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FRANÇA

A zona nebulosa dos mercenários

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Mesmo circunscritos a pequenos papéis, os mercenários ainda são instrumentos da política externa da França. Embora o país afirme ter proibido a participação em combates, a fronteira entre os serviços secretos e os mercenários permanecem fluídas

Barbara Vignaux , François Dominguez - (01/08/2003)

As relações entre os serviços secretos e os mercenários “são as mesmas que entre um pai nobre um filho bastardo”. A expressão é de Jack1, um dos notáveis do meio mercenário parisiense, um trintão seguro de si. Após dez anos, o pai envelhecido assume cada vez menos sua paternidade: seu filho natural tornou-se mais turbulento e ele próprio, preocupado com sua imagem, finge, em sociedade, ter rompido os laços filiais - sem convencer. Enfim, é o je t’aime, moi non plus, segundo a fórmula irônica de Yves, outro mercenário.

A atividade mercenária se transforma, na África, em negócio fecundo combinando produtos de grande consumo, tráfico de armas e recrutamento de combatentes

Jack e Yves são dois combatentes experientes, passaram pelos palcos da Bósnia, do Zaire, do Congo e da Costa do Marfim. A geração dos trintões, pintada ora como idealista, ora como mais interesseira, fez suas primeiras ações na Birmânia, junto da minoria cristã karen, e na Bósnia, ao lado dos croatas. Em Paris, esses franceses - a quem se misturam alguns estrangeiros -, que exercem uma atividade mercenária constante, seriam entre 80 e 100. Acrescenta-se a eles um número variável que se auto-proclamam mercenários, pois “os mitômanos são um perfil recorrente na nossa profissão”, segundo Stéphane, outro indivíduo do mesmo meio. Como entre seus predecessores, domina entre eles o gosto pela aventura e pela vida em coletividade, às vezes misturado a convicções políticas.

Negócio próspero

Sob todas suas formas, a extrema-direita é a melhor representada e o Front National é um desses componentes, entre outros, como o Occident2 e o royalisme3: “Não são abordados temas que incomodam”, explica Jack. Algumas exceções existem, para confirmar a regra: além de ter servido o exército, Jérôme não tem formação militar. Por outro lado, militou dois anos na Juventude Comunista Revolucionária4.

O aspecto financeiro da atividade não parece ser mais decisivo do que outros. É verdade que a remuneração mensal - 4.500 a 7.500 euros (de 15 mil a 25 mil reais) - é atraente. Contudo, “paga-se melhor, na França, para controlar um conflito social, com risco zero, do que para participar em um conflito armado, no exterior”, explica Jack. Entre duas missões, os mercenários também prestam serviços, no exterior ou na França, para empresas de segurança - outra atividade civil, muitas vezes, bem paga. Nesse campo, e entre os que se enriquecem mais, encontra-se o exemplo de antigos guardas do palácio do Elysée, pertencentes à geração precedente, como Paul Barril. Graças a agendas de endereços bem repletas, a atividade se transforma, na África, em negócios fecundos que combinam produtos de grande consumo, tráfico de armas e recrutamento de combatentes.

Operações têm alcance menor

O meio mercenário conta com menos quadros do que há 40 anos, no final da guerra da Argélia. Nenhum mercenário francês é capaz de comandar uma companhia

A expressão “meio mercenário” é contestada. Para Charles, que é um observador privilegiado, a heterogeneidade do meio é apenas temperada por “afinidades”: as redes de amizade e relações em volta de figuras muito contestadas, como “Marquez”, “Sanchez” ou “Garibaldi”. Conhecido como o Velho, Robert Denard - vulgo Bob Denard -, o mercenário francês mais conhecido do grande público, poderoso fator de coesão do meio nas décadas de 60 e 70, não deixou sucessor5. Poucas figuras do ambiente mercenário francês conjugam, hoje, as qualidades necessárias a tal “ofício”: formação militar, experiência de combate, capacidade de treinar homens, senso de organização e relações bem estabelecidas.

Na realidade, o meio mercenário conta com menos quadros do que há 40 anos, no final da guerra da Argélia. Dessa forma, como diz Yves, “nenhum mercenário francês é capaz de comandar uma companhia”. Em geral, seu nível técnico o limita a agir em uma seção. As operações montadas a partir da França são, portanto, de pequeno alcance, com um objeto bem circunscrito e a ilustração mais característica é a organização de uma guarda presidencial. A votação da lei de proibição da atividade mercenária6, em 3 de abril último, deveria reforçar essa tendência: legalistas, oficiais superiores hesitarão mais do que antes em dar o primeiro passo para uma atividade privada que passou a ser criminosa.

