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CONTO

A noite do eclipse

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Há muitos anos o célebre escritor colombiano vem se dedicando a suas memórias, cujo primeiro volume sairá na França em outubro. Nesse meio tempo, ele escreveu uma série de seis contos que podem ser lidos de maneira independente, sem ligação entre si. Com título «En agosto nos vemos», também podem ser fruidos em ordem, com a continuidade dramática de uma novela. Este é o terceiro da série

Gabriel Garcia Marquez - (01/08/2003)

Teve que pedir ajuda para aprender que com o mesmo cartão de abrir a porta se acendiam as luzes, a televisão, o ar condicionado e a música ambiente

Outros mistérios daquele hotel extravagante não foram tão fáceis para Ana Magdalena Bach. Quando acendeu um cigarro disparou um sistema de campainhas e luzes e uma voz autoritária lhe disse, em três idiomas, que estava em um quarto para não fumantes, o único que encontrou livre em uma noite de férias. Teve que pedir ajuda para aprender que com o mesmo cartão de abrir a porta se acendiam as luzes, a televisão, o ar condicionado e a música ambiente. Ensinaram-lhe a digitar no teclado eletrônico para regular os eróticos e salutares jatos d’ água da banheira redonda de hidro-massagem. Louca de curiosidade tirou a roupa ensopada de suor por causa do sol do cemitério, colocou a touca de banho para proteger o penteado e se entregou ao redemoinho de espuma. Feliz, discou o número de telefone interurbano de sua casa e aos gritos disse ao marido a verdade: “Você não imagina a falta que você me faz”. As fanfarronadas que ela lhe dirigiu foram tão agressivas que ele sentiu ao telefone a excitação da banheira.

- Porra – disse – você está me devendo essa.

Ela tinha pensado em pedir algo para comer para não ter que vestir-se, porém a taxa extra para serviço de quarto a fez decidir comer no bar como o fazem os pobres.. O vestido de seda negra, um tubinho um pouco cumprido para a moda, combinava com seu penteado. Sentiu-se meio desprotegida com o decote, mas o colar, os brincos e as presilhas de esmeraldas falsas lhe levantaram a moral e aumentaram o brilho de seus olhos.

Vestir o vestido

Estavam tão próximos que ela percebeu o tênue cheiro de sua timidez por trás da loção de barbear

Quando desceu para jantar eram oito horas. Terminou rapidamente. Incomodada com o choro das crianças e a música estridente, decidiu voltar ao quarto para ler El dia de los Trífidos, que tinha iniciado há mais de três meses. A calma do hall de entrada do hotel a reanimou e ao passar diante do cabaré chamou-lhe a atenção um casal profissional que bailava a Valsa do Imperador com uma técnica perfeita. Permaneceu absorta na porta até que terminasse o espetáculo e a clientela comum ocupasse a pista de dança. Uma voz doce e varonil, muito próxima de suas costas a tirou de sua fantasia:

- Dancemos?

Estavam tão próximos que ela percebeu o tênue cheiro de sua timidez por trás da loção de barbear. Então o encarou por cima do ombro e permaneceu sem alento. “Perdão”, lhe disse aturdida, “mas não estou vestida para dançar”. A réplica dele foi imediata:

- É você que veste o vestido , senhora.

A frase a impressionou. Com um gesto inconsciente apalpa seus seios intactos, os braços nus, as cadeiras firmes, até comprovar que seu corpo estava, na verdade, onde ela sentia. E então dirigiu seu olhar novamente por cima dos ombros, não mais para reconhecê-lo, mas para dele se apropriar com os mais belos olhos que nunca mais ele veria iguais .

- Você é muito gentil – disse-lhe encantada -. Já não existem homens que digam coisas como essa.

E então ele se pôs ao seu lado e lhe reiterou, em silêncio, o convite para dançar. Ana Magdalena Bach, só e livre em sua ilha, se agarrou àquela mão com todas as forças de sua alma como se estivesse à beira de um precipício.

Dançaram três valsas à moda antiga. Ela supôs, desde os primeiros passos, pelo cinismo de sua maestria que ele era outro profissional alugado pelo hotel para animar as noites e se deixou levar em círculos de vôo, mas com seus braços o manteve firme à distância. Ele lhe disse, olhando-a nos olhos: “Dança como uma artista”. Ela sabia que ele tinha razão, mas também sabia que ele o tinha dito, de qualquer forma, a qualquer mulher que quisesse levar para a cama.

Na segunda valsa, ele tentou apertá-la contra seu corpo e ela o manteve em seu lugar. Ele se esmerou em sua arte, tomando-a pela cintura com a ponta dos dedos, como uma flor. Na metade da terceira valsa ela sentiu como se o conhecesse desde sempre..

Nunca tinha concebido um homem tão antiquado com uma embalagem tão bela. Tinha a pele pálida, os olhos ardentes sob espessas sobrancelhas, o cabelo azeviche absoluto, engomado com brilhantina e divido ao meio por uma linha perfeita. O smoking tropical de seda crua ajustado às suas cadeiras estreitas completava sua imagem de janota. Tudo nele era tão postiço como suas maneiras, mas os olhos de febris pareciam ávidos de compaixão.

Espaço de intimidade

Ana Magdalena Bach, só e livre em sua ilha, se agarrou àquela mão com todas as forças de sua alma como se estivesse à beira de um precipício

No final da série de valsas ele a conduziu a uma mesa isolada sem nada lhe dizer nem pedir permissão. Não era necessário: ela sabia de antemão e se alegrou por ele ter pedido uma champanhe. O salão na penumbra tornava o local agradável e cada mesa tinha seu próprio espaço de intimidade.

