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Expressões de Ramallah

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Retrato de Ramallah, na Cisjordânia, em junho deste ano, quando se multiplicavam os odiosos atentados contra civis israelenses e os assassinatos de alguns dirigentes palestinos, mas optando não mencionar a violência espetacular dessas explosões e do sangue, mas o sofrimento de um povo sob ocupação

John Berger - (01/08/2003)

É a única via de acesso dos palestinos para o seu vilarejo. A estrada originalmente asfaltada, agora proibida para eles, está reservada para os israelenses das colônias

Uma pequena estrada de cascalho, insinuando-se no meio de grandes rochas, desce um vale ao sul de Ramallah. Às vezes, serpenteia entre oliveiras veneráveis: algumas remontam à época romana. Esta pista pedregosa (um carro a acharia muito desgastante) é a única via de acesso dos palestinos para o seu vilarejo ao lado. A estrada originalmente asfaltada, agora proibida para eles, está reservada para os israelenses das colônias. Percebo uma flor vermelha entre os arbustos e paro para colhê-la. Mais tarde fico sabendo que se chama Adonis Aestivalis. Sua cor vermelha é intensa e sua vida, segundo o manual botânico, breve.

Baha grita avisando para não ir na direção da colina à minha esquerda. Se detectarem alguém se aproximando, eles atiram. Eu tento calcular a distância que me separa dela: menos de um quilômetro. A cerca de 200 metros, na direção desaconselhada, percebo uma mula e um cavalo amarrados. Penso que estão garantindo a minha segurança e vou em frente.

Água preciosa

Quando chego, dois meninos de cerca de onze e oito anos trabalham sozinhos num campo. O mais jovem enche regadores pegando água num barril enfiado na terra. O cuidado para não derramar uma gota comprova o quanto a água é preciosa. O mais velho pega o regador cheio e desce cuidadosamente para uma parcela arada onde ele rega as plantas. Ambos estão descalços.

Ele colhe alguns ramos de menta e me dá um buquê. Sua frescura acre e forte é como um gole de água fria, mais fria que aquela do regador

O menino que regava me faz um sinal e me mostra com orgulho as fileiras de centenas de plantas deste terreno. Reconheço algumas: tomates, berinjelas, pepinos. Foram aparentemente plantadas na semana passada, pois ainda estão pequenas, esperando por água. Tem uma planta que não reconheço e ele percebe. Grande e leve, diz ele. Melão? Shumaam! Rimos e ele fixa sobre mim os seus olhos risonhos, sem piscar. Ambos – Deus sabe por quê – estamos vivos no mesmo momento. Ele me conduz nas fileiras para me mostrar o que ele regou. Durante esta inspeção, fazemos uma pausa, olhamos ao nosso redor e demos uma olhada sobre a colônia, seus muros defensivos e seus telhados vermelhos. Ele aponta o queixo nesta direção, tem no gesto dele um tipo de derrisão, uma derrisão que ele deseja dividir comigo, como seu orgulho em regar. Uma derrisão que dá lugar para o sorriso – como se tivéssemos combinado de urinar juntos no mesmo lugar.

Terra amarela

Mais tarde voltamos novamente para o caminho pedregoso. Ele colhe alguns ramos de menta e me dá um buquê. Sua frescura acre e forte é como um gole de água fria, mais fria que aquela do regador. Estamos indo na direção da mula e do cavalo. O cavalo sem sela tem uma corda e rédeas, mas está sem cabresto nem freio nos dentes. O menino quer mostrar o que sabe fazer. Ele pula em cima do animal enquanto seu irmão tranqüiliza a mula; num curto espaço de tempo, ele já está galopando com o cavalo montado sem sela, descendo pela estrada. Parece um cavalo com seis patas – quatro dele e duas de seus cavaleiro – e as duas mãos do menino controlam as seis ao mesmo tempo. Ele cavalga como um cavaleiro que tivesse acumulado a experiência de várias vidas. Quando volta, está de sorriso aberto e, pela primeira vez, parece tímido.