Privatização da assistência militar técnica

A retirada, há 10 anos, das tropas francesas da África criou uma nova demanda nos serviços militares, desembocando numa privatização da assistência militar técnica

A instrução e o enquadramento das tropas constituem a primeira parte da atividade dos mercenários franceses, detentores de “um know how de fazer inveja a muitos soldados do exército regular”, pensa um observador. As especialidades representam a segunda parte: transmissão, informação, pilotagem de helicópteros, tiro de artilharia, montagem de operações especiais... “Faz 30, 40 anos que os exércitos ocidentais e os mercenários formam os exércitos africanos. Hoje, o combatente de base tem uma formação: a grosso modo, ele sabe marchar e atirar” explica François-Xavier Sidos, autor de um livro sobre a história dos mercenários7 e ex-companheiro de Bob Denard. Os “trunfos” dos franceses são o bom conhecimento da África de língua francesa e um know how “artesanal”, dixit Jérôme, em oposição à competência “industrial” dos anglo-saxões8.

Vindos de um exército menos equipado que o exército norte-americano, com uma logística mais aleatória, os franceses seriam, em geral, mais espertos: “Sabem improvisar”, explica Jerôme. Ora, a retirada das tropas francesas da África, há mais de 10 anos, criou uma nova demanda nos serviços militares. Isso desembocou, constata Jean-Philippe Daniel, em “uma privatização da assistência militar técnica9. É o mercado da delinqüência dos Estados”, explica esse jovem pesquisador, militante de esquerda.

Zona cinzenta

A origem militar dos mercenários franceses está na raiz de suas relações ambíguas com os serviços secretos e de informação do país. Os principais viveiros são os regimentos de paraquedistas, as tropas da marinha (ex-coloniais) e a Legião Estrangeira. Com 20, 25 ou 30 anos, esses homens deixaram uma instituição considerada excessivamente burocrática para assumir responsabilidades no âmbito de grupos operacionais mais unidos. Nesse ponto, os depoimentos acompanham, mais ou menos, esta confissão de Jérôme: “No exército, eu seria um simples sargento”.

Recorrer a “soldados privados” traz ao Estado algumas vantagens: eximimir-se de qualquer controle democrático, não chocar a opinião pública e não deixar rastros

Há também muitos homens - reservistas ou “autênticos” mercenários - que se situam em uma “zona cinzenta” entre o público e o privado: “nesse ramo de atividade, não se pára nunca”, confirma um coronel, antigo agente da Direção Geral da Segurança Externa (DGSE). Por conservarem contatos com seus ex-colegas, alguns tiram partido da ambigüidade de sua antiga condição. Segundo um dos artífices do projeto de lei no Ministério da Defesa, essa é uma das razões da adoção da lei do 3 de abril: “Nunca se pode provar que um indivíduo não pertence aos serviços de informação de um país (...). E, além disso, os mercenários procuram manter relações pessoais com pessoas da DGSE ou da célula africana do palácio Elysée, o que os legitima aos olhos de seus clientes. Isso é ruim para a imagem da França”. Como, por exemplo, o general Jeannou Lacaze, ex-comandante do Estado-Maior das forças armadas. Membro do Serviço de Documentação Exterior e de Contra-espionagem (SDEC), sucedido pela DGSE, em 1982, Lacaze conhecia bem Bob Denard. Ora, do ponto de vista africano, explica Jean-Philippe Daniel, “se é Jeannou Lacaze, é a França”.

Não choca a opinião pública e não deixa rastros

A profissionalização das forças armadas francesas deveria reforçar essa tendência: como os cargos de responsabilidade se tornam mais raros, as carreiras ficam mais curtas e mais estranguladas e os combates excepcionais, os soldados e suboficiais acabariam escolhendo a vida de mercenário.

Recorrer a soldados “privados” - termo que freqüentemente substitui o de mercenário, considerado pejorativo - apresenta para o Estado duas vantagens importantes. Ele se exime, desse modo, de qualquer controle democrático, sem risco de chocar a opinião pública. “Consumíveis e descartáveis” a seu bel-prazer, os mercenários “não deixam rastros”, diz um deles. “É melhor perder um mercenário do que um eleitor”, deixa escapar, caçoando e impassível, um oficial aposentado da DGSE. E outro, este ainda na ativa, acrescenta: “Além do mais, o exército não pagará sua aposentadoria”. Se tivéssemos enviado mercenários para pôr a pique o Rainbow War, a gestão política da crise teria sido enormemente facilitada.

