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INTERNET

O mundo segundo o Google

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Com sua “busca inteligente”, o Google tornou-se a ferramenta mais utilizada no mundo. Mas a escolha dos ’sites’ “pertinentes” foge da matemática e avança para a ideologia

Pierre Lazuly - (01/10/2003)

n t

O Google tornou-se o site de busca mais utilizado no mundo, pois sua abordagem permite acessar a informação desejada na primeira página de resultados

A Internet, com seus três bilhões de páginas, é muitas vezes apresentada como a mais completa das enciclopédias: uma documentação incomparável colocada gratuitamente à nossa disposição e com instrumentos que sabem responder em segundos a qualquer de nossas perguntas. As ferramentas de busca são tão sofisticadas, que bastam algumas simples palavras para encontrar uma informação quando nos falha a memória.

Paradoxalmente, essas ferramentas indispensáveis são em número cada vez menor: apenas quatro empresas norte-americanas ainda estão em condições de oferecer um serviço de qualidade a um público mundial. Em vez de pretender dirigir o internauta para um volume de dados constantemente crescente, é preciso mobilizar alguns milhares de computadores que percorram a Internet e localizem a informação disponível. Principalmente, porém, é preciso saber localizar as páginas mais pertinentes. É essa capacidade – a “inteligência” da ferramenta de busca – que torna o instrumento bem ou mal-sucedido. E foi isto que o Google provou, tornando-se, em menos de três anos, o site de busca mais utilizado no mundo: em geral, sua abordagem inovadora permite acessar a informação desejada já na primeira página de resultados.

A informação propagou-se rapidamente: os iniciados incentivavam seus amigos a utilizarem aquela ferramenta “genial” e o site do Google passaria de 10 mil pesquisas por dia, no início de 1999, para mais de 200 milhões no primeiro semestre de 2003: atualmente, responde por 53% das pesquisas feitas no mundo inteiro e um número considerável de seus 70 milhões de usuários já confunde a própria Internet com este instrumento incomparável. “Progressivamente, o Google tornou-se um instrumento essencial, que supera de modo amplo a idéia que em geral se faz de um site de busca”, sintetiza o jornalista Francis Pisani. “Deixei de acessar um simples site de busca que me orientasse para outros sites que tivessem a informação que eu queria. Os resultados exibidos em resposta a uma pergunta já são suficientes e os sites de que ele dá referência passam a ser meros instrumentos de verificação1.”

Informação limitada

Os sites de busca têm uma limitação importante: só podem propor a informação oferecida ao grande público

Entretanto, a supremacia do Google não deixa de levantar algumas interrogações: como pode um algoritmo – por mais “genial” que seja – selecionar as dez respostas “mais pertinentes” a uma pesquisa sobre a palavra “Iraque”, que consta em três milhões de páginas?

Como qualquer outro site de busca, este passa, em primeiro lugar, por uma limitação importante: só pode propor a informação oferecida ao grande público. Se ninguém considera de bom tom publicar um artigo sobre os costumes do urubu barbudo (para citar uma expressão de que gosta Alexandre Vialatte), qualquer pesquisa sobre esse tema será em vão: “apelando para a Internet”, não se buscam todos os conhecimentos disponíveis, mas apenas aqueles para os quais alguns colaboradores – universidades, instituições, meios de comunicação, usuários particulares... – propõem acesso gratuito (ao menos, durante algum tempo) Portanto, a qualidade da opção por essa proposta desempenha um papel fundamental para a pertinência das respostas a serem obtidas.