Encontro o Baha e os outros um quilômetro depois. Eles estão conversando com o tio do menino. Ele também está regando plantas recentemente transplantadas. O sol está se pondo e a luz mudando. A terra de cor amarela, mais escura onde foi molhada, constitui a cor primária do conjunto da paisagem. O homem está utilizando a última gota de água encontrada no fundo de um barril de 500 litros de plástico azul escuro.

Agressões das gangues de colonos

Arafat representa os palestinos mais fielmente do que qualquer outro chefe de Estado. Não do ponto de vista democrático, mas do ponto de vista trágico

Na superfície do barril azul foram colados com cuidado 11 remendos, como aqueles usados no caso de um pneu furado, porém maiores. O homem chegou a me explicar que desta maneira ele pôde consertar o barril após uma gangue proveniente da colônia de Halamish, aquela dos tetos vermelhos, ter feito uma incursão, numa noite, no momento em que – e eles sabiam disso – os recipientes estavam cheios com as chuvas da primavera, para os rasgarem com facadas. Um outro barril, no terraço debaixo, está irreparável. Um pouco além, encontra-se na mesma tábua uma cepa tortuosa de uma oliveira que, pela sua circunferência, deve ter sido muitas vezes centenária, ou até milenar. Há algumas noites atrás, diz o tio, a cortaram com uma moto-serra.

Mais tarde descubro um poema de Zakaria Mohammed intitulado O Freio do cavalo. Trata-se de um cavalo preto sem cabresto: de seus lábios corre sangue. Dando companhia ao cavalo de Zakaria, fica também um menino, estupefato por este sangue: O que mastiga este cavalo preto? / Ele pergunta / O que ele mastiga? / O cavalo preto / mastiga / um freio de aço forjado / um freio da memória / a roer / roer até a morte.

Arafat não é mais um líder político

O peso das lajes de cimento deslocadas e da alvenaria desabada da muralha fortificada do presidente Arafat, devastada no centro de Ramallah, adquiriu uma solenidade simbólica. Mas não no sentido imaginado pelos comandantes militares israelenses. Esmagar a Muqata com Arafat e a sua comitiva dentro lhes parecia ser a demonstração pública de sua humilhação bem como, nos apartamentos privados que o exército atacou e vasculhou, o catchup, sujando roupas, móveis, paredes, era o anúncio em caráter particular de algo pior a vir.

Arafat representa os palestinos mais fielmente talvez que qualquer outro chefe de Estado. Não do ponto de vista democrático, mas do ponto de vista trágico. Daí a solenidade. Por causa dos vários erros cometidos pela OLP que ele dirigia, e por causa das desistências dos Estados árabes, ele não tem mais margem de manobra. Ele não é mais um dirigente político. No entanto, ele continua sendo um desafio. Ninguém acredita nele e muitos dariam a sua vida por ele. Como é possível? Não sendo mais um político, Arafat se tornou uma montanha de entulhos, mas uma montanha do País.

Uma estranha luz

O país está ao seu redor ao invés de estar a sua frente. É exatamente o contrário do Meio-Oeste americano. Ao invés de atraí-lo, ele lhe recomenda nunca deixá-lo

Nunca vi uma luz dessa. Ela cai do céu de forma estranha e regular, pois não estabelece nenhuma distinção entre o distante e o próximo. A diferença entre estas duas realidades é de escala, e não de cor, de textura ou de precisão. E isto afeta a maneira como você se coloca, seu sentimento de estar aqui. O país está ao seu redor ao invés de estar a sua frente. É exatamente o contrário do Meio-Oeste americano. Ao invés de atraí-lo, ele lhe recomenda nunca deixá-lo.

Riad, que ensina marcenaria, foi buscar seus desenhos para mostrá-los para mim. Estamos sentados no jardim em volta da casa de seu pai. Este está arando o campo da frente com seu cavalo branco. Riad volta, ele está carregando os seus desenhos como uma pasta tirada de um fichário de metal fora de moda. Ele anda lentamente e as galinhas afastam-se dele ainda mais lentamente. Ele se senta na minha frente e me estende um por um os seus desenhos.

