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O Kremlin contra os chefões

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Diante da iminência de novas privatizações, Putin desfechou o primeiro golpe à oligarquia que controla hoje setores estratégicos da economia russa, evitando que elas dessem as cartas sozinhas. Mikhail Khodorkovski, o chefão da Yukos, foi o primeiro alvo

Nina Bachkatov - (01/12/2003)

A comunidade internacional conta os pontos, tentando salvar ao mesmo tempo sua imagem e seus interesses, apesar de suas próprias contradições

O desfecho do conflito que opõe, desde julho, o Kremlin ao magnata do ouro negro Mikhail Khodorkovski decidirá o rumo da Rússia na próxima década. A poucas semanas das eleições legislativas de 7 de dezembro, o choque se tornou inevitável desde que certos chefões, o ex-diretor da Yukos1 à frente, queriam “privatizar” a próxima Duma2 , obtendo nela uma minoria de bloqueio. Mas o presidente Vladimir Putin tomou também a iniciativa devido à iminência de novas privatizações – dos monopólios do estado como a Gazprom – e da chegada de grandes investimentos estrangeiros em setores estratégicos: ele não podia aceitar que os chefões, reforçando seu domínio sobre a economia, decidissem sozinhos as condições nas quais as empresas multinacionais tomariam pé no país. A comunidade internacional conta os pontos, tentando salvar ao mesmo tempo sua imagem e seus interesses, apesar de suas próprias contradições. Depois de ter oferecido aos países saídos do comunismo as chaves da “democracia” e o “mercado”, espera não ter de escolher entre o homem do Kremlim e o mundo dos negócios e sonha que está emergindo uma personalidade capaz de vestir de uma maneira confiável a toga de defensor dos valores democráticos e da livre empresa. Homens considerados ontem como escroques vulgares tornaram-se assim os campeões das liberdades porque aceitam dividir com o Ocidente os frutos de sua engenharia financeira e se opõem aos « estatistas » agrupados em volta do “ex-espião” Putin – antigo membro do KGB. No Ocidente, as pessoas se inquietam mais com sua própria sorte do que com a de dezenas de milhões de vítimas do desmoronamento pós-comunista. Quanto a estas, estão alegres de ver um magnata cair de novo na gleba de onde ele tinha saído às custas delas.

O caso Yukos

Homens considerados ontem como escroques vulgares tornaram-se assim os campeões das liberdades porque aceitam dividir com o Ocidente os frutos de sua engenharia financeira

O caso Yukos começa em 19 de junho de 2003 com a prisão de Alexei Pitchuguin, chefe dos serviços de segurança, acusado de dois assassinatos e de uma tentativa de homicídio em 1998. Dia 3 de julho, é a vez de Platon Lebedev, acionista da empresa e presidente do seu braço financeiro, a Menatep: ele é preso e acusado de diversas infrações financeiras no âmbito da privatização do grupo de fertilizantes Apatit (1994) e de implicação no assassinato em 1998 de um prefeito que lutava para forçar a Yukos a pagar seus impostos atrasados. O procurador geral vai convocar também o presidente, Mikhail Khodorkovski e seu assessor Leonid Nevzline, refugiado desde então em Israel. Cena teatral no dia 25 de outubro: Khodorkovski reúne-se a Lebedev na prisão, sob sete acusações entre as quais roubo organizado em grupo, estelionato, evasão fiscal, falsificação. Os dois homens, que negam os fatos, podem pegar dez anos de prisão.

No dia 30 de outubro, o procurador geral bloqueia 44% das ações do grupo, avaliadas em 15 bilhões de dólares. Mas o chefão teria percebido antes a manobra e já não possuiria mais que 9,5% das ações, o resto tendo sido transferido para a Yukos Universal e Halley Enterprises, duas entidades pertencentes à Menatep Gibraltar, uma companhia irmã da Menatep. Em um gesto de desafio, a sociedade oferece 2 bilhões aos seus acionistas, um dividendo recorde que cai em grande parte na pasta de Khodorkovski (e do chefão Roman Abramovitch, que havia adquirido 26% da Yukos no momento da venda de uma outra companhia russa, a Sibneft). Khodorkovski abandona então a presidência do conselho de administração “para o bem da empresa e dos funcionários” e anuncia que se dedicará à fundação Rússia Aberta, criada em 2001 a fim de promover a “sociedade civil”. Seu sucessor é Simon Kukes, naturalizado americano, retornado em 1996 como vice-presidente da Yukos, que havia passado pela TNK (Petróleos de Tiumen), em 1998, pelo tempo suficiente para negociar o investimento da British Petroleum (BP), de volta a Yukos neste verão. A companhia conta agora com três diretores americanos para quatro russos.

