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IMIGRAÇAO

Manobras políticas em torno dos imigrantes

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Durante mais de uma década no governo, os socialistas incentivaram o debate sobre o exercício da cidadania dos imigrantes magrebinos, mas pouco fizeram em termos práticos. Agora, a direita de Jacques Chirac colhe os frutos dessa grave omissão

Karim Bourtel - (01/10/2003)

Em 5 de maio de 2002, na Praça da República, jovens franceses agitam alegremente bandeiras argelinas e marroquinas e aclamam Jacques Chirac, reeleito presidente da República. Alguns dias mais tarde, Tokia Saifi faz sua entrada no novo governo como secretária de Estado para o Desenvolvimento Sustentável, assim como Hamlaoui Mekachera como ministro dos Ex-combatentes. A primeira é filha de imigrantes argelinos; o segundo, ex-oficial argelino do exército francês.

Em 2003, no entanto, nenhum franco-argelino foi eleito deputado na França, e só três deles têm assento no Parlamento Europeu. Qualquer medida destinada a corrigir essa “anomalia democrática” violaria os “princípios republicanos”. Sem quaisquer ilusões sobre as intenções eleitorais dos partidos políticos, os franceses originários da imigração magrebina não deixam de esperar, por parte deles, um verdadeiro reconhecimento de sua cidadania, e que isso não ocorra apenas nos discursos.

A adesão à direita majoritária

Sem ilusões sobre as intenções eleitorais dos partidos políticos, os imigrantes esperam o reconhecimento de sua cidadania, e não apenas discursos

À direita do cenário político, alguns partidos, que por vezes flertaram com a Frente Nacional para garantir a presidência de regiões ou de municípios, dão mostras de ter um novo interesse por essa categoria da população. Em termos de aritmética eleitoral, a União para a Maioria Presidencial (UMP) parece ter atualmente necessidade dos eleitores franco-magrebinos.

É provavelmente por essa razão que a atual maioria valoriza tanto, não somente seus dois secretários de Estado “árabes”, mas também os conselheiros técnicos: Amo Ferhati, assessor de Saifi, Rachid Mokran, na Secretaria de Estado para Pequenas e Médias Empresas, Rachida Dati, no Ministério do Interior, e Hakim El Karaoui, assessor do primeiro-ministro. Sem esquecer os cinco secretários nacionais do partido (entre um total de 81). Há quem conte com eles para concretizar expectativas ou frustrações, e até reunir os franco-magrebinos na UMP. Para Jean-François Coppé, porta-voz do governo, “só a presença de dois ministros muçulmanos no governo já demonstra a força da República1 ”.

Motivadas pelos interesses de seu partido ou pela preocupação com seu próprio futuro, as elites franco-magrebinas da UMP transformaram-se em ativistas de direita junto às “minorias”, a ponto de imitar a administração colonial, com seus administradores autóctones encarregados de problemas autóctones. De debate a reunião, de encontro a telefonema, elas tiram proveito, sem complexo, de uma suposta proximidade cultural para valorizar interlocutores à espera de reconhecimento.

“Prêmios” e “promoções”

Em termos de aritmética eleitoral, a União para a Maioria Presidencial, de Chirac, parece ter atualmente necessidade dos eleitores franco-magrebinos

Pouco popular junto aos interessados, a noção de “integração” é substituída pelas noções de “cidadania” e de “igualdade de oportunidades”. Formada no interior das mesmas estruturas associativas, autora de um Diploma de Estudos Aprofundados (DEA) sobre “O mito igualitário posto à prova nas representações políticas: o exemplo dos franceses de origem magrebina no Partido Socialista”, Nadia Amiri conhece bem essas novas elites: “O enfoque geral delas é o afeto, o reconhecimento ‘étnico’ e social. É isso que tem valor para o franco-magrebino, que possui sua sensibilidade, sua história e suas identidades. Elas sabem preencher as lacunas.”

Daí a importância dos “reconhecimentos republicanos”. Em 2002, Jean-Louis Borloo, adjunto do ministro para Cidades, outorgou o prêmio “Talentos de cidades” a um jovem empresário de Val-Fourré (Mantes-la-Jolie), Aziz Senni – que criou, com um outro premiado, Abdellah Aboulharjan, a Associação dos Jovens Empresários da região de Mantes. Em 2003, receberam o “Troféu da diversidade empresarial” do secretário de Estado para Pequenas e Médias Empresas (PME) que, por sua vez, não hesita em mencionar a origem “étnica” dos premiados2 . Além disso, várias vozes confirmam, a iminência de uma “nova promoção” de personalidades de origem magrebina a altas instâncias do Estado e na ordem da Legião de Honra. Ferhati não esconde a finalidade: “Fala-se de um eleitorado de pelo menos três milhões de pessoas. Sem elas, a direita não pode vencer a eleição presidencial de 2007.”

