consciência de suas limitações em termos de dimensões geográficas e recursos. Depois de 1918, o império estava profundamente consciente de seu declínio.

Por outro lado, o império global da primeira nação industrializada soube, de certa forma, dar os primeiros passos rumo a uma globalização que o êxito da economia britânica tanto ajudou a desenvolver (leia, nesta edição, o artigo de Ha-Joon Chang sobre o livre-comércio). O império britânico era um sistema de comércio internacional que, à medida que a indústria se desenvolvia na metrópole, dependia, basicamente, da exportação de produtos manufaturados para os países menos desenvolvidos, o que lhe permitiu tornar-se o maior mercado de matérias-primas do planeta2. Quando deixou de ser a fábrica do mundo, a Grã-Bretanha tornou-se o centro do sistema financeiro global.

Grande mercado interno importador

O mesmo não ocorreu com a economia norte-americana. Esta se apoiava na proteção às suas indústrias nacionais contra a concorrência externa sobre seu mercado potencialmente gigantesco, fato que ainda é importante na política dos Estados Unidos. Quando a indústria norte-americana se tornou mundialmente dominante, o livre-comércio se adaptou a ela com a mesma perfeição que se adaptara à indústria britânica. Mas o fato de que essa economia não ocupe, no atual mundo industrializado, a posição dominante que ocupava no passado constitui, justamente, um dos pontos fracos do império norte-americano do século XXI3. Os Estados Unidos importam do resto do mundo enormes quantidades de bens manufaturados, o que provoca uma reação protecionista tanto por parte dos interesses comerciais quanto por parte do eleitorado. Existe uma contradição entre a ideologia de um mundo dominado por um livre-comércio sob controle norte-americano e os interesses políticos de elementos importantes dentro dos Estados Unidos que aquela ideologia compromete.

Não existe mais “coalizão de boa vontade” porque a atual política norte-americana é mais impopular que a de qualquer outro governo norte-americano

Uma das maneiras de superar essa fraqueza consiste na expansão do mercado de armas. Esta é outra das diferenças entre os impérios britânico e norte-americano. Especificamente a partir da II Guerra Mundial, o acúmulo de armamento em tempos de paz atingiu, nos Estados Unidos, um patamar espantoso, sem precedentes na história moderna, e pode explicar a predominância exercida pelo que, em sua época, o presidente Dwight D. Eisenhower chamou o “complexo militar-industrial”. Durante os 40 anos da guerra fria, ambos os lados falavam e agiam como se houvesse uma guerra concreta, ou como se esta estivesse a ponto de ser desencadeada. O império britânico atingiu seu apogeu durante um século (de 1815 a 1914) em que não ocorreram guerras internacionais importantes.

Supremacia produzida pela Guerra Fria

E, apesar da óbvia desproporção entre as potências norte-americana e soviética, a tendência a um movimento crescente na indústria armamentista norte-americana se fez acentuar sensivelmente, inclusive antes do final da guerra fria, não parando de crescer desde então.

A guerra fria transformou os Estados Unidos em potência hegemônica do mundo ocidental. No entanto, essa supremacia foi exercida enquanto líderes de uma aliança. É evidente que ninguém tinha quaisquer ilusões acerca da importância relativa dos parceiros. A sede do poder era em Washington e ponto final. De certa maneira, a Europa reconhecia, nessa época, a lógica do império global norte-americano, enquanto atualmente o governo de Washington fica indignado com o fato de seu império, assim como seus objetivos, não serem mais genuinamente aceitos. Não existe mais “coalizão de boa vontade” porque a atual política norte-americana é mais impopular que a de qualquer outro governo norte-americano e, provavelmente, que a de qualquer governo de uma grande potência.

Demonstração de força incompreensível

Essa súbita demonstração de força não se encaixa na política imperial aplicada durante a guerra fria nem atende aos interesses econômicos dos EUA

Antigamente, os norte-americanos conduziam essas relações com a tradicional cortesia das questões internacionais, inclusive porque seriam os europeus que ficariam na linha de frente para dar combate aos exércitos soviéticos; tratava-se, também, de uma aliança soldada aos Estados Unidos, já que dependente de sua tecnologia militar. Washington sempre se opôs, de modo sistemático, à constituição de uma força militar independente na Europa. As raízes dos velhos desentendimentos entre norte-americanos e franceses, que já vêm da época do general De Gaulle, têm origem na recusa, por parte da França, de uma aliança eterna e em sua vontade de manter um potencial independente, capaz de produzir um equipamento militar de alta tecnologia. Apesar das tensões, entretanto, a aliança representava, na época, uma autêntica “coalizão de boa vontade”.