Medida de salvaguarda

Essas prisões acontecem no momento em que a Yukos dá uma reviravolta histórica – a fusão com a Sibneft e as negociações visando a venda de ações a uma multinacional

Segundo o procurador, o bloqueio das ações não é um confisco, mas uma medida de salvaguarda, já que Khodorkovski e seus amigos devem ao Estado um bilhão de dólares. Nada de excepcional nisso: desde o começo do ano, 3 000 processos foram abertos contra os refratários ao imposto. Mas o peso da empresa e a personalidade do seu diretor dão uma dimensão internacional ao caso. Percurso clássico, o deste ex-apparatchik3 4: primeiros dólares acumulados em “pequenos negócios”, injeção desses dólares na Menatep, que prospera jogando com as taxas de câmbio, apoio à reeleição de Boris Yeltsin em troca de acesso privilegiado às empresas públicas. Vem em seguida a fase de “consolidação”, quando tudo serve para forçar outros proprietários menos protegidos a vender, bem como os famosos “diretores vermelhos”, que privatizaram suas empresas comprando ações de seus empregados. Firmas são esvaziadas de sua substância para justificar compras a preços irrisórios e financiar a corrupção dos funcionários, da polícia, dos juízes. Essas prisões acontecem no momento em que a Yukos dá uma reviravolta histórica – a fusão com a Sibneft e as negociações visando a venda de um pacote de ações a uma multinacional. No começo de outubro, a ExxonMobil, a maior companhia petrolífera do mundo negocia a compra de 40 a 50% das ações da Yukos por cerca de 25 bilhões de dólares5. Khodorkovski havia comprado a empresa por 300 milhões de dólares, mas esta foi avaliada em 30 bilhões na época da fusão!

Controle do Estado

O presidente Putin não recusa a entrada maciça do capital estrangeiro em um setor vital, mas ainda não escolheu entre a ExxonMobil e a TexacoChevron. Acima de tudo, o Kremlim quer que o Estado controle a operação: nada de deixar um chefão legitimar, por meio desta venda, os bilhões que ele ganhou. Putin, aliás, confirmou a próxima privatização dos setores de transporte e distribuição de energia, com exceção dos oleodutos e gasodutos que ele quer manter sob o controle dos Estado – pois o desenvolvimento deste vasto país depende de sua infra-estrutura. Khodorkovski já havia declarado seu interesse pela Gazprom. Enfim, por falta de uma direção, os chefões iam de novo consolidar seu poder, contrariando as tentativas de diversificação e uma das grandes apostas da segunda presidência de Putin: reduzir ao menos um pouco o fosso entre ricos e pobres. Oposição entre “estatistas” e “liberais” De fato, o boom econômico obriga o país a diversificar uma economia dependente demais de matérias primas e impõe uma escolha entre “estatistas” e “liberais”. Segundo a expressão do ministro das Finanças Alexei Kudrin, seria perigoso que a Rússia continuasse a “depender dos chefões, do preço elevado do petróleo, de bancos dopados artificialmente e de falências falsas6”.

O presidente Putin não recusa a entrada maciça do capital estrangeiro em um setor vital. Acima de tudo, quer que o Estado controle a operação

Segunda aposta: os prazos eleitorais. Khodorkovski gabou-se de ter conseguido bloquear na Duma projetos contrários a seus interesses. Ele financia toda a oposição de modo a poder matar no ovo a legislação preparada pelo governo para aumentar os impostos sobre as indústrias extrativas em proveito das pequenas e médias empresas e outros produtores estratégicos como a agricultura e defesa. Não contentes em privatizar o parlamento, os chefões fazem o mesmo com os serviços públicos financiando hospitais, escolas e transportes à sua escolha em vez de pagar seus impostos. Como Khodorkovski rompeu o pacto de não-agressão da primavera de 2000, que delimitava as zonas de influência do político e do econômico, o presidente Putin acreditou que tinha chegado o momento de se livrar dos restos da família yeltsiniana. Sem dúvida ele acha a Rússia rica o suficiente para poder fazer uma pausa, com tempo para digerir o caso sem muita agitação internacional. Como diz um jornalista russo, “não é porque o Ocidente, tardiamente, apaixonou-se pelos chefões que eles merecem tanta afeição7”.

