Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» “Não esqueçam Julian Assange”

» Índia ocupa a Caxemira muçulmana

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» E quando nos levantaremos contra os rentistas?

» “Quem tá na rua nunca tá perdido”

» Eles querem organizar a população de rua

» Municipalismo, alternativa à crise da representação?

» A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

» Marielle, Moa, Marley, Mineirinho

Rede Social


Edição francesa


» Population, subsistance et révolution

» Une nouvelle classe de petits potentats domine les villages

» Vers une « révolution agricole »

» En dehors de la « Petite Europe » d'autres débouchés s'offriront aux produits tropicaux

» Dans le domaine agraire il serait dangereux de vouloir brûler toutes les étapes

» L'expérience de M. Fidel Castro pourrait être mise en péril par une socialisation trop rapide de l'industrie cubaine

» Au Japon, le ministre de la défense s'inquiète

» Les soucoupes volantes sont-elles un sous-produit de la guerre froide ?

» Ovnis et théorie du complot

» Boulevard de la xénophobie


Edição em inglês


» On ‘la pensée unique'

» Manufacturing public debate

» August: the longer view

» Trump returns to the old isolationism

» Yellow vests don't do politics

» Kurdish territories in northern Syria

» The changing shape of the Balkans: 1991 / 2019

» Minorities in Kosovo

» Borders 1500-2008

» Man with a mission or deranged drifter


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto


CIÊNCIA

A Sagração dos Mutantes

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

A associação entre o maior produtor de peixes de aquário e um grupo de pesquisadores de Taiwan fez nascer o primeiro animal de estimação transgênico, o TK3, um peixe-zebra que, manipulado geneticamente, adquire fluorescência e pode se adaptar ao gosto do freguês

Franck Mazoyer - (01/01/2004)

Para os grandes grupos internacionais de pesquisa em genética, o peixe-zebra revela-se a cobaia ideal. A ponto de substituir de agora em diante o rato e o camundongo

Frenesi em Taiwan. Para o ano novo chinês todos os aquariófilos esperam o TK 3, terceira geração de um peixinho de seis centímetros que desencadeia todas as paixões. «Night pearl », a pérola da noite, é um peixe-zebra1 (Danio rerio) de fluorescência magnífica. Os comerciantes de animais domésticos encomendaram-nos às centenas.

Originário do sul da Índia, este peixe é, no entanto, dos mais comuns. A natureza deu-lhe uma cor preta sem atrativo. Mas foi no segredo dos laboratórios de uma universidade de Cingapura que ele adquiriu seu estatuto de estrela. Porque atrás dessa fluorescência mágica, não há nada de natural, muito pelo contrário.

Há três anos, o doutor Gong Jiyuan e seus colegas da Uiversidade Nacional de Cingapura enxertaram no genoma do peixe-zebra um gene retirado de uma medusa que sintetiza naturalmente uma proteína de fluorescência verde. E o milagre produziu-se: atrás de sua pele translúcida, os órgãos do peixe-zebra puseram-se a brilhar como mil faróis.

Revolução científica

Originalmente, essas manipulações mantidas em segredo nos laboratórios visavam facilitar o trabalho dos geneticistas tornando fluorescente o órgão que eles estivessem estudando. E de fato, há alguns anos o peixe-zebra tornou-se o modelo de animal de laboratório por excelência. Uma reprodução muito fácil, uma passagem do ovo ao estágio larvar em menos de 72 horas e uma pele translúcida que deixa ver os órgãos em seus mínimos detalhes.

Para os grandes grupos internacionais de pesquisa em genética, o peixe-zebra revela-se a cobaia ideal. Ao ponto de substituir de agora em diante o rato e o camundongo nos laboratórios. No estágio de ovo, os pesquisadores modificam seu patrimônio genético. E 72 horas mais tarde, podem observar as conseqüências sobre seus órgãos. Uma verdadeira revolução científica.

Graças a esse minúsculo peixe, a organogênese, a compreensão da formação dos órgãos, deu um salto espetacular. Ele é utilizado, por exemplo, para compreender quais genes entram em jogo na formação do coração, das células sangüíneas, dos músculos, dos rins, do intestino, dos olhos e, enfim, do cérebro. Os pesquisadores de Cingapura são capazes, inserindo este gene de fluorescência em uma célula específica, de visar apenas um órgão. Por encomenda, eles podem tornar fluorescente o coração ou os olhos segundo a especialidade de seus clientes cientistas.

Animal de estimação transgênico

Graças a esse minúsculo peixe, a organogênese, a compreensão da formação dos órgãos, deu um salto espetacular

O doutor Gong Jiyuan e seus colegas criaram também peixes-zebra indicadores de poluição que ficam vermelhos em contato com águas usadas. Eles esperam, do mesmo modo, fazer peixes que mudam de cor de acordo com a temperatura. Como as informações circulam depressa, uma equipe de pesquisadores taiwaneses dirigida pelo professor Huai-Jen-Tsai, tenta, por sua vez, transformar o sombrio peixe-zebra em vaga-lume aquático. Com o mesmo sucesso. Mas desta vez, o feito não devia ficar confinado aos laboratórios. Willis Fang, diretor da Taikong Corp, o maior produtor de peixes de aquário de Taiwan, viu logo o filão: oferecer aos olhares dos consumidores a fluorescência mágica do mutante aquático.

