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O mundo árabe acuado

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Ao atacar o Iraque sem o aval da ONU e sem o acordo da maioria dos países árabes da região, os EUA colocaram os últimos diante de uma situação de fato. Agora, irão encontrar obstáculos muito grandes e nem se pode excluir a hipótese de um desastre

Hicham Ben Abdallah El Alaoui - (01/10/2003)

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Temos que reconhecer a inegável disparidade das forças no conflito do Iraque. A maioria do mundo opunha-se a essa guerra, mas não pôde detê-la

“Cuidado com o que pedir”, diz o provérbio, “você poderá consegui-lo”. Os Estados Unidos parecem ter conseguido o que queriam no Iraque: uma vitória militar rápida, que eliminou Saddam Hussein e as ameaças que este fazia pesar, quaisquer que fossem elas, e um território sob seu controle no projeto de remodelação democrática do Oriente Médio.

Seja o que for que se pense a respeito, indiscutivelmente Washington tem uma estratégia: aquela, audaciosa, de uma grande potência mobilizada para atingir seus fins. Se ela não nos agrada, cabe mobilizarmos nossas próprias forças a serviço de nossa própria pauta. Porém, temos também que reconhecer a inegável disparidade das forças. A maioria do mundo opunha-se a essa guerra, mas não pôde detê-la.

Mais patético ainda, o mundo árabe e muçulmano não pôde resistir a esse projeto e nem tem mais a força para encontrar em si a unidade e a vontade necessárias para defender seus interesses. Os slogans triunfantes da unidade pan-árabe cederam lugar ao reconhecimento desencantado de uma fragilidade política, social e militar debilitante. Enquanto não superarmos essa vulnerabilidade, a pauta será definida por outros. Ao decidirem conquistar o Iraque, os Estados Unidos definiram a pauta que, assim como nós, agora devem enfrentar. Esperemos que os árabes se aproveitem disso para trabalhá-la em sentido favorável para seus povos.

Os novos parâmetros de equilíbrio

Do ponto de vista de um nacionalismo árabe liberal, pragmático e democrático, inúmeras mudanças impõem-se ao Oriente Médio. A recusa obstinada de uma reforma democrática, a persistência de regimes políticos baseados em um homem forte ou em um partido único, a incapacidade para resolver problemas econômicos e sociais flagrantes, a influência crescente de correntes radicais e jihadistas, a multiplicação de situações políticas polarizadas entre radicalismo e tirania laica – todos esses elementos contribuem para desenhar uma paisagem muito conturbada. E não surgiu nenhum movimento - fosse ele suscitado por regimes, por elites ou pela rua - em condições de impulsionar uma evolução.

Num mundo tomado de pavor pela instabilidade dos Estados e pela agressividade dos atores que lhe escapam, há bons motivos para se querer que as sociedades árabes evoluam. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 fizeram tal preocupação passar para o primeiro plano no Ocidente. O Oriente Médio parece haver suplantado a Europa como centro da política mundial – o ponto onde a estrada se bifurca e onde opções determinantes para o futuro do mundo logo terão que ser feitas.

Ao invés do campo de batalha do “choque das civilizações”, pensemos numa forja em que serão modelados novos parâmetros mundiais de equilíbrio e de cooperação. Entre eles, aparecem as noções de democracia, de legitimidade popular e de direito internacional, de autodefesa, de soberania nacional, mas também a idéia de “preempção”, com o direito de possuir, de utilizar ou de ameaçar utilizar meios violentos, em escala limitada ou maciça, para se atingirem os objetivos.

Uma redefinição da geopolítica

Os slogans triunfantes da unidade pan-árabe cederam lugar ao reconhecimento desencantado de uma fragilidade política, social e militar debilitante

Muitos conceitos a respeito dos quais persiste uma divergência que nada tem de surpreendente. A tentativa norte-americana de impor um rumo a essa evolução histórica, por mais ousada que seja, não deixa de ser um poço de contradições. É um projeto cujos efeitos reais correm o risco de retardar radicalmente os objetivos visados.