Choque frontal

O caso nunca teria tomado essa amplitude se a Rússia tivesse desenvolvido, sobre as ruínas do comunismo, outras forças além de um executivo poderoso e uma oligarquia monopolística (partidos políticos, organizações sociais, pequenas e médias empresas...). Estes dois pilares haviam coexistido na época de Yeltsin na medida em que eles eram interdependentes: a ruptura do equilíbrio entre eles provocou um choque frontal. Desde sua chegada à presidência, Putin anunciou que iria “suprimir os chefões como classe”. Durante três anos, não fez nada em relação a isso, como se fosse incapaz de rebaixá-los. Quando estoura a crise, o Kremlim fica mudo por vários dias. Quando enfim o presidente fala, é para afirmar que é preciso deixar a justiça seguir seu curso, que todos os russos devem ser iguais diante dos impostos, que as privatizações não serão questionadas mas que os crimes não ficarão impunes. Para os estrangeiros, ele fala de proteger melhor os acionistas minoritários, maltratados pelos chefões e anuncia o fim do monopólio da Gazprom “daqui a meses, não nos próximos anos”.

Sem “base” nem partido

Nessa queda de braço, o presidente sofre pelo seu passado. Ele alcançou o poder sem “base” nem partido, nem círculo pessoal. Yeltsin fez-lhe prometer não atacar seus próximos. Sem quadros, Putin não confia em ninguém, cerca-se de pessoas cuja origem o tranqüiliza, veteranos de São Petersburgo e dos serviços secretos. Uma reserva de pessoas devotadas a seu país, dotadas de um senso do dever, que detestam a corrupção, mas cujo monolitismo projeta aquela imagem de clã que ele queria eliminar com a “família”. Fugindo dos conflitos abertos, ele demora a se livrar dos quadros herdados de seu predecessor. Vai ser preciso esperar o caso Yukos para que ele derrube Alexandre Volochin, o chefe da administração presidencial, cuja partida simboliza a mudança das elites. Não é, em si, o sinal de que o presidente se ligou a um clã, seja o dos siloviki (homens da segurança) ou dos democratas liberais. A nomeação de Dimitri Medvedev, secundado por Dimitri Kosak [no lugar de Volochin], revela o peso de jovens juristas de São Petersburgo sem passado nos serviços secretos. Mesmo assim, os veteranos destes últimos têm contatos privilegiados com as empresas de defesa. Esta componente da elite econômica – a terceira, junto com a energia e a grande indústria – ficou fora das primeiras privatizações e quer aproveitar a próxima onda.

Look estudado

O objetivo do Kremlin é não deixar um chefão legitimar, por meio da venda de um setor vital, os bilhões que ele ganhou

Desde sua prisão, Khodorkovski é apresentado como “homem de negócios e filantropo”. Seu modelo é a América; seu sonho, correr o mundo como George Soros e Bill Gates para dar uma opinião sobre tudo. ”Patriota” como todos os chefões, declara em seu comunicado de 30 de outubro: “onde eu trabalhar, consagrarei todas as minhas forças ao meu país, a Rússia, e a seu futuro, no qual eu creio firmemente”. É um sinal para aqueles que, por dentro, esperam que ele vá deixar o país e por fora, qualificam de anti-semita a campanha que mira os chefões judeus – isto é, a maioria deles. De agora em diante, ele vai dedicar-se à sua fundação. Khodorkovski se apresenta como o homem capaz de conduzir a Rússia para o caminho da democracia. Sedutor, o personagem sempre se quis diferente: um businessman de perfil internacional, com um look cuidadosamente estudado, levando uma vida tão discreta, que quando seus aborrecimentos começam, poucos russos o conhecem. Seu orgulho, assegura o comunicado que anuncia sua demissão, é ter “criado a empresa mais eficiente do país”, uma das empresas “líderes da economia mundial”, graças aos “princípios de transparência financeira e de responsabilidade social dos negócios”. Sob sua direção, o valor do grupo foi multiplicado por 120 entre 1998 e 2003. Mas este homem apressado é prejudicado por sua impaciência e sua arrogância. Ele se sente acima das leis, visita os Estados Unidos como um chefe de estado, enfim, vê-se califa no lugar do califa. Certo de que o Kremlim procurará o compromisso, põe-se imediatamente de costas para a parede. Enquanto Abramovitch, que desinveste na Rússia, pode-se instalar no exterior. Ele, Khodorkovski, vê seu futuro na Rússia. Não se contenta mais em financiar a eleição de seus lobbistas: quer subir pessoalmente ao ringue, no mais alto nível, em 2008, até mesmo em março de 2004.

Perfil internacional

Consciente do risco, Putin espera, repetindo que o caso concerne Yukos e seu patrão, nada mais, nada menos. A Bolsa não se precipita: se as cotações caem com o anúncio da demissão de Khodorkovski, sobem de novo depois da nomeação de Kukes. E os investidores respiram: a BP anuncia que o projeto de compra da TNK não está sendo questionado; o Deutsche Bank anuncia que vai comprar 40% de um banco de investimento pois o “mercado russo é o maior e o mais importante da Europa”. Para estes meios, Putin representa a estabilidade e não vale mais a pena dizer missa pelo chefão destronado.

O caso nunca teria tomado essa amplitude se a Rússia tivesse desenvolvido outras forças além de um executivo poderoso e uma oligarquia monopolística

De seu lado, Khodorkovski sempre acreditou que seu perfil internacional protegê-lo-ia em caso de conflito com o Kremlim – donde os esforços de seus advogados para envolver a comunidade internacional. Seus amigos americanos pintam o quadro apocalíptico de uma Rússia caindo de novo no totalitarismo, sob o tacão de um tchequista e de seus esbirros. Completamente na mão dos chefões, os jornais nacionais alternam as tomadas de posição dos ultraconservadores: Soros chama à defesa da democracia russa; o influente Richard Perle, presidente do Defense Policy Board, propõe expulsar a Rússia do G-8; Bruce Jackson, iniciador da famosa “Carta dos Dez de Vilna” a favor da intervenção no Iraque, declara que Putin ameaça os interesses os Estados Unidos na Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Um jornal americano revelará os custosos esforços do chefão para se introduzir nos círculos fechados de Washington: ele teria gasto no mínimo 50 milhões de dólares por ano desde 2001, inclusive 1 milhão doado à Biblioteca do Congresso e 500 000 à Fundação Carnegie8. Cortejado pelos institutos de pesquisa sobre a Rússia, que negligenciaram os alunos brilhantes da moda, ele financia generosamente várias instituições neo-conservadoras americanas e abre o conselho de administração de sua fundação a homens influentes, do ex-senador democrata Bill Bradley a Henry Kissinger, passando por lord Rotschild na Inglaterra.

Engano com os ocidentais

Julgando as reações da Casa Branca muito débeis, os advogados de Khodorkovski visitam as capitais européias para conclamar seus dirigentes a inscrever o caso Yukos na ordem do dia da reunião de cúpula União Européia-Rússia de 6 de novembro. Decerto os europeus não esperaram esta pesada ação lobista para se preocupar com a idéia de intensificar a cooperação com um país onde a justiça funciona de maneira tão arbitrária. Mas não querem tomar o partido dos chefões. Eles pouparão, assim, seu anfitrião, qualquer contrariedade, deixando a Chechênia como perdas e danos, enquanto o presidente do Conselho Italiano Silvio Berlusconi ganha de longe este concurso de servilismo político. Aí se vê o quanto Khodorkovski se enganou com os ocidentais. Mas estes últimos também se enganam, do seu lado. Apesar do seu jeito de homem de negócios globalizado, ele permaneceu russo. Construindo seu império, seu objetivo principal não era angariar os milhões: tratava-se de um jogo, em uma escala sem precedente, onde se arrisca a própria vida e a dos outros, e que abre in fine as portas do Kremlim e da Casa Branca. Quanto mais os “novos russos” demonstram excelência na acumulação, mais se interessam pouco pela gestão, que abandonam de bom grado a especialistas estrangeiros. “Para quê trabalhar dezesseis horas por dia, quando posso pagar os melhores administradores do mundo”, declarou um deles. Se, como declara Alexei Kudrin, a Rússia está livre das oligarquias, a pergunta “para fazer o quê?” ainda espera resposta.

Sociedade civil enfraquecida

Khodorkovski gabou-se de ter conseguido bloquear na Duma projetos contrários a seus interesses. Ele financia toda a oposição

A sociedade civil emergente sai enfraquecida deste caso. A imprensa mostrou-se tão melodramática quanto se podia esperar (“Stalin voltou”), enquanto que os canais de televisão, agora controlados pelo poder, demonstravam uma discrição suspeita. Manifestamente, o poder não quis fazer de Khodorkovski um mártir e assim atrair para ele a simpatia dos russos. Quanto às organizações não-governamentais, muitas entre elas foram desacreditadas apoiando sem nuances os chefões pela segunda vez – em nome da liberdade de imprensa em 2000, do liberalismo democrático em 2003. Assim, a diretora do grupo Helsinki de Moscou vê em Khodorkovski um “prisioneiro político do nosso tempo9”. É verdade que muitas ONG russas dependem de verbas vindas de estrangeiros ou de chefões. A população, até aqui, ficou de fora: no fim de outubro, 19% dos russos nunca tinham ouvido falar do caso, e 15% se achavam incapazes de formular uma opinião. Um quarto considerava que o procurador geral tinha agido por iniciativa própria; 70% tinham uma opinião desfavorável aos chefões, mas 49% achavam que uma revisão das privatizações seria nefasta ao país10. Essas contradições impedem os partidos de instrumentalizar a crise tendo em vista as eleições.

Cidadão médio de fora

A sociedade civil emergente sai enfraquecida deste caso. A imprensa mostrou-se tão melodramática quanto se podia esperar (“Stalin voltou”), e as ONGs partidárias dos chefões

De fato, o cidadão médio não conhece muita coisa em matéria de governança e de mundialização. Quando uma sociedade estrangeira compra uma empresa ele reclama, mas admite que o importante é ter um emprego e um salário regular. Ao mesmo tempo, guarda uma ligação visceral com os recursos naturais do país, considerados propriedade coletiva. O que ele retém do caso Yukos é que o chefão acusado vai acabar desfrutando do que obteve ilicitamente. “Quando a Rússia fez privatizações, foi com a idéia de que a propriedade privada seria melhor do que a propriedade estatal. Não para que a propriedade pudesse ser vendida aos Estados Unidos e que Khodorkovski embolsasse os lucros”, resume o analista político Serguei Markov11 . Só um presidente suicida não teria reagido. Mas Putin o fez com uma indecisão inquietante. Ainda agora é impossível saber se ele tomou a iniciativa da manobra ou se se contentou em deixar o procurador geral soltar os cachorros. O comportamento dos investigadores deveria ser estigmatizado, até punido – e não foi o caso. O gabinete reagiu disperso e a Putin, desta vez, faltou totalmente o talento de comunicador. Segundo os investidores que ele encontrou no dia 30 de outubro, ele aposta que se este caso pode ser prejudicial a curto prazo, a longo, permitirá que ele restabeleça a supremacia da lei.

Primeiro round

O presidente ganhou o primeiro round e dividiu a elite economico-financeira do país, mas na administração deste sucesso ele poderia ser seu melhor inimigo. Como saber se ele não superestimou suas forças? No estágio atual, o pesadelo seria um presidente não forte demais, mas fraco.

O presidente ganhou o primeiro round e dividiu a elite economico-financeira do país, mas no estágio atual, o pesadelo seria um presidente não forte demais, mas fraco

Se os “antigos” se agitarem, como Boris Berezovski em Londres, entre os “novos”, os siloviki ocupam um lugar desproporcional nas engrenagens do poder e preferem a força ao diálogo. Mas não se deve exagerar a coesão deles. Estes homens provêm de meios tradicionalmente opostos como o ministério do Interior, as forças armadas, os serviços de informação. Mais ainda, os chefões também procuraram nas suas fileiras para recrutar seguranças as fim de assegurar sua proteção, bem como serviços “analíticos” para comprometer seus rivais – eles também compraram (ou intimidaram) juízes e policiais.

Plano de reconciliação

Até o momento, a remodelação da administração presidencial vai pelo bom caminho. Para o futuro, o “velho sábio da política russa”, Evgeni Primakov, propôs um plano de reconciliação entre dos chefões e o estado, fundamentado em uma contribuição aumentada dos primeiros ao tesouro público, em troca da renúncia do segundo a qualquer revisão das privatizações. Em caso da tomada do controle por estrangeiros, é preciso assegurar-se que o dinheiro obtido não será transferido para o exterior, mas investido na economia nacional12

Foi preciso um mandato a Putin para construir sua própria base, reduzir o caos herdado de seu predecessor e se livrar da “família”. Seu segundo [mandato] permitir-lhe-á testar sua capacidade de impor sua própria linha – se é que ele tem uma. Será vitorioso se impuser o Estado contra os chefões, permitir o acesso à propriedade a camadas mais amplas da população e pavimentar a estrada para um sucessor levando mais longe as reformas. Se for vencido pelos chefões, seu novo mandato resultará num período de estagnação e anunciará uma transição difícil para seu sucessor.

(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - Companhia petrolífera (N.T.).
2 - Parlamento russo (N.T.).
3 - Membro da hierarquia (N.T.).
4 - Juventude comunista.
5 - Cf Financial Times, Londres, 3 de outubro de 2003.
6 - Kommersant Daily, Moscou, 3 de novembro.
7 - Alexei Pankine, Moscow Times, Moscou, 4 de novembro.
8 - International Herald Tribune, Paris, 5 de novembro. 9 = Radio Echo Moscou, 28 de outubro.
10 - Izvestia, Moscou, 30 de outubro.
11 - Moscow Times, 17 de outubro.
12 - Argumenty i fakty, Moscou, n° 43.




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