Ora, se é verdade que o número de páginas acessíveis pela Internet não pára de crescer, por outro lado, algumas fontes institucionais diminuíram voluntariamente as informações em seus sites. Logo após o 11 de setembro de 2001, vários sites oficiais do governo norte-americano foram expurgados de dados considerados “delicados” – exemplo disso é o site do exército norte-americano que, orgulhosamente, divulgava ao grande público seus oito depósitos de armas químicas2. Mas também se retirou um número considerável de informações civis. A Geographical Information Services proibiu o acesso a seus mapas da rede viária3, e o Estado da Pensilvânia retirou os projetos de suas infra-estruturas de telecomunicações, escolas e hospitais4. Sob o pretexto da luta contra o terrorismo, algumas empresas fizeram sumir informações que as entidades ambientais haviam conseguido obter ao longo de árduas batalhas: as empresas produtoras de energia da Califórnia, por exemplo, retiraram os dados referentes às emissões poluentes de suas centrais elétricas5...

Nasce o Google

Os sites a que só se tem acesso mediante assinatura (mesmo que gratuita) são ignorados pelas ferramentas de busca

O colapso da “nova economia”, em 2001, também contribuiu para esse recuo: são cada vez mais numerosos os editores de publicações eletrônicas que reservam seus textos exclusivamente para assinantes. No entanto, essa estratégia, que tem por objetivo obter uma receita suplementar, tem um inconveniente: seu desaparecimento da Internet. Na realidade, os sites a que só se tem acesso mediante assinatura (mesmo que gratuita) são ignorados pelas ferramentas de busca. Mesmo que o New York Times tenha publicado no mês passado uma excelente reportagem sobre os costumes do urubu barbudo, por exemplo, esta não será proposta pelo site de busca. A maioria dos artigos publicados pelos jornais, portanto, se torna virtualmente invisível.

Ao mesmo tempo, novos atores se apropriavam da rede: empresas que queriam garantir uma visibilidade divulgando uma plataforma privilegiada de sua comunicação, organizações de ativistas que descobriam outro modo de promover sua causa... E, principalmente, os internautas que, cada vez mais, criavam sites pessoais: a “autopublicação”, que antes se restringia aos mais familiarizados com a tecnologia, democratizou-se com o surgimento de ferramentas mais fáceis de serem utilizadas (leia, nesta edição, “A versão SPIP”, de Philippe Rivière).

Em meados da década de 90, e diante do fluxo de informações suplementares, dois estudantes de informática da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos – Sergey Brin e Larry Page – decidiram seguir sua intuição: criar um site de busca baseado no estudo matemático das relações entre os sites existentes produziria resultados muito mais eficientes do que as técnicas rudimentares utilizadas naquela época. Persuadidos de que as páginas mais “pertinentes” são aquelas mais freqüentemente citadas (as que os outros sites selecionavam como referência com a ajuda de links hipertexto), decidiram fazer seu projeto de estudo e criaram as bases para uma ferramenta de busca mais “matemática” – que batizaram de Google quando criaram sua empresa, em setembro de 1998.

“Democracia” questionável

Na democracia do Google, os atores já influentes dispõem de um direito de voto de peso muito superior ao dos recém-chegados

Para avaliar a “pertinência” das páginas da Internet, Brin e Page inventaram a “Classificação da Página” (PageRank), uma escala de valores exclusiva do Google. O valor de uma página da Internet é constantemente reavaliado, nesta classificação, em função do número de vezes que ela for citada. Portanto, os sites isolados, visitados sem a ajuda de qualquer link hipertexto, tornam-se pouco visíveis, sem “legitimidade”. Em compensação, as páginas citadas em abundância tornam-se, para o Google, sites de referência. Este algoritmo original produz resultados impressionantes.

No entanto, o sistema já apresenta um inconveniente: os sites de criação recente são prejudicados e não irão se tornar visíveis, a menos que conseguirem atrair a atenção de outros, já solidamente estabelecidos. “A escala PageRank baseia-se na natureza estritamente democrática da Internet”, afirmam os fundadores do Google que, entretanto, reconhecem que “os votos conseguidos pelas páginas importantes têm maior valor e ajudam outras páginas a se tornarem também importantes”. Uma democracia espantosa, em que os atores já influentes dispõem de um direito de voto de peso muito superior ao dos recém-chegados.

