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ARÁBIA SAUDITA

Sob a pressão da nova ordem

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Enquanto suas relações com Washington foram abaladas pelos atentados de 11 de setembro, a monarquia saudita é desafiada a enfrentar, por um lado, o islamismo fundamentalista e, por outro, as aspirações por reformas e por abertura

Alain Gresh - (01/06/2003)

Após a queda Saddam Hussein, Washington e Riad tiveram que se conscientizar da crescente hostilidade contra a presença norte-americana por parte da população saudita

As relações entre os EUA e a Arábia Saudita eram sólidas e calorosas. No entanto, o príncipe herdeiro enviou ao presidente norte-americano uma mensagem bastante franca: “Em seu lugar, eu tomaria a iniciativa de pôr fim à sua base militar em nosso país. Em caso de necessidade, nos colocaremos à sua disposição”. Já há vários anos, a presença de uma base norte-americana em Dhahran, na região oriental da Arábia Saudita, vinha sendo objeto de violentas críticas em todo o Oriente Médio. Estávamos no final do ano de 1960, quando o presidente John F. Kennedy recebeu a missiva do príncipe Faiçal. Alguns meses depois, os Estados Unidos decidiram sair de Dhahran.

Mencionado por um membro da família real, esse episódio histórico visa a explicar uma decisão que acaba de ser anunciada e que todos os observadores tentam interpretar: a retirada, antes do final de 2003, dos soldados norte-americanos estacionados na base Príncipe Sultan. Seria o sinal de uma reavaliação radical nas relações entre os dois países?

Nada disso, diz o nosso interlocutor prosseguindo sua explicação. “Em 1991, apesar de derrotado, Saddam Hussein representava uma ameaça. Além disso, fora tomada uma decisão de criar zonas de exclusão aérea no Iraque. Três países participavam dessas operações de vigilância: os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França. Assinamos, portanto, o acordo de Safwan, que permitia a esses aviões decolarem de nosso território. Não se tratava de uma ‘base’ na acepção específica do termo.” “Porém”, acrescenta o príncipe com um sorriso, “nós gostamos de segredos. Não demos explicações sobre nossa decisão. Muita gente acreditou, de boa fé, que tínhamos instalado uma base norte-americana permanente.”

Alvo de hostilidades

Se, na década de 50, a base de Dhahran fora objeto de críticas dos nacionalistas árabes, tais como o Egito de Nasser, a presença, na Arábia Saudita, de cerca de 4.500 soldados norte-americanos após a guerra do Golfo de 1990-1991 tornou-se o alvo das organizações islâmicas radicais e de Osama bin Laden. Dois atentados, em novembro de 1995 e em junho de 1996, seriam realizados contra esses soldados1.

Uma prova da conivência entre os dois países foi a ajuda – discreta, mas eficaz apesar dos desmentidos oficiais – dada por Riad aos EUA durante a invasão do Iraque

Após a queda do regime de Saddam Hussein, Washington e Riad tiveram que se conscientizar da crescente hostilidade contra a presença norte-americana por parte da população saudita, agravada pelo sentimento de solidariedade para com o povo palestino desde que foi desencadeada a segunda Intifada. A retirada, portanto, não significa de forma alguma o fim da colaboração militar entre os dois governos. Muito pelo contrário. A base continuará à disposição dos Estados Unidos; a presença de instrutores militares norte-americanos será aumentada; e as reuniões da Comissão do Estado-Maior conjunto, suspensas desde o verão de 20012, serão retomadas no próximo verão. Afinal, até 1990 – é a explicação que se dá em Riad – não existia qualquer base norte-americana e somente sua presença militar “além do horizonte” garantia a segurança do reino3.