Vinte anos de frustrações

Pouco popular junto aos interessados, a noção de “integração” vem sendo substituída pelas noções de “cidadania” e de “igualdade de oportunidades”

São declarações que retomam as de Kacim Kellal, secretário nacional da UMP para a Coesão Nacional, sobre a ausência de representação política dos franceses de origem magrebina: “Há um debate no interior do partido envolvendo uma política de discriminação positiva [e], de qualquer forma, um verdadeiro voluntarismo (...). Estamos conscientes de que, mesmo de maneira eleitoreira, de aritmética pura, estamos bastante na frente de nosso principal adversário político. Em último caso, concedam-nos o crédito de insistir em nossa sobrevivência política.”

Teriam os beurs3 passado para a direita? “Nem tanto”, garante Frédéric Callens, do Fundo de Ação Social para a Integração e Luta contra as Discriminações (Fasid) na região de Midi-Pyrénées. Escaldados por vinte anos de luta, os dirigentes da década de 80 só se mostrariam “mais individualistas e mais oportunistas. Não no sentido pejorativo do termo, mas sabendo aproveitar as oportunidades que lhes são oferecidas”. É o caso dos manifestantes dos anos 1983-1984, como Nadia Zouareg: “Acreditamos nesse ideal da República, na igualdade e na participação de todos. Não lamento, pois isto me formou, mas, no que se refere a mudar a sociedade, voltei atrás. Não passei para a UMP do dia para a noite. Sou uma mulher de esquerda, uma ambientalista, e continuo sendo. Mas vou votar naqueles que nos dão o direito à palavra e a possibilidade de sermos visíveis.”

A omissão dos socialistas

O militantismo de antigamente, encorajado por “uma esperança de promoção coletiva”, foi sendo substituído por estratégias individuais

O militantismo de antigamente, encorajado por “uma esperança de promoção coletiva graças à passagem do associativo ao político4”, foi substituído por estratégias individuais, sobretudo para a burguesia beur. Os franco-magrebinos não representam uma categoria socio-profissional homogênea: não há nada de surpreendente que um determinado número, sobretudo os que venceram na vida, passe para a direita. A novidade é que outros, os “de baixo”, desgastados por suas condições de vida e decepcionados com o Partido Socialista (PS), se mostrem sensíveis ao canto das sereias da UMP.

O PS assiste, por exemplo, à deserção de um segmento do eleitorado e da elite que, no entanto, contribuíra para formar, sobretudo no interior das organizações SOS Racismo e France Plus, nascidas por sua iniciativa em 1984. Adda Bekkouche, presidente do Movimento por uma Cidadania Ativa, próximo dos socialistas “em termos de valores”, explica: “A esquerda freqüentemente foi pioneira quanto aos debates e à reflexão, mas muitas vezes foi a direita que deu o passo adiante, tanto para o voto feminino como para a independência da Argélia.”

Da primeira “Marcha dos beurs”, em 1983, às eleições legislativas em 2002, os militantes franco-magrebinos esperaram que o PS incluísse alguns deles em listas eleitorais e efetivamente os apoiasse. Inutilmente. Ou muito pouco! Atualmente, do Parlamento Europeu aos Conselhos Gerais e Regionais, passando pelas prefeituras, só Halima Jemni, eleita em 1998 para o Conselho do departamento de Île-de-France5, é filiada ao PS6 . Quanto aos que conseguiram descolar uma assessoria de um prefeito ou de um vereador, raramente escapam de funções de identidade: encarregam-se de cidadania, de prevenção e segurança, de inserção, dos bairros etc. “Durante muito tempo, também as mulheres, dirigentes ou eleitas pelos partidos políticos, eram designadas para tarefas específicas pré-destinadas a seu sexo7”, lembra Nadia Amiri. Para fazer com que a igualdade dos direitos políticos, conseguida à força em 1945, se tornasse igualdade em todos os sentidos, foi preciso voluntarismo – e a tarefa não terminou...