Os motivos invocados com o máximo de insistência por Washington para justificar sua intervenção no Iraque - as armas de destruição em massa, as ligações de Saddam Hussein com a Al-Qaida e a ameaça representada pelo regime ba’athista - são, de fato, os menos convincentes. Sua credibilidade, já muito limitada no seio da comunidade internacional, se esboroou de tal forma, inclusive nos Estados Unidos, que quase não merecem que se fale deles. Aliás, os mais ardorosos defensores da guerra dentro do governo norte-americano admitiram que essas justificativas decorriam mais da “comodidade” do que da realidade.

A atuação norte-americana tem outra explicação. Fatos incontestes indicam que a conquista do Iraque marca a primeira grande etapa de uma redefinição da geopolítica mundial e do papel que os Estados Unidos pretendem nela desempenhar. Esta visão foi elaborada antes do 11 de setembro, mas os crimes cometidos naquele dia lhe permitiram obter o apoio do povo norte-americano e transformar-se em guerra mundial contra o terrorismo.

Uma “força militar sem igual”

A “Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos” (National Security Strategy of the United States, NSS) foi publicada em setembro de 2002. A seu respeito, o jornalista William Pfaff falou de “denúncia norte-americana implícita da natureza de Estado moderno que governa as relações internacionais desde 1648 e o Tratado de Westfália (…) com o objetivo de substituir o princípio existente de legitimidade internacional1 ”. Esse documento, continuava Pfaff, “afirma que, se o governo norte-americano decidir unilateralmente que um Estado representa uma ameaça futura para os Estados Unidos, (…) estes intervirão preventivamente para eliminar a ameaça e, se necessário, procedendo a uma ‘mudança de regime’2 ”. Preconiza uma dominação norte-americana em todas as regiões do mundo e insiste no fato de que os Estados Unidos “agirão preventivamente” a fim de “se antecipar a (...) atos hostis por parte de [seus] adversários e de dissuadir adversários potenciais de aumentarem sua força militar na esperança de ultrapassar ou igualar” seu poder.

Segundo tal doutrina, os Estados Unidos devem realmente garantir uma “força militar sem igual” para que possam impor sua vontade em toda parte. Precisam, pois, prever o surgimento de Estados que, através de suas armas nucleares, sejam capazes de bloquear seus imperativos - sendo que, sob esse aspecto, o Iraque representa um país-chave numa região-chave. Mas se trata também de impedir que, um dia, potências nucleares concorrentes – como a Rússia ou a China – questionem sua hegemonia global.

Uma visão quase missionária

Num mundo tomado de pavor pela instabilidade e pela agressividade de atores que não controlam, há motivos para se querer que as sociedades árabes evoluam

A guerra no Iraque marca o apogeu de uma década de intenso trabalho intelectual e político de um pequeno grupo de neoconservadores3 , os quais formaram, com integristas cristãos e com militaristas, uma nova coalizão imperial que se cristalizou sob a presidência de George W. Bush.

No Oriente Médio, essa estratégia implica em mudar radicalmente o “curso da história”, incentivando a aprovação dos valores políticos e econômicos norte-americanos, na esperança de que valores complementares - morais, culturais e até religiosos - os acompanhem. Segundo esse cenário, a conquista do Iraque supostamente deteria a propagação do radicalismo islâmico, enfraqueceria o apoio à resistência palestina e levaria palestinos e árabes a aceitarem um plano de “paz”. Visa também a colocar os Estados Unidos no coração da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) para fortalecer, ao mesmo tempo, a disciplina dos preços do petróleo bruto e a posição mundial central do dólar.

Eis uma visão audaciosa, quase missionária. Eruditos como Bernard Lewis e Fouad Ajami contribuíram para convencer Washington de que a decadência de um mundo árabe incapaz de fazer sua reforma iria gerar formas cada vez mais virulentas de terrorismo antiamericano. A promessa do pós-11 de setembro é que a eliminação de regimes como o de Saddam Hussein e a transformação da cultura política do Oriente Médio impedirão os grupos extremistas do tipo Al-Qaida de terem acesso às armas de destruição em massa. Esta estratégia apresenta-se, pois, como uma necessidade defensiva.

