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Estes israelenses que têm fome

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Em meio a uma profunda crise econômica, agravada pela política do governo de cortes na área social, gastos com a ocupação militar e com as colônias nos territórios ocupados, já se vêem vestígios de pobreza e fome entre a população de Israel

Joseph Algazy - (01/10/2003)

Desde o início do verão, em Jerusalém, na avenida onde ficam os principais Ministérios, ministros, funcionários, usuários e pedestres, arma-se todos os dias uma impressionante fila de barracas. Mulheres, homens e crianças vivem aqui dia e noite: mães solteiras, pessoas sem-teto e desempregados – as principais vítimas das medidas anti-sociais do governo de Ariel Sharon.

Iniciadora deste movimento, Vicky Knafo, 43 anos, divorciada, cria sozinha três crianças com os 1.200 shekels (815 reais) que ganha mensalmente como cozinheira trabalhando meio período numa creche. Até julho, ela recebia do seguro social uma ajuda mensal de 2.700 shekels (1.830 reais) para atingir a renda mínima oficial. Desde então – devido às medidas de austeridade governamental –, recebe 1.200 shekels a menos.

Foi por isso que, no início de julho, ela deixou sua casa de Mitspeh Ramon, no Neguev, e realizou, durante uma semana, uma marcha de 200 quilômetros até Jerusalém. Outros também o fizeram, às vezes acompanhados pelos filhos. Ben Abraham, 59 anos, não tem moradia, mas tem um cãozinho: em sua camiseta se lê: “O cachorro tem sua toca – e eu, tenho o quê?”. Mas quando os manifestantes querem falar com os ministros, as forças da ordem os impedem violentamente.

Uma recessão profunda

Um camping de desempregados e sem-teto, instalado num bairro rico de Tel-Aviv, comemorou seu primeiro aniversário no dia 18 de agosto

Não muito longe dali, beduínos do Neguev também armaram suas barracas: eles protestam contra a destruição sistemática de suas moradias, que tem por objetivo removê-los de suas terras ancestrais e forçá-los a viver em favelas – alguns falam de “reservas”.

O camping dos desempregados e dos sem-teto, situado em Tel-Aviv, comemorou seu primeiro aniversário no dia 18 de agosto. Está instalado num dos bairros mais ricos da metrópole: na Kikar Medina (Praça do Estado), rebatizado Kikar Halehem (Praça do Pão). Também ali são dezenas, com seus filhos, em velhos ônibus e sob barracas. Até o momento, todas as tentativas da prefeitura e dos proprietários para os retirar fracassaram. “A escolha deste lugar não foi por acaso: o contraste entre o lamentável acampamento, as lojas luxuosas e os apartamentos suntuosos do local simboliza o abismo social que não pára de crescer entre pobres e ricos”, explica Israel Twito, 38 anos, divorciado, que cria sozinho suas três filhas.

Estes contestadores são emblemáticos porque Israel passa por uma crise econômica profunda. Entre 1992 e 1995, o crescimento ultrapassou 7% ao ano, graças aos acordos de Oslo e à chegada dos judeus da ex-União Soviética. Mas, em seguida, não parou de diminuir. E a segunda Intifada provocou uma “profunda recessão” para usar a expressão de Moti Bassk1 : durante o primeiro semestre de 2003, o Produto Nacional Bruto per capita recuou de 0,7% depois das baixas consecutivas de 1,3% nos seis últimos meses de 2002, de 2,1% na primeira metade de 2002 e de 6,7% nos seis últimos meses de 20012.

Caem investimentos, cresce desemprego

Os contestadores são emblemáticos porque Israel passa por uma crise econômica profunda. Nos últimos três anos, o PNB caiu sistematicamente

Durante o primeiro semestre de 2003, a produção industrial também recuou 1,1%. E mesmo a das indústrias high-tech diminuiu 8% em maio e junho. Quanto ao consumo privado per capita nos seis primeiros meses de 2003, caiu 2,1% (depois de despencar 2,8% durante o segundo semestre de 2002 e 2,1% durante o primeiro).

No fim de agosto, no âmbito dos debates preparatórios para a discussão do orçamento de 2004, o Ministério das Finanças, dirigido por Benjamin Netanyahu, previu um crescimento de 2,5%, uma diminuição de 2,9% do consumo público, uma escalada recorde do desemprego de 11,2%, uma queda do salário real de 4% no setor público e de 2,3% no setor privado, assim como uma inflação de 1,1% a 1,2%. Comentário do deputado trabalhista Avraham Shohat, ex-ministro das Finanças: “Falar de uma guinada da economia não faz sentido. Não haverá novos investimentos, nem externos, nem israelenses, sem uma guinada política no Oriente Médio. Apenas um processo que diminua o nível dos confrontos com os palestinos pode garantir uma taxa de crescimento de 2,5% em 20043 .”