A discreta ajuda de Riad

Uma prova da conivência entre os dois países foi a ajuda – discreta, mas eficaz apesar dos desmentidos oficiais – dada por Riad aos Estados Unidos durante a invasão do Iraque. Nas semanas que precederam a operação, o número de soldados norte-americanos em território saudita chegou a quase 10 mil, o que permitiu à base Príncipe Sultan servir de centro de operações e comando de todos os ataques aéreos4. Paralelamente, tropas de elite instalaram-se nas bases aéreas de Arar e Tabuk, no noroeste do país, de onde foram enviadas para cumprir missões dentro do Iraque. “Jamais conseguiríamos conduzir a guerra contra o Iraque como o fizemos sem a ajuda da Arábia”, resume um diplomata norte-americano sediado em Riad.

A participação de quinze sauditas nos atentados do 11 de setembro abalou a opinião pública norte-americana e desencadeou uma onda de acusações contra o reino

Esta contradição entre a posição oficial do reino – condenação a qualquer agressão contra o Iraque – e sua ação concreta explica a ambivalência saudita em relação à posição francesa. No momento em que a opinião pública saudava, entusiástica, a recusa de Paris em se dobrar ao diktat norte-americano, os dirigentes distribuíam críticas. “Ao se recusar a votar uma segunda resolução sobre o Iraque”, explica um deles, “a França empurrou os Estados Unidos a realizarem uma ação unilateral. Eles se livraram da camisa de forças das Nações Unidas. Ninguém os controla mais.” O que esse dirigente saudita não explica é que uma resolução do Conselho de Segurança teria dado ao reino cobertura legal para sua ajuda aos Estados Unidos. Sem isso, o país teve que ceder a uma política de subserviência.

Os riscos abertos pelo 11 de setembro

Não existiam alternativas. A margem de manobra da família real foi restrita a partir do dia 11 de setembro de 2001. A participação de quinze sauditas nos atentados contra o World Trade Center e o Pentágono abalou a opinião pública norte-americana e desencadeou uma onda de acusações contra o reino, suspeito de se ter tornado o principal foco de exportação do terrorismo islâmico. Após um minucioso trabalho de investigação, os jornalistas norte-americanos descobriram, estupefatos, que a Arábia Saudita não era uma democracia, que os direitos humanos não eram respeitados naquele país, que as mulheres eram obrigadas a usar véu. Vozes influentes, próximas dos meios neoconservadores e fundamentalistas cristãos, exigiam que a Arábia Saudita fosse o próximo alvo, após o Iraque; que o país fosse desmembrado, com a criação, por exemplo, de uma “república xiita” na região petrolífera do Leste ().

Em tais circunstâncias, um “não” saudita às exigências norte-americanas em relação ao Iraque teria sido suicida, pondo em risco as próprias bases da política externa do reino, estabelecidas em 14 de fevereiro de 1945, quando o rei Ibn Saud se reuniu com o presidente Franklin Roosevelt a bordo do navio USS Quincy, no Lago Salgado, no Canal do Suez. Esboçou-se, então, uma aliança de longo prazo, baseada em consistentes interesses mútuos. Ibn Saud contava com os Estados Unidos para proteger a integridade do reino. Na década de 40, enfrentara as ambições hachemitas (Iraque e Jordânia); na década de 50, as pretensões de Nasser; após 1979, os apelos da revolução iraniana... Essa “segurança” iria se concretizar em agosto de 1990 quando, após a invasão do Kuait, 500 mil soldados norte-americanos desembarcaram na Arábia Saudita. Os dirigentes sauditas estão convictos de que nenhum outro país da região lhes poderia oferecer semelhante garantia.

A garantia do suprimento de petróleo ao mundo ocidental

Vozes influentes, próximas dos meios neoconservadores e fundamentalistas cristãos, exigiam que a Arábia Saudita fosse o próximo alvo dos EUA, após o Iraque

Para os Estados Unidos, o interesse na Arábia Saudita é, em primeiro lugar, o petróleo. As primeiras descobertas, feitas por uma empresa norte-americana, ocorreram em 1938. Em poucas décadas, o reino – que detém 25% das reservas mundiais – tornou-se o principal exportador de petróleo. Garante o suprimento, a baixo custo, do mundo ocidental. Porém, o que o torna insubstituível é o fato de ser o único país a ter condições, em caso de necessidade, de colocar diariamente no mercado vários milhões de barris suplementares. Ainda recentemente, a Arábia Saudita aumentou de modo considerável sua produção em duas ocasiões – após o 11 de setembro de 2001 e durante a crise iraquiana. Num prazo de uma década, nenhum outro país – nem sequer o Iraque – tem condições de fazê-lo.