A força, única linguagem que “eles” compreendem

Na realidade, a verdadeira ameaça provém das armas nucleares, que exigem recursos industriais e científicos menos difundidos e mais fáceis de controlar. O governo norte-americano usa a expressão “armas de destruição em massa” para confundir as armas nucleares com as armas biológicas e químicas, embora elas se mostrem, através da experiência, difíceis de usar e pouco eficazes. Mas são muito mais fáceis de fabricar e de dissimular. Pode-se, assim, designar qualquer país árabe ou muçulmano dotado de uma indústria química ou biofarmacêutica rudimentar como potencialmente perigoso: ele poderia, um dia, fornecer suas armas a um grupo terrorista capaz de se servir delas contra os Estados Unidos ou seus aliados. Isto equivale a dizer aos países do Oriente Médio que o fato de atingir um certo grau de desenvolvimento será considerado uma ameaça em si, caso esses países não formalizem uma adesão sólida ao campo norte-americano.

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Ao invés do campo de batalha do “choque das civilizações”, pensemos numa forja em que serão modelados novos parâmetros de equilíbrio e de cooperação

Além disso, embora exigindo o não-desenvolvimento das armas nucleares, essa estratégia abandona os meios de controle da proliferação nuclear internacionalmente aceitos, por meio de tratados, em proveito de uma doutrina mais agressiva, unilateralista e “preemptiva” (ler, nesta edição, o artigo de Pascal Boniface): de fato, a “contraproliferação” consagra a posse de armas nucleares pelos Estados Unidos e por seus aliados próximos, bem como a ameaça de as utilizarem.

Mais desconcertante ainda: a força militar constitui o meio principal considerado pela nova estratégia para atingir seus objetivos. Se os países não se alinharem, os Estados Unidos se encarregarão de alinhá-los, via “mudanças de regime” unilateralmente impostas, sem levar em conta o direito internacional. Seu compromisso “humanitário” e “progressista” é apenas um invólucro formal da conquista. E os problemas políticos e sociais locais? São epifenômenos que se resolverão rapidamente, após uma esmagadora demonstração de força – a única linguagem que “eles” compreendem. O discurso neoconservador sobre a “liberalização” e a “democratização” pretende prevalecer sobre culturas inteiras.

Um confronto iminente no Irã

Um projeto assim tão agressivo representa uma enorme aposta na eficácia da tecnologia militar. Por outro lado, a comunidade internacional o rejeitou em grande parte. A opinião pública norte-americana, muito desconfiada quando se trata de vítimas, só o aceitou depois de persuadida da existência de uma verdadeira ameaça e de uma real possibilidade de êxito. Os partidários desse unilateralismo agressivo sabiam que não venderiam seu plano “na ausência de um fato catastrófico e catalisador – como um novo Pearl Harbor4 ”: só o trauma do 11 de setembro conquistou a adesão.

Reduzidos ao silêncio, os círculos tradicionais do establishment de política externa norte-americana sentem, também eles, uma certa angústia diante do fanatismo. Todos compreendem o perigo contido no projeto de desestabilização de todo o mundo árabe. Até um ex-secretário de Estado do presidente George Bush pai, Lawrence Eagleburger, declarou: “Se George [W.] Bush decidisse lançar suas tropas contra a Síria e o Irã (…), eu próprio seria da opinião de que era necessário destituí-lo5 ...” O Irã, a Síria, e mesmo a Arábia Saudita, cada vez mais criticada, estão na linha de mira.

