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EUROPA

Um guia de viagem do Velho Continente

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Como fundar uma memória comum dos países da União Européia, se cada um deles cultiva uma visão etnocêntrica? Seria preciso buscá-la não na megalomania de reis tirânicos, mas na história de seus povos e de suas lutas por liberdade e justiça

Chistian de Brie - (01/08/2003)

Reis tirânicos e ditadores saturam a história européia com perpétuas guerras. Uma linguagem simbólica do poder homenageia sua desastrosa megalomania

Por ter passado, em meio século, de seis para 25 países-membros, a União Européia tem dificuldades para exprimir a comunidade de destino que a legitimaria. Os autores do preâmbulo da futura Constituição dizem-se “persuadidos de que os povos da Europa, mantendo-se orgulhosos de suas identidades e de sua história nacional, resolveram (...) forjar um destino comum”. Mas é possível fundar uma união sem referência a uma memória coletiva comum? Poderia, um país, manter uma visão etnocêntrica do passado e perpetuar o culto de heróis que são, muitas vezes, carrascos (Napoleão) ou vítimas (Joana d’Arc) dos povos vizinhos? Como é contada a história, através da Europa, em lugares de memória visitados por milhões de pessoas?

Para quem viaja, percorrendo cidade por cidade1, para ver, como um turista novato, anônimo e curioso, alguns países da União Européia, a pergunta se coloca a cada etapa: como se conta a história da Europa aos europeus? Museus, palácios, castelos, igrejas, monumentos, memoriais são tantos que uma escolha, arbitrária ou direcionada, se impõe. Uma vez descartados os museus dedicados à pintura2 e colocados entre parênteses aqueles consagrados às artes e tradições populares, é preciso procurar nos rodapés das páginas dos guias. O resultado pode desanimar.

Reis tirânicos, imperadores afetados, príncipes e bispos predadores, ditadores sanguinários saturam a história européia com suas perpétuas guerras territoriais, dinásticas, religiosas, nacionais, enquanto o povo paga o pesado tributo de sua vontade de poder. Inebriados de glória, eles deixaram em toda a Europa sinais de uma linguagem simbólica do poder que compartilham: estátuas eqüestres e arcos de triunfo, leões de mármore, sóis de ouro, espadas rutilantes, urnas e fontes monumentais, demônios e deuses terríveis. No entanto, continua-se a enaltecer sua memória embalsamada e nem sempre os piores são os menos homenageados. Glorificam-se suas incursões guerreiras às custas de vizinhos, hoje aliados, nesses castelos e palácios, testemunhas de suas desastrosas megalomanias, onde desfilam em procissões contínuas os descendentes de suas vítimas.

Os palácios dos Habsburgo e dos reis da Prússia

As monarquias escandinavas, ao contrário das repúblicas germânicas, são mais lúcidas sobre seu passado real, não poupando à história as atrocidades de seus tiranos

Dois lugares, entre tantos outros, bastam para ilustrar: Schönbrunn e Potsdam, às portas de Viena e de Berlim. O primeiro, residência de verão dos Habsburgos de 1700 a 1918, nos é apresentado, ao mesmo tempo, como “símbolo da grandeza da Áustria imperial” e “lugar encantador com um simpático aspecto familiar”. Nos seus 1.440 cômodos e seu imenso parque barroco se sucederam, de José I até Carlos I, passando por Maria Teresa, José II e o infatigável Francisco-José (68 anos de reinado), linhagens de déspotas3 das quais só nos relembram seu apego às belas-artes e à jardinagem, seu gosto pelas festas de família ou pela meditação tranqüila.

Capital dos reis da Prússia, Potsdam foi inteira construída no século XVII, nos terrenos de caça dos Hohenzollern, terrível família de predadores – de Frederico I, o rei-sargento, a Guilherme II, açougueiro de 14-18. Aqui, se apresenta à nossa admiração uma cidade “embelezada” pelo “grande rei” Frederico II, “protetor das artes e das letras” que edificou o castelo de Sans Souci “jóia do rococó alemão”, onde recebia seus “amigos filósofos e sábios”. Silencia-se sobre o príncipe perturbado, belicoso e sem escrúpulos que sangrou seu povo, alistando-o em guerras de ganância.

