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Um negócio de família

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O domínio dos impérios familiares da comunicação voltou com força total nesse início de século. O modelo dinástico proporciona vantagens como criar vasos comunicantes entre o patrimônio pessoal e o interesse destes grupos, cotados na bolsa de valores

Marie Bénilde - (01/11/2003)

O início do século XXI destaca-se pela perpetuação de um poder patrimonial solidamente estabelecido na imprensa, na televisão e nas emissoras de rádio

Em 1936, a Frente Popular libertou o Banco da França da tutela das 200 famílias que controlavam sua assembléia-geral. Foi instaurada uma espécie de democracia capitalística, dando o direito de voto às cerca de 40 mil pessoas que, na época, detinham ações daquela instituição. Sessenta e sete anos depois, seria o caso de esperar por uma nova Frente Popular para emancipar a economia francesa do jugo do império das fortunas familiares que, curiosamente, dominam os meios de comunicação? Na verdade, longe da nova era do capitalismo que supostamente produziria a globalização dos mercados financeiros, este início do século XXI destaca-se pela perpetuação de um poder patrimonial solidamente estabelecido na imprensa, na televisão e nas emissoras de rádio. Essa situação incentiva a adesão da coletividade a um sistema de valores quase dinástico, no qual se baseia a legitimidade do herdeiro.

A economia francesa caracteriza-se pela importância de seu capitalismo familiar. Em 2003, segundo Claude Bébéar, “padrinho” do capitalismo francês, “quinze famílias controlam quase 35% da praça de Paris, o que constitui um recorde, em termos europeus”. Entre as quinze principais fortunas francesas, cinco desenvolveram interesse pelos meios de comunicação: Bernard Arnault (La Tribune, Investir e Radio Classique), François Pinault (Le Point, Historia e La Recherche), Serge Dassault (Valeurs actuelles e 30% das publicações Le Figaro, L’Express, Progrès de Lyon, La Voix du Nord), Jean-Claude Decaux (JC Decaux, Avenir) e Francis Bouygues (TF1, LCI, TPS...). Seguem-se, entre os primeiros cem lugares da classificação1 , Pierre Fabre (Sud Radio), Jean-Paul Baudecroux (NRJ), a família Hersant (70% das publicações Le Figaro, L’Express e Progrès de Lyon...), Elisabeth Badinter (12% de Publicis), Philippe Amaury (Le Parisien, L’Equipe), Claude Berda (RTL9), Arnaud Lagardère (Europe1, Paris Match, Le Journal du Dimanche...) e a família Seydoux (Gaumont, Pathé).

Modelo dinástico

O pai de Arnaud Lagardère era fascinado pelo modelo dinástico que permite a um soberano sobreviver a si próprio. Objetivo: fazer de seu herdeiro “outro eu”

A maioria destes grandes nomes, que recorrem à Bolsa de Valores para reforçar sua fortuna profissional, é composta por herdeiros de impérios industriais: Dassault, Bouygues, Lagardère, ou ainda Schlumberger, no caso dos Seydoux. Outros, como Jean-Claude Decaux ou François Pinault, organizaram sua sucessão confiando as rédeas de seu grupo aos descendentes: Jean-François e Jean-Charles Decaux, ou François-Henri Pinault. Bernard Arnault, por exemplo, acaba de integrar o conselho administrativo que preside – Louis Vuitton-Moët Hennessy (LVMH) – sua filha Delphine, de 28 anos... Todos eles se aproveitam de sua posição nos meios de comunicação para consolidar sua posição patrimonial. Pois qual seria o interesse imperioso que envolve um jornal ou uma emissora de televisão, se não fosse o de associar a uma fortuna palavras ou imagens que dêem sentido à arbitrariedade da herança?