Em julho, o número de desempregados registrados ultrapassou 220 mil: 14 mil a mais do que em junho. Embora nas principais 34 aglomerações urbanas (29 árabes e 5 judaicas) a taxa de desemprego ultrapasse a barreira dos 10%. E isto não está longe de se resolver: na véspera da volta às aulas, milhares de professores foram dispensados e, nos próximos meses, milhares de funcionários públicos perderão seus empregos ou serão obrigados a uma aposentadoria antecipada.

1,17 milhão abaixo do limiar de pobreza

“Falar de uma guinada da economia não faz sentido. Não haverá novos investimentos sem uma guinada política no Oriente Médio”, diz um deputado trabalhista

Segundo o próprio Ministério das Finanças, Israel terá 300 mil desempregados registrados no ano que vem. Sem contar os que não estão registrados: o governo anunciou medidas para reduzir ainda o número de desempregados que têm direito a um seguro. Os que têm menos de 25 anos, por exemplo, serão forçados a se apresentarem diariamente às agências de emprego. O objetivo é forçá-los a tomar o lugar dos 200 mil ou 250 mil trabalhadores imigrantes. E mais de 50 mil destes últimos foram expulsos pela polícia. Superexplorados, eles trabalham freqüentemente até 14 horas por dia e sete dias por semana por um salário mensal de 500 a 600 dólares – uma escravidão moderna que os israelenses negam.

Apresentado demagogicamente como destinado a “sanear a economia de Israel”, o plano, que entrou em vigor este ano, inclui cortes claros no orçamento dos serviços sociais, nacionais e municipais. Acrescentados às medidas anti-sociais dos anos precedentes, estes novos atentados ao “Estado de bem-estar social” atingiram particularmente as camadas menos privilegiadas. Mas as classes médias não foram poupadas.

O valor do seguro-desemprego, por exemplo, cujas condições de obtenção se dificultaram, foi reduzido. O mesmo ocorre com os seguros-maternidade e família, com o auxílio aos que ganham menos que a renda mínima e com os inválidos por acidentes de trabalho. A nova diminuição do seguro família lançou mais 11 mil famílias na faixa abaixo do limiar de pobreza. Atualmente, um em cada cinco israelenses está nessa faixa – o que representa 1,17 milhão de pessoas.

As pragas do “plano de saneamento”

Os novos atentados ao “Estado de bem-estar social” atingiram particularmente as camadas menos privilegiadas. Mas as classes médias não foram poupadas

Cinicamente, os porta-vozes do Ministério das Finanças pretendem que a redução dos diferentes seguros irá forçar aqueles que deles se beneficiam a não viverem mais às custas do Estado e irem, enfim, trabalhar. Ao fazê-lo, ignoram a realidade de um desemprego que aumenta constantemente: inúmeras fábricas fecham as portas e o governo não consegue criar empregos (na verdade, até os suprime).

O seguro-velhice foi congelado no nível de janeiro de 2001 e o seguro-doença está congelado até 2006. O Estado reduziu os orçamentos de saúde e de educação, ao mesmo tempo em que aumentava os encargos que pesam sobre os usuários. Também reduziu os empréstimos destinados à moradia a fim de obrigar os jovens casais, os novos olim (imigrantes) e os sem-teto a se voltarem para os bancos privados. Quanto à reforma das aposentadorias, ela implica, a partir de outubro de 2003, um aumento das contribuições dos assalariados e uma diminuição das pensões dos aposentados. A partir de janeiro de 2004, a idade de aposentadoria vai passar progressivamente de 65 para 67 anos e a das mulheres de 60 para 67 anos.

O doutor Yitzhak Kadman, diretor executivo do Conselho para o Bem-Estar da Criança, compara o “plano de saneamento” às 10 pragas que, segundo o Velho Testamento, assolaram o Egito antes que Moisés e os hebreus pudessem partir: “Ele provoca nas crianças e nas famílias com crianças pelo menos vinte pragas dolorosas4.”

O lucro revoltante dos bancos

Milhares de professores foram demitidos e, nos próximos meses, milhares de servidores públicos perderão seus empregos ou serão obrigados a se aposentar

“Um milhão de israelenses têm fome”: foi essa, no dia 28 de agosto, a manchete do jornal Yediot Aharonot. Ainda no início de 2003, pesquisadores do Instituto Brookdale, trabalhando em colaboração com o Ministério da Saúde, haviam revelado que 400 mil famílias israelenses, 22% do total, sofriam de “insegurança nutricional”. As vítimas não passam fome, evidentemente, mas não têm condições de comprar regularmente o alimento de que as crianças precisam para se desenvolverem adequadamente. Alguns comem porções menores, outros suprimem refeições, ou até, em casos extremos, não comem durante o dia. A composição de suas refeições é uniforme e pobre em carne, em laticínios, em legumes e em frutas...

