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VENEZUELA

A revolução agrária bolivariana

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Menos de dois anos após a promulgação da Lei das Terras, o governo de Hugo Chávez distribuiu mais de um milhão de hectares de terras improdutivas entre camponeses pobres. Mas os latifundiários reagem: grupos de jagunços, armados, aterrorizam a população

Maurice Lemoine - (01/10/2003)

n t

Uma planície imensa, como um oceano semeado de ilhas cheias de arbustos. A dez minutos de carro de San Carlos, capital do Estado de Cojedes, a poucos quilômetros da pequena praça onde, no dia 10 de janeiro de 1860, mataram o general Ezequiel Zamora1 , começa o latifúndio. Por trás de intermináveis cercas de arame farpado se estendem os 20 mil hectares de hatos (fazendas de gado) da família Boulton, uma das mais ricas do país. Em seguida, vêm os 14 mil hectares do hato2 ”. Nas minúsculas parcelas de um hectare, camponeses plantam um milho anêmico e vivem do Espírito Santo. Aquele que não tem como comprar ou alugar um pedacinho de terra vegeta, prisioneiro de suas quatro paredes, nos terríveis ranchinhos das periferias das cidades.

Mas a fome não espera. Pelo menos, não eternamente. No dia 14 de outubro de 2000, em companhia de 25 homens e de uma mulher, Jesús Vásquez ocupou uma parte do hato El Charcote. A suposta proprietária, por intermédio da Flora S. A., é a coroa britânica! “O governo exigiu que apresentassem seus títulos de propriedade. Nunca o fizeram. Na verdade, são terras do Estado”. A pesquisa efetuada pelo Instituto Nacional de Terras (INTI), criado em 8 de janeiro de 2002 para fazer cumprir a Lei das Terras promulgada pelo presidente Hugo Chávez, confirma os fatos. Desde então, 800 famílias, agrupadas em 24 cooperativas, ganharam o direito a uma parte da propriedade e cultivam ali 7 mil hectares. Milho, mamão, feijão, legumes e mandioca rodeiam, atualmente, os ranchos com tetos de folhas de palmeiras e a escola de madeira erguidos pelos camponeses. Eles próprios construíram as pontes que permitem o acesso à região e observam orgulhosamente os tratores e caminhões que passam, adquiridos graças ao crédito concedido pelo governo. “No ano passado, colhemos duas toneladas de milho; este ano, pensamos chegar a seis toneladas e, depois, bem mais”, comemora Vásquez. E prossegue: “As pessoas produzem e têm o que comer. Sinceramente, é uma mudança magnífica.”

A Lei das Terras

No Estado de Cojedes, por trás de intermináveis cercas de arame farpado se estendem os 20 mil hectares de hatos (fazendas de gado) da família Boulton

Enquanto, com a cumplicidade dos governos anteriores, os latifundiários se apropriaram indevidamente de milhões de hectares, a Venezuela importa 70% de seus alimentos3 . Para citar apenas eles, os proprietários da cerveja Polar, segunda indústria do país depois do petróleo, importam todo seu lúpulo dos Estados Unidos. Colhe-se grande parte do milho consumido no país, mas o milho enlatado vem do exterior! Se essa situação beneficia os gigantes da importação e da distribuição, ela afetou os setores mais pobres, particularmente os pequenos produtores, e deixou à beira da estrada centenas de milhares de camponeses.

No dia 13 de novembro de 2001, em meio a um pacote de 49 decretos-leis, o presidente Chávez anunciou uma Lei das Terras destinada a remediar a abissal injustiça social e, desenvolvendo a produção, garantir a segurança alimentar da Venezuela. Sem atingir, de maneira alguma, as terras produtivas, mas buscando acabar com o latifúndio, essa lei estabelece um imposto sobre terras não-produtivas, e até sua expropriação, e proíbe que uma única pessoa possua uma área com mais de 5 mil hectares. Por outro lado, prevê a recuperação de inúmeras terras devolutas ilegalmente ocupadas. E a distribuição de todas essas áreas aos camponeses – privilegiando, mas sem exclusividade – a formação de cooperativas.

