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MEDICAMENTOS

A corrupção institucionalizada da indústria farmacêutica

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Os grandes laboratórios dispõem de meios de coação para influenciar médicos e pesquisadores. Submetida às regras das finanças, criam uma assustadora polícia do pensamento e uma corrupção que gangrena o contrato social assinado em torno da saúde pública

Philippe Rivière - (01/10/2003)

Depois de uma onda de fusões e aquisições sem precedentes, as 10 maiores firmas farmacêuticas dividem entre elas 50% do mercado mundial dos remédios. Para maior lucro de seus acionistas, elas aliviam os problemas de saúde do planeta, financiando a pesquisa e o desenvolvimento de novas moléculas com o produto das vendas. Eis aí a cara lisa e sorridente que as “Big Pharma1” mostram ao mundo. Mas algumas rugas começam a nascer. Morre-se, no Hemisfério Sul, por não se ter acesso a medicamentos excessivamente caros ou pela inexistência de tratamentos adequados; sofre-se, no Hemisfério Norte, de um superconsumo absurdo e de efeitos secundários que por muito tempo passam despercebidos. No entanto, a influência das companhias farmacêuticas é tamanha que elas parecem não conhecer contra-poder algum.

Na Itália a polícia descobriu um sistema informatizado que permitia aos laboratórios acompanhar, por meio farmácias, as receitas dos médicos pagos por eles

Quando se trata das torpezas do pântano político, a imprensa adora pôr na primeira página os casos de propina. Entretanto, quando a GlaxoSmithKlime (GSK) é alvo, na Itália, de uma gigantesca investigação policial, envolvendo 2.900 médicos (37 empregados da GSK-Itália e 35 médicos foram acusados de “corrupção”; 80 propagandistas acusados de pagamentos ilegais a médicos para que receitassem os produtos da companhia em vez dos equivalentes genéricos), há um silêncio quase absoluto dos meios de comunicação: com exceção do British Medical Journal (BMJ) e do >i:Guardian de Londres2 de fevereiro de 2003, não se encontra quase nada sobre este grandioso caso. Durante sua investigação, a polícia descobriu um sistema informatizado elaborado, denominado Giove (Júpiter) que permitia aos representantes comerciais da firma acompanhar, por meio das encomendas nas farmácias, as receitas dos médicos que essa firma pagava. E segundo o BMJ, 13 mil horas de gravações telefônicas mostravam de modo bastante claro uma relação estreita entre as receitas e o montante dos presentes recebidos pelos médicos: “consultas” no Grande Prêmio de Monte Carlo ou no Caribe, pagamentos em espécie de quantias de até 1.500 euros, etc. A Itália, caso isolado? Casos similares apareceram nos Estados Unidos e na Alemanha...

Ética científica ou lógica empresarial

Em abril de 1993, a médica Nancy Olivieri, do Hospital das Crianças de Toronto, assina com a empresa Apotex Research um protocolo de pesquisa para uma nova molécula, a deferiprona3, que promete ajudar os pacientes acometidos de talassemia4 a evitar os acidentes cardíacos devidos a uma sobrecarga de ferro. Ela está longe de desconfiar que o seu “caso” será objeto, oito anos mais tarde, de um relatório de investigação de mais de 500 páginas. Dois anos depois do início dos ensaios terapêuticos e da publicação dos primeiros resultados encorajadores, ela suspeita que esse medicamento agrave a fibrose hepática de alguns de seus doentes. Decide então fazer os pacientes assinarem uma nova carta de consentimento, a fim de que sejam informados dos riscos potenciais de efeitos secundários e a submete a seus superiores hierárquicos. Imediatamente, o laboratório termina o contrato (sem anular as pesquisas em andamento em outros hospitais) e ameaça a médica de processá-la se ela infringir a cláusula de sigilo que ela havia, imprudentemente, assinado. Ignorando as pressões, em nome do seu dever para com os pacientes, ela apresenta seus resultados durante um colóquio. Ela só será apoiada, em seus seis anos de aflições judiciárias e profissionais, pela Associação Canadense de Professores Universitários (ACPPU). O diretor da Apotex, um dos “filantropos” mais influentes de Toronto, ofereceu, é verdade, uma doação de 20 millhões de dólares à universidade daquela cidade para a construção de um novo prédio... Por força de sua tenacidade, a doutora Olivieri, contudo, terminou por obter ganho de causa. Reintegrada em seu serviço, com uma compensação pelos anos de pesquisa perdidos, ela conseguiu igualmente que a Comissão Européia anulasse a autorização para colocar a deferiprona no mercado, fazendo valer o argumento de que nenhum estudo científico havia eliminado os temores que ela havia assinalado.

