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ECONOMIA

As bacanais financeiras dos executivos-escroques

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Através de “opções de compra de ações” e o chamado “pára-quedas de ouro”, altos-executivos que afundaram grandes empresas, prejudicando milhares de trabalhadores, continuaram faturando milhões e ameaçam o próprio capitalismo

Bernard Cassen - (01/08/2003)

“Se eu pudesse refazer minha vida, não mudaria nada” (Jean-Marie, 5,63 milhões de euros).

“Levou tempo, mas a gente não se arrepende” (Eric e Pierre, 9,2 milhões de euros).

“Deu certo, eu não tinha jeito para os estudos” (Denis, 3,2 milhões de euros).

Tranqüilize-se o leitor. Com essas “citações” - de um populismo estudado – de ganhadores de loteria, exatamente como figuram nos cartazes atualmente onipresentes nos transportes coletivos parisienses, Le Monde Diplomatique não está fazendo propaganda de redação clandestina para a Loto... Na verdade, tomamos o cuidado de fazer uma substituição de números e nomes: em vez de “Françoise”, “Jean e Sylvie” e “Vincent”, trata-se daquelas personalidades que não precisam comprar um bilhete da loteria francesa para enriquecer ultrajantemente em alguns meses.

Outro ponto comum a estes milionários em euros: são veteranos da Vivendi-Universal (VU), todos os quatro postos para fora em 2002, mas que nem por isso estão na miséria: Jean-Marie Messier, o ex PDG1, 5,63 milhões de euros por seis meses de trabalho; Eric Licoys, ex-diretor-geral, 5,098 milhões de euros por pouco mais de 8 meses de trabalho; Pierre Lescure, ex-PDG do grupo Canal+, 4,124 milhões de euros por 4 meses de trabalho; Denis Olivennes, do Canal+ ; dispensado em abril de 2002 com um cheque de 3,2 milhões de euros. Nos três últimos casos, as somas incorporam as vantagens iniciais: os famosos “pára-quedas de ouro”. No primeiro caso, não levam em conta o “jackpot2” de 20,5 milhões de euros que o ex “dono do mundo” ganhou num tribunal de arbítrio norte-americano, mas que o tribunal de alta instância de Paris, acionado pela Comissão de Operações da Bolsa (COB) seqüestrou provisoriamente.

A mina de ouro das opções de compra

Estes milionários são veteranos da Vivendi-Universal, todos foram postos para fora em 2002, mas nem por isso estão na miséria, muito pelo contrário

Todo o Gotha3 dos negócios participa destas bacanais do dinheiro louco. Entre seus membros mais eminentes: Philippe Jaffré, saído da presidência da Elf Aquitaine em 1999 com um cheque de 10 milhões de euros, líquidos, sem taxação e 30 milhões de opções de compra de ações (stock-options4); Pierre Bilger, que acaba de deixar a presidência da Alstom com 5,1 milhões de euros; Serge Tchuruk, PDG da Alcatel que não contente em ganhar 1,5 milhões de euros por ano, ganhou 500 mil opções de compra de ações, na cotação privilegiada de 6,70 euros. Lembremos aqui que, ao contrário da loteria nacional ou da Loto, o beneficiário de um plano de opções de compra de ações nunca perde sua aposta, porque ele não compra as ações no momento, contentando-se em esperar que a cotação ultrapasse o preço fixado previamente. Neste momento, ele adquire os títulos que lhes foram reservados e os revende imediatamente... embolsando a diferença. E essa diferença pode ser colossal: 12 milhões de euros para Martin Bouygues em 2001; 8,1 milhões de euros, igualmente em 2001 para Jean-René Fourtou quando ele presidia a Aventis, antes de substituir Messier na direção da VU e de dar-lhe lições de moral, concedendo-se uma renda em 2003 que deveria elevar-se a 2 milhões de euros, assim como um enorme pacote de opções; 5,6 milhões de euros para Michel Pébereau, PDG do BNP-Paribas, etc. 5

Aí estão os personagens dos quais a maior parte, individualmente ou por meio do Movimento das Empresas da França (Medef) são, permanentemente os arautos do “risco”, não têm palavras suficientemente duras para o “corporativismo” dos assalariados, preconizam “reformas” questionando os “arcaísmos” (tradução: as conquistas sociais), tudo depois de se munirem de dispositivos de segurança financeira pessoal feitos de concreto armado: por um lado, opções de compra, verdadeiras cavernas de Ali Babá para quem, como eles, possui o abre-te sésamo, por outro, os “ pára-quedas de ouro ”, perto dos quais os regimes de aposentadoria de funcionários públicos parecem ridículas montagens de amador. Mas apesar de tudo, dirão alguns, estas remunerações são necessárias para atrair e conservar os melhores talentos nas empresas...

