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NEGÓCIOS

À esquerda... mas com os patrões

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Os governos “de esquerda”, na França, inauguraram uma nova etapa na história da corrupção e da promiscuidade entre o público e o privado, convocando executivos e bilionários para assessorar a República. Chamaram isso de “modernidade”

Olivier Toscer - (01/12/2003)

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O grupo Pinault negociou com o Ministério da Economia um acordo de dezenas de milhões de euros, quando o chefe de gabinete era o seu representante

Quando foi nomeado ministro da Economia e das Finanças do governo dirigido por Lionel Jospin, em março de 2000, Laurent Fabius decidiu lançar um sopro de “modernidade” em Bercy ao entregar a direção de seu gabinete a um grande executivo do setor privado. O cargo foi então proposto, consecutivamente, a dois ex-membros do gabinete Bérégovoy (1992-1993), Guillaume Hannezo e Denis Olivennes, o primeiro então na diretoria da Vivendi e o segundo na do Canal Plus, do qual a Vivendi é o principal acionista1.

Estes dois companheiros de estrada do PS, convertidos à religião dos jatos particulares e das stock-options, declinaram polidamente a oferta. Fabius se virou, então, para um de seus ex-chefes de gabinete, Serge Weinberg, que se tornara o braço direito de François Pinault. Weinberg atraiu a atenção do ministro para um de seus quadros mais promissores. Bruno Crémel, fiscal da Receita de licença, responsável pelas atividades do grupo Pinault-Printemps-Redoute (PPR) na Internet, tornou-se assim chefe de gabinete do ministro da Economia e das Finanças, ficando dois anos no cargo. Uma vez consumada a derrota presidencial do candidato Jospin, Crémel voltou novamente para o grupo Pinault, onde é o segundo homem de uma das filiais, a Fnac.

O conselheiro, “socialista”, da Vivendi

Apesar do caráter inédito na República – ou que deveria ser – deste empréstimo temporário, por uma empresa particular, de um de seus colaboradores ao governo, o episódio suscitou apenas algumas linhas, nas colunas “nomeações”, dos jornais econômicos. Mais surpreendente ainda, nenhuma investigação foi feita para analisar o comportamento do Estado em relação ao grupo Pinault numa época em que o industrial estava negociando com o Ministério da Economia um acordo fiscal de várias dezenas de milhões de euros.

O diretor de gabinete meio-público/meio-privado de Laurent Fabius não é necessariamente responsável pela política conduzida por seu ministro. Mas esta não teve nada que lhe desagradasse nem ao seu ex-futuro empregador. Foi, na verdade, Laurent Fabius que, convencido de que “a esquerda não corria grande risco de ser derrotada pela direita, mas, sim, pelos impostos e pelos encargos2”, decidiu baixar o imposto de renda, uma opção “conservadora”. Inclusive a sua fatia marginal, se aplicando aos contribuintes mais ricos: foi a primeira vez na história da esquerda que uma decisão fiscal desta natureza foi tomada.

A consciência das preocupações de mercado pelo governo deve-se à migração para o setor privado de uma geração de conselheiros governamentais socialistas

A passagem de Fabius para o Ministério das Finanças resultou também num fracasso na venda das licenças UMTS às operadoras de telefonia. Fixado pelo Estado no início do ano 2001 em 4,85 bilhões de euros (17 bilhões de reais), o preço de cada licença foi baixado para 619 milhões de euros (2,16 bilhões de reais), ou seja oito vezes menos, sob pressão de Messier. Uma vez o acordo fechado, o dono da Vivendi Universal se recusou a pagar o valor alegando que o preço de início era ilegal. Sua argumentação se apoiava numa consulta jurídica redigida pelo jurista Guy Carcassonne, ex-conselheiro de Michel Rocard e próximo dos socialistas3.

As relações consangüíneas público-privado

A consciência das preocupações de mercado pela esquerda no governo deve-se, em grande parte, à migração para o setor privado de uma geração de conselheiros governamentais socialistas por uma quinzena de anos. A trajetória de Jean-Charles Naouri, irredutível chefe de gabinete de Pierre Bérégovoy (primeiro, no Ministério dos Assuntos Sociais, e depois no Ministério das Finanças), é exemplar. Arquiteto da liberalização dos mercados financeiros, este doutor em ciências, formado na escola politécnica, fiscal da receita, diplomado por Harvard, deixou o mundo da política em 1986 para testar in vivo a confiabilidade das novas regras financeiras de sua autoria. Atualmente, dono das empresas Casino, Rallye e Go Sport, este ex-apreciador dos romances sociais de Jean Guéhenno (um autor muito em voga nos tempos da Frente Popular), é hoje em dia um bilionário em euros.

