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O futebol, o esporte mais popular e o que melhor expressa e afirma a identidade nacional, foi submetido às leis da rentabilidade e se tornou uma verdadeira máquina de moer carne humana, sucumbindo à uniformização obrigatória promovida pela globalização

Eduardo Galeano - (01/08/2003)

Nenhum comunicado médico dirá que Marc Vivien Foe sofreu um ataque de futebol profissional, pois essa doença, fatal, não consta de manual de medicina algum

No mês de junho, um jogador da República de Camarões, Marc Vivien Foe, caiu, fulminado, no estádio de Lyon.

Não foi vítima de um pontapé criminoso. Ninguém tocou nele. Foe morreu de exaustão. O ritmo da Copa das Confederações, com uma partida logo depois da outra, acabou com ele. Nenhum comunicado médico dirá que sofreu um ataque de futebol profissional, pois essa doença, fatal, não consta de manual de medicina algum. Mas a verdade é que o mais belo e popular dos esportes, aquela festa das pernas que o jogam e dos olhos que o vêem, funciona, em termos industriais, como uma máquina de moer carne humana.

Copa do mundo de robôs

No ano passado, houve duas copas do mundo de futebol. Numa delas jogaram os atletas de carne e osso. Na outra, simultânea, jogaram os robôs. As seleções andróides disputaram a RoboCup 2002 na cidade portuária japonesa de Fukuoka, em frente à costa coreana.

Os torneios de robôs ocorrem, anualmente, em lugares diferentes. Seus organizadores têm esperanças de competir, dentro de algum tempo, contra seleções de verdade. Afinal, dizem, um computador já derrotou o campeão Gary Kasparov num tabuleiro de xadrez. Portanto, não é tão difícil imaginar que atletas mecânicos consigam realizar semelhante façanha num campo de futebol.

Programados por engenheiros, os robôs são fortes na defesa e rápidos e mortíferos no ataque. Nunca se cansam, nem se queixam; jamais um robô caiu morto num estádio. E não enfeitam com a bola: cumprem, sem reclamar, as ordens do técnico e, nem por um instante, cometem a insensatez de acreditar que os jogadores jogam.

Mediocridade em nome da eficiência

O sonho, cada vez mais freqüente, dos empresários, dos tecnocratas, dos burocratas e dos ideólogos da indústria do futebol é os jogadores imitarem robôs

Qual seria o sonho, cada vez mais freqüente, dos empresários, dos tecnocratas, dos burocratas e dos ideólogos da indústria do futebol? Nesse sonho, cada vez mais próximo da realidade, os jogadores imitam os robôs.

Triste sinal dos tempos, o século 21 consagra a mediocridade em nome da eficiência e sacrifica a liberdade nos altares do sucesso. “A pessoa não ganha porque vale e, sim, vale porque ganha”, comprovou, já há alguns anos, Cornelius Castoriadis. Não se referia ao futebol, mas o poderia ter feito.

É proibido perder tempo, é proibido perder: convertido em trabalho, submetido às leis da rentabilidade, o jogo deixa de ser jogado. Cada vez mais, como em qualquer outra área, o futebol profissional parece ser regido pela UINBE (União dos Inimigos da Beleza), uma poderosa organização que não existe, mas manda.

Ignácio Salvatierra, um árbitro injustamente desconhecido, merece a canonização. Deu testemunho da nova fé. Sete anos atrás, ele exorcizou o demônio da fantasia na cidade boliviana de Trinidad. O juiz Salvatierra expulsou do campo o jogador Abel Vaca Saucedo. Deu-lhe cartão vermelho “para que aprenda a levar o futebol a sério”. Vaca Saucedo cometera um gol imperdoável. Enganou toda a equipe adversária, numa festa de dribles, fintas, chapéus e toques rápidos, culminando sua orgia de costas para o gol, com uma bicicleta certeira que cravou a bola no ângulo.

Mais frio que geladeira

Fabrica-se, em série, um futebol mais frio que uma geladeira. E mais implacável que uma máquina trituradora

Obediência, velocidade, força e nada de firulas: esse é o molde que a globalização impõe.

Fabrica-se, em série, um futebol mais frio que uma geladeira. E mais implacável que uma máquina trituradora.