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A tentativa norte-americana de dar rumo a uma evolução histórica é um projeto cujos efeitos correm o risco de retardar radicalmente os objetivos visados

A evolução desses três países agravará as tensões, nos Estados Unidos, entre tradicionalistas e neoconservadores. No Irã, os primeiros desejariam cultivar relações com os iranianos moderados a fim de estimular a reforma, a longo prazo, do sistema político, negociar uma solução sobre a questão nuclear, manter um suprimento estável de petróleo e, além disso, cooperar mais com os xiitas do Iraque. Convencidos da dificuldade de uma operação militar contra Teerã, preferem apoiar as mudanças em curso. Contrariamente, os neoconservadores não têm o mínimo de paciência necessário para buscar um acerto com esses religiosos “não tão radicais”, na esperança “ingênua” de que eles renunciarão, “como prometido”, às armas nucleares. O que deixa pressagiar um confronto iminente.

Os perigos do islamismo saudita

No que diz respeito à Síria, Washington quer que ela pare de apoiar os militantes palestinos e o Hezbollah libanês. Em troca dessas concessões, os tradicionalistas estarão dispostos, provavelmente, a lhe dar garantias sobre o Líbano, o Golan e a estabilidade do regime ba’athista. Os falcões parecem decididos ao confronto, acusando Damasco de abrigar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, se não este último. As forças norte-americanas no Iraque chegaram a entrar em território da Síria, considerada, no entanto, como “um dos aliados mais eficazes da CIA em matéria de informações na luta contra Al-Qaida6 ”.

A Arábia Saudita ilustra a oposição radical entre tradicionalistas e neoconservadores. Os primeiros, preocupados acima de tudo com o petróleo, sempre mantiveram relações protetoras com a monarquia saudita que, depois do pacto firmado com o presidente Franklin D. Roosevelt em 1945, garantiu o acesso norte-americano a recursos petrolíferos seguros e baratos. Os segundos pretendem demonstrar “dureza” em relação a Riad que, além de seu apoio à causa palestina e ao radicalismo islâmico, se vê acusada de ter financiado os atentados de 11 de setembro ou de ter sabido que iriam ocorrer. Que Osama bin Laden e a maioria dos piratas do ar sejam sauditas demonstra de modo incontestável perigos do wahabbismo radical. Negligentes em relação a ele durante a Guerra Fria, os neoconservadores exigem agora que o regime saudita se separe dessa corrente do islã sobre a qual se baseia sua legitimidade...

A dificuldade de restabelecer confiança

A conquista do Iraque marca a primeira grande etapa de uma redefinição da geopolítica mundial e do papel que os Estados Unidos pretendem nela desempenhar

Os ataques em todas as direções e seus efeitos previsíveis preocupam os partidários de uma política externa moderada. Estes, nos Estados Unidos bem como no mundo, temem que os fundamentalistas radicais se beneficiem de uma crise que se estenda por toda a região. Mas os puros e duros não recuam diante da idéia de um cataclisma: resultados negativos a curto prazo só irão evidenciar a natureza não democrática de regimes e de sociedades que engendram o terrorismo e – “numa série de movimentos e de contra-ataques que se escalonarão7 ” – irão incitar os Estados Unidos a ampliarem o confronto até que uma cultura democrática se imponha em todo o Oriente Médio.

O Iraque vai “mudar o curso da história”? E, se a resposta for sim, em que sentido? A ocupação e a reconstrução do Iraque constituem, agora, um ponto de partida. A história mostra o quanto é difícil restabelecer a confiança, construir novas instituições e solicitar a participação de diferentes grupos numa sociedade multiétnica sob o controle de uma potência estrangeira. Nos Bálcãs, a existência de um mandato internacional claro e a presença de uma administração civil, cuja autoridade derivava da comunidade internacional através da ONU, permitiram a adesão de todos os componentes da população para a reconstrução política e evitaram que as autoridades civis e militares fossem alvo de atos de resistência.

O custo da invasão do Iraque

A atual missão dos Estados Unidos está apoiada numa base mais frágil. A ocupação do Iraque resulta de uma invasão que a maioria do mundo condenou, que nenhum grupo local pediu e que aniquilou as infra-estruturas civis do país: ela deve, pois, partir de zero para demonstrar seus méritos aos iraquianos e ao mundo. O que não é nem um pouco evidente, porque nada do que se referia ao pós-guerra havia sido preparado. Ora, mesmo o restabelecimento da segurança - que implica estruturas que vão da polícia local ao sistema judiciário nacional - ultrapassa a competência do exército. Tudo acontece como se Washington tivesse acreditado poder recuperar o aparelho de Estado ba’athista intacto.