Assistência militar, mercenários, tropas regulares

A cumplicidade objetiva entre os “privados” e o Estado aparece no fato de que os “golpes” realizados pelos primeiros não são, em geral, questionados pelo segundo

A ausência de vínculos orgânicos com os “corsários” permite ao Estado conduzir uma “política por procuração”. De fato, todos os presidentes da V República liberaram, ou provocaram operações mercenárias: o general De Gaulle, depois Georges Pompidou, de Katanga a Biafra, Giscard d’Estaing, da ilha Comore, François Mitterrand, do Chade ao Gabão. Durante a presidência de Jacques Chirac, muitas operações foram toleradas: a do Zaire (1997), do Congo-Brazzaville (1997-98 e 2000). E os protestos de boa fé dos dirigentes políticos “não enganam ninguém”, declara um antigo quadro da DGSE.

Em sua função de intermediária da política governamental, a operação mercenária insere-se, muitas vezes, em um esquema bem coordenado, assim resumido por um ex-agente especial: assistência militar, mercenários, tropas regulares. Esse esquema se aplica, aliás, à situação ocorrida na Costa do Marfim no dia seguinte ao do golpe de Estado de 19 de setembro de 2002. Depois que o ministro das Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, pediu ao presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, que retirasse os mercenários a seu serviço, as tropas francesas se empenharam em fazer respeitar o cessar-fogo. A França dificilmente poderia intervir abertamente para auxiliar um regime que lhe nutre pouca simpatia e que não se preocupa com os direitos humanos, como demonstra a existência dos “esquadrões da morte”. Por outro lado, poderia utilizar os mercenários, cujos abusos haviam sido, prévia e devidamente, explorados pela mídia.

Cumplicidade entre Estado e mercenários

O envio de mercenários pode igualmente constituir um sinal político de apoio, mesmo que mínimo, como foi o caso do Zaire, no final de 1996 e início de 1997. Cerca de 30 franceses estavam encarregados de dirigir o exército de Joseph Mobuto, desestruturado pelas tropas de Laurent Désiré Kabila, equipadas por Ruanda e Uganda. A operação se desenvolveu em condições patéticas: material raro e defeituoso, apatia das tropas do Zaire, conflito entre mercenários franceses e sérvios, rivalidade entre dois serviços franceses... Ainda que destinado a um regime condenado a ser breve, esse gesto foi um último sinal de simpatia por parte de Paris.

A cumplicidade objetiva entre os “privados” e o Estado aparece também no fato de que os “golpes” realizados pelos primeiros não são, em geral, questionados pelo segundo. A operação de um Bob Denard mais velho, nas Ilhas Comores, por exemplo, em setembro de 1995, permitiu derrubar o presidente Said Mohamed Djohar, autocrata que se tornou incontrolável. O presidente arruinado não voltou ao poder, no mês seguinte, após a intervenção das forças francesas...

O bom mercenário é controlável

Para os serviços de inteligência, o problema é o controle: um bom mercenário é controlável, e não o abrutalhado que faz uma ou duas missões e depois conta a todos

O envio de mercenários permite, no caso citado, lançar “cortinas de fumaça”: “É fácil apostar que uma dezena de indivíduos parrudos, tatuados da cabeça aos pés, de cabeça raspada, fingindo fazer turismo em um local pouco provável, acabarão por chamar a atenção”, explica Stéphane. E portanto, desviar a atenção da opinião de um outro lugar... sem dúvida muito mais interessante. Até hoje, ignora-se se a ruidosa expedição para Madagascar, em 18 de junho de 2002, atendia a esse objetivo10. Tratava-se simplesmente de uma operação de “Pieds Nickelés11” contratada segundo o interesse dos contratados, como a conheceu e a conhecerá, sem dúvida, o meio mercenário? Ou teria sido organizada pelo ex-presidente malgache, Didier Ratsiraka, como inúmeras pistas permitem suspeitar?