Como uma galinha a espera da morte

Foram executados com um lápis com grafite de chumbo duro, de memória e com uma infinita paciência: traço após traço, de noite depois do trabalho, até que o preto se tornem tão preto quanto ele desejar, os cinzas mantendo um reflexo prateado. Foram feitos em cima de folhas de papel bastante grandes. Uma jarra d’água. Sua mãe. Uma casa destruída cujas janelas abram-se sobre quartos que desapareceram.

Quando acabo recolocando os desenhos no lugar, um homem idoso, com o rosto paciente de um camponês, vem falar comigo. Parece que você sabe o que é uma galinha, diz. Quando fica doente, ela pára de botar e não tem muito o que fazer. Um dia ela acorda e sente a morte se aproximar. Um dia ela percebe que vai morrer. E o que acontece então? Ele recomeça a botar e nada pode pará-la a não ser a morte. Nós somos como esta galinha.

Os postos de controle funcionam como fronteiras internas. Todavia não se parecem com um posto de fronteira normal. Foram construídos e fornecidos em guarnição de tal maneira que todos que passam por eles sejam rebaixados ao nível de refugiados indesejáveis. Os palestinos devem sofrer, freqüentemente várias vezes ao dia, a humilhação de desempenhar o papel de refugiado em sua própria pátria.

Humilhação em postos de controle

Os palestinos devem sofrer, freqüentemente várias vezes ao dia, a humilhação de desempenhar o papel de refugiado em sua própria pátria

Todos aqueles que passam devem atravessar o posto de controle. Lá, soldados com fuzis prontos para atirar, escolhem os que querem “fiscalizar”. Nenhum veículo está autorizado a passar. As estradas tradicionais foram destruídas. Foram espalhadas na nova “estrada” rochas, pedras e outros obstáculos menores. Conseqüentemente, todos, mesmos os que não estão inválidos, não podem fazer outra coisa senão andar pulando de uma perna só.

Os doentes e os idosos são empurrados em caixas de madeira montadas em cima de quatro rodas (caixas fabricadas, na origem, para transportar legumes para a feira) por rapazes que assim ganham algum troco. Estendem para cada passageiro uma almofada para amortecer os choques: ouvem as suas estórias. Sempre ficam sabendo das últimas notícias. (As barreiras mudam de local todos os dias). Dão conselhos, se lamentam, e estão orgulhosos do pouco de ajuda que podem oferecer. Eles constituem o que mais parece ser o Coro antigo desta tragédia.

Alguns moradores “fronteiriços” andam com a ajuda de um bastão, outros com muletas. Tudo o que deveria estar no porta-mala de um carro deve ser transportado em pacotes, carregados na mão ou nas costas. A distância do percurso pode mudar de um momento para o outro, e varia entre 300 metros e 1,5 quilômetro.

Espírito de vingança

Os casais palestinos, salvo alguns jovens mais sofisticados, respeitam em público as regras de comportamento e mantêm uma distância entre si. Nos postos de controle, os casais de todas as idades se seguram pela mão ao passar, procurando um apoio estável onde pôr o pé e calculando o lugar certo para passar pulando em uma perna só frente aos fuzis apontados, não rápido demais – a pressa pode levantar suspeita – nem devagar demais – a hesitação pode provocar um desses “jogos” através os quais os guardas aliviam seu tédio crônico.

O espírito de vingança de muitos soldados israelenses (mas não de todos) é muito particular. Não tem muito a ver com a crueldade descrita e lamentada por Eurípides, pois aqui o confronto não ocorre entre iguais, mas entre os poderosos e os que aparentemente são impotentes. Todavia este poder dos poderosos acompanha-se de uma frustração que os deixa furiosos, pois descobrem que, apesar de todas as suas armas, seu poder tem um limite inexplicável.