No dia 8 de dezembro de 2001, empilhados em ônibus ou nas carrocerias descobertas de caminhões, milhares de camponeses deixam para trás seus labirintos de árvores e de mato, seus povoados moribundos. No dia seguinte, queimados pelo sol, barbudos, sujos, esplêndidos, desfilaram por Caracas para festejar o acontecimento. “Eles se deslocaram voluntariamente, não como antes, quando para mobilizar os camponeses, ofereciam-lhes dinheiro e alimentos”, enfatiza Claudio Ditulio, em Curito Mapurital (Estado de Barinas), onde o INTI acaba de entregar 31.700 hectares a 500 famílias. “Vamos para lá com nossos fracos recursos, mas também com uma enorme esperança...”

“Argumentos indiscutíveis e ações inequívocas”

No dia 14 de outubro de 2000, um grupo de camponeses ocupou uma parte do hato El Charcote. A suposta proprietária é a coroa britânica!

A terra! Esse gigantesco clamor, enfim ouvido, daria ainda lugar a inúmeras manifestações de apoio à revolução bolivariana. “Jamais corri tanto por uma mulher como tenho marchado por esse presidente”, ri um dos companheiros de Ditulio, com o chapéu de feltro virado para trás, enquanto o ar quente vibra intensamente. Com esse conjunto de reformas radicais, a “revolução bolivariana” entra finalmente no cerne da questão.

E entra também em confronto, sem dó nem piedade, com a oposição. “A lei tem um caráter intervencionista, estatizante, e não reconhece o direito de propriedade, que é um direito fundamental do homem”, reagiriam, imediatamente, e entre outros, a Associação dos Pecuaristas (Agosata) e a Fedecámaras do Estado de Táchira, seção local da organização patronal venezuelana. “O imposto sobre terras incultas é anticonstitucional (...). Ela [a lei] resulta de um fundamento comunista, forma típica de uma política coletivista (...). Mais do que uma filosofia, parece uma orientação de tipo totalitário4 .” Para José Luis Betancourt, dirigente da Federação Nacional dos Pecuaristas (Fedenaga), a lei “vai levar inúmeros produtores à falência”. Foi com os mesmos argumentos que Pedro Carmona, o patrão dos patrões, apoiado por Carlos Ortega, dirigente da extremamente corrupta Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), promoveu, a partir do dia 10 de dezembro, a primeira greve geral, prelúdio da tentativa de golpe de Estado do dia 11 de abril de 20025 : “A arbitrariedade dessas leis impõe argumentos indiscutíveis e ações inequívocas de recusa”.

No entanto, no mesmo dia 10 de dezembro, em Barinas, desafiando a greve e diante de uma multidão que se agita como uma ola, com seus gorros vermelhos e suas bandeiras, o presidente Chávez persiste e assinala, ao promulgar oficialmente a lei: “Senhores grandes proprietários, preparem seus papéis porque vocês deverão demonstrar que essas terras lhes pertencem!” No mesmo momento, representantes dos latifundiários rasgavam o texto da lei durante um ato público transmitido ao vivo pelos meios de comunicação.

Os pantaneros do governador Lapi

Cúmplices dos governos anteriores, os latifundiários se apropriaram indevidamente de milhões de hectares e a Venezuela importa 70% de seus alimentos

“Nossos latifundiários sequer se parecem com os capitalistas que põem as terras para produzir”, constata Ricaurte Leonete, nomeado presidente do INTI no início de agosto de 2003. “Na Europa, o capitalismo venceu esse tipo de comportamento parasitário há muito tempo.” “Castrocomunismo!”, acusa a oposição. Os tambores da guerra ecoam na Venezuela.

E estrondam no Estado de Yaracuy. Os camponeses dessa região recitam poesias e se chamam entre si de camaradas, com naturalidade. Há décadas que se vem lutando contra “o monstro de mil cabeças dos ‘devoradores de terras’”. Liderados por Braulio Álvarez, carismático dirigente da Coordenação Agrária Nacional Ezequiel Zamora (Canez), os comitês das terras de Camunare Rojo e de Urachiche solicitaram, e conseguiram, no dia 4 de maio de 2002, 665 hectares de terras incultas das famílias Bolmer e Azleca – muito ligadas à do governador da oposição, Eduardo Lapi. De acordo com o INTI, essas terras pertencem ao antigo Instituto Agrário Nacional (IAN).