Em relação a isso, o exemplo de Arnaud Lagardère constitui uma verdadeira aula. Seu pai, Jean-Luc, falecido em março de 2003, era fascinado pelo modelo dinástico que permite a um soberano sobreviver a si próprio. Objetivo: fazer de seu herdeiro “outro eu2 ”. Para o conseguir, não foi na aeronáutica, na defesa ou na indústria automobilística – áreas do grupo Lagardère em que o pai, engenheiro, criou sua reputação – que o filho explorou sua herança. Foi na mídia, onde bastou a simples menção de seu sobrenome para conquistar o poder simbólico. Na verdade, os locais de exposição na mídia têm a vantagem de serem ávidos por imagens, permeáveis à iconolatria e, conseqüentemente, conferirem a legitimidade por um preço razoável.

Muro de proteção para bilionários

A propriedade de um jornal também pode ser motivada pela idéia de utilizá-lo para passar suas idéias e defender interesses pessoais e corporativos

Enquanto presidente da empresa Lagardère Media, Arnaud Lagardère não teve dificuldade alguma para se impor aos barões da Europe1 ou da editora Hachette. Por meio de uma astuciosa empresa por procuração, ele é hoje presidente do Grupo Lagardère, do qual detém apenas 5,5% das ações, mas goza de uma retirada, desde 1988, de 0,2% do faturamento total da Matra (Europe1) e da Hachette3 . “Sou apenas um filho de camponês que se inseriu em seu tempo e para quem cada centavo conta, pois é o dinheiro da família4 ”, declarou em março.

Durante muito tempo, o interesse dos bilionários pela imprensa era associado aos olhares de atenção dados por um notável a uma bailarina. Porém, como salienta Olivier Toscer, seus jornais são “parte integrante de seus impérios e desempenham um papel bastante preciso: o do muro de proteção erigido em volta de seus interesses pessoais5 ”. Ao adquirir a revista Le Point, em 1998, era esse o objetivo de François Pinault. Ele conseguira escapar do imposto sobre grandes fortunas graças a um artifício contábil e preparava-se para enfrentar Bernard Arnault na luta pela aquisição do gigante italiano de moda de luxo, Gucci. Curiosamente, antes Pinault não contara com apoio entre o “círculo de grandes consciências de nosso tempo6 ”. Iria conseguir uma cuidadosa difusão de sua influência na revista Le Point e nas crônicas de seu amigo Bernard Henri Lévy.

Complacência da imprensa

Na realidade, os meios de comunicação são um instrumento de pressão útil em caso de ter que enfrentar um adversário. No final de 2000, Bernard Arnault, dono do jornal La Tribune, acusou François Pinault, acionista da emissora TF1, de ter mandado censurar uma entrevista que ele dera à emissora LCI (do grupo TF1) 7 . Em maio de 2003, iria à forra lendo nas colunas da Tribune duas páginas, bastante cáusticas, sobre a situação crítica do grupo Pinault. O coletivo dos jornalistas do jornal demitiu-se, em sinal de protesto. Vincent Bolloré, um empresário que enfrentara, em 1998, Martin Bouygues, tenta, por seu lado, adquirir um canal de televisão: como responder de outra maneira a um programa da TF1, “Le Droit de savoir”, que foi vasculhar seu patrimônio imobiliário em Saint Tropez8 ?

As famílias nunca estão a salvo de um conflito entre irmãos – o que às vezes leva à perda de controle da empresa, que logo cairá nas mãos de outra família

São raros os jornalistas que comprometem os interesses de um grande empresário com visibilidade na mídia. François Pinault não foi criticado pela imprensa por ocasião de seu pequeno conchavo com o fisco, o que lhe permitiu acertar sua sucessão de maneira totalmente discreta. Com 65 anos de idade, de forma a garantir uma doação-partilha de sua fortuna aos três filhos – e aliviando, assim, o peso de seu patrimônio submetido ao imposto sobre grandes fortunas – o empresário aceitou, concretamente, pagar 450 milhões de euros (1,5 bilhão de reais) de direitos de sucessão. Nessa mesma ocasião, Pinault reconheceu que uma empresa holandesa, a FPI, em que ele investira uma quarta parte de sua fortuna, não foi taxada sobre aquele imposto. O filho de Robert Hersant, por exemplo, Philippe Hersant, presidente da empresa France Antilles (Paris Normandie, L’Union de Reims), fixou recentemente seu domicílio na Suíça...