“Mas a aliança americano-saudita não pode ser restrita a um acordo ‘segurança contra petróleo’”, insiste um intelectual. “A Arábia Saudita teve, durante toda a guerra fria, uma participação específica no dispositivo anti-soviético, financiando movimentos que nada têm a ver com o islamismo, tais como a Unita, em Angola, e os contra, na Nicarágua. No Afeganistão, a Arábia Saudita desempenhou um papel crucial na ajuda aos mudjahidin, e contribuiu enormemente para a derrota de Moscou na década de 80. Mas o colapso da União Soviética fez com que a Arábia Saudita perdesse parte de sua importância.”

O desconhecimento recíproco

Com a tempestade do 11 de setembro de 2001, os assuntos bilaterais, até então tratados por um número restrito de dirigentes, passaram a ser o foco do noticiário. E o desconhecimento recíproco alimenta os equívocos. Abdelhamed Al-Ghathami, professor de crítica literária na universidade do rei Saud, em Riad, cita tranqüilamente Jacques Derrida ou Michel Foucault. Escreveu um livro sobre a cultura dos Estados Unidos e espanta-se com o que descobriu sobre aquele país durante a década de 90.

“Os norte-americanos não conhecem coisa alguma da Arábia Saudita. Pensavam que o país se resumia a um deserto com beduínos. Desconheciam que temos cidades, que existem classes médias. Depois do dia 11 de setembro”, continua Abdelhamed Al-Ghathami, “passaram a ver-nos como a quintessência do mal. Quando o Exército Vermelho japonês cometia atentados, jogava-se a responsabilidade no Japão? Tal simplismo acaba alimentando o terrorismo, pois esses grupos radicais podem alegar que os Estados Unidos não combatem o terrorismo, mas o conjunto da nossa sociedade, os árabes, o islamismo. Não seria surpreendente ouvir vozes norte-americanas exigindo abertamente o bombardeio nuclear de Meca ou denunciar o profeta Maomé como terrorista.”

Um oceano de capitais não-aplicados

O interesse dos EUA na Arábia Saudita é o petróleo. O reino, que detém 25% das reservas mundiais, garante o suprimento, a baixo custo, do mundo ocidental.

Uma ação judicial foi apresentada por 600 famílias de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra instituições e dirigentes sauditas importantes, entre os quais o poderoso ministro da Defesa, príncipe Sultan, no valor de... um trilhão de dólares. Recentemente, as acusações também abrangeram influentes membros da corrente religiosa radical, entre os quais Salman Al Awdah et Safar Hawali. Uma espada de Dâmocles paira, agora, sobre os investimentos sauditas nos Estados Unidos, calculados em 450 bilhões de dólares, que poderiam ser confiscados. Embora os boatos sobre uma retirada maciça desses fundos pareçam infundados, atualmente os sauditas hesitam em investir novas somas, o que explica o boom da Bolsa de Riad e do mercado imobiliário. O reino não só nada num mar de petróleo, mas também num oceano de capitais não aplicados...