No dia 12 de julho seguinte, por ordem do governador, a brigada de choque da polícia regional, os pantaneros, atacou violentamente cerca de 850 pessoas legalmente instaladas naquele local e as expulsou – gás lacrimogêneo e balas de todos os calibres – até Camunare Rojo. Mais de vinte feridos, oito pessoas hospitalizadas. “No Yaracuy, reina a anarquia e não vou permiti-lo”, declarou Lapi, enquanto o presidente do Conselho Legislativo do Estado, Victor Pérez, denunciava o “plano de terror”, fomentado pelos camponeses em Camunare Rojo.

Um “aliado” problemático

No dia 13 de novembro de 2001, em meio a um pacote de 49 decretos-leis, Hugo Chávez anunciou a Lei das Terras, para a remediar a enorme injustiça social

Na parte da fazenda Santa Catalina que fica no município de Santa Lucía (“pertencente” ao consórcio açucareiro Central Matilde), 600 pessoas receberam 540 hectares no dia 3 de maio de 2003, e mais um financiamento de 170 milhões de bolívares (cerca de 325 mil reais) e um trator chinês que lhes permitiu semear seus 170 primeiros hectares. “No dia 20 de julho, fomos atacados por jagunços que incendiaram um caminhão e um automóvel e maltrataram duas pessoas, sobre as quais jogaram gasolina”, testemunha “Zapata”, um dos líderes da cooperativa. Em torno dele, caras magras e pálidas mostram uma grande felicidade, um pouco fatigada. Embora o tribunal tenha tomado uma medida de proteção, que consiste em patrulhas da Guarda Nacional, “podemos ver os pantaneros de Lapi ali instalados”, diz “Zapata”, apontando para os velhos acampamentos. “Eles atiram para o alto, nos ameaçam e nos provocam para que reajamos, de maneira a justificar uma violenta repressão.”

Ainda dá para agüentar quando o “inimigo” é um governador de oposição – como nos Estados de Yaracuy, Apure e Carabobo – ou os politiqueiros do antigo regime. Mas, em janeiro de 2002, em El Robal, no Estado de Cojedes, foi Jhonny (sic) Yanez Rangel, eleito sob a bandeira do Movimento pela V República (MVR, partido do presidente) que soltou os cachorros. “Ele expulsou os camponeses, destruiu seus ranchos e o material, tudo se perdeu”, diz Vásquez, enfurecido, parado perto das águas escuras de um rio. Um governador revolucionário contra a revolução? Não é bem assim... Muitos oportunistas se aliaram ao campo do candidato Chávez, quando ficou claro que era certa sua vitória nas eleições presidenciais. No dia 12 de abril de 2002, Yanez Rangel se juntou sem remorsos ao governo resultante do golpe de Estado, antes de hesitar muito oportunamente dois dias depois, quando Chávez retomou o poder6.

A fúria de Chávez contra a burocracia

Sem atingir terras produtivas, a lei cria um imposto sobre terras não-produtivas e proíbe que uma única pessoa tenha uma área com mais de 5 mil hectares

A situação tornou-se tão grave, no Estado de Cojedes, que, de saída, a equipe regional do INTI se mostrou totalmente ineficaz. “Apareceram por ali mãos obscuras, os latifundiários, o poder econômico, atrasando tudo”, lembra José Pimentel, o homem encarregado de lotar os ônibus sempre que há uma viagem para Caracas para apoiar o presidente. “A pedido nosso, Adán Chávez [irmão do presidente, e diretor do INTI, na época] fez uma auditoria e compreendeu que, durante nove meses, os dirigentes locais não tinham feito nada”. Nomeado em julho de 2003, trabalhando “inclusive nos fins de semana”, Gustavo Gutiérrez, coordenador de uma nova equipe, começou a “corrigir os erros e reorganizar a instituição.”