Para os serviços de inteligência, o problema é o controle: “Um bom mercenário é um mercenário controlável”, resume um ex-oficial da DGSE. Um serviço da Direção da Proteção e da Segurança da Defesa (DPSD), a antiga Segurança Militar, do Ministério da Defesa, é especificamente encarregado de acompanhar a atividade dos mercenários. Ora, as coisas parecem ter se deteriorado, como testemunha outro aposentado da Defesa: “Na época do Chade, havia mercenários de competência profissional reconhecida. Confiava-se neles. Hoje, alguns são incontroláveis”. A opinião é a mesma, em outro estilo, entre os próprios mercenários: “Há abrutalhados demais no mercado”, explica Jack. “Eles só fazem uma missão ou duas, depois contam para todo mundo. O Estado tem um medo terrível dos tipos incontroláveis”.

Fidelidade ao Estado

Muitos fatores podem explicar esse fenômeno: a desestruturação e expansão do meio mercenário, a dificuldade crescente, por razões políticas e morais, para recorrer a eles, e também, do lado do Estado, uma dispersão dos centros de decisão, assim como escaramuças entre serviços concorrentes.

O governo francês enviou uma missão à Costa do Marfim para desmantelar as redes de oposição. Seis meses depois o primeiro ministro mandou desmontar a operação

Pois a fidelidade ao Estado - ou a um serviço - é apenas uma questão de personalidade. Alguns mercenários, a exemplo de um reservista da 11ª brigada (o braço armado da DGSE), teoricamente livres de qualquer obrigação administrativa, “nada podem fazer sem se referir a seu serviço de origem” (freqüentemente a DGSE). Outros, ao contrário, explica Stéphane, “são capazes de fazer de tudo”. Essa constatação é tão justa que Yves, um dos organizadores do meio, acha que “além de 10 indivíduos, a confidencialidade da operação deixa de ser segura”. Além de uma renda complementar pontual, a manutenção do elo com um serviço evita perder-se em operações arriscadas. Para alguns “golpes” delicados, “nada se pode fazer sem os barbouzes12”, explica Stéphane.

Quem exerce o controle

No entanto, ainda é preciso saber quem exerce o controle: a DGSE, a Direção da Segurança do Território (DST), as Relações Exteriores, o Primeiro-ministro ou a Presidência da República? A dispersão dos centros de decisão política atingiu o auge durante a coabitação13, período, “extremamente penoso” segundo um ex-oficial superior da DGSE. No início de 2000, por iniciativa de um assessor do palácio do Elysée, uma missão de seis homens foi enviada ao general Robert Gueï, efêmero chefe de Estado da Costa do Marfim, para desmantelar as redes de oposição e reestruturar a guarda presidencial. Seis meses mais tarde, a operação foi desmontada... a pedido do primeiro-ministro. Já vai longe a dominação de Jacques Foccart sobre o conjunto da política africana.

A estas oposições dentro do governo acrescentam-se as iniciativas pessoais de políticos, mobilizando, por exemplo, as redes de Charles Pasqua ou do coronel Maurice Robert, ex-diretor para a África do SDECE e ex-embaixador da França no Gabão. “Pelo menos duas vezes, tive que desmontar uma operação idiota montada por um político”, reconhece, sem querer dizer mais, um ex-oficial da DGSE. As operações organizadas sem que um dos serviços interessados (DPSD, DGSE ou DST) tome conhecimento são, efetivamente, excepcionais. “O poder controla sempre, mesmo se existir um sinal de alerta”, pensa François Xavier Sidos.

Alertados, os dirigentes políticos têm sempre, portanto, a possibilidade de intervir. Um interlocutor dos serviços reconhece só não ter tido conhecimento de uma operação: a das Ilhas Comores, em dezembro de 2001. Explica isso pelo fato de os homens recrutados não serem oriundos do movimento mercenário.

Instrumentos da política externa

As principais agências de segurança privadas se preservam de manter elos com o mercenariato, mas a fronteira com as empresas militares privadas permanece fluída

Os serviços de inteligência, no pior dos casos, podem interromper ou impedir uma operação. A primeira solução foi adotada para a expedição para Madagascar, em junho de 2002. A segunda, ocorreu há dois anos: um agente da DGSE deu ordem de prisão ao organizador do recrutamento de uma centena de homens para a República Democrática do Congo (ex-Zaire). Enviada para depor o presidente Kabila, essa operação nunca aconteceu.