Exceção escandinava

Paradoxalmente, as monarquias escandinavas são, muitas vezes, mais lúcidas sobre seu passado real do que as repúblicas germânicas.

Sabe-se que “a religião é a guerra”. A dos Trinta Anos, que dilacerou a Europa de 1618 a 1648, foi um paroxismo de ódios e carnificinas oferecidos “para maior glória de Deus”. Um dos carrascos da época, o rei da Suécia protestante, Gustavo Adolfo, em guerra contra seu primo católico, Segismundo da Polônia, em nome da fé celeste, porém a serviço de ambições bem terrenas, fez construir precipitadamente um enorme navio de guerra, o “Vasa”, que deveria ser o melhor de sua frota. Seus cortesãos exageraram na altura e nos canhões tanto e tão bem que ele naufragou na sua primeira saída, a 16 de agosto de 1628, depois de ter percorrido uma centena de metros.

O objetivo declarado dos “terroristas” aliados era abater o moral da população civil alemã com bombardeios intensos, sem alvo, nas 60 principais zonas urbanas

Em um país onde, desde os Vikings, a vocação pela navegação e a ciência marítima são uma segunda natureza, o episódio foi pouco glorioso. Fossem outros, se apressariam em esquecê-lo, mas não os suecos. O capricho havia custado uma fortuna. E custou uma outra para desencalhá-lo, 333 anos mais tarde, restaurá-lo e tentar conservá-lo no estado original no museu de Estocolmo, que leva seu nome. Não apenas para registrar as proezas técnicas dos salvadores, nem mostrar à curiosidade a magnificência de um navio único do gênero. A ocasião foi aproveitada para contar a época: a responsabilidade do monarca e de sua equipe incompetente; a condição de vida dos marinheiros comparada com a de seus superiores; as bárbaras punições infligidas; a devastação da guerra, quando dois terços dos combatentes não voltavam para casa, um terço morria nos campos de batalha e de ferimentos ou doença; o recurso a mercenários sem fé nem lei, franceses, escoceses, alemães; o reformatório para crianças e grumetes desertores, condenados a trabalhos forçados na ilha de Riddarholmen...

Terrorismo aliado

24 de julho de 1943: o brigadeiro Marshal Harris, comandante-em-chefe dos bombardeiros da Royal Air Force (RAF), apelidado de Bomber Harris, protegido por Winston Churchill, lança sobre Hamburgo, segunda cidade e porto da Alemanha, o primeiro bombardeio de terror sistemático. A operação, batizada Gomorra (com o nome da cidade bíblica destruída pelo fogo do céu), iria durar 10 dias, provocar 55 mil vítimas civis e destruir a metade da cidade. Por meio de vagas sucessivas de 300 a 1.000 bombardeios, norte-americanos de dia, britânicos de noite, milhares de toneladas de bombas incendiárias, de fósforo, armas de destruição pesada da época, foram lançadas provocando ventos de 300 km/h. As temperaturas atingiram mil graus. Um tufão de fogo, o primeiro da guerra, inflama o asfalto das ruas, projeta veículos e árvores desenraizadas no ar superaquecido, penetra nos abrigos queimando vivos os que ali haviam procurado refúgio, ferve os quilômetros de canais da cidade onde outros acreditavam encontrar a salvação.

Abater o moral e o espírito de resistência da população civil alemã por meio de bombardeios intensos, sem alvo, das 60 principais zonas urbanas, era o objetivo declarado dos “terroristas” aliados e deveria pôr rapidamente fim à guerra. Apesar da derrota patente dessa estratégia – que talvez tenha produzido o efeito inverso – ela foi perseguida com afinco até o final, sem que seus protagonistas, tratados como heróis, jamais tenham tido que prestar contas. Às vésperas da capitulação alemã, 13 e 14 de fevereiro de 1945, Dresden e suas riquezas culturais e históricas, última cidade poupada, sem interesse militar, repleta com dezenas de milhares de refugiados, foi aniquilada sob um dilúvio de bombas e um tufão de chamas que fez mais de cem mil vítimas.