Para tentar restabelecer seu prestígio, a Arábia Saudita vem se empenhando numa ampla campanha de relações públicas – 14,6 milhões de dólares foram repassados à agência Qorvis Communication, referentes aos seis primeiros meses de 2002. “Não compensa”, afirma, com desdém, um empresário saudita. Mais eficiente, o príncipe herdeiro Abdallah lançou uma audaciosa iniciativa de um plano de paz para o Oriente Médio, levando todo o mundo árabe a aceitar, na reunião de cúpula de Beirute, em março de 2002, uma paz global com Israel em troca da criação de um estado palestino. A “cooperação silenciosa” durante a invasão do Iraque também permitiu neutralizar o peso dos “falcões” do Pentágono, preparados para sugerir que Washington “abandonasse” a Arábia Saudita, já que o exército norte-americano dispõe agora de bases militares e apoio no Iraque e em todos os emirados do Golfo.

Uma relação de profunda desconfiança

“Levamos tempo para compreender o choque que o 11 de setembro representou para a sociedade norte-americana”, reconhece um dirigente saudita. Seis meses após os atentados, altos funcionários do Ministério do Interior ainda explicavam, candidamente, que não existia qualquer prova da implicação de sauditas naquelas ações. Se o discurso oficial mudou, os sauditas ainda manifestam reservas em relação à política norte-americana, reservas que ganham espaço numa imprensa mais livre. A relação americano-saudita nunca foi uma relação amorosa, mas atualmente transparece uma profunda desconfiança.

Abdel Mohsen El Akkas, um dos dirigentes do grupo editorial Chark El Awsat e membro do Majlis Al-Chura, conselho consultivo, reconhece: “Sim, é verdade que os sauditas estão mais reticentes em ir para os Estados Unidos. Circulam muitas histórias, algumas delas terríveis, sobre maus tratamentos. Dizem que os sauditas são retidos durante as escalas para perderem suas conexões, para que se descubram complôs, se é que existem... Como verificar?”

A luta contra os “infiéis” dos EUA

A Arábia Saudita teve, durante toda a guerra fria, uma participação específica no dispositivo anti-soviético, financiando movimentos tais como a Unita, em Angola

Mas uma constatação, os sauditas podem fazer: o prazo para a obtenção de vistos de permanência nos Estados Unidos foi aumentado e o controle é mais rigoroso. Gerou-se um medo que desencoraja eventuais visitantes. Estudantes estão preferindo continuar seus estudos no Canadá, na Austrália ou na Europa. A imprensa divulga informações sobre os 130 sauditas presos em Guantánamo, cujo tratamento é tão contrário aos ideais que reivindicam os Estados Unidos. Acrescentando a tudo isso a indignação sincera de todos os sauditas – mesmo os mais “ocidentalizados” – diante do esmagamento dos palestinos, torna-se compreensível que as campanhas de boicote de produtos norte-americanos sejam bem-sucedidas, pelo menos em termos de discurso – é difícil avaliar seu impacto, embora este seja nítido em relação a cigarros norte-americanos e a algumas empresas de franquia, como o McDonald’s...

O teste crucial das relações entre os dois países, no entanto, será a luta contra o terrorismo. E essa é uma questão que está longe de ser simples. “Durante as últimas décadas”, explica um jornalista saudita, “o reino exportou sua versão extremamente rigorosa do islamismo. A guerra do Afeganistão representou o ponto culminante dessa atividade. Todas as redes de ajuda política, religiosa e financeira que haviam sido criadas encontraram-se ‘ociosas’ com o fim da guerra fria. E algumas dessas redes se reconverteram na luta contra outros ‘infiéis’, os Estados Unidos.”

Controle rigoroso dos fundos para o exterior

Logo após o fim da guerra do Golfo, de 1990 a 1991, Riad começou a pôr ordem em seus financiamentos: não era verdade que várias das organizações financiadas pela Arábia Saudita tinham apoiado a posição de Saddam Hussein? O dinheiro passava pelo conselho dos grandes ulemás e seu presidente, o xeque Abdelaziz bin Baz, pouca ou nenhuma atenção prestava ao destino da ajuda. Nomeado, em julho de 1993, grande mufti – cargo equivalente ao de um ministro –, ele abriu mão de algumas de suas prerrogativas financeiras em proveito do novo Ministério de Assuntos Islâmicos e Bens Religiosos. Mas esse sistema se revelou cheio de falhas e o aparelho estatal, muito recente, não tem um desempenho necessariamente satisfatório.