As relações consangüíneas público-privado são mais claras ainda quando examinamos a trajetória de alguns caciques socialistas como Jean-Paul Huchon, que foi chefe de gabinete do primeiro-ministro Rocard, braço direito de Pinault e vice-presidente de uma consultoria de head-hunters antes de se tornar presidente da região administrativa de Ile-de-France. Outro exemplo claro é o de Marc-Antoine Jamet, ex-diretor-adjunto de gabinete de Henri Emmanuelli, então presidente da Assembléia Nacional (Parlamento), depois chefe de gabinete de Laurent Fabius no Ministério das Finanças e hoje secretário-geral do grupo Louis Vuitton Moet Hennessy (LVMH), de Bernard Arnault, o que lhe deixa ainda um tempinho para continuar como membro do conselho nacional do Partido Socialista. O patrão do grupo LVMH, rei da indústria do luxo, teria, aliás, dificuldades em dissimular sua consideração para com o mundo político, tanto ele instaurou, como método de gestão de recursos humanos, a contratação nos palácios da República. Foi desse modo que ele nomeou diretor de estratégia de sua divisão “moda”, Christophe Girard, atual vice-prefeito de Paris, encarregado da cultura.

Uma “mão generosa” para um ministro

O governo Jospin privatizou a estatal Aérospatiale em favor da Matra (do grupo Lagardère) a um preço inferior ao da avaliação dos peritos oficiais

Através destas trajetórias é possível ver como as lógicas particulares entram cada vez mais naturalmente na definição das políticas públicas. Foi assim que, em 1999, o governo Jospin privatizou a Aérospatiale, uma das pontas-de-lança da Defesa nacional, em favor da Matra (grupo Lagardère) a um preço inferior ao da avaliação dos peritos oficiais. Para convencer o primeiro-ministro de que o Estado realizava assim uma obra de política industrial inteligente, Jean-Luc Lagardère delegou o trabalho de convencimento a um dos seus sargentos mais conhecidos, Jean-Louis Piette, ex-colaborador de Lionel Jospin quando este era primeiro secretário do PS4 Responsável pelo dinheiro público nesta operação, Dominique Strauss-Kahn, que antecedeu Fabius no Ministério das Finanças, também não encontrou nada para falar. É verdade que este cacique do Partido Socialista – que passou para os negócios assim que sua sorte eleitoral começou a lhe ficar desfavorável – reivindica uma concepção especial da eficácia na política: “Eu nunca teria tratado o problema (…) da Aérospatiale como tratei”, declarou certo dia, “se não tivesse visto por dentro o que é uma empresa5.” Na mesma entrevista, o ex-ministro elogiava sua própria ação no caso do Crédit Lyonnais, isto é, a nomeação de um novo responsável na direção do consórcio, empresa pública encarregada de acertar as dívidas do antigo banco (público). Na verdade, em dezembro de 1997 Strauss-Kahn nomeou para esta posição estratégica o ex-patrão da Renault, Raymond Lévy. Para surpresa do Tribunal de Contas, até lhe reservou uma remuneração real: 260 mil euros (910 mil reais), o que, por um trabalho em tempo parcial, corresponde a uma soma superior à que ganham, em tempo integral, os diretores-presidentes das estatais de ferrovias e de eletricidade.

É importante lembrar que, para Strauss-Kahn, Lévy é no mínimo um amigo, ou pelo menos uma mão generosa. Quando das dificuldades enfrentadas por Strauss-Kahn, entre 1993 e 1997, Raymond Lévy criou o Círculo da Indústria, um grupo de pressão patronal que tinha por objetivo preservar os interesses das grandes empresas francesas em Bruxelas. Entregou a vice-presidência – o escritório, a secretária e as despesas aferentes – a um homem de confiança. O ex-ministro socialista.

(Trad.: David Catasiner)

1 - O primeiro, demitido ao mesmo tempo que Jean-Marie Messier, tenta hoje em dia desenvolver sua própria empresa de consultoria. O segundo, demitido do Canal Plus com uma indenização de três milhões de euros (10,5 milhões de reais), dirige a FNAC, filial do império Pinault.
2 - Ler entrevista de Laurent Fabius, “De la nécessité de la stabcroissance” Le Monde, 25 de agosto de 2000.
3 - Carcassonne, que foi de 1988 a 1991 assessor do primeiro-ministro Michel Rocard para as relações com o Parlamento e a imprensa, foi em seguida consultor do grupo Vivendi. Desempenhou um papel importante no momento em que o governo Jospin pensava em tomar medidas anti-concentração em matéria de rádio e televisão. Carcassonne advogou contra este tipo de medidas. Ler, sobre este assunto, de Serge Halimi, “M. Bouygues peut dormir tranquille”, Le Monde diplomatique, maio de 1998 e, de Pierre Richard, “Comment la loi audiovisuelle a fondu sous le feu des lobbies”, Le Canard enchaîné, 4 de fevereiro de 1998. Guy Carcassonne também é editorialista no semanário Le Point.
4 - In Thierry Gadault e Bruno Lancesseur, Jean-Luc Lagardère, corsaire de la République, ed. Le Cherche-midi, Paris, 2002.
5 - Le Figaro, 29 de setembro de 2000.




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