Em relação a esse aspecto, é instrutiva uma curiosidade contada por Andrew Orlowski em The Register6 . No dia 17 de fevereiro de 2003, um artigo publicado na capa do New York Times descrevia o movimento de protesto contra a guerra como a emergência de uma segunda superpotência. “As imensas manifestações contra a guerra, pelo mundo inteiro, do último fim de semana” – afirmava – “lembram-nos que existem, sem dúvida alguma, duas superpotências no planeta: os Estados Unidos e a opinião pública.” A expressão foi rapidamente adotada pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Uma pesquisa sobre a expressão second superpower requisitada ao Google nas semanas seguintes remetia à definição original.

Foi então que James F. Moore, professor na Universidade de Harvard, decidiu rebater: no dia 31 de março, abriu seu site pessoal com um artigo intitulado “A segunda superpotência desvenda seu belo rosto7 ”. No texto, dos mais anódinos, a expressão “segunda superpotência” reaparecia numa versão edulcorada, capaz de seduzir um militante do Partido Republicano. Outros “tecno-utopistas” iriam identificar-se com seu pensamento e, por meio de suas influentes resenhas na Internet, tornariam seu artigo “a” referência em relação à expressão. Na realidade, um mês depois, 27 das 30 primeiras respostas propostas pelo Google para a expressão “segunda superpotência” remetiam àquela versão asséptica. James Moore, um perito em estratégia econômica, tecnologia e liderança, sabia o que fazia.

Busca ideologizada

A ausência de textos de referência abre espaço para tomadas de posição no campo ideológico

“Seriam necessárias milhões de pessoas, através do mundo, para obrigar os gorilas do exército a descreverem o movimento contra a guerra como a ‘segunda superpotência’; bastou um punhado de bloggers8 citar aquele artigo de Moore para que este, devido ao algoritmo PageRank do Google, gozasse de tamanha legitimidade que sua definição inofensiva esmagou todas as outras”, escreveu Andrew Orlowski. “Se um site de busca for sua principal visão do mundo, dificilmente você acreditará que a expressão ‘segunda superpotência’ possa significar qualquer outra coisa. Seu sentido original praticamente desapareceu.”

Para Andrew Orlowski, o episódio revela que o “Google não é ‘autêntico’, mas ‘sintético’”: uma pesquisa não remete à principal referência de determinado assunto, mas à sua acepção mais freqüentemente citada. Este fenômeno é ampliado pela legislação sobre direitos autorais, que proíbe a publicação pela Internet de textos protegidos. Se, numa pesquisa sobre Raoul Vaneigem, você é remetido para alguns de seus textos (vários de seus livros são passíveis de acesso pela Internet), em compensação isto não ocorrerá com a maioria dos escritores, quando você será convidado a comprar seus livros ou, na melhor das hipóteses, poderá ler uma resenha escrita por um internauta. Uma situação que poderia ser comparada à de uma biblioteca que, diante da obrigação de não poder emprestar gratuitamente seus livros, passaria a oferecer fichas de leitura redigidas por seus próprios sócios.

Esta ausência de textos de referência abre espaço para tomadas de posição no campo ideológico. E, curiosamente, este poder simbólico – a capacidade de fazer prevalecer sua percepção sobre um determinado assunto – é um dos raros que escapam à estrutura habitual de distribuição do poder. A ideologia dominante não é super-representada, pelo contrário: uma busca solicitada sobre o nome de um ministro do Interior defensor de vôos fretados poderá orientar o interessado para associações de defesa dos imigrantes sem-documentos; questionado sobre um homem de negócios, o Google poderá esquecer seus releases oficiais e relembrar os escândalos financeiros aos quais ele esteve vinculado. Na realidade, o poder de influência dos diversos atores depende, principalmente, de seu grau de apropriação da rede: não basta desenvolver um site; também é preciso ser capaz de tecer vínculos com outros sites e obter um reconhecimento por parte “daqueles que têm valor” na rede.