O estado de devastação do país e a ambição dos objetivos norte-americanos exigem um enorme engajamento financeiro e humano. Se Washington persistir na via do unilateralismo, tal esforço contará unicamente com seus recursos. Mas a metade de suas tropas de combate encontra-se no Iraque e o custo da ocupação é estimado em 60 bilhões de dólares por ano. A renda do petróleo não cobrirá esse custo antes de alguns anos. A suficiência que os Estados Unidos demonstram quanto às dimensões diplomáticas e políticas de sua ação corre o risco de obrigá-los a sacarem de suas próprias reservas de uma forma exorbitante. Ninguém irá querer subvencionar esse esforço, se os Estados Unidos detiverem sozinhos a autoridade política. Nada avançará sem uma legitimidade ampliada.

As expectativas iraquianas

Segundo a doutrina do Pentágono, os Estados Unidos devem garantir uma “força militar sem igual” para que possam impor sua vontade em toda parte

Os aliados - sobretudo os da “velha Europa”, fartamente insultados - mantêm-se até hoje surdos aos pedidos de novas tropas. Buscando freneticamente um coadjuvante do Terceiro Mundo, se possível muçulmano, com quem partilhar o fardo, os Estados Unidos voltam-se mais uma vez para a Turquia. Secretário de Estado adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz ilustrou sua concepção da democracia criticando os militares turcos por não terem enviado tropas desde o início, apesar da oposição do Parlamento.

A continuação dos ataques contra as forças de ocupação torna a participação de outros países mais imperativa e, ao mesmo tempo, mais difícil. Mas é principalmente a reação dos principais atores sociais iraquianos que decidirá qual o destino da intervenção. O desmoronamento das infra-estruturas sociais suscita uma raiva que é alimentada pelos esforços norte-americanos para conservar o poder. Manifestações e apelos pelo fim da ocupação se sucedem. Nos pontos de controle e durante as batidas policiais, a morte de famílias inteiras torna-se coisa corriqueira. Esporádica no início, a resistência armada se intensifica. Os soldados norte-americanos tomam consciência de que, atualmente, são vistos mais como “invasores” do que como “libertadores”.

Depois de anularem as eleições locais, as autoridades norte-americanas reuniram às pressas um Conselho de Governo. Alguns iraquianos, dos quais a maioria é de xiitas, optam pela expectativa; outros assassinam colaboradores. Que amplitude tomará a resistência armada? Ninguém sabe, mas seria uma estupidez pensar que se limita às pessoas leais a Saddam Hussein. Sabe-se, em contrapartida, que fatores serão determinantes: a reconstrução ou não das infra-estruturas, a satisfação ou não das necessidades sociais fundamentais, o fato de que o poder esteja ou não nas mãos dos iraquianos, o fato de que os diferentes grupos étnicos, tribais, regionais e religiosos sejam ou não tratados com eqüidade.

Uma tolerância limitada aos norte-americanos

Com um governo próprio desde 1991, os curdos se apresentam para Washington como aliados - e até atenuaram as reivindicações que poderiam afastá-los dos Estados Unidos. Os sunitas, que perderam sua posição dominante, ruminam seu ressentimento. Os muçulmanos e os cristãos leigos desconfiam do potencial de islamização. Os xiitas (60% da população), reprimidos sob o regime ba’athista, têm o máximo a ganhar de uma nova ordem política e poderiam ter uma disposição favorável diante da intervenção. O projeto norte-americano não pode ter sucesso sem sua cooperação.