Para facilitar seu trabalho, o INTI – uma instituição nova, que substituiu o Instituto Agrário Nacional, tão ineficaz quanto corrupto – teve que reinventar tudo em muito pouco tempo. “Tratavam-se de novos funcionários, que tiveram de conhecer a lei e aprender como aplicá-la”, testemunha o atual presidente, Ricaurte Leonel. Em um país com arquivos e cadastros muitas vezes inexistentes – sem falar da obstrução por parte dos pseudo-proprietários – o começo foi difícil. Quando, em setembro de 2002, o presidente Chávez descobriu que o novo órgão não tinha entregue sequer 1.000 hectares, “ele ficou furioso”: “Exijo que, no dia 30 de agosto de 2003, vocês tenham distribuído 1,5 milhões de hectares; caso contrário, demito todo mundo, do presidente [na época, seu irmão Adán] até o último dos funcionários.” A partir de então, os procedimentos avançaram “com uma rapidez gigantesca”. No final de agosto de 2003, 1,34 milhão de hectares de terra tinham sido distribuídos entre 62.800 famílias (sendo a meta chegar a 2 milhões de hectares para 500 mil camponeses) 7.

Os vínculos da polícia política com paramilitares

A terra! Esse gigantesco clamor, finalmente ouvido por alguém, daria ainda lugar a inúmeras manifestações de apoio à revolução bolivariana

Alguns pontos obscuros continuam, no entanto, principalmente na região de Apure, “zona quente”, situada ao longo da fronteira colombiana. “Aqui, sofremos, companheiro. A revolução agrária não chegou”. Basta constatar os fatos: a Flora S.A. (pertencente à coroa britânica, como no Estado de Cojedes), 350 mil hectares; o hato La Victoria, 100 mil hectares; o El Cedral, 150 mil hectares; a fazenda La Caña Vilena, 30 mil hectares; a fazenda Matebanco, 250 mil hectares...

Nesses llanos8 fabulosos, essas imensas extensões de capim alto e abundante, atravessadas pelos mesmos rios que serpenteiam nos mesmos meandros e nas mesmas galerias cobertas de florestas, na monotonia das planícies inundadas, o movimento camponês, acusado de ser composto por “guerrilheiros”, sempre foi submetido a uma feroz repressão. E na memória, retém-se um período muito particular: aquele em que o general Enrique Medina Gómez comandou a zona de operações nº 1 – dispositivo do exército venezuelano destinado a lutar contra a penetração de grupos colombianos paramilitares No dia 23 de janeiro de 1997, ele libertou sete paramilitares colombianos presos com seu arsenal no dia 22 de dezembro anterior. Esses homens obrigavam os pecuaristas da fronteira a lhes enviar 2 milhões e 3 milhões de bolívares “em troca de segurança”. Explicação do general: “Eles estavam realizando uma operação de informações” e possuíam uma autorização de seu comando “absolutamente legal” 9 .

Posteriormente afastado pelo presidente Chávez e (imprudentemente) nomeado adido militar na Embaixada venezuelana em Washington, o general Medina Gómez foi um dos principais atores do golpe de Estado do dia 11 de abril de 2002. Entrementes, em 1998, representantes da população civil de Guasdualito acusaram membros da Disip (polícia política) de colaborarem com os paramilitares que operavam na fronteira.

Um furacão se anuncia para os burocratas

“A lei não reconhece o direito de propriedade, que é um direito fundamental do homem”, reagiriam a Associação dos Pecuaristas e a Fedecámaras de Táchira

Precisamente em Guasdualito, o diretor técnico da delegação subregional (Alto Apure) do INTI, Santo Durán, desanimado, mostra a velha mobília da década de 70 que equipa seu escritório, um único computador disponível para três pessoas e, diante de uma pilha de dossiês impressionante, queixa-se da falta de recursos. “Trabalhamos com as unhas”, explica com amargura. A situação não tem nada de excepcional. As delegações do INTI são, em toda parte, subequipadas. Interrogado, Durán tenta mostrar confiança. Apesar de vários conflitos e da resistência de alguns grandes proprietários, “em geral, as coisas são resolvidas amigavelmente”.