Memória seletiva

Em Berlim, é notável a discrição sobre os bombardeios devastadores dos aliados e a tomada da cidade pelos soviéticos, com dezenas de milhares de vítimas civis

Nenhum memorial lembra o martírio dos habitantes de Hamburgo, a não ser o de São Nicolau, ignorado pelos guias, num espaço restrito escondido, próximo às ruínas da catedral, onde o drama é timidamente evocado. Mostramos espanto, ao vigia daqueles lugares, com a persistência da auto-censura alemã, 60 anos depois, sobre suas próprias vítimas de crimes de guerra. O velho homem que, em criança, vira a alguns quilômetros de distância queimar a cidade, onde pereceram muitos membros de sua família, diz: “Veja, senhor, nós não podemos. Somos coletivamente responsáveis pela morte de 25 milhões de soviéticos, de um quinto da população polonesa, de seis milhões de judeus. Não podemos falar de nossas infelicidades. Seria... indecente”.

Uma atitude já pressentida em Berlim, onde o apaixonante museu que conta a história, de sua fundação até nossos dias, é de notável discrição sobre os bombardeios devastadores dos aliados e sobre a tomada da cidade pelos soviéticos sob um dilúvio de fogo, que fizeram dezenas de milhares de vítimas civis sucumbirem sob as ruínas. Memória seletiva, quando, na capital, são muitos os lugares que testemunham a vontade dos alemães de não fugirem de seu passado nazista; do futuro memorial do Holocausto ao outro - de 1961, do campo de concentração de Sachsenhausen, em Oranienburg, onde pereceram perto de cem mil prisioneiros, passando pelo memorial do auto-da-fé, em lembrança à noite de 1933 em que foram queimados 20 mil livros na Bebelplatz; ao da perseguição, em Wansee, no local da conferência de janeiro de 1942, durante a qual foi programada a “solução final”, ou ainda o impressionante Museu judaico, recentemente aberto, até a exposição permanente sobre a Gestapo, a ser transformada em museu-centro-de-informação sobre a repressão nazista.

Será que um dia ainda se verá, nos países europeus responsáveis pela destruição dos índios das Américas, pelo tráfico e a escravidão dos africanos, pelas perseguições coloniais - ou seja, quase todos - erigirem-se memoriais do “terror branco”?

Triunfo da legalidade

A Polônia, agora na UE, é um país que sobreviveu a tantas tentativas de aniquilamento e até hoje comemora a Constituição de 1791, a primeira da Europa

Atmosfera alegre, em Cracóvia, na Praça do Mercado, em volta do mercado de tecidos: sentados nos cafés ou perambulando com a família, bandeirinhas na mão, seguimos com os olhos o cortejo heteróclito, desordenado e um pouco fora de moda, que passa pelo local, com a fanfarra à frente. É dia de festa nacional: a da Constituição. Não a atual, em vigor, mas a Constituição de 3 de maio de 1791, a primeira da Europa, a legalidade triunfando, enfim, sobre o arbítrio. Que um país festeje a vitória do direito, mais do que de seus exércitos contra os vizinhos, já é uma boa surpresa. Que seja a Polônia, ganha outro significado. Quatro anos depois, ela perderia sua independência, vítima de uma nova partilha, antes de ser decepada por seus poderosos vizinhos: Áustria, Prússia, Rússia. Para, retomá-la, abstraindo-se do período de 1918-1939, foram precisos dois séculos de insurreições, de luta armada, de resistência aos invasores, passiva e ativa, ao preço de milhões de mortos (6 milhões, durante a II Guerra Mundial), antes de aderir, sem entusiasmo, à União Européia. Um povo que sobreviveu a todas as tentativas de aniquilamento só pode ser bem-vindo.

O solene salão redondo, com vista para o Mosa, sede da Câmara do Conselho do governo da província do Limburgo, onde foi assinado, em 7 de fevereiro, o tratado de Maastricht, não atrai multidões. Anda-se livremente pelo local e sozinho, sem outra informação além daquela dada de boa vontade sobre o funcionamento do governo local. O tratado? Qual tratado? Uma das etapas mais controvertidas da construção européia não deixou marcas indeléveis na memória dos residentes. O centro da cidade aconchegante, restaurado, novo, completamente modernizado com construções renovadas e jardins bem aprumados, recheado de lojas de luxo, espera visitantes de outro tipo. Sem muito se voltar sobre seu passado, apesar de sua carga de história. É verdade que, depois dos espanhóis, os franceses não deixaram por lá boas lembranças. Sitiada, em 1673, pelos exércitos de Luís XIV e pelo capitão gascão d’Artagnan, que ali perdeu sua vida, a cidade foi novamente tomada por Luís XV, em 1748, ao cabo de uma batalha que fez oito mil mortos, depois vinculada ao reino, e, enfim, anexada à República e ao Império até 1815. Depois, houve a visita do presidente François Mitterrand e a negociação forçada do tratado.

