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O aparelho do Likud em Washington

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Concentrada em influenciar a mídia e o poder executivo sobre assuntos relativos ao Oriente Médio, o WINEP sofreu uma guinada para a direita após os atentados de 11 de setembro de 2001, acompanhando o sentimento antiárabe da sociedade norte-americana

Joel Beinin - (01/07/2003)

Sob os auspícios do WINEP, tanto a gestão republicana de Bush (pai), quanto a do democrata Clinton, adotaram uma postura rígida e omissa

Fundado em 1985, o Washington Institute for Near East Policy (WINEP) se tornou rapidamente, nas questões que se referem ao Oriente Médio, o mais influente think tank perante as autoridades norte-americanas e a mídia. O fundador do WINEP, Martin Indyk, era encarregado de pesquisa no American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), o poderoso lobby pró-israelense nos Estados Unidos. Enquanto o AIPAC é abertamente partidário, Indyk consegue apresentar o WINEP como uma organização “favorável a Israel, porém capaz de formular análises imparciais sobre o Oriente Médio1”. E enquanto a influência do AIPAC se exerce principalmente sobre o Congresso, através de enormes contribuições de campanhas2 , a do WINEP se concentra sobre a mídia e sobre o poder executivo.

Neste sentido, o WINEP convida os jornalistas para almoços semanais, publica análises e fornece seus “experts” às estações de rádio e aos talk-shows televisivos. Dirigentes da organização como Robert Satloff, Patrick Clawson ou Michael Eisenstadt aparecem assim freqüentemente no rádio ou na televisão. O ponto de vista do WINEP é sistematicamente retomado pelo U.S. News & World Report e o The New Republic, cujos dirigentes ou proprietários, Mortimer Zuckerman e Martin Peretz, fazem parte do conselho desta organização. Os colaboradores israelenses do WINEP, entre eles os jornalistas Hirsh Goodman, David Makovsky, Ze’ev Schiff e Ehud Yaari, beneficiam-se também de um acesso direto à mídia norte-americana.

Uma postura omissa

Quando os israelenses, por si próprios, resolveram iniciar reais negociações, aceitaram encontrar a OLP em Oslo, sem informar a administração Clinton

O WINEP mantém relações estreitas com os responsáveis pelos dois grandes partidos democrata e republicano. Seu primeiro grande sucesso foi a publicação de um relatório intitulado "Construir a paz : uma estratégia norte-americana para o Oriente Médio", justo antes da eleição presidencial de 1988. Este texto exortava o presidente que sucederia Ronald Reagan a “resistir às pressões visando a fazer progredir rapidamente as negociações israelo-palestinas, até que as condições tenham amadurecido3”. Seis membros do grupo de trabalho que elaborou este relatório integraram a administração Bush (pai), que se alinhou sobre esta opinião e decidiu não fazer nada até o momento em que fosse obrigado a tomar uma atitude. Desta maneira, os Estados Unidos apoiaram a recusa israelense em negociar com a Organização de Liberação da Palestina (OLP) durante a conferência de Madri em 1991, apesar do fato da OLP ter reconhecido a existência de Israel desde a plenária de seu Conselho nacional de novembro de 1988.

A administração Clinton adotou a mesma postura omissa. Conseqüentemente, entre 1991 e 1993, os onze encontros reunindo israelenses e palestinos não-membros da OLP não levaram a nenhum resultado. Quando os israelenses, por si próprios, resolveram iniciar reais negociações, aceitaram encontrar a OLP em Oslo, sem informar a administração Clinton. Estes encontros iriam resultar na declaração de princípio israelo-palestina de setembro de 1993.

Como recrudescer a luta armada

Para o WINEP, os países aliados aos EUA não poderiam legalizar partidos religiosos. Isso afastou os islamistas da política e os levou à luta armada

Ao longo dos anos 1990, o fim da guerra fria ameaça reduzir a importância estratégica da aliança entre Israel e os Estados Unidos. O WINEP trabalha então para preservar esta aliança apoiando a posição do premiê israelense Itzhak Rabin, que apresenta o seu país como um aliado seguro de Washington na luta contra o extremismo muçulmano. Em dezembro de 1992, Itzhak Rabin manda expulsar mais de 400 islâmicos palestinos para o Líbano. Para justificar tal ação, o jornalista de televisão israelense Ehud Ya’ari denuncia, no New York Times, uma ampla conspiração localizada nos Estados Unidos e destinada a financiar o Hamas4.