A opinião dos principais interessados – os camponeses – é outra. “Aqui, há 70 ocupações pelas quais o INTI não fez nada. Um único título agrário (documento que permite que os camponeses ocupem a terra) foi fornecido até hoje no Alto Apure”, explode Domingo Santana, da Frente Revolucionária Simón Bolivar. Espalha-se a raiva nos miseráveis ranchos disseminados ao longo das águas barrentas do Apure e concentrados em uma faixa de 200 metros próxima à margem. “Não se pode passar para lá, é propriedade privada”, explica uma pobre mulher espantando os insetos que voam sobre seu prato. Nesse cenário de dilúvio, em que as pernas amolecem no barro, um furacão bastante sério se anuncia para os “burocratas” locais do INTI. “São pessoas que, definitivamente, não estão engajadas no processo revolucionário e utilizam a Lei das Terras para viverem e receberem um bom salário.”

Observando que Durán foi, anteriormente, administrador de uma das propriedades visadas pelos camponeses – o hato La Miel – considera-se seriamente uma operação “de tomada das instalações do INTI” pela força. Ao mesmo tempo, comemora-se que “um grande amigo em quem depositamos muitas esperanças”, sempre seguidor do movimento camponês, e que conhece bem o Alto Apure (Ricaurte Leonel), tenha sido nomeado, em Caracas, para a diretoria da instituição.

Funcionários incrustados há 20 anos

“Senhores grandes proprietários, preparem seus papéis porque vocês deverão demonstrar que essas terras lhes pertencem!”, desafiou Chávez, num comício

A revolução bolivariana se reivindica, e é, democrática. Não cortou cabeças nem praticou a caça às bruxas. É essa sua grandeza. Paradoxalmente, é também sua debilidade. No dia 6 de fevereiro de 2003, Chávez andava pelas terras da cooperativa Jacoa (Estado de Barinas). Uma nova estrada, magnífica, foi traçada para tirá-la do isolamento. Além dos títulos agrários, ele envia para as 500 pessoas que ocupam essas terras abandonadas por dois latifundiários, três tratores e um crédito de 690 milhões de bolívares (1,35 milhão de reais). Sete meses depois, esse projeto emblemático do presidente de certa maneira fracassou. “Nosso comandante acredita que tudo vai bem! Esconderam dele as cifras reais, ninguém lhe diz a verdade. Aqui, não foram cultivados 500 hectares, mas apenas 15!” O Ministério da Infraestrutura (Minfra) já deveria ter desmatado 400 hectares. Não o fez. Apesar dos múltiplos pedidos, os funcionários do Instituto de Desenvolvimento Rural (Inder), encarregado da drenagem e do sistema de irrigação, ainda não apareceram. Os do Ministério do Meio Ambiente, também envolvidos, estão quase sempre ausentes. “As instituições do governo não me recebem, somente o INTI me apóia”, queixa-se Richard Vivas, um dos dirigentes da cooperativa.

Trabalhando no INTI, em Caracas, Gladys Vivas confirma essas dificuldades. O governo não pretende apenas distribuir as terras, mas também máquinas e crédito. Quer também que a população disponha de infraestrutura, de casas, de escolas, de centros de saúde. Para fazê-lo, o INTI deve trabalhar com os ministérios e administrações envolvidos. Estruturas muito burocráticas, em que um grande número de funcionários, do segundo escalão para baixo, são membros dos antigos partidos e ali estão incrustados, às vezes há quinze, vinte anos. “Fazem tudo o que podem para obstruir este tipo de desenvolvimento. Temos que trabalhar conspirando – como o fazem os próprios ministros –, procurando aliados, nos infiltrando. Conseqüentemente, as respostas são, quase sempre, muito lentas”. Um enorme desperdício de energia e de tempo.