Expressões de não-pertença

Quantos seriam, esses franco-magrebinos tão assediados pelos políticos? É difícil dizer: calcula-se em 3 milhões o número de muçulmanos franceses

Portanto, o congresso dos socialistas de Dijon, em maio de 2003, era aguardado com muita expectativa. Sobre a questão da representatividade política, três membros das instâncias federais (Bariza Khiari, Fayçal Douhane e Ali Kismoune) não cessaram de questionar seu partido, apresentando uma contribuição temática (“Lutar contra as discriminações políticas no interior do PS”), retomada pela moção de François Hollande. Tanto que Bariza Khiari juntou-se a Kader Arif, até então sozinho no secretariado nacional. Contente por fazer parte do “top 20”, a nova secretária nacional viu nisso “uma tomada de consciência fundamental”. A verdadeira surpresa aconteceu com a nomeação do ex-presidente de SOS Racismo, Malek Boutih, que provocou, no entanto, reações críticas do tipo: “Malek Boutih é um pouco o Rachid Kaci8 da esquerda. Um beur contra os beurs”. Sua homenagem ao Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, “responsável que dá esperança aos jovens na ação política”, não melhorou nada9

Quantos seriam, esses franco-magrebinos tão assediados? É difícil dizer: a lei proíbe qualquer censo segundo a origem ou a religião. Calcula-se em 3 milhões o número de muçulmanos franceses. Mas de quem e de que se fala quando se usam as expressões “beur”, “francês de origem magrebina”, “árabe” ou “originário da imigração”? A que remetem, a não ser a uma não-pertença, a uma “exterioridade social em relação aos que se arrogam a qualidade de povo ‘autenticamente’ nacional e verdadeiramente legítimo10”? Quanto aos interessados, eles não suportam mais essas palavras que se tornaram sufixos de suas identidades.

Discriminação e estereótipos

A mídia é, em grande parte, responsável pela discriminação Quase sempre mencionam a origem de pessoas envolvidas em atos de pequena delinqüência

Bairro de Toulouse considerado “delicado”, Le Mirail tem 50 mil habitantes em 22 mil domicílios. A explosão em 2001 da fábrica AZF, nas proximidades, não melhorou a paisagem. Lajes, concreto e vidros estourados. Nesse caso, a questão das origens não existe. Membro fundador de uma pequena associação, Dgaoued, de 26 anos, se revolta: “Nossa origem é bem evidente. Vê-se que não sou um francês ‘de raiz’, então por que sempre especificar ‘francês de origem magrebina’? Quem é que menciona a origem húngara de Sarkozy?” Quinze anos mais velha do que ele, Nadia Zouareg vai mais longe: “A partir do momento em que nos catalogam como primeira, segunda e terceira gerações, é porque não somos totalmente franceses, mas apenas em parte.”

À entrada de um edifício, uma senhora idosa troca algumas palavras com Kacem, de 27 anos. Convidada por uma das numerosas associações, Françoise Hebrard de Veyrinas, administradora delegada da UMP do bairro e principal assessora do prefeito de Toulouse, passa por eles. Vestida de vermelho, ignora friamente Kacem e só cumprimenta a senhora. Ele fica impassível: está acostumado com a antipatia...

Tarek, professor do programa Novas Oportunidades, um dispositivo para reaproveitar jovens que fracassaram na escola, passou a metade de sua vida com os jovens da periferia de Paris e de Toulouse. Quanto ao não encontro entre Kacem e Françoise de Veyrinas, ele sorri. Sua função, que consiste em “reinserir” seus alunos com dificuldades, deixa pouco espaço para a complacência. No entanto, nos últimos dois anos, o clima de desconfiança em relação aos árabes muçulmanos deixou-o ressentido: “Eu lhes peço sempre que se esforcem, mas para quê? Para entrar numa sociedade que os rejeita constantemente, a menos que abandonem sua cultura de origem? Diante da menor violência, apresentam a nossas crianças o retrato falado do magrebino delinqüente”. E sua contrapartida também estereotipada, “a jovem beure dinâmica”.