No mesmo ano, o simpósio do WINEP interroga-se sobre o perigo que pode representar o Islã para a política externa norte-americana. Nesta ocasião, Martin Indyk defende a tese segundo a qual os Estados Unidos não devem encorajar o desenvolvimento da democracia nos países aliados a Washington, como a Jordânia ou o Egito. Nestes Estados, uma abertura política deveria legalizar apenas partidos não-religiosos5. Esta estratégia vai levar os movimentos islâmicos a abandonar a luta política e a voltar-se para a ação armada. E, na medida em que os Estados Unidos são percebidos como favoráveis aos regimes autoritários instalados nestes dois Estados, estes vão ser alvejados, por exemplo, no Egito entre 1992 e 1997.

Parceria durável

Antes dos atentados do WTC, o WINEP tinha posições até moderadas. Mas Bush II instalaria no poder um grupo de extremistas próximos do Likud

O governo Clinton será ainda mais colonizado pelo WINEP que os seus antecessores. Onze signatários do relatório publicado em 1992 pela comissão do WINEP sobre as relações entre os Estados Unidos e Israel ("Uma parceria durável") surgem na administração democrata. Entre eles, Anthony Lake, conselheiro para a segurança nacional, Madeleine Albright, embaixadora na ONU e futura secretária de Estado, o subsecretário para o comércio Stuart Eizenstat e o secretário para a Defesa Les Aspin. Desde 1993, o governo Clinton instalou o “duplo represamento” contra o Irã e o Iraque, estratégia que anuncia o “Eixo do mal” de George W. Bush. Conselheiro especial do presidente e diretor geral da seção Oriente Médio/Sudeste Asiático do Conselho de Segurança Nacional (National Security Council, NSC), Martin Indyk é o principal arquiteto desta política. De origem australiana, ele deverá naturalizar-se norte-americano antes de integrar a administração Clinton. Mais tarde, ele se tornará embaixador em Israel, assistente do secretário de Estado para o Oriente Médio e, de novo, embaixador em Israel. Em todas estas vagas, Indyk irá desempenhar um papel maior no “processo de paz” lançado em Oslo.

Igualmente membro do WINEP, Denis Ross também toma parte do “processo”. Colaborador de primeiro plano do secretário de Estado James Baker, Ross participa da elaboração da política norte-americana para o Oriente Médio no governo Bush I e, depois, assume a organização do “processo de paz” sob Clinton. Após ter deixado a administração, ele assume a direção do WINEP.

Nomes aos bois

"A cada 10 anos, os EUA devem escolher um pequeno país de merda e arrasá-lo, para que o mundo entenda que nós não estamos para brincadeira"

Antes da chegada ao poder do Bush filho e dos atentados de 11 de setembro de 2001, o WINEP tinha posições próximas das defendidas pelo partido trabalhista israelense e pelos generais “moderados” do Jaffee Center for Strategic Studies da Universidade de Tel-Aviv. Falcões como Martin Kramer ou Daniel Pipes (ler o encarte) raramente têm o direito à palavra. Mas George W. Bush instalaria no poder um grupo de extremistas próximos do Likud e de think tanks ultraconservadores como o American Enterprise Institute, o Project for a New American Century, o Jewish Institute for National Security Affairs (JINSA) e o Center for Security Policy (CSP). Assim, o vice-presidente Richard Cheney, o subsecretário para a segurança nacional John Bolton e o subsecretário para a Defesa Douglas Feith eram os três conselheiros do JINSA, antes de entrarem na administração de George W. Bush. No total, 22 membros do CSP integram os cenáculos ligados à segurança nacional norte-americana.