“Testes de marketing”

Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing”

Por causa de uma otite fulminante, um médico receitou para Roselyne um antibiótico de “terceira geração”. Dois dias mais tarde, ela se arrasta, em casa, a pressão baixíssima. Outro clínico geral consultado diz-lhe “já ter tido problemas com esse antibiótico” e a aconselha a suspender o tratamento. No dia seguinte, suas forças voltam. O incidente é benigno e nada prova que esteja ligado a este medicamento. Ainda bem! Pois o clínico geral não dispõe, de qualquer modo, de nenhuma maneira de notificá-lo. Desde o advento do cartão Sésamo-Vitale5, a seguridade social francesa impõe, todavia, a cada atendimento, uma conexão com a Internet. Mas nenhum site recenseia este tipo de observação que, reunidas, permitiriam, entretanto, aos epidemiologistas detectar os riscos não percebidos antes do procedimento acordado. Os apelos do coletivo “Europa e medicamento” para que se associe mais os pacientes à farmacovigilância não foram, até o momento, ouvidos pela comissão Européia.

A associação de luta contra a Aids “Act Up-Paris” deplorou por muito tempo que não existisse financiamento algum para, por exemplo, refinar as posologias dos triterápicos6 para as mulheres (as legiões de pacientes acompanhados durante os ensaios terapêuticos compreendiam principalmente homens). Não existe, depois da autorização para colocação no mercado, nenhuma obrigação legal de continuar a avaliar os produtos ou de assegurar o acompanhamento de um certo número de pessoas em tratamento. Sem legislação restritiva, os chamados testes “de fase IV” 7 só são feitos dependendo da boa vontade dos laboratórios. Com o risco de que apenas aqueles que permitam fazer “decolar” a venda de um novo produto, habituando os médicos ao seu uso, sejam financiados. Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing8”.

“Testes de marketing”

Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing”

Por causa de uma otite fulminante, um médico receitou para Roselyne um antibiótico de “terceira geração”. Dois dias mais tarde, ela se arrasta, em casa, a pressão baixíssima. Outro clínico geral consultado diz-lhe “já ter tido problemas com esse antibiótico” e a aconselha a suspender o tratamento. No dia seguinte, suas forças voltam. O incidente é benigno e nada prova que esteja ligado a este medicamento. Ainda bem! Pois o clínico geral não dispõe, de qualquer modo, de nenhuma maneira de notificá-lo. Desde o advento do cartão Sésamo-Vitale5, a seguridade social francesa impõe, todavia, a cada atendimento, uma conexão com a Internet. Mas nenhum site recenseia este tipo de observação que, reunidas, permitiriam, entretanto, aos epidemiologistas detectar os riscos não percebidos antes do procedimento acordado. Os apelos do coletivo “Europa e medicamento” para que se associe mais os pacientes à farmacovigilância não foram, até o momento, ouvidos pela comissão Européia.

A associação de luta contra a Aids “Act Up-Paris” deplorou por muito tempo que não existisse financiamento algum para, por exemplo, refinar as posologias dos triterápicos6 para as mulheres (as legiões de pacientes acompanhados durante os ensaios terapêuticos compreendiam principalmente homens). Não existe, depois da autorização para colocação no mercado, nenhuma obrigação legal de continuar a avaliar os produtos ou de assegurar o acompanhamento de um certo número de pessoas em tratamento. Sem legislação restritiva, os chamados testes “de fase IV” 7 só são feitos dependendo da boa vontade dos laboratórios. Com o risco de que apenas aqueles que permitam fazer “decolar” a venda de um novo produto, habituando os médicos ao seu uso, sejam financiados. Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing8”.

“Testes de marketing”

Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing”

Por causa de uma otite fulminante, um médico receitou para Roselyne um antibiótico de “terceira geração”. Dois dias mais tarde, ela se arrasta, em casa, a pressão baixíssima. Outro clínico geral consultado diz-lhe “já ter tido problemas com esse antibiótico” e a aconselha a suspender o tratamento. No dia seguinte, suas forças voltam. O incidente é benigno e nada prova que esteja ligado a este medicamento. Ainda bem! Pois o clínico geral não dispõe, de qualquer modo, de nenhuma maneira de notificá-lo. Desde o advento do cartão Sésamo-Vitale5, a seguridade social francesa impõe, todavia, a cada atendimento, uma conexão com a Internet. Mas nenhum site recenseia este tipo de observação que, reunidas, permitiriam, entretanto, aos epidemiologistas detectar os riscos não percebidos antes do procedimento acordado. Os apelos do coletivo “Europa e medicamento” para que se associe mais os pacientes à farmacovigilância não foram, até o momento, ouvidos pela comissão Européia.

A associação de luta contra a Aids “Act Up-Paris” deplorou por muito tempo que não existisse financiamento algum para, por exemplo, refinar as posologias dos triterápicos6 para as mulheres (as legiões de pacientes acompanhados durante os ensaios terapêuticos compreendiam principalmente homens). Não existe, depois da autorização para colocação no mercado, nenhuma obrigação legal de continuar a avaliar os produtos ou de assegurar o acompanhamento de um certo número de pessoas em tratamento. Sem legislação restritiva, os chamados testes “de fase IV” 7 só são feitos dependendo da boa vontade dos laboratórios. Com o risco de que apenas aqueles que permitam fazer “decolar” a venda de um novo produto, habituando os médicos ao seu uso, sejam financiados. Sempre desprovidos de financiamento público, médicos e pesquisadores se engajam assim no que se chama às vezes de “testes de marketing8”.




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