O encontro entre o homem de negócios e o pesquisador aconteceu e o acordo foi assinado. A Taikong Corp financia as pesquisas do cientista e em troca, este último autoriza a comercialização do peixe. TK1, o primeiro animal de estimação transgênico nasceu. Primeira produção: 100 000 peixes mutantes, obtidos em menos de um mês. A 15 euros cada, sem nenhum custo especial, a receita se eleva a mais de um milh ão de euros! A galinha dos ovos de ouro para a empresa e seu pesquisador. Há um ano, Taiwan foi assim o primeiro país da história a autorizar a venda de um organismo geneticamente modificado (OGM) de estimação.

O tráfico se organiza

Sob a pressão de associações ecológicas, as exportações para o Japão e Cingapura estão por ora suspensas e à espera de uma autorização definitiva dos serviços veterinários. Mas elas aconteceram no passado. A venda só é autorizada em Taiwan. Mas o tráfico se organiza. Os serviços veterinários interceptaram em Cingapura várias cargas de TK1 introduzidas ilegalmente. Um contágio que parece atingir também o resto do mundo. Na França, duas centrais de compra, os estabelecimentos Truffaut (Animalis) e o grupo Jardiland dividem 80% do mercado da aquariofilia. Eles teriam sido contatados pela sociedade taiwanesa com o objetivo de uma próxima entrada no mercado francês e europeu. Estas duas companhias asseguram que atualmente nenhuma de suas lojas contém animais transgênicos. Segundo o dr. Nicolas Pizzinat, veterinário da Jardiland, seria entretanto possível encontrar este tipo de peixe em certas lojas parisienses. De seu lado, a Taikong Corp explica que a firma ainda não tem o direito de vender os peixes na França mas pode expô-los.

Que diz a lei francesa? Nada. Pois por enquanto, nenhuma legislação está em vigor sobre os peixes ornamentais geneticamente modificados. E no entanto, o perigo é bem real. Apelidado de "Frankenfish", o peixe-zebra transgênico preocupa. A Associação Internacional do Comércio de Peixes de Aquário (OATA) expressou sua discordância, avaliando que os peixes de aquário não são gadgets. Para acalmar os ecologistas, conhecedores de suas práticas, a Taikong Corp garante que as próximas gerações serão esterilizadas.

O perigo da contaminação

Pois por enquanto, nenhuma legislação está em vigor sobre os peixes ornamentais geneticamente modificado, mas o peixe-zebra transgênico preocupa

Mas a técnica de esterilização mais eficaz atualmente (por formação de um triplóide assexuado) só é 70% segura. Ao contrário dos animais geneticamente modificados de corpulência visível, o peixe-zebra, como o milho transgênico, traz o problema da contaminação. Se fosse liberado no ambiente, sua grande facilidade natural de reprodução (mais de 200 ovos por postura) torná-lo-ia completamente incontrolável. Ninguém sabe com precisão quais seriam as conseqüências.

Vários precedentes dão, entretanto, algumas pistas. O transgênico escapulido pode aclimatar-se e ocupar o nicho ecológico de uma outra espécie até fazê- la desaparecer. A Noruega conheceu esta desventura com os salmões cultivados selecionados por sua robustez. Os salmonídeos, depois de soltos por engano, fizeram desaparecer completamente as espécies locais de salmões selvagens. Resultados : uma perda de biodiversidade e o risco de desaparecimento total da espécie no caso de modificação do ambiente (clima, doenças). Pois a sobrevivência de uma espécie só se torna possível pela variação genética de suas sub-espécies, o que multiplica proporcionalmente as chances de adaptação. Para restabelecer esta variabilidade, o departamento norueguês de pesca teve de eliminar, um a um, todos os salmões de cultivo que haviam contaminado seus rios.

Biodiversidade como negócio

Certas empresas previdentes já enxergaram nesse ataque à biodiversidade... um negócio. Existe no Oregon, nos Estados Unidos, um laboratório, o Zebrafish International Resource Center (ZIRC), que estoca vivas todas as espécies selvagens do peixe-zebra. O laboratório reproduz, assim, em cativeiro, todos os mutantes concebidos no planeta.

O objetivo: a venda aos pesquisadores, para fazer cópias para uso científico, de cepas de peixe-zebra, das quais algumas já desapareceram do planeta. Esta empresa compreendeu logo que a variabilidade genética de uma espécie representa um verdadeiro tesouro no futuro. A natureza nos deu o peixe-zebra com propriedades incríveis para a medicina. Todavia, as pesquisas sobre este vertebrado de embriologia próxima da humana ameaçam modificar, se ele for solto por engano, o equilíbrio ecológico natural do planeta fazendo outras espécies desaparecerem.