Empresas mais falidas, dirigentes mais ricos

O beneficiário de um plano de opções de compra de ações adquire os títulos que lhes foram reservados e os revende imediatamente, embolsando a diferença

Vejamos alguns desses “ talentos ” de mais perto. Por caridade, não insistiremos sobre Messier e seu estado-maior que literalmente afundou uma empresa florescente. Mas Tchuruk não fez melhor: cometendo o grosseiro erro estratégico de recentrar suas atividades nas telecomunicações, três anos antes da explosão da “bolha” Internet, ele levou a Alcatel para a beira de um abismo no qual fez mergulharem milhares de assalariados. Quanto a Pierre Bilger, ele recebe seu cheque de 5,1 milhões de euros no momento em que a Alstom anuncia perdas de 1,43 bilhões de euros e 5 000 supressões de emprego.

Qualquer um de seus empregados, escolhido por sorteio, não poderia ter feito maior mal do que esses pretensos capitães da indústria. Lembramos que nos tempos da “nova economia”, no fim dos anos 90, quanto mais uma empresa perdia dinheiro, mais a cotação de suas ações subia. A mesma lógica prevalece para a remuneração dos altos executivos das grandes empresas: enquanto as empresas do CAC 406 perderam no total 20,1 bilhões de euros em 2002, seus dirigentes aumentaram seus salários em 11%.

A Lei e os dirigentes patronais

A remuneração dos altos executivos tem a lógica da “nova economia” no fim dos anos 90: mais a empresa perdia dinheiro, mais subia a cotação das ações

Nessa caça ao tesouro, esses dirigentes acusavam ainda um certo “atraso” em relação a seus homólogos anglo-saxões. Eles estão se igualando. A média das remunerações de base (sem contar qualquer tipo de bônus) dos executivos das empresas do CAC 40 é “somente” 2,07 milhões de euros por ano. Nos Estados Unidos, seus homólogos faturavam em média uma remuneração (salários e bônus) de 6,8 milhões de dólares (um pouco mais de 6 milhões de euros) em 20027. Se descermos um degrau e considerarmos a totalidade das empresas cujo faturamento ultrapassa o bilhão de dólares, a remuneração média dos PDG era, em 2002, 2,5 milhões de dólares nos Estados Unidos e 1,6 milhões de dólares no Reino Unido8. O Barão Seillière, presidente do Medef, vai aceitar por muito tempo que as prestigiosas figuras de proa da praça de Paris sejam pagas como vulgares chefes de pequenas e médias empresas importantes? Apesar de tudo, pela lei, nada impede esse nivelamento...

A lei? Uma palavra obscena para todos os dirigentes patronais. Decerto, houve todos esses casos desastrosos da Enron, WorldCom, Andersen, Tyco, Focal Communications, Global Crosing, Qwest, etc9 que forçaram o governo americano a reagir (exageradamente, diz-se na Medef) pela lei Sarbanes-Oxley adotada no verão de 2002. Não prevê ela, entre outras disposições, a obrigação, pelas empresas cotadas na Bolsa, de instalar um número 0800 no qual os empregados poderão denunciar de maneira (teoricamente) anônima as malversações, desvios, falsificações e outras manipulações de contablidade testemunhadas por eles10? E o que dizer do procurador geral do Estado de New York, que como um “juizinho” francês, decide inflingir uma multa coletiva recorde (1,4 bilhões de dólares) ao sistema financeiro de Wall Street (Citigroup, Crédit Suisse, First Boston, Lehman Brothers, J.P. Morgan, Goldman Sachs, Morgan Stanley, etc) para ensiná-los a respeitar a “ muralha da China ” que deveria existir entre suas atividades de análise financeira e as atividades de banco de investimento?

Executivos ameaçam o próprio capitalismo

Desde o caso Enron, a confiança dos acionistas, grandes e pequenos, nos dirigentes de empresa, vistos potencialmente como executivos-bandidos, não voltou

Nada de bom a esperar também desses acionistas que começam a se organizar contra os dirigentes muito gulosos. Assim, no Reino Unido, o relatório do Comitê de Remuneração do gigante anglo-americano da farmácia GlaxoSmithKline (GSK) foi rejeitado pela assembléia geral, em parte pelo motivo de prever um pára-quedas de ouro de 35 milhões de dólares para seu diretor geral11. Nos Estados Unidos, o assalto contra as remunerações faraônicas foi lançado por um personagem acima de qualquer suspeita, Warren Buffet, presidente do fundo de investimentos e seguros Berkshire Hathaway, um dos que têm melhor desempenho no país. No começo do mês de maio de 2003, dirigindo-se a uma assembléia geral reunindo 10 mil de seus acionistas, Buffet denunciou o fato de que as opções de compra não estavam sendo contabilizadas como gastos e fustigou a cupidez dos gerentes: “ Em 5 anos, houve mais remunerações indevidas no mundo dos negócios nos Estados Unidos do que em todo o século precedente12”. Dois meses mais tarde, a Microsoft anunciava o fim de seus planos de opções de compra, substituídos pela distribuição de ações. Nenhuma dúvida de que esta decisão, vindo desta empresa líder, fará escola.