A imprensa divulga informações sobre os 130 sauditas presos em Guantánamo, cujo tratamento é tão contrário aos ideais que reivindicam os Estados Unidos

Após o 11 de setembro de 2001, as pressões norte-americanas se fizeram mais insistentes. “Foi agilizada uma cooperação para acompanhar o destino dos fundos transferidos e ela é positiva para ambas as partes”, explica Abdel Mohsen El Akkas. “Está sendo preparada uma nova lei nesse sentido”. Em meados de maio, as autoridades anunciaram o fechamento de todos os escritórios da fundação Al-Haramain – já várias vezes questionada por Washington – no exterior. O controle das transferências de fundos para o exterior tornou-se muito mais rigoroso. Os norte-americanos confirmaram essas iniciativas, mas afirmam que os sauditas “não foram ainda a fundo”.

Viveiro de organizações “jihadistas”

No entanto, o principal desafio que se coloca aos dirigentes sauditas é mais social do que de segurança. Mesmo antes dos terríveis atentados de 13 de maio de 2003, havia quem denunciasse o viveiro em que se desenvolvem as organizações “jihadistas”. Mansur Al-Ngidan esconde, sob seus óculos finos, um olhar irônico. Nasceu, em 1970, em Burayda, uma cidade muito conservadora da região do Nedj, berço do reino. Após terminar o secundário, fez estudos religiosos, aprendeu o Corão de cor, aproximou-se das correntes islâmicas radicais e “passou à ação”, tentando incendiar uma loja que vendia vídeos. Preso, fez uma profunda auto-reflexão e tornou-se um dos mais ferrenhos críticos do pensamento religioso radical. “Antes de tudo, nossa crise é uma crise de idéias”, explica. “Fingimos que as organizações terroristas nos são estranhas, mas, na realidade, é entre nós que elas se alimentam, é entre determinados religiosos cujas preces louvam o xeque Osama bin Laden, ou seja, os atentados de 11 de setembro.”

E Mansur Al-Ngiban denuncia a tendência a “excomungar” (takfir) os críticos. Ele próprio foi vítima disso: quatro religiosos o denunciaram publicamente. Essas idéias “jihadistas takfiristas” chegam a autorizar o uso da violência contra autoridades muçulmanas, o que explica o grande número de incidentes armados, nos últimos meses, entre terroristas e forças da polícia local. Por que, então, as autoridades são tão indulgentes em relação a esses extremistas? “No mesmo dia em que a imprensa estampou em cinco colunas as fotografias de 19 terroristas procurados pela polícia (que, para a grande maioria das pessoas, eram sauditas), por exemplo, as autoridades permitiram que o xeque Soleiman Al-Awan – que conclamou abertamente à vitória de Osama bin Laden e à ‘destruição’ de Turki Al-Hamed e Ghazi Ghossaibi5 - voltasse a dirigir seus cultos e a ensinar”, queixa-se Al-Ngidan. Como poderia, então, ser possível condenar os taliban e, ao mesmo tempo, fechar os olhos para os milhares de jovens sauditas que foram para lá combater após o 11 de setembro?

Aliança entre wahhabismo e Irmãos Muçulmanos

“Fingimos que as organizações terroristas nos são estranhas, mas, na realidade, é entre nós, entre religiosos que louvam Bin Laden, que elas se alimentam”

“Para compreender as hesitações do poder”, explica um jornalista, “é preciso voltar às origens do regime, ao pacto assinado em 1744 entre Mohamed Ibn Saud e o reformador religioso Mohamed Ibn Abdelwahhab. Esse acordo instituiu uma aliança entre os religiosos e o poder político, mas estabeleceu uma nítida separação entre os assuntos de Estado, dos quais era encarregada a família Saud, e a religião, que foi deixada aos cuidados do establishment religioso. Como o ritual muçulmano que reivindicavam os religiosos era o hanbalismo, muito conservador, mas que colocava acima de tudo a paz social , apesar das eventuais crises, as coisas foram seguindo.”