Ambivalência do progresso técnico

O peixe-zebra, como o milho transgênico, traz o problema da contaminação. Se fosse liberado no ambiente, sua grande facilidade natural de reprodução torná-lo-ia incontrolável

O peixe-zebra por si só estigmatiza toda a ambivalência do progresso técnico. Graças a ele, os cientistas entraram na era pós-genômica. Depois do seqüenciamento do genoma de numerosas espécies vegetais e animais, abre-se para os cientistas uma perspectiva inédita na história da humanidade: compreender o papel preciso de cada um desses genes e poder, em seguida, dominar sua expressão.

Injetando um gene de uma espécie X no genoma de uma espécie Y, e pelas modificações morfológicas que isso provoca, os pesquisadores estudam a função de cada gene. O reverso da medalha: a criação de mutantes, de « monstros » e quimeras de destino inquietante. Para alguns, não existe solução alternativa. A mutação sempre existiu. É a chave de nossa evolução. É ela que nos trouxe do estado de simples células à espécie dominante sobre o nosso planeta. Este processo que remonta à noite dos tempos era, até o presente, natural. Por milhares de anos, permitiu, por exemplo, aos ancestrais da espécie humana sair do elemento marinho e depois adotar a postura bípede.

A era dos mutantes?

Com as manipulações genéticas, o homem detém, de agora em diante, o poder de acelerar a evolução natural das espécies – inclusive a sua. De algumas espécies vegetais e animais ele já cria mutantes mais resistentes, mais produtivos. O próximo da lista pode ser o próprio ser humano. Representarão os mutantes o próximo estágio da evolução humana ? Só o futuro poderá responder a essas perguntas que podem parecer surrealistas. Do mesmo modo como parecia pertencer à ficção científica, a menos de cinco anos, a criação de bichos de estimação transgênicos.

A « pérola da noite » já está à venda. Os fabricantes estão certos de logo poder oferecê-la para exportação à Europa e aos Estados Unidos. Eles acabaram de assinar um acordo de venda com a Alemanha para o começo do próximo ano. Todas essas manipulações genéticas acontecem sem controle real. A Taikong Corp lança, neste momento, no mercado, um modelo de peixe-zebra de terceira geração, o TK3, metade verde, metade vermelho fluorescente. Em alguns meses, seu diretor afirma, o comprador poderá escolher, pela Internet, o leque de cores que quiser e receber um peixe único e personalizado.

Crescimento dopado do mercado

O transgênico escapulido pode aclimatar-se e ocupar o nicho ecológico de uma outra espécie até fazê- la desaparecer. A Noruega conheceu esta desventura com os salmões cultivados

Taiwan, a Indonésia e a Tailândia são há 300 anos os centros de criação do peixe de aquário. Nestes países, o peixe ornamental, facilmente retirado do mar, encontra-se sozinho em um aquário familiar e desempenha o papel de « confidente » como o cachorro ou o gato na Europa. Para as famílias, é importante possuir um peixe raro. Então, por cruza, os produtores sempre favoreceram as formas e as cores mais surpreendentes. O mercado da aquariofilia está hoje em pleno crescimento, dopado, desde o verão passado, pelo lançamento nos Estados Unidos do desenho animado Procurando Nemo (Finding Nemo), a última superprodução dos estúdios Disney e Pixar.

Nos Estados Unidos, o sucesso deste filme foi acompanhado de um aumento de 20% das vendas de peixes tropicais, segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUE) e o Marine Aquarium Council. Vinte milhões de peixes tropicais de 1471 espécies diferentes são retirados, cada ano, dos oceanos para alimentar os aquários, principalmente nos Estados Unidos (85%) mas também na Europa, segundo o relatório 2003 do Centro de Conservação do PNUE.

Reflexão ética atrasada

Este frutífero comércio pesa 200 a 330 milhões de dólares por ano. Um peixe de criação custa 20 a 30% mais caro, mas é mais viável porque é isento de parasitas e adaptado ao cativeiro. A Taikong Corp só faz criação de peixes e, para rechear seu catálogo, a companhia foi a primeira a cruzar a fronteira dos transgênicos. A primeira, mas não a única. Uma sociedade texana, a Yorktown Technologies, especializada em biotecnologia, anuncia orgulhosamente o lançamento da venda em território americano, em 4 de janeiro de 2004, de um animal de estimação transgênico: o Glofish, cópia quase fiel do peixe-zebra tailandês. Com a pequena diferença da fluorescência aqui não estar ligada a um gene de medusa, mas a um gene de coral fluorescente. A chegada progressiva de mutantes em nossas sociedades parece bem engrenada. Por que limitariam esta manipulação do ser vivo a simples peixes de aquário ?

Estas novas « criaturas » poderiam muito rapidamente abrir caminho para a criação de outros animais de estimação modificados. O lado lúdico destes primeiros engana o público sobre os perigos por vir. É urgente medir todos os riscos associados. Mas a reflexão ética e suas ações concretas sobre a manipulação dos seres vivos com fins comerciais parece bem atrasada em relação à realidade. (Trad. : Elisabete de Almeida)

1 - Conhecido dos aquaristas brasileiros como paulistinha ou bandeira paulista, por ser listado de branco e preto (N.T.).




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Biotecnologia
» Ciência
» Ciência, Política e Ética
» Transgênicos

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos