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BRASIL

O som do país de Lula

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Em um país de forte musicalidade, a chegada de Lula ao poder também é acompanhada pela ascensão de uma geração de músicos que faz uma nova mistura de tradição, ritmos rurais e samba com sintetizadores, rock e rap e que procura selos independentes para se fazer ouvir

Jacques Denis - (01/12/2003)

Lenine não quer ser porta-voz de uma “boa” consciência coletiva. Para ele, sua geração corresponde ao plural de subjetivos conjugados

“O Brasil não chegou à puberdade, por causa da elite colonial, que nos inculcou as idéias do individualismo e da rentabilidade. Minha geração é solitária, mas tem que ser solidária”. Essa afirmação em forma de slogan foi assinada pelo músico Lenine. Natural de Recife, esse vivaz quarentão deve o nome a seu pai, membro do Partido Comunista (PC) no Nordeste brasileiro. Em sua casa, a gata se chamava Rosa Luxemburgo e o cachorro Fidel. O irmão chamava-se Ernest Renan, a mãe praticava a macumba. Em resumo, na casa desse ex-estudante de Biologia, o socialismo é surrealista, tropical e, mais do que nunca, atual.

Como seu ilustre homônimo, Lenine quer que o mundo mude. Em “Falange Canibal” 1, ele agradece a todo o planeta, a começar por Jesus e por Fidel: “Apesar de seus erros, Fidel continua a ser o grão de areia diante dessa enorme máquina bem lubrificada. É preciso que alguém provoque a besta com um pedacinho de pau”. Cabelos tão longos quanto as idéias, ele quer “construir uma nova civilização, que será tão bela quanto nosso sonho de nação”, para retomar as palavras de uma de suas canções. Mas atenção, Lenine não quer ser porta-voz de uma “boa” consciência coletiva. Para ele, sua geração corresponde ao plural de subjetivos conjugados. Em matéria de música, ele produz um coquetel de danças rurais e de riffs rock, de tamborins com guizos e de sintetizadores eletrônicos. O som do Brasil de Lula.

Proteína na verborréia da esquerda

Lenine não é o primeiro, e muito menos o último, a colocar em jogo sua experiência no duro terreno da realidade de um país continental, em contato direto com os paradoxos da época e recém- acordado de anos de neoliberalismo, da forca feudal e do populismo “militar”. No final da década de 60, surgiram os tropicalistas, movimento de contestação à ditadura militar, que seguiu a revolução (estética) de veludo da bossa nova, banda sonora do Novo Brasil construído pelo presidente construtor Juscelino Kubitschek e seu arquiteto Oscar Niemeyer.

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Tom Zé, esse livre agitador do tropicalismo, é o guia “não reivindicado” da nova geração que vai buscar sua energia longe dos domínios congelados da indústria do disco..

Gilberto Gil e Caetano Veloso eram os dois ícones de uma banda de amigos, em sua maioria originários da classe média e que saíram da universidade. Hoje, o primeiro é Ministro da Cultura de Luiz Inácio Lula da Silva, o segundo triunfa sob os lambris das salas do mundo inteiro, mas é Tom Zé, figura mais desconhecida do movimento que aparece como última referência. “Em 2001 me convidaram para participar do Fórum de Porto Alegre. Era preciso, para ser pertinente, evitar repetir o que os outros martelam: vamos criar um outro mundo, realizar a justiça social. Trombei com um neologismo: unimultiplicidade. Cada um está sozinho na casa da humanidade. Embora não seja espetacular, esse verso tem pelo menos um pouco de proteína e de ossatura no meio da verborréia da esquerda.”

Guia “não reivindicado”

Quarenta anos depois de sua estréia, Tom Zé continua a fertilizar o solo de sua diferença entre tradição e abstração pós-moderna. Nascido em 1936, em Irara, uma cidadezinha do Nordeste, “onde se vivia ainda como no século XVI”, esse livre agitador do tropicalismo é o guia “não reivindicado” da nova geração que vai buscar sua energia longe dos domínios congelados da indústria do disco... No Brasil, mais de 95% do mercado oficial é controlado pelas grandes empresas, difundidas por poderosos grupos mediáticos. Uma situação que lembra a da França e a dos Estados Unidos, mas mais caricatural.

Um segundo mercado acolhe uma grande quantidade de produções independentes, do rap ao folclore, também sem concessão, que remetem aos princípios de autogestão de alguns municípios do Partido dos Trabalhadores (PT). A maior parte encontrou nos selos independentes refúgios apropriados para se fazer ouvir e às suas divergências de estilo e de fundo: Nikita, Natasha, Rob Digital ou ainda Trama, a mais importante. Tantas estruturas que são câmaras de eco de um movimento que se enraíza sobretudo no palco.

Apropriação do folclore

No Brasil, mais de 95% do mercado oficial é controlado pelas grandes empresas, difundidas por poderosos grupos mediáticos

Com o braço tatuado “Forró” 2 e um ombro mostrando uma capa de Frank Zappa, Silvério Pessoa é extremamente parecido com Lenine. Ele também mistura gêneros e épocas para dar sua versão do mundo, entre contribuições tecnológicas e apropriação do folclore. Entre global e local, existe uma lacuna a ser ampliada: o “glocal”. “Afirmar em alto e bom tom nossa diferença diante de uma globalização, que normaliza todas as diferenças. Muitos dos nossos sofrem com a ditadura do Fundo Monetário Internacional e com a imposição das normas que nos são estrangeiras!”

Antes de ficar famoso, durante dez anos ele foi educador e trabalhador social entre os sem-terra. Não se trata de esquecê-los: seu tambor de boca ecoa os que não têm voz nem teto. Ele não hesita em apontar as primeiras renúncias de Lula, quando este cedeu ao FMI, cortando preciosas linhas de crédito para a educação. Embora não queira também perder suas ilusões, Silverio Pessoa salienta as escolhas de sociedade que o governo deve tomar. “Seja no sentido das democracias européias, e o risco é de “se imobilizar”, como na Argentina; seja a de se aliar a todos os atores da área, seus suportes históricos, que têm uma experiência alternativa a ser valorizada, como as organizações não-governamentais nas favelas e o trabalho conduzido pelo Movimento Sem Terra. A partir de agora, o caminho passa por uma união dos povos da América Latina e pelo fim de nossa tutela pelos Estados Unidos”.

Na música, esse nordestino abre também uma terceira via, mais radical. Se seus dois primeiros opus3 “descreviam a trajetória de um homem do campo que se urbaniza”, o seguinte faz o caminho inverso: “Um homem da cidade, que vê no novo governo brasileiro a chance de voltar às suas raízes.” Em compensação, nunca se sabe se esse neto de camponês do sertão, a região mais deserdada do Brasil – atingida há mais de vinte anos pela crise da cana-de-açúcar –agradecerá também a Jesus e a Karl Marx..

Música para resistir

Carlinhos Brown fundou a associação Pracatum Ação Social, visando reduzir as desigualdades sociais. Seu credo: “Que o Brasil se organize, que organize suas ruas.”

No caso de Totonho sim. Seu primeiro disco*4 foi dedicado a Fidel, a Madona e a Jesus, no estilo simbólico de um Pasolini dos trópicos. “A música brasileira muda de campo: ela parou de fazer simplesmente a festa. Os que estavam à margem do sistema começam mesmo a sair do país”. Sem parar durante quarenta anos, o natural de João Pessoa não faz outra coisa senão contar o que vive. Uma infância em um meio modesto, um trabalho muito cedo como carregador de água no Nordeste, em seguida como operário metalúrgico em São Paulo, ao mesmo tempo que estudou em uma faculdade de artes. E sempre a música para resistir.

Desde 1990, Totonho trabalha ativamente em uma ONG carioca, Ex-Cola. “Um nome que significa ao mesmo tempo excluídos e escola. No início, tratava-se de recuperar os jovens pobres que cheiravam cola. A partir de agora, trabalhamos com aqueles que sofreram violência e com os que a praticaram. Eu lhes proponho repensar as regras de relação com o mundo, com o outro, a refazer o vínculo por meio da música.”