A história da mineração

Teria o proletariado desaparecido antes da burguesia sem que se notasse? Na Dinamarca, um país socialmente avançado, há um museu da classe operária

Do século XVIII ao século XX, a Europa construiu sua potência industrial sobre o carvão, principal fonte de energia, antes de ter sido destronada pelo petróleo e de ter cessado a exploração da maioria das bacias hulhíferas, iniciada oito séculos antes, no caso das mais antigas. É o caso da mina de Blégny, na Bélgica, perto de Liège, fechada em 1981, transformada em museu de arqueologia industrial, onde antigos mineiros guiam os visitantes. Aqui, como por toda parte, o carvão não era o único explorado. Mas, em primeiro lugar e sobretudo, os “gargantas pretas4, figuras históricas da classe operária. Exploração feroz, próxima da escravidão, para um trabalho de duração inimaginável, a dezenas, e até centenas, de metros sob a terra, na penumbra angustiante carregada de pó irrespirável, do calor ou da umidade, do barulho ensurdecedor dos carrinhos, das britadeiras, das escavadeiras e dos compressores; a exigüidade das galerias nos filões; os riscos permanentes de desabamento, de inundação, de asfixia e de explosões e uma quase certeza de morte lenta, por silicose, antes dos 50 anos.

Trabalho permanente, com turnos de oito horas por equipe, mal pago por tonelada extraída, para patrões sempre preocupados em aumentar o ritmo e recusando-se a tomar medidas de segurança prévia a qualquer acidente ou catástrofe. Antes que os recentes progressos da mecanização modificassem essa condição, gerações de mineiros sucederam-se por séculos nesse trabalho, quase inumano, que tinha por única dignidade a solidariedade ímpar que forjava. Imagina-se que fosse esse o destino dos mais fracos. A começar pelas crianças, duplamente mineiras, preferidas, por muito tempo, não só por sua habilidade em se enfiar nas passagens estreitas, quanto nos filões de exploração, por salários reduzidos.

Em Blégny, foi apenas em 1940 que deixaram de ser empregadas crianças de dez anos; a idade limite passou a ser quatorze anos... Também se recorreu a trabalhadores imigrantes que não tinham condições de defender seus interesses, inicialmente poloneses, no início do século XIX, depois espanhóis, turcos, húngaros, gregos... e finalmente italianos, após 1945. Quarenta e cinco mil dentre eles foram cinicamente vendidos por seu governo ao Estado belga após a guerra, em um acordo de troca de “carvão por carne humana”: em troca de entrega de hulha em seu país, o imigrante italiano assinava um contrato de cinco anos de trabalho obrigatório em uma mina belga, muito mal-remunerado, mas com alimentação e moradia em barracões sórdidos deixados por prisioneiros alemães. Antes da construção da Europa sem fronteiras, os trabalhadores imigrantes circulavam mais facilmente que os capitais especulativos. Depois a situação inverteu-se.

Um museu da classe operária

Escapando do fanatismo religioso dos reis, Cristophe Plantin se lançou à aventura da imprensa, que iria durar três séculos – sua casa abriga hoje um museu sobre ela

Um museu da classe operária? Teria o proletariado, curiosidade histórica, desaparecido antes da burguesia, sem que isso fosse percebido? Rude choque para o moral dos revolucionários. Uma visita é obrigatória. É em Copenhague. Não poderia ser em nenhum outro lugar senão no país socialmente mais avançado. Uma estátua de Lênin, junto à porta, guia os raros curiosos, com o braço estendido em direção à entrada. Segue-se um percurso pedagógico e pragmático da evolução da condição dos operários dinamarqueses desde suas origens aos nossos dias. Vê-se tudo, até a melhoria progressiva das habitações reconstituídas em tamanho natural. Aprende-se bastante sobre o êxodo rural, a miséria fisiológica dos jovens trabalhadores, que se aposentavam, até 1940, por tuberculose ou raquitismo, as lutas sindicais, os debates conflituosos entre reformistas e revolucionários e as conquistas da social-democracia, no poder desde 1924.