A religião como identidade muçulmana

“O que choca, irrita e desconcerta, é que os convidados de um Estado não tenham a gentileza de respeitar as leis de seus anfitriãos”, diz um editorial

A mídia é, em grande parte, responsável por essa estigmatização, sobretudo a partir de 11 de setembro de 2001. Quase que sistematicamente, mencionam – quando se trata de magrebinos ou de africanos – a origem das pessoas envolvidas em atos de pequena delinqüência, de violência ou de terrorismo. Apesar das leis. Nadia Zouareg se enfurece: “Faz vinte anos que se fabrica um modelo de jovem imigrante e muçulmano.”

O islamismo, referencial cultural e/ou religioso, é vítima da mesma animosidade. A tal ponto que franco-magrebinos pouco envolvidos acabam por só reter os componentes depreciados de suas identidades. Por solidariedade, eles se “etnicizam”. Como um francês “integrado”, mas ligado ao mundo árabe-muçulmano, pode reagir a um editorial que afirma: “Com o desejo de que seus filhos usem, kippa ou qualquer outro sinal distintivo (...), o que choca, irrita e desconcerta, é que os convidados de um Estado não tenham a gentileza de respeitar as leis de seus anfitriãos11 ”?

A religião, no entanto, permite que alguns “agüentem a barra”, e até, de acordo com a imagem de Mustapha, “fazer de um limão um suco doce”. Para eles, “é o único referencial numa sociedade que não soube ou não quis lhes dar outro”. Nadia Zouareg compartilha dessa opinião: “A religião segurou mais de um dos que estavam no caminho da autodestruição (alcoolismo, toxicomania, delinqüência ou suicídio), representou uma fonte de onde tirar elementos para construir para si um destino diferente daquele com que os pais sonhavam para seus filhos. Uma árvore não cresce sem raízes. Meus filhos e meus netos talvez já não venham a ser ‘franceses de origem argelina’, mais permanecerão muçulmanos, pois é algo que quero lhes transmitir”. Além disso, como observa Mustapha, a hostilidade em relação ao islã reforça também a identidade muçulmana: “Quando um jovem vê sua mãe ou sua irmã apontada na rua porque usa um véu, para defendê-las, ele assume, por sua vez, os valores religiosos delas.”

O clientelismo dos partidos políticos

Para os imigrantes franco-magrebinos, a religião “é o único referencial numa sociedade que não soube ou não quis lhes dar outro”

Para Naziha, de 24 anos, e Shab, de 33, a primeira usando véu e a outra não, “o islã é um guia do cotidiano”. Quando Shab vê suas referências de identidade de jovem francesa de origem paquistanesa se chocarem, quando não sabe mais o que fazer, ela se encontra no islamismo: “Sua dimensão universal transcende a pertença cultural e permite que eu me desenvolva como mulher. O que não é necessariamente o caso com a cultura magrebina ou paquistanesa”. Naziha explicita: “Nas famílias magrebinas, o islã justifica hábitos que têm mais relação com os costumes do que com a religião e seus fundamentos. Reapropriar-se dela por um retorno ao texto, e só a ele, permite depurar essa mistura de tradição e de religião que nos apresentaram.”

Para quem não tem emprego, não acredita em política, nem nas associações, nem em Deus, o que sobra? Com um sorriso nos lábios, Miloud caminha até uma parede, encosta-se nela e bate com a mão no concreto: “Isto!” Como que em consonância com o julgamento de Tarek, o educador, sobre “esses jovens que chegaram ao limite do que podem dar como provas de ‘boa integração’ na sociedade. Agora, cabe a essa sociedade fazer sua parte”. Quando o conceito de universalismo republicano é enunciado por uma classe política, em sua grande maioria masculina, branca e freqüentemente rica, ele perde sua pertinência.

Oficialmente, a França rejeita a noção de “minoria”. Oficiosamente, o governo tergiversa com ela. Circunspecto, Adda Bekkouche questiona a legitimidade “dos mais visíveis, que raramente são os mais representativos e mais merecedores”, de falarem em nome das “minorias”. De onde será que eles tiram a legitimidade para fazê-lo? Como confidencia um afiliado da UMP, “ninguém consegue unir esses franceses. Só se pode reuni-los em torno de um projeto político e valores. Por ser ilusório, o procedimento de uns visa, sobretudo, a atrair para si simpatias, para garantir-lhes o futuro político. Já que passaram do PS para a UMP, certamente não vão voltar atrás”. No auge do cinismo, os partidos se perdem num clientelismo que favorece o arrivismo, mais na base de critérios de origem, do que combate aos mecanismos de discriminação.