Tudo isso mudou na década de 60, quando o reino teve que enfrentar o líder egípcio Nasser, os nacionalistas árabes e os progressistas. Não estava ideologicamente preparado para fazê-lo. Foi então que apelou para os Irmãos Muçulmanos, cujos ativistas eram perseguidos nos países árabes progressistas. Instalaram-se no reino, tomaram as rédeas do sistema educacional e impregnaram as lideranças religiosas tradicionais com um pensamento muito mais politizado. Dessa fusão entre o wahhabismo e os Irmãos Muçulmanos surgiria, após a guerra do Afeganistão, uma corrente minoritária, mas atuante, os “jihadistas takfiristas”, que esbanjam violência. “O problema”, continua o nosso jornalista, retomando os argumentos de Al-Ngidan, “é que, no plano das idéias, existe freqüentemente uma continuidade entre o discurso jihadista e o de uma parte dos representantes do establishment religioso – o anti-ocidentalismo, a hostilidade aos cristãos, aos judeus etc. A questão que se coloca hoje para a família real é a seguinte: é possível erradicar um sem combater o outro? Como fazê-lo sem questionar a legitimidade religiosa da monarquia?”

Os atentados de Riad

Quando teve que enfrentar o líder egípcio Nasser, os nacionalistas árabes e os progressistas, o reino apelou para os Irmãos Muçulmanos

No dia 8 de maio de 2003, toda a imprensa saudita destacou, em manchete, as fotos dos dezenove terroristas procurados. A polícia descobriu um arsenal de armas – 55 granadas, 377 quilos de explosivos, munição, documentos falsos e disfarces. Por que essa súbita publicidade se, até então, as detenções nunca haviam proporcionado qualquer tipo de divulgação? “Temos que reconhecer a existência dessas idéias extremistas em nosso próprio país”, dizia um editorial do diário Al-Watan. No mês de novembro de 2002, o príncipe Nayef, ministro do Interior, questionou em público, pela primeira vez, os Irmãos Muçulmanos. No entanto, o poder hesita em declarar uma guerra aberta, ainda que determinados líderes religiosos tenham sido afastados no período que antecedeu a invasão do Iraque. Basta lembrar que, há poucas semanas, o príncipe Nayef afirmou que não existiam redes terroristas no país, quando se sabia da detenção de centenas de pessoas, das quais, segundo algumas fontes, pelo menos uma centena era de militantes próximos à Al-Qaida...

Os atentados de 13 de maio, em Riad, que fizeram mais de 30 mortos, significariam uma reviravolta? Tanto o debate a que se entregou a imprensa, quanto as declarações, extremamente firmes, do príncipe herdeiro Abdallah, prometem que sim. “Alertamos, em particular, quem tenta justificar estes crimes em nome da religião. Quem tentar fazer isso será considerado um cúmplice dos terroristas e tratado como tal”, disse o príncipe. Pela primeira vez, felicita-se o editorialista Daud El Cheryan, do jornal Al Hayat, o Ministério do Interior não finge que esses atentados são estranhos à nossa sociedade e às nossas idéias: “Ninguém pode negar”, prossegue o jornalista, “que existe entre nós uma simpatia pela corrente jihadista6.”

Declínio do apelo do islamismo radical

Após os atentados, o poder teve uma oportunidade de ouro para isolar essa poderosa corrente que, no entanto, parece menos forte entre as novas gerações, como afirma o professor Abdelhamed Ghathami: “Há 20 anos, eu dou aula no último ano da universidade para um grupo de cinqüenta estudantes. Em meados da década de 80, uma meia dúzia deles eram islâmicos radicais; vi esse número aumentar no final da década de 80 e no início da década de 90. Tornaram-se maioria. A partir de então, seu declínio é perceptível. Este ano, por exemplo, só tenho um desses estudantes.” A que se deveria esse refluxo? Sem dúvida, ao desencanto – muitos dos que lutaram no Afeganistão voltaram desiludidos e alguns deles foram entregues aos norte-americanos pelas próprias tribos. Por outro lado, a Arábia Saudita se urbaniza e se abre para o mundo: a televisão por satélite, assim como a Internet, privaram o sistema educacional de seu monopólio sobre o espírito dos jovens.