Um jornal em causa própria

A propriedade de um jornal também pode ser motivada pela idéia de utilizá-lo para passar suas idéias. Marcel Dassault confiava no Jours de France e seus editoriais paternalistas. Seu filho, Serge, e o filho deste, Olivier, gozam, atualmente, do espaço que desejarem em Le Figaro. Em novembro de 1997, na LCI, três anos antes de sua entrada na Socpresse (grupo que reúne a maioria dos principais títulos do grupo Hersant), Serge Dassault confessara seu desejo ardente de “possuir um jornal ou um semanário para poder expressar suas opiniões” e “talvez também para responder a alguns jornalistas que tenham escrito coisas de maneira não muito agradável”. Por essa razão, nestes tempos de jornalismo de reverência em relação aos grandes empresários (o programa de Anne Sinclair na RTL é uma caricatura do gênero), a motivação ideológica parece marginal, se comparada à defesa dos interesses patrimoniais.

Sob a aparência de ultraliberalismo, as idéias de Olivier Dassault, deputado pela União para a Maioria (UMP) e presidente do grupo Valmonde (Valeurs actuelles, Journal des Finances), se resumem a ladainhas em causa própria, tais como “simplificar e reduzir a incidência de impostos sobre a renda”, ou baixar “o imposto sobre sucessões em linha direta”. Eleito deputado pelo departamento de Oise em 2002, apressou-se em apresentar um projeto de lei visando à supressão do imposto sobre grandes fortunas. É verdade que o exemplo vinha de cima: Silvio Berlusconi, presidente da Mediaset (Canal 5, Itália 1...) e primeiro-ministro italiano, não suprimiu os impostos em geral e o sobre sucessões em linha direta, em particular, desde que subiu ao poder?

De família para família

Após o estouro da bolha especulativa das empresas de Internet, a Bolsa e seus deal makers saíram de moda e o patrimônio familiar voltou com força total

Além da famosa “criação de valores”, tão cara aos meios financeiros, os barões da comunicação são campeões na criação de vasos comunicantes entre o patrimônio pessoal e os interesses de seus grupos, cotados na Bolsa. Pierre Péan e Christophe Nick revelaram, em TF1, un Pouvoir9 , o quanto a LCI, com sua profusão de convidados e diretores de jornais, se teria mostrado preciosa para promover o lobby do grupo Bouygues. Na TF1, Martin Bouygues tentou, após a morte de seu pai, partilhar as rédeas da empresa com sua irmã Corinne, confiando-lhe a presidência do departamento de publicidade. A filha herdeira, no entanto, ameaçou a autoridade do filho herdeiro e acabou por ser descartada. Assim como seu pai, Martin Bouygues conta atualmente com o apoio de Patrick Le Lay, o qual já garante a ascensão de seu filho Laurent-Eric, diretor-geral do programa “Eurosport”, para dentro do grupo TF1.

As famílias nunca estão a salvo de um conflito entre irmãos, como o que ocorreu com Philippe Amaury em relação à herança de seu pai, Emilien. Às vezes, isso permite que um predador se apodere de um veículo de comunicação. A Hachette, por exemplo, comprou 25% do grupo Amaury, ajudando o herdeiro, Philippe, a adquirir a parte de sua irmã, Francine. Na realidade, a imprensa francesa destaca-se por uma sólida estabilidade do patrimônio familiar. Se inúmeros jornais mudaram de mãos, foi quase sempre para cair no colo de outras famílias: os Hersant, os Lagardère, os Dassault... Por outro lado, a imprensa ainda fervilha com proprietários-herdeiros: os Prouvost, na revista Marie Claire, os Pulh-Demange, no publicain lorrain, os Lemoine, no grupo Sud-Ouest, os Cordurier, no Télégramme de Brest, os Varenne, em La Montagne... Para eles, às vezes o risco está em se confundir a pessoa moral com a pessoa física. A família Baylet, por exemplo, proprietária do jornal La Dépêche du Midi, foi condenada em 2002 “por se ter beneficiado ilicitamente, para fins pessoais, de vantagens domésticas vinculadas às suas funções industriais”.