Após o colapso da União Soviética, os Estados Unidos tornaram-se, na prática, a única superpotência, que nenhum outra nação desejava – ou podia – desafiar. É por isso que essa súbita demonstração de força, extraordinária, brutal e hostil, é ainda mais difícil de compreender, pois não se encaixa na política imperial adotada já há muito tempo e aplicada durante a guerra fria, nem atende aos interesses econômicos norte-americanos. A política que prevalece nos últimos tempos, em Washington, dá a qualquer observador a impressão de ser de tal forma tresloucada, que é difícil entender seus objetivos reais. Para quem domina completamente, ou de forma mediana, o processo de decisões nos Estados Unidos, trata-se, obviamente, de afirmar uma supremacia global pela força militar, mas o objetivo desta estratégia permanece obscuro.

Potência dependente de recursos escassos

Será bem-sucedida? O mundo é demasiado complicado para ser dominado por um único país. Sem esquecer que, pondo de lado sua superioridade militar, os Estados Unidos dependem de recursos que vêm se tornando escassos, ou correm o risco de escassez. Embora contem com uma economia forte, a parte que ela ocupa na economia mundial vem diminuindo. É vulnerável, tanto a curto como a longo prazo: imaginemos, por exemplo, que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decida, de uma hora para outra, que o barril seja faturado em euros, e não em dólares...

A economia dos EUA é vulnerável a curto e a longo prazo: imaginemos, por exemplo, que a Opep decida que o barril seja faturado em euros, e não em dólares...

É forçoso constatar que os norte-americanos pouco ligaram para os trunfos políticos que tinham em mãos durante os últimos dezoito meses, mas ainda sobraram alguns. É verdade que permanece a influência preponderante de sua cultura e da língua inglesa. Mas a principal vantagem de que dispõem para seu projeto imperial é militar. Nesse aspecto, o império norte-americano é inigualável e é provável que continue sendo assim num futuro previsível. Mas, se essa vantagem é decisiva em conflitos localizados, não o é, necessariamente, em termos absolutos. No entanto, em termos práticos, nenhum outro país – nem mesmo a China – dispõe de uma tecnologia comparável à dos Estados Unidos. Mas deve-se refletir sobre os limites de uma superioridade pura e simplesmente tecnológica.

Invasão do Iraque: exemplo de frivolidade

É evidente que, teoricamente, os norte-americanos não pretendem ocupar o planeta inteiro. Seu objetivo é ir à guerra, montar governos amigos e voltar para casa. Isto não irá funcionar. Em termos estritamente militares, a invasão do Iraque foi um enorme sucesso. Contudo – e justamente por se preocupar com esse único objetivo –, o governo Bush não levou em conta as necessidades que se impõem quando se invade um país – governando-o e ajudando-o a se manter, como fizeram os ingleses, por exemplo, no caso da Índia, um modelo clássico de colonialismo. A “democracia-modelo” – que os norte-americanos querem oferecer ao mundo inteiro através do Iraque – não só não tem um modelo como é irrelevante. A crença de que os Estados Unidos não necessitam de verdadeiros aliados entre os outros países, ou de um verdadeiro apoio popular entre os países que atualmente têm condições de conquistar militarmente (mas, na prática, não governam), é pura fantasia.

A invasão do Iraque representa um exemplo da frivolidade com que se tomam decisões em Washington. O Iraque é um país derrotado, mas que se recusou à submissão. É um país tão enfraquecido que parecia fácil derrotá-lo. É verdade que tem recursos, como o petróleo, mas o objetivo fundamental da operação estava na demonstração de força internacional. A proposta política de que falam os extremistas em Washington – uma reformulação completa de todo o Oriente Médio – não faz sentido. Se pretendem derrubar o reino saudita, o que irão colocar no lugar? Se realmente pretendessem mudar o cenário no Oriente Médio, é sabido que há uma única coisa a ser feita: pressionar os israelenses. O pai de George W. Bush estava preparado para fazê-lo, em 1991, após a primeira guerra do Golfo, mas o atual ocupante da Casa Branca não está. Ao invés disso, destruiu um dos dois únicos governos leigos do Oriente Médio e sonha em fazer o mesmo com o outro, a Síria.