Do mesmo modo, a resistência tem poucas chances de êxito sem os xiitas. Se incluir os xiitas, os norte-americanos não poderão reprimi-la sem aniquilar o país e, ao mesmo tempo, toda legitimidade moral e política. Mas uma dominação xiita ameaçaria a unidade do país, empurrando os curdos para a autonomia e afastando os sunitas, os cristãos, bem como os iraquianos leigos. O êxito ou o fracasso do empreendimento norte-americano vai se decidir, portanto, em cima do equilíbrio preciso que os xiitas estabelecerem entre apoio, moderação e hostilidade.

Espera-se que o Conselho de Governo iraquiano, nomeado pelos Estados Unidos e de maioria xiita, funcione como vetor para uma reconstrução nacional unitária. Mas a comunidade xiita está impaciente. Os aiatolás de Najaf, a cidade mais santa do islã xiita, manifestaram apenas uma tolerância limitada em relação à presença norte-americana.

Milícias financiadas por “pacotes de dinares”

Embora exigindo o não-desenvolvimento de armas nucleares, a estratégia norte-americana abandona os meios de controle da proliferação nuclear

Membro mais venerado do conselho dos religiosos islâmicos de Najaf, a Hawza al-Ilmiya, o aiatolá Ali Sistani sempre foi adepto de um regime xiita: ele emitiu uma fatwa pedindo que os iraquianos - e não as autoridades norte-americanas - escolhessem os membros de uma comissão encarregada de elaborar uma Constituição a ser votada. Dirigida pelo aiatolá Baker Al-Hakim até seu assassinato no dia 29 de agosto de 2003, a Assembléia Suprema da Revolução Islâmica do Iraque (ASRII) possui seu próprio braço militar (a brigada Al Badr), tinha sua base no Irã, na época de Saddam Hussein e faz parte do Conselho de Governo. O carisma do imã Muqtada Al-Sadr, filho de um dignitário religioso reverenciado e que foi assassinado pelos ba’athistas, tem muita repercussão entre os jovens e os pobres. Ele reúne importantes manifestações, saudadas por mensagens de apoio do Irã, para denunciar a covardia do Conselho de Governo, os Estados Unidos, Saddam Hussein e o colonialismo, e conclama a um regime religioso do tipo iraniano. Contudo, evita pregar a resistência armada à qual se opõe a Hawza.

Como se decidirá o debate entre partidários de uma democracia laica e adeptos de uma teocracia religiosa no seio da comunidade xiita, assim como entre os xiitas, outros grupos iraquianos e as autoridades norte-americanas? Tentando ganhar o apoio dos xiitas, os Estados Unidos correm o risco de atiçar o fundamentalismo radical.

Na região pobre de Bagdá – chamado Saddam City mas que virou Sadr City –, milícias ligadas a Muqtada Al-Sadr, financiadas por “pacotes de dinares” provenientes das forças norte-americanas, participam, à sua maneira, do restabelecimento da ordem. Exigem que os cinemas sejam incendiados, que os vendedores de bebidas alcoólicas e os homens que se recusam a deixar a barba crescer sejam espancados, que o uso do véu seja obrigatório para todas as mulheres, inclusive para as cristãs, as “pecadoras” e que as mulheres sem véu sejam punidas com a morte8.

Uma democratização inteligente e criativa

Tais imagens reavivam o temor de uma reedição do Irã ou do Afeganistão. Se um regime de aiatolás viesse a se impor em Bagdá, a unidade do Estado iraquiano estaria comprometida, o radicalismo transnacional xiita teria carta branca e Washington sofreria um desastre político. Mais que qualquer outra, a questão xiita revela a contradição entre o objetivo alardeado pelos Estados Unidos – permitir que o Iraque tenha acesso à democracia – e a absoluta necessidade, para eles, de controlarem a operação até o fim. Mas o que pode Washington recusar aos xiitas, se sua simples abstenção já é o bastante para semear o tumulto?