Infância de refugiados

O poder dos poderosos acompanha-se de uma frustração que os deixa furiosos, pois, apesar de todas as suas armas, seu poder tem um limite inexplicável

Resolvo trocar alguns euros por shekels — os palestinos não têm moeda própria. Desço a rua principal passando na frente várias lojinhas e, de vez em quando, na frente de um homem sentado numa cadeira onde, antigamente, antes da invasão dos tanques de guerra, havia uma calçada. Estes homens seguram em suas mãos maços de notas. Aproximo-me de um rapaz e lhe digo que eu gostaria de trocar 100 €. (Com esta soma, poderia se comprar em uma das joalherias uma pequena pulseira de ouro de menina). Ele consulta a calculadora de bolso infantil e me estende algumas centenas de shekels.

Continuo o meu caminho. Um menino que, pela idade, poderia ser o irmão da menina com a pulseira de ouro imaginada, estende-me um chiclete que está vendendo. Ele vem de um dos dois campos de refugiados de Ramallah. Eu compro dele. Ele também vende capinhas de plástico para colocar os cartões de identidade magnéticos que todo palestino deve carregar consigo. Sua expressão carrancuda é um convite para comprar todos os seus chicletes, o que faço.

Atenção ao momento presente

Uma meia hora passa e me encontro na feira dos legumes. Um homem vende cabeças de alho grandes como lâmpadas elétricas. Tem muita gente apertando-se uns aos outros. Alguém me puxa pelo ombro. Eu me viro. É o doleiro. “Dei-lhe”, diz ele, “cinqüenta shekels a menos do que lhe devia, aqui estão”. Pego cinco notas de dez shekels. “Foi fácil encontrá-lo”, acrescenta. Eu o agradeço.

Ao me olhar, seus olhos têm uma expressão que me lembra uma mulher idosa encontrada na véspera. A expressão de quem confere uma suma atenção ao momento presente, uma atenção tranqüila e madura, como se este momento pudesse ser o último. O doleiro dá meia-volta e inicia o seu trajeto até voltar para sua cadeira.

Encontrei a mulher idosa no vilarejo de Kobar. A casa era de cimento reforçado, mas pobre e inacabada. Na parede da sala vazia encontravam-se fotos enquadradas de seu sobrinho Marwan Barghouti: Marwan menininho, adolescente, com uns 40 anos enfim. Encontra-se numa cadeia israelense. Se sobreviver, ele é um dos poucos chefes do Fatah com os quais será preciso negociar, se quiser se chegar a um acordo de paz sólido.

A expressão de uns olhos

Alguém me puxa pelo ombro. Eu me viro. É o doleiro. “Dei-lhe”, diz ele, “cinqüenta shekels a menos do que lhe devia, aqui estão”. “Foi fácil encontrá-lo”, acrescenta

Enquanto bebíamos um suco de limão e a tia preparava um chá, seus netos saíram no quintal: dois meninos de aproximadamente sete e nove anos. O caçula se chama País, o mais velho Combate. Eles corriam em todas as direções e paravam subitamente, olhando-se como se estivessem se escondendo atrás de alguma coisa e avançavam sua cabeça para ver se o outro o tinha visto. Deslocavam-se então para um outro esconderijo invisível. Um jogo que eles inventaram e que jogaram muitas vezes.

A terceira criança tinha quatro anos. No rosto, tinha manchas de palhaço vermelhas e brancas, e ficava afastado como um palhaço, melancólico e sapeca, não sabendo muito bem quando tudo isto irá acabar. Estava com sarampo e sabia que não podia aproximar-se dos visitantes. Quando o momento chegou de se despedir, a tia me estendeu as mãos e seus olhos tinham uma expressão indefinível, testemunhando uma atenção muito particular para o momento presente.

Quando duas pessoas colocam uma toalha numa mesa, elas se olham mutuamente para colocá-la devidamente. Imagine que a mesa seja o mundo e a toalha a vida daqueles que devemos salvar. Tal, a expressão de seus olhos.

(Trad.: David Catasiner)




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