Ela testemunha, entre outros indícios, um temor lancinante que se exprime mais e mais fortemente nos Estados Unidos e no Reino Unido: desde o caso Enron, a confiança dos acionistas, e não somente dos pequenos, nos dirigentes de empresa, todos vistos potencialmente como executivos-bandidos, não voltou. E a economia mundial, à beira da recessão, realmente não precisava dessa desvantagem adicional. Percebendo a dimensão do perigo, o semanário ultra-liberal que é The Economist lança um grito de alarme aos responsáveis políticos: “Muitos escândalos financeiros que os Estados Unidos conheceram ao longos destes últimos anos são pura e simplesmente criminalidade em estado puro. Um Estado de direito sabe como tratar os criminosos e os dirigentes políticos que se dizem ‘pro-business13’ são na verdade anti-capitalistas militantes se hesitam em reprimir os crimes dos altos executivos14”. Em outros termos, bastaria aplicar as leis, sem fraqueza, aos delinqüentes de colarinho branco e restaurar a ética, para que as coisas voltassem ao normal.

Sistema em questão

Sem ousar confessá-lo a si próprios, eles talvez intuam que o problema é muito mais estrutural, mas que nomeá-lo seria questionar a lógica atual do capitalismo

Claude Bébéar, presidente do Conselho de Supervisão da Axa, “derrubador” de Messier e “padrinho” incontestado da praça de Paris, sustenta um discurso na mesma direção no seu Eles vão matar o capitalismo15. Ele apela aos empresários para que empreendam, mantendo a cabeça fria diante dos analistas financeiros, das agências atribuidoras de notas e dos banqueiros de negócios dos quais, como fino conhecedor do meio, ele descreve os desvios. Mas suas exortações à responsabilidade individual, como as do editorialista do The Economist têm um lado um pouco desesperado. Como se, sem ousar confessá-lo a si próprios, eles tivessem a intuição de que o problema é muito mais grave, mais estrutural, mas que dar-lhe nome equivaleria a questionar a lógica impressa ao capitalismo há um quarto de século: seu sistema de competição regulado pela finança mundializada.

Para ajudá-los a ir até o fim de seu pensamento, recomendaremos a eles, e também a nossos leitores, obter o brilhante ensaio no qual Frédéric Lordon16 descreve como os responsáveis políticos deram todos os poderes ao Moloch17 financeiro. E descreve também como este monstro, tal uma máquina infernal de percurso errático, desintegrou as empresas, transformadas ora em presas, ora em predadores. É o sistema que está em questão, não só os comportamentos dos indivíduos. Mas não será demais pedir aos liberais que abjurem o que pregam há tanto tempo?

(Trad.: Elisabete de Almeida)

1 - Sigla de uso consagrado na França para Presidente-diretor-geral (N.T.).
2 - Em inglês no original (N.T.).
3 - O almanaque de Gotha, publicado de 1763 a 1944, era um anuário genealógico, diplomático e estatístico da elite.
4 - Em inglês no original (N.T.).
5 - Estes números provêm das seguintes fontes: Le Point, 30 de maio de 2003, La Tribune, 2 de julho de 2003, Le Nouvel Observateur, 10-16 de julho de 2003.
6 - Sigla de Cotation Assistée en Continu 40, índice criado em 15 de junho de 1988, com 40 das principais cotações. É o mais importante da Bolsa de Paris.
7 - Financial Times, Londres, 5 de maio de 2003.
8 - Inglaterra, Irlandas, Gales, Escócia (N.T.). Dados do Financial Times de 21 de maio de 2003.
9 - Ler Tom Franck, “Enron : Mil e uma trapaças ”, e Denis Duclos, “Economia louca e « matadores loucos”, Le Monde diplomatique, respectivamente fevereiro e agosto de 2002.
10 - Le Monde, 21 de maio de 2003.
11 - Financial Times de 21 de maio de 2003.
12 - É significativo que esta informação tenha sido publicada em cinco colunas na capa do Financial Times de 5 de maio de 2003.
13 - Em inglês no original (N.T.).
14 - The Economist, 28 de junho de 2003.
15 - Claude Bébéar (entrevista com Philippe Manière), Ils vont tuer le capitalisme, Plon, Paris, 2003, 222 páginas, 17 euros.
16 - Frédéric Lordon, Et la vertu sauvera le monde…, Raisons d’agir, Paris, 2003, 125 páginas, 6 euros.
17 - Divindade cananéia a quem pais sacrificavam suas próprias crianças (N.T.).




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