Liberais e islâmicos moderados reivindicam a realização de eleições locais e a eleição do Majlis Al-Chura, a garantia dos direitos da cidadania, das minorias e das mulheres

Estaríamos na hora da reforma? Há inúmeras resistências: no establishment religioso, no aparelho do Estado, inclusive nos setores de segurança, onde se afirmou a influência dos jihadistas na década de 90, e numa boa parte da população, gangrenada pelos apelos ao ódio, mas também indignada com a política de Washington no Iraque e na Palestina. Nesse contexto, os apelos norte-americanos à “democratização” suscitam um ceticismo ainda maior já que, como explica um membro do Majlis Al-Chura (conselho consultivo), “todo mundo está convencido de que as pressões de Washington obedecem a interesses deles, não nossos. Contribuem para o descrédito dos que defendem a abertura, que são agora acusados de serem agentes de uma potência estrangeira”.

Reformas por si próprios

Estamos agora numa istiraha (palavra forjada a partir do termo “repouso”), a cerca de dez quilômetros de Riad. Um belo jardim, algumas palmeiras, umas 20 mesas próximas a uma tribuna onde o dr. Abdelaziz Al Dakhil, um economista, faz uma conferência. “É um fato inédito”, revela um dos participantes. “É a primeira vez que ‘saímos’, que fazemos uma reunião num local público”. A maioria dos presentes assinou uma carta no mês de janeiro, o chamado abaixo-assinado dos 104, endereçada ao príncipe Abdallah. Nela, os signatários, liberais e islâmicos moderados, reivindicam a realização de eleições locais e a eleição do Majlis Al-Chura, a garantia dos direitos da cidadania e dos das minorias, assim como os direitos das mulheres. A repercussão do texto foi tão grande, que o príncipe herdeiro recebeu uma delegação de signatários.

“Estamos lutando contra o tempo. Enfrentamos problemas cada vez mais graves, tanto sociais, como econômicos e políticos”, diz o conferencista, citando a pobreza, o crescimento do desemprego e as angústias da juventude. “Também estamos sujeitos a uma formidável pressão por parte dos norte-americanos. Temos duas maneiras para responder: aproximando-nos dos Estados Unidos, dando belas declarações sem qualquer objetividade... Ou então, decidimos empreender por nós próprios reformas por mais liberdade, mais direitos humanos, lutar contra a corrupção. Impondo decisões, ainda que limitadas: a eleição de um quarto dos membros do Majlis Al-Chura, a realização de eleições locais etc. Tenhamos a coragem de avançar em direção às linhas vermelhas que ainda estamos longe de ter superado.”

(Trad.: Jô Amado)

1 - O segundo desses atentados, em Al Khobar, foi realizado por grupos radicais xiitas. Ler “Les mystères d’un attentat en Arabie saoudite”, Le Monde diplomatique, setembro de 1997.
2 - Ler “Coup de froid dans les relations avec Washington”, Le Monde diplomatique, maio de 2002.
3 - A presença militar norte-americana na região do Golfo cresceu consideravelmente a partir de 1987, durante a última fase da guerra entre o Iraque e o Irã.
4 - Ler, de Michael Dobbs, “US-Saudi Ties prove crucial in war”, Washington Post, 27 de abril de 2003.
5 - O primeiro é um intelectual liberal e o segundo, atual ministro da Água e da Eletricidade, também é considerado um liberal.
6 - Al-Hayat, 15 de maio de 2003.




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