Limitação na política

Nas questões de natureza política, sobre as quais coexistem na Internet pontos de vista radicalmente opostos, o Google evidencia suas limitações

Se é verdade que muita gente se beneficia, de boa fé, com o reconhecimento de seus textos, existem pessoas que sabem explorar sabiamente as fraquezas da ferramenta. Há quem se especialize, por exemplo, em construir, em nome de diversos lobbies, sites de informação cujo conteúdo, à primeira vista, poderia induzir a considerá-los divulgadores de agências de notícias. Muitas vezes, essa objetividade aparente é suficiente para iludir o internauta que, acreditando na seriedade da informação, pode ser tentado a citá-la em seu próprio site... concedendo-lhe, dessa forma, um poder simbólico do qual ela poderá tirar proveito mais tarde.

Alguns assuntos delicados, como a questão dos organismos geneticamente modificados ou o conflito entre israelenses e palestinos, também são objeto de uma luta encarniçada, na qual cada lado se esforça por tornar sua ideologia “mais legítima” do ponto de vista do Google. A ponto de que o responsável por um site considerado uma referência – pelo menos, para o Google – teve recentemente a surpresa de ser abordado por um intermediário comercial de um tipo bastante específico: “Estou interessado na aquisição de links hipertexto em seu site com o objetivo de promover os sites de nossos clientes. Os links não têm que ficar particularmente em evidência em seu site, na medida em que não alimentamos a expectativa de buscas diretas, em termos de visitas. Como seu site é muito valorizado pelas ferramentas de busca, os links permitiriam aumentar a visibilidade destes sites nesses programas”. Entre seus clientes, este intermediário – um especialista famoso – citava sites financeiros, agências de viagem e laboratórios farmacêuticos.

É, sem dúvida, em relação às questões de natureza política – sobre as quais coexistem na Internet pontos de vista radicalmente opostos – que o Google evidencia suas limitações: seus critérios matemáticos podem privilegiar, na prática, determinadas opiniões e conceder uma pertinência indevida a textos que não refletem senão a opinião de um punhado de pessoas. A fundação e a super-representação de que gozaram os “primeiros chegados” à Internet, assim como a densidade dos vínculos que mantêm (particularmente através de um fenômeno essencialmente norte-americano, os weblogs), designam – “matematicamente” – os atuais “senhores da razão” do Google. É verdade que este programa de busca superou, com brilho, as questões técnicas, ou práticas. Mas existem áreas em que a pertinência ilude os algoritmos.

(Trad.: Jô Amado)

n t

1 - Ler, de Francis Pisani, “Ma vie Google”, Netsurf, http://www.netsurf.ch/archives/2001...
2 - “Security concerns prompt army to review Web sites, access”, Defense Information and Electronics Report, 26 de outubro de 2001, http://www.fas.org/sgp/news/2001/10...
3 - San Francisco Chronicle, 5 de outubro de 2001.
4 - The News Media and The Law, revista da Reporters Committee for Freedom of the Press (Comissão de Repórteres pela Liberdade de Expressão), outono de 2002, http://www.rcfp.org/news/mag/v.cgi?...
5 - Ler, de Jean-Pierre Cloutier, “Crise: sites Web censurés, modifiés, amendés”, Les chroniques de Cybérie, 30 de outubro de 2001, http://cyberie.qc.ca/chronik/200110...
6 - Ler, de Andrew Orlowski, “Anti-war slogan coined, repurposed and Googlewashed... in 42 days”, The Register, 4 de março de 2003. http://www.theregister.co.uk/conten.... Tradução francesa: http://www.uzine.net/article1960.html
7 - Ler, de James F. Moore, “The Second Superpower Rears its Beautiful Head”, http://cyber.law.harvard.edu/people...
8 - Internautas que dispõem de sites pessoais em que publicam seus próprios textos. Ler, de Francis Pisani, “Internet saisi par la folie des weblogs”, Le Monde diplomatique, agosto de 2003.




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