Imitações de Rambo

Teoricamente, os norte-americanos não pretendem ocupar o planeta inteiro. Seu objetivo é ir à guerra, montar governos amigos e voltar para casa.

A declaração pública dessa pretensão evidencia seu vazio. Longe de corresponderem à formulação de uma estratégia, expressões como o “eixo do mal” ou “salvo-conduto” não passam de frases que pretendem dispor de um poder em si mesmas. A novilíngua que se esparramou pelo mundo afora durante os últimos dezoito meses revela a inexistência de uma verdadeira política. O próprio George W. Bush não faz política; ele representa. Dirigentes como Richard Perle ou Paul Wolfowitz imitam Rambo quando falam, tanto em público quanto em particular. Só conta uma coisa: o irresistível poder norte-americano. Em termos concretos, isso significa que os Estados Unidos podem invadir qualquer país, desde que não seja muito grande e que a vitória seja rápida o suficiente. Isto não é uma política. Nem irá funcionar.

Para os Estados Unidos, as conseqüências podem ser muito perigosas. No plano interno, para um país que pretende controlar o mundo – basicamente por meios militares – há o risco, até agora seriamente subestimado, de uma militarização. No plano internacional, há o risco de desestabilizar o mundo.

Prova disso é a atual instabilidade no Oriente Médio, muito maior do que dez, ou mesmo cinco anos atrás. A política norte-americana enfraquece todos os esforços de qualquer solução possível – formal ou informal – para a manutenção da ordem. Na Europa, demoliu a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – o que não é uma grande perda; mas, tentar transformá-la numa força de polícia militar mundial a serviço dos Estados Unidos é uma farsa. Washington sabotou ostensivamente a União Européia e também procura, sistematicamente, liquidar uma das maiores conquistas do pós-guerra, o Estado de bem-estar democrático e próspero. Por outro lado, a crise de credibilidade das Nações Unidas parece menos grave: a organização nunca teve condições de agir senão de uma maneira marginal, já que depende totalmente do Conselho de Segurança e do uso, pelos norte-americanos, do direito de veto.

“Imperialismo dos direitos humanos”

Como irá o mundo enfrentar, ou seja, conter, os Estados Unidos? Na ausência de condições para os enfrentar, alguns países irão preferir aliar-se a eles. Mais perigosos são os que, embora detestando a ideologia divulgada pelo Pentágono, apóiam o projeto norte-americano sob o pretexto de que ele irá contribuir para eliminar algumas injustiças locais e regionais. Essa espécie de “imperialismo dos direitos humanos” foi alimentada pelo fracasso da Europa nos Bálcãs durante a década de 90. A divergência de opinião sobre a invasão do Iraque evidenciou que só uma minoria de intelectuais influentes – tais como Michael Ignatieff e Bernard Kouchner – apoiou a intervenção norte-americana, argumentando que era necessário recorrer à força para pôr ordem às desgraças do mundo. É verdade que alguns governos são tão perigosos, que seu desaparecimento significaria uma vitória para o mundo inteiro. Mas isso não justificaria o perigo global que representa para o planeta uma potência mundial que, basicamente, não está interessada num mundo que não compreende, mas tem condições de intervir militarmente, de forma decisiva, sempre que alguém fizer alguma coisa de que Washington não goste.