Segundo dados publicados pelo jornal France Football, o tempo de vida útil dos jogadores profissionais foi reduzido à metade nos últimos vinte anos. A média, que era de doze anos, caiu para seis. Os operários do futebol rendem cada vez mais e duram cada vez menos. Para responder às exigências do ritmo de trabalho, muitos não têm remédio senão recorrer à ajuda química, injeções e comprimidos que aceleram o desgaste: as drogas têm mil nomes, mas todas nascem da obrigação de ganhar e merecem chamar-se êxitoína.

Futebol modelo único

Dois mil e quinhentos anos antes de Blatter1, os atletas competiam nus e sem tatuagens publicitárias no corpo. Fragmentados em muitas cidades, cada qual com suas próprias leis e seus próprios exércitos, os gregos se reuniam para os jogos olímpicos. Praticando o esporte, aqueles povos dispersos diziam: “Nós somos gregos”, como se recitassem com seus corpos os versos da Ilíada, os quais haviam fundado sua consciência de nação.

Muito mais tarde, durante boa parte do século XX, o futebol foi o esporte que melhor expressou e afirmou a identidade nacional. As diversas maneiras de jogar revelaram, e celebraram, as diversas maneiras de ser. Mas a diversidade do mundo está sucumbindo à uniformização obrigatória. O futebol industrial, que a televisão converteu no mais lucrativo espetáculo de massas, impõe um modelo único, que apaga os perfis próprios, como ocorre com esses rostos que se transformam em máscaras, todas iguais, após contínuas operações de cirurgia plástica.

Supõe-se que esse tédio se deva ao progresso, mas o historiador Arnold Toynbee já passara por muitos passados quando comprovou: “A característica mais consistente das civilizações decadentes é a tendência à padronização e à uniformidade.”

Democracia Corintiana

O tempo de vida útil dos jogadores profissionais foi reduzido à metade nos últimos vinte anos. A média, que era de doze anos, caiu para seis

O futebol profissional pratica a ditadura. Os jogadores não podem abrir o bico no domínio despótico dos donos da bola que, de seu castelo da Fifa, reinam e roubam. O poder absoluto se justifica pelo hábito: é assim porque assim deve ser; e deve ser assim porque assim é.

Mas, será que sempre foi assim? Vale a pena lembrar aqui uma experiência que se deu no Brasil, há apenas vinte anos, ainda nos tempos da ditadura militar. Os jogadores conquistaram a diretoria do Corinthians, um dos times mais poderosos do país, e exerceram o poder nos anos de 1982 e 1983. Uma coisa insólita, nunca vista: os jogadores decidiam tudo, entre todos, pelo voto. Discutiam democraticamente e votavam o método de trabalho, o sistema de jogo, a distribuição do dinheiro e tudo o mais. Em suas camisetas se lia: Democracia Corintiana.

Após dois anos, os dirigentes afastados retomaram o controle e mandaram acabar com aquilo. Porém, enquanto durou a democracia, o Corinthians, governado por seus jogadores, ofereceu o futebol mais audacioso e vistoso de todo o país, atraiu as maiores multidões aos estádios e ganhou o campeonato estadual duas vezes seguidas.

Suas proezas e belezas se explicavam pela droga. Uma droga que o futebol profissional não pode pagar: essa poção mágica, que não tem preço, se chama entusiasmo. No idioma da antiga Grécia, entusiasmo significa “ter os deuses dentro”.

A final das piores seleções

Enquanto durou a democracia, o Corinthians, governado por seus jogadores, ofereceu o futebol mais audacioso e vistoso de todo o país e atraiu as maiores multidões aos estádios

Como se sabe, no ano passado o Brasil ganhou a Copa do Mundo, disputando a final contra a Alemanha, em Tóquio.

Embora ninguém o tenha sabido, foi disputada, ao mesmo tempo e muito longe dali, uma outra final.

Foi nos picos do Himalaia. Mediram forças as duas piores seleções do planeta; a última e a penúltima do ranking mundial: o reino de Butão e a ilha de Monserrat, no Caribe.

O troféu era uma grande taça, prateada, que esperava à beira do campo.

Os jogadores, todos anônimos, nenhum famoso, tiveram um grande dia, sem outra obrigação senão a de se divertirem bastante. E quando as equipes terminaram a partida, a taça, que estava colada ao meio, foi aberta em duas e compartilhada por ambos os times.

O Butão ganhara e Monserrat perdera, mas esse detalhe não tinha a menor importância.

(Trad.: Jô Amado)

1 - N.T.: Presidente da Fifa – Federação Internacional de Futebol Profissional.




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