Os “títulos agrários”

Nesses llanos fabulosos, o movimento camponês, acusado de ser composto por “guerrilheiros”, sempre foi submetido a uma feroz repressão

Nas casas de taipa, nesse universo de selas de couro, lâminas, bolsas, lampiões, peles, botas e pilhas de roupas, os camponeses se organizam e conhecem a lei pela primeira vez. Eles a lêem. Sabem que têm direitos. Diante das dificuldades e dos atrasos, reagem de maneira muito política. “Não caiam na provocação”, ouvimos no hato El Miedo (Estado de Barinas), durante uma reunião. “É preciso lutar com a cabeça. Nossa arma é a lei.” Em Jacoa, onde se preparam para das uma sacudidela nas instituições fracas, um dirigente queixa-se das modalidades de ação: “É preciso abrir as portas. Mas, atenção. Com um cartaz que diga: ‘Somos revolucionários, estamos com o presidente’. O problema é ‘o’ funcionário. Se a imprensa fica sabendo, a oposição faz a festa.”

Pois a oposição fica na tocaia. Graças ao Superior Tribunal de Justiça, que ela controla, conseguiu, no dia 20 de novembro de 2002, revogar os artigos 89 e 90 da lei. O artigo 89 permitia ao INTI decretar a ocupação preventiva das terras, pelos camponeses, durante ação judicial destinada a provar que seus “proprietários” não estavam lá. Atualmente, a ocupação só pode ser feita desde ocorra um julgamento (no âmbito de um sistema judiciário lento, jamais melhorado, e freqüentemente em conivência com a oposição). O artigo 90 proibia qualquer tipo de indenização a um “proprietário” que tivesse construído instalações, casas ou prédios em terras da nação ilicitamente ocupadas. Indignado, Ricaurte Leonel declara em seu escritório do Parque Central, em Caracas: “Imagine! Roubam meu carro, o ladrão coloca nele pneus novos, um novo motor, e quando recupero meu veículo tenho que reembolsá-lo pelo motor e pelos pneus!”

Enquanto espera que a Assembléia Nacional reformule os dois artigos em questão, o decreto presidencial nº 2292, de 4 de fevereiro de 2003, e a resolução 177 do INTI criaram os títulos agrários. Sem constituir um título de propriedade, estes permitem a ocupação de terras em litígio e a obtenção de crédito para valorizá-las.

“Essa oposição mata”

Em 1998, cidadãos de Guasdualito acusaram membros da Disip (polícia política) de colaborarem com os paramilitares colombianos que operavam na fronteira

No entanto, a resistência a essa revolução conduzida no campo encontrou formas de expressão mais violentas. Saindo de Guanare (capital do Estado de Portuguesa), no volante de seu veículo com vidros com insufilm, Richard Vivas, coordenador regional do INTI, dirigia a toda velocidade para Zoropo. Acabavam de adverti-lo, por celular, que se travava uma discussão tensa entre um grupo de camponeses e três campos volantes10 . No local, em uma zona cheia de mato e de bosques, reina uma atmosfera elétrica, uma certa confusão. “Eles não nos deixam passar”, diz um camponês, indignado, apontando para os três homens agarrados a seus fuzis. “Eles nos ameaçam, queimam nossos ranchos, destroem nossas colheitas”, acrescenta, com raiva, um de seus companheiros. Vivas acalma seu pessoal. Na mira do olhar negro e inquieto dos pistoleiros, liga seu celular. “Vou pedir à Disip para investigar e revelar a identidade daquelas pessoas.” De volta a Guanare, onde pichadores estamparam nas paredes “Viva Jesus Cristo, Bolivar e Chávez”, ele declara: “Recebi inúmeras ameaças de morte. E as levei a sério. Essa oposição mata.”

Doze pessoas foram assassinadas no Estado de Portuguesa, entre as quais Jacinto Mendoza, executado em frente ao escritório do INTI. Colaborando com a organização de um comitê de terras, pediu títulos de propriedade de terras incultas pertencentes ao Estado para 50 famílias. Detido, o intermediário encarregado de contratar os pistoleiros confessou ter recebido 8 milhões de bolívares (15.300 reais) das mãos de Omar Contreras Barboza, ex-ministro da Agricultura de Carlos Andrés Pérez – ex-presidente, destituído por corrupção –, que reivindica a propriedade das terras. Nenhuma reação por parte da justiça até o presente.