O bom rebelde

Carlinhos Brown trabalha na mesma área há muito tempo. Em novembro de 2002, recebeu um prêmio da Unesco por ter fundado a associação Pracatum Ação Social, visando reduzir as desigualdades sociais. Seu credo: “Que o Brasil se organize, que organize suas ruas.” “Tribalistas”, esse disco “anti-movimento”, que faz sucesso há um ano no Brasil, é a face mais manifesta dessa nova onda que porta as esperanças suscitadas com a chegada do PT ao poder

Músico procurado por todas as estrelas da música popular brasileira, o ex-adolescente dos bairros marginalizados da Bahia “Negra”, continua a ser, antes de mais nada, o produtor emérito da Timbalada, coletivo de jovens que batem nas peles dos tambores, e um exemplo para todas essas crianças de Candeal Pequeno, o bairro em que ele construiu a base principal de projetos que vão além do âmbito da música. “Eu me considero um segmento cultural e não um artista que, como o político eleito por votos, foi sancionado por vendas de discos. Não procuro limitar meu tempo, exatamente para trazer um testemunho e uma ação que permitam escapar do que minha família suportou. O que busco é o exercício da cidadania, que passa pelo respeito ao outro. Estamos em uma sociedade que valoriza muito o intelecto e não o indivíduo. É preciso que os comportamentos se modifiquem: trabalhar menos e não, ganhar mais. Ser rebelde hoje é bom. É preciso se ocupar dos doentes, dos velhos que, quando morrem, partem com uma parte de nossa memória. A sociedade se fode com isso! É o que tento recuperar.”

Início de uma verdadeira mudança

Carlinhos Brown acaba de lançar um álbum que ele se rebatiza Carlito Marrom5 , “história de relatinizar nossa herança” e de restabelecer laços Sul-Sul. É sobretudo o signatário junto com o poeta Arnaldo Antunes e a cantora Marisa Monte de “Tribalistas”. Esse disco “anti-movimento”, que faz sucesso há um ano no Brasil, é a face mais manifesta dessa nova onda que porta as esperanças suscitadas com a chegada do PT ao poder. “Alguns gostariam que isso voasse mais rapidamente, mais longe. É preciso desejar que Lula seja o início de uma verdadeira mudança na maneira de governar, que ele não tenha perdido sua consciência com todas as suas responsabilidades.”

Foi justamente em Recife que tudo começou com o mangue beat, personificado por Chico Science, de quem a morte acidental em 1997 simplesmente aumentou a lenda

A carioca Marisa Monte não é a única que cresceu com esses ideais. Nação Zumbi, Pedro Luis, DJ Dolores, O’Rappa, Cabruera... Eles se agitam nos bailes funks do Rio proleta, eles se movem na vanguarda eletro de São Paulo, eles se consideram, herdeiros do Quilombo dos Palmares6. Muitos são originários do Nordeste, retomam de outra maneira a via dos repentistas ou emboladores7. Foi justamente em Recife que tudo começou com o mangue beat8, personificado por Chico Science, de quem a morte acidental em 1997 simplesmente aumentou a lenda. Da mesma maneira que os rappers, essa criança do gueto foi uma das primeiras a misturar o sons das favelas, as lições dos mestres da música e as palavras aplicadas para testemunhar a miséria. “Na casa de Chico Science, o modelo não é musical. Nossa experiência mostra o valor de nossa tradição, sua dimensão atual, a viabilidade desse projeto no Recife.”

Membro do coletivo Mestre Ambrósio, o violonista Siba faz vibrar sua tradição “onde ele vive”. Lá onde se encontra a raiz comum a todos: em uma música com sabedoria e viva, nunca separada do povo, de suas preocupações. Como diz Tom Zé, “dizem que o Brasil não tem terremotos, isso é falso! O Brasil está em permanente trepidação por causa da força do folclore sob a terra. Algo como 14 graus na escala de Richter!”

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - “Falange Canibal ” (RCA/BMG, 2002) faz referência a um coletivo de artistas do Rio na década de 1980.
2 - O forró é uma música – e uma dança - popular do Nordeste, que se toca com violão, percussões e acordeon.
3 - “Bate o Mancá ” (Natasha records/Import) / “Batidas urbanas/ Projeto Micróbio do Frevo ” (Companhia Editora de Pernambuco / Import).
4 - “Totonho e os Cabra” (Trama/Night&Day).
5 - “Carlito Marron ” (Ariola/BMG).
6 - Revolta de escravos ocorrida o Nordeste do Brasil, que criou o primeiro poder pan-africano que fez a secessão ao longo do século XVII.
7 - Esses cantores nômades improvisavam nas feiras desafios poéticos, em que se trocam palavras enraizadas no cotidiano e nas fábulas alegóricas sobre lendas locais. Essa tradição ainda é muito viva no Nordeste, onde prospera a literatura de cordel, pequenos impressos pendurados em cordões estendidos como varais.
8 - Foi no início da década de 1990 que o movimento alternativo conhecido como mangue beat começou do Nordeste.




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