Glória do modelo familiar

Após o estouro da bolha especulativa das empresas de Internet, a Bolsa e seus deal makers, do tipo Jean-Marie Messier, saíram de moda. E o patrimônio familiar voltou com a força toda. Prova disso é o grupo Bertelsmann, proprietário do RTL Group (M6, RTL) e da Prisma Presse (Capital, VSD). Em fevereiro deste ano, Reinhard Mohn, o “patriarca”, que detém 75% dos direitos de voto da holding que controla o grupo Bertelsmann, declarou que queria “tentar fazer reviver uma forma de gestão empresarial que já foi comprovada”, confiando à sua mulher, Liz, “a missão de zelar pela influência familiar na empresa10 ”.

Dessa forma, a família se afirma cada vez mais como um modelo de administrar empresas. Rupert Murdoch e Silvio Berlusconi, por sinal, já colocaram os descendentes no comando de seus grupos. Lachlan Murdoch, de 31 anos, por exemplo, diretor-geral da News Corporation, surge como o delfim designado por seu pai e como mola-mestra para garantir os mercados financeiros. Garante a Rupert Murdoch, com 72 anos, sua própria perenidade à frente de suas empresas. James, o filho caçula, também abiscoitou uma boquinha no grupo enquanto presidente da Star TV, leque de canais por satélite que serve a Ásia. Antes de tomar o controle da B SkyB.

Novo feudalismo

As grandes famílias perpetuam seu poder à moda de uma sociedade aristocrática procurando, na comunicação, os meios de controlar a opinião pública

Quanto a Berlusconi, confiou a seu filho Pier Silvio a vice-presidência da Mediaset. Sua filha Marina é presidente, não-executiva, do grupo editorial Mondadori. Graças às ações que sua família detém na Fininvest, holding da Mediaset, Berlusconi não controla diretamente suas empresas do setor audiovisual. Este estratagema permite-lhe fazer ouvidos moucos às denúncias de conflito de interesses induzidas por seu domínio sobre os principais canais privados de televisão do país e, enquanto chefe do governo, o controle simultâneo do grupo público da RAI.

Daria para avaliar o que representa uma tal hegemonia familiar nos meios de comunicação? Antonio Di Pietro, que liderou, na Itália, a operação “Mãos Limpas”, menciona o fantasma de um “novo feudalismo”, caracterizado pela existência de “grupos detentores de grandes poderes na economia e na mídia, que os utilizam posteriormente para colocar seus homens na condução do Estado”. Sem ir tão longe, vale questionar o papel desempenhado pelas grandes famílias proprietárias de meios de comunicação na aceitação, pela própria mídia, da ordem estabelecida pela reprodução das elites. As grandes famílias perpetuam seu poder à moda de uma sociedade aristocrática procurando, nas alavancas da comunicação, os meios de controlar a opinião pública. Jacques Bouveresse demonstra, em seu livro sobre Karl Kraus, que a força da imprensa é tão grande que seu poder não pode, na prática, ser contestado senão por ela própria. Ela é, diz ele, “o único poder realmente absoluto11 ”. O sonho de qualquer potência dinástica.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Challenges, Paris, 10 de julho de 2003.
2 - L’Express, Paris, 31 de outubro de 2002.
3 - Ler, de Olivier Toscer, Argent public, Fortunes privées, ed. Denoël, Paris, 2002, p 109.
4 - Stratégies, Paris, 21 de março de 2003.
5 - Ler, de Olivier Toscer, op. Cit.
6 - Ler, de Olivier Toscer, op. cit., p. 277.
7 - Cf. “Pinault joue les censeurs”, Le Canard enchaîné, Paris, 6 de dezembro de 2000.
8 - L’Humanité, Saint-Denis, 10 de janeiro de 1998.
9 - Editora Fayard, Paris, 1997.
10 - Welt am Sonntag, fevereiro de 2003.
11 - Ler, de Jacques Bouveresse, Schmock ou le triomphe du journalisme, ed. Seuil, Paris, 2001, p. 75.




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