Ana Magdalena calculou que seu acompanhante não passava dos trinta anos porque ele ignorava tudo sobre bolero. Ela o encaminhou com tato, serena até que ele acertar o passo. Manteve-o à distância para não lhe dar o gosto de sentir em suas veias o sangue esquentado pela champanhe. Mas ele a forçou, primeiro suavemente, e depois com toda a força de seu braço na cintura. Ela então sentiu em sua coxa o que ele tinha querido que sentisse para marcar seu território e se amaldiçoou pelo bater de seu sangue nas veias e a aceleração de sua respiração, mas soube se opor à segunda garrafa de champanhe. Ele devia perceber, pois a convidou a um passeio pela praia. Ela dissimulou seu desgosto com uma frivolidade compassiva:

- Sabe qual é a minha idade?

- Não consigo imaginar que você tenha uma idade – disse ele.

- Só a que você quiser.

Mal tinha acabado de falar quando ela, cansada de tanta mentira, expôs seu próprio corpo diante do dilema absoluto: agora ou nunca. “Sinto muito”, disse, levantando-se. Ele se assustou.

- O que aconteceu?

- Tenho que ir, disse ela -. A champanhe não é meu forte.

Ele propôs outros programas inocentes, sem saber certamente que quando uma mulher se vai não há poder humano nem divino que a detenha. Finalmente, ele se rendeu.

- Permita-me que a acompanhe?

- Não se incomode – disse ela -. E obrigada, foi uma noite inesquecível.

Convite para a eclipse

Supôs, desde os primeiros passos, pelo cinismo de sua maestria que ele era outro profissional alugado pelo hotel para animar as noites e se deixou levar em círculos

No elevador já estava arrependida. Sentia raiva de si mesma, mas a compensava o prazer de ter feito o que devia fazer. Entrou no quarto, tirou os sapatos, se atirou de costas na cama e acendeu um cigarro. Quase ao mesmo tempo tocaram a campainha e ela amaldiçoou o hotel, cuja lei perseguia os hóspedes até a sua sagrada intimidade.. Porém, quem tocou a campainha não era a lei, era ele. Parecia uma figura de museu de cera na penumbra do corredor. Ela o observou com a mão na maçaneta da porta, sem a menor indulgência e finalmente acabou deixando que ele entrasse. Ele entrou como se fosse sua casa.

- Ofereça-me algo – disse.

Sirva-se você mesmo – disse ela -. Não tenho a menor idéia de como funciona esta nave espacial.

Ele, ao contrário, sabia tudo. Baixou a luz, pôs a música ambiente e serviu dois copos de champanhe do frigobar com a habilidade de um diretor de orquestra. Ela se prestou ao jogo, não como ela mesma, mas como protagonista de seu próprio papel. Estavam brindando quando tocou o telefone e ela respondeu alarmada. Um oficial de segurança do hotel a advertiu de maneira amável que nenhum convidado poderia permanecer em uma suíte depois da meia-noite sem fazer o devido registro na recepção .
- Por favor, não precisa me explicar – interrompeu ela, confusa. Desculpe-me.

Desligou com a cara congestionada pelo rubor. Ele, como se tivesse ouvido a advertência, a justificou com uma razão simples: “São fanáticos”. E sem rodeios a convidou a contemplar um eclipse total da lua na praia. A notícia era nova para ela. Tinha uma paixão infantil pelos eclipses e depois de ter se debatido durante toda a noite entre o decoro e a tentação e não encontrou um argumento válido para não aceitar.

- Não temos escapatória – disse ele -. É nosso destino.

Calculou que seu acompanhante não passava dos trinta anos porque ele ignorava tudo sobre bolero. Ela o encaminhou com tato, serena até que ele acertar o passo

O apelo ao sobrenatural a dispensou de escrúpulos. E assim foram ver o eclipse na caminhonete dele, em uma baía escondida em um bosque de coqueiros, sem traços de turistas. No horizonte, via-se ao longe o resplendor da cidade e o céu diáfano com uma lua solitária e triste. Ele estacionou ao abrigo das palmeiras, tirou os sapatos, afrouxou a cinta e abaixou o banco para relaxar. Ela descobriu que a caminhonete só tinha os bancos dianteiros que se convertiam em cama só com um aperto de botão. O resto era um frigobar, um equipamento de música com o saxofone de Fausto Papetti e um banheiro minúsculo com um bidé portátil detrás de uma cortina vermelha. Ela entendeu tudo.

- Não haverá eclipse de lua – disse -. Só podem acontecer na lua cheia e estamos em quarto crescente.

Ele se manteve imperturbável.

- Então será de sol - disse -. Temos tempo.

Não houve mais preliminares. Ambos já sabiam onde chegariam e ela sabia, além disso, que era a única coisa diferente que poderia esperar dele desde que dançaram o primeiro bolero. Assombrou-a a maestria de mago de salão com que a desnudou peça por peça, quase fio por fio, com a ponta dos dedos e mal tocando-a, como quando despelamos uma cebola. Com a primeira investida do minotauro, ela se sentiu morrer pela dor com uma humilhação atroz de galinha esquartejada. Ficou sem ar e empapada com um suor gelado, mas apelou a seus instintos primários para não se sentir menor nem deixar-se sentir menor do que ele, e se entregaram juntos ao prazer inconcebível da força bruta subjugada pela ternura. Ana Magdalena não se preocupou em saber quem era ele, nem pretendeu, até uns três anos depois daquela noite inesquecível, quando reconheceu na televisão seu retrato falado de vampiro triste, procurado por todas as polícias do Caribe como escroque e proxeneta de viúvas alegres e solitárias e provável assassino de duas.

(Trad.: Celeste Marcondes)

© GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 2003




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