É verdade que tem recursos, como o petróleo, mas o objetivo fundamental da operação no Iraque era a demonstração de força internacional

Nos bastidores, percebe-se que aumenta a pressão exercida sobre os meios de comunicação: num mundo em que a opinião pública desempenha um papel de tamanha importância, eles são submetidos a enormes manipulações4. Por ocasião da guerra do Golfo de 1990-1991, agentes da “coalizão” fizeram tentativas – para evitar uma repetição do que ocorrera no Vietnã – de impedir os jornalistas de se aproximarem do campo de batalha. Não deu certo: alguns veículos, como a CNN, fizeram a cobertura dos fatos – justamente de Bagdá – da maneira que Washington não desejava. Durante a invasão do Iraque, no entanto, os jornalistas foram integrados às tropas que, desta maneira, podiam ter maior influência sobre suas opiniões. Mas, na verdade, não funcionou. Futuramente, certamente tentarão encontrar meios de controle mais eficientes, talvez diretos, dos últimos recursos tecnológicos. A ação combinada entre os governos e os detentores de monopólios da mídia tende a ser ainda mais eficaz do que foi agora, por exemplo, a da Fox News5, nos Estados Unidos, e a do império de Silvio Berlusconi na Itália.

Prioridades internas

É impossível prever quanto tempo irá durar a superioridade norte-americana. A única coisa de que podemos ter certeza é que se tratará de um fenômeno temporário na história, como foram todos os impérios. No espaço de uma vida, vimos o fim de todos os impérios coloniais, o do suposto “império dos mil anos” de Hitler, que durou somente doze, e o fim do sonho soviético de uma revolução mundial.

O império norte-americano poderia ruir por motivos internos, o mais imediato dos quais seria o fato de que o imperialismo – no sentido da dominação e administração do mundo – não interessa à maioria dos norte-americanos, muito mais preocupados com o que se passa com eles dentro dos Estados Unidos. A economia está tão debilitada, que chegará o dia em que o governo e o eleitorado irão decidir que é mais importante se concentrarem nesse problema do que se lançarem em aventuras no exterior6. Tanto mais que, no caso dessas intervenções militares no exterior, grande parte dos custos será pago pelos próprios cidadãos norte-americanos – o que não foi o caso da guerra do Golfo, nem, em grande parte, da guerra fria.

Reeducar o Império

O império norte-americano poderia ruir por motivos internos, o mais imediato dos quais seria o fato de que o imperialismo não interessa à maioria dos norte-americanos

Desde 1997-1998, a economia capitalista mundial passa por uma crise. Não irá implodir, evidentemente, mas é improvável que os Estados Unidos prossigam com uma política externa ambiciosa, se graves problemas se revelarem no plano interno. A política econômica interna de George W. Bush não atende, necessariamente, a interesses mais locais. E sua política externa não é, necessariamente, racional, mesmo do ponto de vista dos interesses imperiais norte-americanos – e, naturalmente, daqueles do capitalismo norte-americano. Daí decorrem as divergências de opinião dentro do próprio governo.

A questão fundamental é saber o que farão agora os norte-americanos e como irão reagir os outros países. Irá algum deles, como a Grã-Bretanha – o único verdadeiro parceiro da coalizão dominante – continuar apoiando qualquer projeto que venha de Washington? Os governos deverão mostrar que há limites para a potência norte-americana. Até o momento, foi a Turquia que deu a contribuição mais positiva nesse sentido, afirmando, simplesmente, que não estava preparada para tomar certas decisões, ainda que sabendo que estas lhe seriam benéficas.

De imediato, no entanto, o principal objetivo não é o de conter, mas o de educar, ou reeducar, os Estados Unidos. Já houve um tempo em que o império norte-americano tinha consciência de seus limites – ou, pelo menos, sabia as vantagens que poderia ter comportando-se como se tivesse seus limites. Em grande parte, isso se devia ao medo do outro – a União Soviética. Agora que esse medo desapareceu, só um interesse esclarecido e a educação podem tomar seu lugar.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Eric Hobsbawm, L’Ere dos Empires, ed. Hachette Littérature, Paris, 1999.
2 - Eric Hobsbawm, op. cit.
3 - Ler, de Blowback, The costs and consequences of American Empire, ed. Chalmers Johnson Owl Books, 2001.
4 - Ler, nas edições do dia 16 de maio de 2003 de Le Monde e International Herald Tribune, protestos franceses contra a “conspiração” da imprensa norte-americana.
5 - Eric Alterman, “Macartismo, versão Bush”, Le Monde diplomatique, março de 2003.
6 - Ler “US unemployment hits na 8 year high”, International Herald Tribune, 3 de maio de 2003.




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