O WINEP tinha apenas relações limitadas com estas instituições, mesmo que se referissem a personalidades de primeiro escalão. Pai ideológico da guerra contra o Iraque e até recentemente presidente do Defense Policy Board, Richard Perle pertencia ao JINSA e ao WINEP. Seu superior no Pentágono, o falcão Paul Wolfowitz, era também membro do WINEP antes de entrar na administração Bush. Mas o WINEP reanimou a sua influência em Washington ao agregar os serviços de neoconservadores de primeiro plano. Antigo analista do Middle East Fórum, Jonathan Schanzer se tornou membro honorário do WINEP. O diretor do Middle East Fórum é Daniel Pipes, uma das vozes mais hostis aos árabes e aos muçulmanos. Pipes também se tornou analista junto ao WINEP. Max Abrahms, também membro honorário e especializado nas questões de segurança israelense, colaborou na National Review Online, órgão ligado aos neoconservadores. Especialista das questões de terrorismo e antigo analista do FBI, Matthew Levitt, escreve também na National Review Online, onde ele apóia publicamente as operações de contra-terrorismo.

A clara ideologia da instituição

A guinada para a direita no posicionamento ideológico do WINEP faz eco à elite política israelense e ao sentimento antiárabe pós 11 de setembro

Joshua Muravchik, um outro pesquisador ligado ao WINEP, trabalha também para o American Enterprise Institute (AEI), controlado por Richard Perle. Uma “análise” formulada por Michael Ledeen, também membro do AEI, esclarece bem a ideologia desta instituição: “Mais ou menos a cada dez anos, os Estados Unidos devem escolher um pequeno país de merda e arrasá-lo, para que o resto do mundo entenda que nós não estamos para brincadeira6”.

A rejeição ao Mapa do Caminho estabelecido pelo Quarteto (Rússia, Estados Unidos, União Européia e ONU) traduz nitidamente a conversão do WINEP às idéias do Likud. Robert Satloff afirmou a sua oposição a esta iniciativa que, segundo ele, apóia-se sobre "um paralelismo tão artificial quanto insultante entre a conduta dos israelenses e a dos palestinos". Para Joshua Muravchik, uma tal posição constitui a análise "mais penetrante" das falhas deste documento7. Antigo diplomata, Dennis Ross formula a sua crítica de forma mais sutil, mas considera igualmente que o tal plano de paz “demanda muito pouco esforço por parte dos chefes árabes8”.

Fracasso vai ser culpa dos árabes

Esta deriva direitista faz eco à elite política e militar israelense. De fato, desde o início da segunda Intifada, a posição pró-israelense “moderada” à qual se juntava o WINEP foi empurrada às margens do discurso político em Israel. Este movimento geral está também afinado com o sentimento antiárabe e anti-muçulmano que invadiu a sociedade norte-americana desde o 11 de setembro. Uma tal mudança de posicionamento ideológico permite ao WINEP ter um acesso privilegiado ao primeiro escalão da administração de George W. Bush, apesar de uma presença que, no total, parece menos forte que nas administrações Bush I e Clinton.

As críticas formuladas pelo WINEP contra o Mapa do Caminho podem parecer colocar a organização em descompasso com o governo norte-americano, mas não é nada disso. Poucos observadores sérios estimam que este plano produzirá resultados duráveis. E a crítica formulada pelo WINEP, que considera esta iniciativa como “pró-árabe”, permitirá imputar o seu fracasso aos palestinos. Da mesma forma que o presidente Clinton responsabilizou Yasser Arafat pelo fiasco de Camp David.

(Trad.: David Catasiner)

1 - Washington Post, 24 de março de 1989.
2 - Vide Serge Halimi, “Le poids du lobby pro-israélien aux Etats-Unis”, Le Monde diplomatique, agosto de 1989.
3 - Washington Institute for Near East Policy, Building for Peace: An American Strategy for the Middle East, Washington, D.C., 1988.
4 - Vide. The New York Times 5 - Martin Indyk, “The Implications for U.S. Policy”, in Islam and the U.S.: Challenges for the Nineties, Washington Institute for Near East Policy, Washington DC, 27 de abril de1992, p. 87.
6 - Jonah Goldberg, “Baghdad Delenda Est, Part Two”, National Review Online, April 23, 2002. http://www.nationalreview.com/goldb...
7 - Joshua Muravchik, “The Road Map to Nowhere: Do we really need another doomed Mideast peace process?” The Israel Report, abril 2003. http://www.cdn-friends-icej.ca/isre...
8 - Dennis Ross, “Through Street or Cul-De-Sac? Assessing the Latest Quartet Roadmap”, Peacewatch No. 408, 24 de dezembro de 2002. http://www.washingtoninstitute.org/...




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