Portanto, ainda que circunscritos a pequenos papéis, os mercenários ainda são, eventualmente, instrumentos da política externa da República. Na França, como em outros lugares, um certo número de agências especializadas constitui pivôs para obtenção desse tipo de emprego. As mais conhecidas agências de segurança privadas ou empresas de prevenção e gestão de crises se preservam de manter qualquer elo que seja com esse gênero de atividade, mas a fronteira com as empresas militares privadas permanece fluída. “Não é preciso esconder o rosto, todo mundo é verde (para simbolizar o recurso à força e a referência à cor do uniforme militar) com o aval das autoridades do país da intervenção”, confidencia um interlocutor anônimo a uma revista especializada14. Nada em comum, entretanto, com as grandes empresas anglo-saxônicas - Sandline International, Dyncorp, Defense System Ltd, Military Professional Ressources Incorporates (MPRI), Wackenhut, etc. - prontas a instalar, em tempo recorde, dispositivos sofisticados em materiais e em homens.

A França proclama ter optado pela via da proibição. Mas a dúvida persiste: ao proibir a participação em combates, não se regulamenta a questão do enquadramento das operações, nem da formação, nem das especialidades - que constituem o grosso da atividade dos mercenários franceses. Isso talvez explique a ambigüidade do propósito sustentado diante do Senado pelo ministro da Defesa, Michèle Alliot-Marie, quando da apresentação do projeto, em 3 de abril de 2003: “Convém punir os excessos dos mercenários, enquadrando sua prática”. Com qual finalidade? Proibir, então, o recurso aos soldados privados? Ou restabelecer um ambiente mercenário mais controlável?

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Os nomes foram modificados.
2 - N.T.: Occident – Movimento fundado em 1964 por estudantes nacionalistas, de tendência fascista, antisemita e negacionista.
3 - N.T.: Royalisme é um movimento monarquista democrático; supõe que a monarquia é a única forma de governo que pode realizar o ideal republicano.
4 - N.T.: A Juventude Comunista Revolucionária (JCR) é a ala jovem da Liga Comunista Revolucionária (LCR), organização trotskyista vinculada à IV Internacional.
5 - Fuzileiro naval durante a guerra da Indochina, Denard atuou no Marocos de 1952 a 1957, na polícia do chérif, depois para os serviços especiais franceses na Argélia; depois no Iêmen, no Congo, na Nigéria (Biafra), em Angola, no Benin, e a partir de de 1975 nas ilhas Comore onde conhecerá o auge e a derrota antes de desaparecer de cena, em maio de 1999, após ter sido citado, na França, no processo do assassinato do antigo presidente de Comore Ahmed Abdallah.
6 - Apresentada pelo ministro da Defesa anterior, Alain Richard, essa lei foi aprovada por unanimidade pela legislatura atual. Ela pune com multas e pena de prisão (cinco a sete anos) ’a participação direta em hostilidades’ de mercenários (e a organização dessa atividade). Bastante restritiva, ela se mostra de difícil aplicação.
7 - Ler, de François-Xavier Sidos, Les soldats libres, la grande aventure des mercenaires, ed. L’Æncre, Paris, 2002.
8 - Idem.
9 - Ler, de Jean-Philippe Daniel, La politique militaire de la France au Sud du Sahara, du discours de la Baule à l’opération Hadès: du désengagement à la privatisation? Mémoire de DEA de relations internationales, ed. Université de Panthéon-Sorbonne, 2000.
10 - Doze mercenários recrutados por uma pequena empresa de segurança, Active Protection International Service (APIS), provenientes de Paris com destino a Madagascar, a bordo de um avião Falcon 900, foram interceptados na escala de Dar-es-Salam (Tanzânia) após uma intervenção do Ministério francês das Relações Exteriores. Uma crise aguda opunha, na época, o presidente eleito, Marc Ravalomanana, ao presidente anterior Didier Ratsiraka.
11 - N.T.:Nome de uma revista de histórias em quadrinhos francesa.
12 - Agente secreto (N. de T.)
13 - N.T.: Os franceses usam o termo “coabitação” para se referir à situação em que o presidente é de um partido e o primeiro-ministro, de outro, de oposição. Foi essa, até recentemente, a situação, quando o presidente era Jacques Chirac (Reunião Pela República) e o primeiro-ministro, Lionel Jospin (Partido Socialista). Atualmente Jacques Chirac pertence ao UMP (União pela Maioria Presidencial).
14 - Ler, de Pascal Le Pautremat, “Les nouveaux acteurs de la sûreté des entreprises”, Raids, Paris, n° 199, dezembro de 2002. Sobre esse assunto, ler também o dossiê “Mercenaires. Des chiens de guerre aux sociétés étatiques”, Raids, n° 196, setembro de 2002.




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