Uma atenção particular foi dada à evolução dos direitos das mulheres, ao trabalho dos estivadores, contratados na década de 20 em equipes de sete, pagos por tonelada (300 sacos de 100 quilos por dia, 50 quilômetros de trajeto). Segue-se a resistência à introdução do salário por peça na indústria, em 1950, e o aumento dos acidentes de trabalho que acompanha a corrida pela produtividade, a recusa da juventude operária, da década de 60, ao modelo de produção norte-americano, “sempre melhor e mais rápido”, os recentes deslocamentos e o recurso aos imigrantes iugoslavos, turcos, paquistaneses para se livrarem dos níveis elevados de salário e da proteção social.

Conclusão: se o patronato manda vir proletários de fora, ou parte para explorá-los no local, não há mais dinamarqueses. Talvez, mas por quanto tempo? O museu corre o risco de ficar obsoleto antes que se abra o da burguesia capitalista.

Uma aventura de três séculos

A memória comum dos povos da Europa não está no culto aos opressores, mas na história de sua condição social e de suas lutas por liberdade e justiça

Chistophe Plantin, calvinista de Tours, instala-se em Antuérpia em 1550, fugindo das perseguições religiosas, e se lança em uma das grandes aventuras da época: a imprensa. Funda uma gráfica, com o nome de Compas d’Or, onde ensina a tecnologia aos melhores artesãos, com uma oficina de fundição de matrizes, tipos e pinças, caixas de tipos para os compositores, sala das prensas e pranchetas tipográficas, câmara dos emendadores e a loja do livreiro, onde são afixados a lista das obras escolares e o index dos livros proibidos. O impressor multiplica as conquistas tipográficas, entre as quais uma bíblia em cinco línguas, que lhe asseguram fortuna e fama em toda a Europa. Aberto ao novo espírito do Renascimento, distribui sua atividade entre obras religiosas (na época, uma obrigação), científicas (botânica, astronomia, medicina...), literárias (entre as quais Orlando Furioso, de Ariosto) e partituras musicais.

Ao final de sua vida, seria vítima de ataques do ultra-católico rei da Espanha, Filipe II, que encarregou o duque de Alba, matador psicopata, de castigar a cidade por seu excesso de tolerância, antes de impor uma implacável censura proibindo a impressão de qualquer outro livro que não fosse religioso. Ficando à margem e pagando tributo ao obscurantismo dominante, a casa Plantin escapou da destruição antes de ser retomada pelo genro de Christophe, Balthazar Moretus, que se dedicou a retomar a tradição do conhecimento, desenvolvendo, entre outras coisas, a impressão cartográfica e utilizando os talentos de seu amigo Rubens como ilustrador de livros.

Onde buscar a memória européia

A aventura iria continuar por três séculos. Mantida intacta, a casa abriga hoje um museu contando a prodigiosa aventura dos Plantin-Moretus. Testemunho de uma Europa cultural, artística e científica, que se desejava sem fronteiras dinásticas, nacionais ou religiosas. Para nos lembrar que monges ilustradores, arquitetos construtores, pintores, músicos, escritores, filósofos e sábios percorreram o continente desde a Idade Média.

Não é nos lugares de culto dos que os oprimiram que se deve buscar a memória comum dos povos da Europa, mas naqueles onde se conta a história de sua condição social, de seus sofrimentos ocultos, de suas lutas por liberdade e justiça. Será por acaso que os primeiros são muito mais numerosos do que os segundos?

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Munique, Salzburgo, Viena, Bratislava, Cracóvia, Praga, Berlim, Copenhague, Estocolmo, Oslo, Goteburgo, Hamburgo, Maastricht, Liège, Antuérpia.
2 - E são inesquecíveis: a pinacoteca de Munique, o Museu de Arte Histórica e o Museu Leopoldo em Viena, as galerias Gemald e Nacional em Berlim, o Museu de Arte do Estado, em Copenhague, o Museu de Munch, em Oslo, o Museu Real de Belas Artes, de Antuérpia, entre tantos outros.
3 - Entre outros, Napoleão, que ali passou algum tempo em 1805 e 1809.
4 - N.T.: Expressão de gíria francesa para “mineiros”.




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