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Se os países não se alinharem, os EUA se encarregarão de alinhá-los, via a imposição de “mudanças de regime”, sem levar em conta o direito internacional

A Casa Branca não pode deixar o Iraque à deriva, a exemplo do Afeganistão. Este precedente, como o dos Bálcãs, prova que é muito mais fácil vencer um exército do que construir uma nação, sem falar de transformar a cultura de uma região. O projeto imperial neoconservador baseia-se numa crítica da cultura política árabe contemporânea e no temor de suas correntes extremistas9 . O remédio considerado vai muito além da simples conquista. A complexidade, o pluralismo e a independência cultural obstinada de um povo não poderiam ser abolidos por um esquema importado de muito longe.

A democratização de que o Oriente Médio necessita desesperadamente exige inteligência política e imaginação moral. Implica em apoiar as forças que trabalharam corajosamente nesse sentido: os dissidentes e os jornalistas que arriscam sua vida e sua liberdade todos os dias, os reformistas islâmicos - que defendem a compatibilidade do islã com a democracia contra os extremistas - os grupos de mulheres, os sindicatos e os representantes da sociedade civil que lutam pelo direito de se organizarem e de promoverem suas idéias. Ela pressupõe que se compreenda que os movimentos políticos islâmicos não são necessariamente compostos por jihadistas violentos e que não há motivo para que não sejam integrados à política nacional, como os cristãos democratas na Europa.

O obstáculo do apoio a Israel

Qualquer potência externa desejosa de intervir na região em nome da democracia deve dialogar com essas forças, respeitá-las e, junto com elas, encontrar soluções políticas, sociais e econômicas. Porque só essas tropas ganharão a batalha da democracia e serão a muralha mais eficaz contra o extremismo jihadista. Cabe a elas - e não a uma pequena elite em Washington - conduzir a luta pela reforma no Oriente Médio.

Ao invés de apoiar esses movimentos reformistas autóctones, Washington continua a aliar-se aos governos autoritários que os sufocam. Em nome da “guerra contra o terrorismo”, os Estados Unidos reforçam os aparelhos de Estado mais repressivos e fecham os olhos para a prisão arbitrária de “islamistas”.

Se quiserem que os reformistas árabes os levem a sério quando afirmam comprometer-se em favor da democracia, os Estados Unidos deverão parar de estimular as prisões em massa e a tortura. Se quiserem que os nacionalistas árabes moderados os levem a sério quando afirmam preocupar-se com o futuro da cultura árabe, ou com a ameaça representada pelas armas de destruição em massa, eles deverão parar de apoiar incondicionalmente a política agressiva de Israel e tentar promover um plano de paz que leve em consideração a raiva dos palestinos diante da ocupação e da colonização, tanto quanto as preocupações israelenses em matéria de segurança.

As prováveis alternativas estratégicas

Paul Wolfowitz ilustrou sua concepção da democracia criticando os militares turcos por não terem enviado tropas ao Iraque, apesar da oposição parlamentar

Dada a genealogia do projeto neoconservador, semelhante mudança parece pouco provável. No entanto, se a estratégia regional dos Estados Unidos servir para impor novas injustiças aos palestinos, muitos árabes verão nela, e com razão, apenas um instrumento destinado a satisfazer a intransigência israelense. Se quiserem que os árabes realmente acreditem neles quando afirmam apoiar a autodeterminação, os Estados Unidos não podem pedir à democracia iraquiana que vista o hábito de uma nova tirania. Se não puderem demonstrar esse mínimo de respeito pela região que afirmam querer reformar, as contradições internas de sua política se tornarão evidentes – além do pequeno círculo de think tanks e da mídia complacente de Washington – para os povos do Oriente Médio.

O objetivo estratégico de Washington só poderá ser atingido se o Iraque se transformar, muito rapidamente, num Estado soberano, estável, unificado, democrático e não teocrático. Esta é a condição para garantir a segurança do Oriente Médio e do resto mundo, mas também para que os neoconservadores alcancem sua meta de guerra: dotar-se de uma base que, ao mesmo tempo, atenda os interesses geopolíticos norte-americanos e a democratização do mundo árabe. Para chegar a isso, os Estados Unidos deverão aceitar perder homens e comprometer enormes despesas, mesmo que seu povo esteja vivendo um momento de reduções do orçamento. Também prováveis, as outras eventualidades – desagregação do Estado iraquiano, generalização da pobreza, agitações e resistência, prolongamento da ocupação estrangeira, crescimento do radicalismo ou advento de um regime autoritário – representarão para eles uma importante derrota política.