Um entusiasmo além da imaginação

A revolução bolivariana se reivindica, e é, democrática. Não cortou cabeças nem fez caça às bruxas. É essa sua grandeza e, paradoxalmente, sua debilidade

Existem grupos de extermínio, bandos organizados, pagos pelos proprietários de terra, principalmente nos Estados de Zulia, Barinas, Tachira e Apure. Às vezes, os sicarios da mídia se juntam a eles. No dia 24 de março último, em uma pseudo-reportagem publicada pelo jornal El Universal, Roberto Giusti acusa Jorge Nieves, dirigente camponês e líder comunitário, de ser um dos comandantes, no Apure, de uma suposta Frente Bolivariana de Libertação (FBL), “braço armado da revolução bolivariana” operando em conjunto com as guerrilhas colombianas11 . Um mês depois, nessa zona cheia de paramilitares (colombianos), o alvo designado foi morto a tiros em pleno Guasdualito.

A Fedenaga (federação dos pecuaristas) garante que as forças armadas apóiam as invasões de terras produtivas e que os títulos agrários são entregues a grupos guerrilheiros. A oposição clama pela ditadura. Na realidade, na Venezuela, são os partidários de um presidente democraticamente eleito que fornecem as vítimas: no âmbito dessa guerra esquecida pelos meios de comunicação, 74 camponeses foram assassinados em dois anos (mais de 120 desde 1999).

Apesar desses crimes, apesar do sangue, nessas imensas extensões em que o céu se encontra com a terra e em que se proclama um apoio indefectível “a nosso comandante, o presidente Hugo Chávez”, o entusiasmo vai além da imaginação. Por toda parte, as pessoas fazem saudações vibrantes “Epa chámo, como está la lucha?” (“Olá, amigo, como vai a luta?”). Por toda parte, milho, sorgo, legumes, frutas, gado, piscicultura e produção, novas escolas e novas casas. Certamente ninguém se esqueceu de que a primeira medida da breve ditadura que teve início com o golpe de Estado do dia 11 de abril de 2002 foi suprimir a Lei das Terras. Acompanham atentamente a crise política que se eterniza em Caracas, onde por todos os meios a oposição tenta tirar Chávez do poder antes que ele possa executar suas reformas. Discretamente ou de maneira mais explícita, adverte-se que, “se eles nos retirarem tudo isso, haverá aqui uma guerra civil”.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

n t

1 - Comandando um exército de camponeses, o general Ezequiel Zamora derrotou a oligarquia antibolivariana, no dia 10 de dezembro de 1859, por ocasião da Guerra Federal.
2 - N.T.: 3 mil bolívares são equivalentes a pouco menos de 6 reais.
3 - De acordo com o último recenseamento agrícola (1998), 70% das terras produtivas de boa qualidade estão nas mãos de 20% de proprietários que possuem mais de 500 hectares, enquanto 75% possuem apenas 6%; 60% dos produtores rurais não possuem título algum de propriedade das terras que ocupam.
4 - “Frente a la Ley de tierras”, Ultima Hora, Centro de Estudios Ganaderos, Maracay, 15 de dezembro de 2001.
5 - Ler “A “sociedade civil” contra o povo”, Le Monde diplomatique, maio de 2002.
6 - Sob intervenção do presidente, Yanez Rangel teve de devolver 55 milhões de bolívares aos camponeses que tinha mandado expulsar.
7 - Essa pressa levou a alguns erros, seja relativos aos proprietários em seu pleno direito, seja em zonas protegidas pertencentes, por exemplo, ao Ministério do Meio Ambiente.
8 - Zona de planícies que ocupam uma grande parte do território venezuelano (e da vizinha Colômbia).
9 - http://impresodigital.el-nacional.c...
10 - Figuras tradicionais das zonas rurais encarregadas de supervisionar as tropas, os campos volantes (capatazes) tornaram-se homens armados pagos pelos terratenientes (latifundiários).
11 - Ler, de Roberto Giusti, “El brazo armado de la revolución”, El Universal, Caracas, 24 de março de 2003.




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