De olho nas próximas eleições

No auge do cinismo, os partidos adotam um clientelismo que incentiva o arrivismo, mais na base de critérios de origem, do que de combate à discriminação

Ora, prossegue Adda Bekkouche, “a representação não deve se tornar uma finalidade; é a subrepresentação que é uma anomalia democrática”. E mais: “Consertar as ‘distorções de representação’ é uma necessidade. As declarações de boas intenções não são suficientes e as razões técnicas e culturais que impedem as ‘minorias’ de participarem corretamente da vida política parecem bastante poderosas para terem de ser limitadas por mecanismos corretores importantes, temporários e avaliados regularmente12 ”. Será que a França já não pratica a “discriminação justificada”? No Senado, “os ruralistas são oficialmente super-representados, e isto em nome do equilíbrio político (não demográfico, portanto) entre regiões pouco povoadas e as aglomerações densamente povoadas13 ”. Da mesma maneira, “os políticos da cidade ou em ‘luta contra a exclusão’ apresentam-se pela parte interessada com ‘ações positivas’, no sentido de que elas implementam medidas de ‘recuperação’ das desigualdades14 ”.

Há outros exemplos: zonas prioritárias de educação, abertura da Faculdade de Ciências Políticas para alunos de bairros populares, contratação com “preferência local”, em determinadas empresas. Nesse sentido, debater publicamente medidas corretivas necessárias para que a igualdade de oportunidades ganhe corpo, inclusive em política, parece mais promissor do que fazê-lo clandestinamente. A elaboração das listas para as próximas eleições – cantonais, regionais, européia e para o Senado – será um teste. Todos parecem acreditar, como Kacim Kellal, que “não se poderá mais dar marcha à ré: nenhuma força política terá peso sem que represente o conjunto dos componentes da sociedade”. Ainda que, até agora, tenham-se contentado em cumprir a lei. (Trad. Regina Salgado Campos)

1 = Sessão de 26 de novembro de 2002 da Assembléia Nacional.
2 - Ver o site: www.pme-commerce-artisanat.g...
3 - N.T.: Beur é a expressão com que os franceses designam pessoas originárias do Magrebe.
4 - Ler, de Catherine Withol de Wenden, “Le Creuset de la “beurgeoisie”, in Sciences humaines, Paris, n° 39 (esgotado), dezembro de 2002/janeiro-fevereiro de 2003.
5 - N.T.: Île de France é a região administrativa que abrange Paris e é composta por sete departamentos.
6 - O Partido Verde e o Partido Comunista Francês (PCF) atuam ligeiramente melhor. No âmbito europeu, o primeiro conta com Alima Boumedienne-Thierry e o segundo, com Yasmine Boudjenah, eleitas deputadas em 1999, sendo Sami Naïr vice-presidente do Movimento dos Cidadãos (MDC). Em 2001, Abdel-Madjid Sadi e Azzedine Taïbi foram eleitos conselheiros-gerais do PCF da municipalidade de Seine-Saint-Denis. Finalmente, Louardi Boughedada, presidente do grupo dos Verdes, tem assento no Conselho Regional do departamento do Nord-Pas de Calais desde 1998.
7 - “La représentation nationale: un enjeu démocratique”, in Migrations Société, Paris, vol.15, n° 86, março-abril de 2003.
8 - Rachid Kaci é conhecido por sua participação nas campanhas islamófobas.
9 - Le Monde, 30 de agosto de 2003.
10 - Ler, de Véronique de Rudder, Christian Poiret e François Vourc’h, “Les enjeux politiques de lutte contre le racisme: Discrimination justifiée, affirmative action, discrimination positive, parle-t-on de la même chose”, CIEMI, Paris, junho de 2000.
11 - “Décidément, non au voile” (Definitivamente, não ao véu), editorial de Jean Daniel, Le Nouvel Observateur, Paris, n° 2010, 15 de maio de 2003.
12 - Ler, de Laurent Pascal Chambon, “Le sel de la démocratie, l’accès des minorités au pouvoir politique en France et aux Pays-Bas”, tese de doutorado em Ciências Políticas, Universidade de Amsterdã, novembro de 2002.
13 - Ibidem.
24 - Ler, de Véronique De Rudder e Christian Poiret, “Affirmative action et ‘discrimination justifiée’: vers un universalisme en acte”, in Immigration et intégration, l’état des savoirs, ed. La Découverte, Paris, 1999.




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