As tênues chances de êxito

Para o mundo árabe, seria perigoso cruzar os braços esperando o fracasso dos Estados Unidos pois, ao mesmo tempo em que prolongam sua ocupação do Iraque, poderiam provocar em outros lugares “mudanças de regime”. Alvos potenciais dessas mudanças, os Estados árabes e todos os países em desenvolvimento devem tomar a iniciativa política e moral. Concebidas para a guerra fria, estruturas internacionais como a ONU, a Liga Árabe e o Movimento dos Não-alinhados não funcionam mais. O precedente norte-americano em matéria de guerra preventiva ameaça tornar-se uma norma universal dos conflitos.

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Que amplitude tomará a resistência armada no Iraque? Ninguém sabe, mas seria uma estupidez pensar que se limita às pessoas leais a Saddam Hussein

Para evitar isso, precisamos de novas estruturas de solidariedade que vão além dos parâmetros tradicionais das relações interestatais. Nações independentes devem se comprometer a respeitar as normas do direito internacional em seus conflitos, a condenar qualquer ação militar preventiva conduzida em violação do direito internacional e a negar-lhe qualquer apoio (bases, uso do espaço aéreo etc.), bem como a promover reformas democráticas ainda que, para isso, seja necessário passar por uma “mudança de regime”. Mais do que um simples tratado, tal iniciativa deve ser um fórum em que se prepare uma reforma democrática e, no mundo muçulmano, uma reforma islâmica.

Ao “ganhar” a guerra do Iraque, Washington pôs à prova a todos nós. Se Bagdá não se tornar, como prometido, um pólo de atração estável que catalise a democratização do Oriente Médio, os Estados Unidos ficarão enfraquecidos e mais expostos ao perigo; as perspectivas de uma reforma no mundo árabe se tornarão mais problemáticas. Do mesmo modo, se o Iraque e outros Estados árabes não encontrarem seu próprio caminho rumo à democracia e à legitimidade popular, as conseqüências serão desastrosas. As chances de êxito, tal como este foi definido pelos Estados Unidos para eles e para o resto do mundo, parecem tênues. Qualquer que tenha sido a intenção dos Estados Unidos em conquistar o Iraque, aí está o resultado: para eles e para nós.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

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1 - The International Herald Tribune, 3 de outubro de 2002. Ler também, de Henry Kissinger, “Irak Poses Most Consequential Foreign-Policy Decision for Bush”, in Chicago Tribune, 11 de agosto de 2002.
2 - Idem.
3 - Ler, de Philip S. Golub, “Métamorphoses d’une politique impériale”, Le Monde diplomatique, março de 2003.
4 - Relatório do PNAC, 2000.
5 - “Lawrence Engleburger: Bush Should Be Impeached If He Invades Syria or Iran”, antiwar.com, 14 de abril de 2003.
6 - Ler, de Seymour M. Hersh, “The Syrian Bet: Did the Bush Administration burn a useful source on Al Qaeda?”, in The New Yorker, 28 de julho de 2003.
7 - Jeffrey Bell, citado por Joshua Micah Marshall em “Practice to Deceive”, in The Washington Monthly Online, abril de 2003.
8 - Ler, de Susan Sachs, “After the War: Bagdad; Shiite Leaders Compete to Govern an Iraqi Slum”, in The New York Times, 25 de maio de 2003.
9 - Ler, de Edward W. Said, “O humanismo ou a barbárie”, Le Monde diplomatique, setembro de 2003.

* Este artigo inspirou-se em conferência realizada no dia 29 de setembro de 2003, na Business School (Faculdade de Administração) da Universidade de Harvard (Estados Unidos).




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