Quatro das famílias envolvidas a cada cinco afirmam que sua situação se agravou nos dois últimos anos, devido a uma situação econômica precária. Existem até 5% que confessam ter recorrido a uma ajuda alimentar, seja de cozinhas populares, seja de associações de caridade. Segundo outra pesquisa, publicada pela organização beneficente Latet (Dar), o número de israelenses que solicitaram uma ajuda alimentar aumentou 46% em um ano. Os principais solicitantes são famílias monoparentais e famílias numerosas.

O que chocou a opinião pública foi o anúncio simultâneo dos lucros de certos bancos. O Hapoalim, o principal do país, divulga, no segundo trimestre, um lucro líquido de 335 milhões de shekels (230 milhões de reais), um aumento de 59%. O lucro do Discount, no mesmo período, chega a 116 milhões de shekels (80 milhões de reais), ou 36,5% a mais que em 2002. O lucro dos cinco grandes bancos (Hapoalim, Leumi, Discount, Hamizrahi e BenLeoumi) chegou, nos primeiros seis meses de 2003, a 1,4 bilhão de shekels (1,2 trilhão de reais), um aumento de 130% em relação aos seis primeiros meses de 2002.

“Os fracos são inúteis”

Yitzhak Kadman, diretor do Conselho para o Bem-Estar da Criança, compara o “plano de saneamento” do governo às 10 pragas que assolaram o Egito

“A crise econômica e social”, resume a ex-deputada comunista Tamar Goujansky, “resulta de dois fatores importantes: por um lado, a guerra, a ocupação e a colonização, e por outro, a política neoliberal do governo”. A combinação destes dois elementos, continua ela, “é catastrófica. Enquanto os gastos militares e o custo da colonização são enormes e quase intocáveis, os orçamentos sociais não param de regredir. Em contrapartida, os lucros dos bancos, como os da Bolsa, não param de subir. Este governo intensifica a política dos precedentes: ele faz a mesma coisa, só que... ainda muito mais.”

Mais, especificamente, em matéria de desigualdades sociais, como salientam os sociólogos Barbara e Shlomo Swirsky, que dirigem o Centro Adva: “Os golpes desferidos contra o sistema de assistência social sob pretexto de rigor orçamentário refletem uma mudança da escala dos valores. Os israelenses abastados, que povoam os bastidores do governo, se inspiram no ‘darwinismo social’: os fortes são pessoas dignas porque são fortes; aquele que enfraquece, quaisquer que sejam os motivos, não vai mais se manter em pé – e, portanto, não há razão alguma para se investir nele. Em suma, os fracos são inúteis”. É por esse motivo que, “durante estes anos de suposta pobreza do Estado, nossos governos gastaram bastante dinheiro para dispensar os capitalistas de pagar impostos, para financiar gastos militares excessivos, assim como as colônias, e para garantir enormes salários aos altos funcionários.”

O atoleiro do conflito com os palestinos

“A crise econômica e social”, resume a ex-deputada Tamar Goujansky, “resulta de dois fatores importantes: a guerra e a política neoliberal do governo”

Durante uma visita ao mercado Ha-Carmel, em Tel-Aviv, Knafo declarou: “Se há dinheiro para os mitnahlim (colonos judeus nos territórios palestinos ocupados), não há nenhuma razão par que não haja para as verbas sociais”. Apesar da força desta lógica, as mulheres solteiras não conseguiram – como outros grupos contestadores – desencadear um movimento de massa.

Por que? Segundo Goujanski, “ainda que o movimento de Knafo seja autêntico, será difícil para ele decolar enquanto não se beneficiar do apoio ativo dos partidos de oposição – incluindo o Partido Trabalhista e o Shas – além do apoio da central sindical Histadrut. É verdade que o movimento goza de uma certa solidariedade feminina e de uma certa colaboração árabe-judaica, mas isso não basta”. No entanto, uma grande parte da população se opõe às medidas anti-sociais do governo... “Sim, mas as mesmas pessoas apóiam o governo devido à gravidade da situação política”. O sociólogo Shlomo Swirsky compartilha desta opinião: “A guerra contínua do Tsahal [exército israelense] nos territórios ocupados e os atentados terroristas palestinos impedem o desenvolvimento de um movimento social de grande envergadura.”

No fundo, é o que diz o deputado Abraham Shohat: “O povo de Israel deve saber que a continuação do conflito com os palestinos vai transformar seu país num Estado pobre que fornece cada vez menos assistência social a seus cidadãos (...). Quem quer que pense que este país pode permanecer à margem do colapso socioeconômico, enquanto se atola num conflito que compromete sua segurança, não sabe do que está falando5.”

(Trad.: Fabio de Castro)

1 - Haaretz, Tel-Aviv, 28 de agosto de 2003.
2 - Estas estatísticas e as que se seguem foram todas publicadas pelos jornais Haaretz, Yediot Aharonot e Maariv na segunda quinzena do mês de agosto de 2003.
3 - Haaretz, versão em inglês, 28 de agosto.
4 - Panfleto publicado em Jerusalém, abril de 2003.
5 - Haaretz, op. cit.




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