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ÍNDIA

O fascínio de Bombaim

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Única metrópole indiana, Bombaim exerce uma atração mítica por ser o centro financeiro e econômico do país. Mas nesse pesadelo demográfico, onde encontra-se champanha pagando o preço – três vezes o salário da classe média – não se tem água potável para beber

Mila Kahlon - (01/01/2004)

"Bombaim é uma luta de todo instante, mas nós ficamos ligados na sensação do combate constante." (Jerry Pinto, poeta e jornalista)

Ninguém sabe com certeza quantos habitantes tem Bombaim. Os recenseamentos oficiais atestam 12 milhões de habitantes, dos quais a metade sem teto...Talvez sejam 16 milhões

A famosa (ou a infame) Bombaim? Reay Road, ao longo dos cais. Esta rua, que originalmente tinha quatro pistas, para permitir que os veículos rodassem depressa, agora só tem duas, orladas de um montão de casebres de vários andares. Os habitantes dos sloms (casebres), imigrantes do interior na maioria, andam, falam, dormem, sentam-se, trabalham, lavam-se e olham seus filhos darem os primeiros passos sobre o asfalto. A rua nunca teve calçadas e talvez nunca as terá. Reay Road tornou-se um lugar onde os homens e os veículos rivalizam. Uns e outros agem como se o seu espaço fosse um reino.

Sobre uma superfície de cerca de um quilômetro quadrado, muitos moradores de cortiço construíram dois ou três sótãos em cima de seus casebres e os alugam a outros. Cada casebre abriga em média dez pessoas. Ninguém sabe quantas pessoas vivem em Reay Road, mas sabe-se que o número aumenta todo dia, assim como o caos...

E para falar a verdade, ninguém sabe com certeza quantos habitantes tem Bombaim. Os recenseamentos oficiais atestam 12 milhões de habitantes (mais do que a Grécia), dos quais a metade sem teto... Mas devido ao fluxo ininterrupto de imigrantes, da população dos sloms e das crianças não registradas que nascem a cada dia, talvez sejam de fato perto de 16 milhões. E se esses números podem suscitar espanto, a triste verdade é que os habitantes de Reay Road e de outros bolsões de miséria que proliferam na metrópole não têm um lugar melhor para ir.

Sonho americano

Bombaim atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto da Índia na esperança de encontrar a felicidade nesta "cidade da esperança"

Bombaim atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto da Índia na esperança de encontrar a felicidade nesta « cidade da esperança », convencidos de que ali encontrarão um emprego, uma remuneração regular ou, porque não, de que tornar-se-ão milionários da noite para o dia. Para eles, estes barracos ilegais (muitas vezes equipados com ligações elétricas pirateadas, telefones e TV em cores, às vezes roubados) parecem mansões de luxo comparadas com o que conheciam onde nasceram.

Então eles sobrevivem ali, na rua, dia após dia, apesar da poluição, do calor insuportável, da desnutrição, da sujeira, do ronco dos caminhões e carros que passam à toda, dos acidentes, das doenças, dos ratos enormes e dos urubus, das sarjetas fedorentas, do nojo dos passantes melhor aquinhoados e das inundações provocadas pela monção. Felizes, pretendem alguns. Felizes, sim, de uma certa maneira, por terem conseguido chegar a esta cidade monstruosa, que pode tomar-lhes tudo ou dar-lhes a oportunidade de sua vida. Nunca chegaram tão perto de seu mini-sonho americano. Eis exatamente o que Bombaim representa aos olhos do resto da Índia.

Fluxo incessante

Se você é pobre, vive em condições inumanas. Se é rico (1% da população), a máfia lhe ataca constantemente. Para quem pertence às classes médias, sair de casa toda manhã é um combate

É preciso um certo tempo para compreender porque esta cidade continua a atrair um fluxo incessante de forasteiros que esperam ali fazer fortuna. Ela é desmesurada, asfixiante, superlotada, poluída, sufocante, atravancada, congestionada pelo tráfego e emana as visões e os odores mais aterrorizantes da pobreza e da doença. Se você é pobre, vive em condições inumanas. Se é rico (um por cento da população), a máfia lhe ataca constantemente. Para quem pertence às classes médias, sair de casa toda manhã é um combate – é preciso lutar contra os outros veículos, negociar o espaço da rua, tentar ignorar as mãozinhas implorantes que se agarram aos vidros do carro.

Nada se faz facilmente. Uma obrinha insignificante, a mínima coisa a organizar revela-se uma tarefa penosa. Corrupção e burocracia imperam. E no entanto, apesar das extraordinárias dificuldades da vida, Bombaim possui um moral surpreendente, qualquer coisa de invencível. Qualquer Mumbaikar1 lhe diz na hora: “De que o senhor se queixa? Bombaim é bem melhor do que as outras cidades!” Sente-se um calafrio diante da idéia de que um lugar na terra pode ser pior do que aquele.

Metrópole única

Os que têm a sorte de ter um emprego e de morar bem não podem viver sem Bombaim, de seu ritmo de vida desenfreado, dos salários – os melhores da Índia – de sua tolerância

Os que têm a sorte de ter um emprego e de morar bem não podem viver sem Bombaim, de seu ritmo de vida desenfreado, dos salários – os melhores da Índia – de sua tolerância, de seus modos de vida alternativos, de oportunidades sem fim oferecendo-se aos que ousam, cinemas, multiplexes e galerias comerciais regurgitantes de produtos importados, night clubs de fachada (cujos proprietários pagam muito bem a polícia para ficarem abertos depois da meia-noite), teatros, restaurantes gastronômicos a preços exorbitantes mas sempre lotados, vendedores de carros exóticos, telefones celulares, edifícios de escritórios que lembram Manhattan, torres habitacionais, lojas de criação, concursos de beleza, hotéis cinco estrelas, escolas internacionais, hospitais modernos e pontes para carros.

Tudo isso faz de Bombaim a única verdadeira metrópole da Índia. A seu lado, Chennai (Madras), Calcutá, Bangalore, a Silicon Valley indiana, ou mesmo a capital Nova Déli parecem medíocres cidades provincianas. Às vezes é difícil de compreender, mas estamos falando de um país em que a população rural parou no século XVIII ; nesse contexto, Bombaim parece um milagre, uma verdaeira cidade de sonho.

Capital das finanças

Trata-se da cidade mais próspera da Índia, sua capital das finanças e dos negócios. Mais da metade do imposto de renda nacional vem de lá. É também a aglomeração mais corrupta

Sem dúvida alguma, trata-se da cidade mais próspera da Índia, sua capital das finanças e dos negócios. Mais da metade do imposto de renda nacional vem de lá. É também a aglomeração mais corrupta do país: mais da metade do dinheiro sujo em circulação lá encontra sua fonte. Bombaim conta com mais milionários do que todas as grandes cidades indianas reunidas. É lá que acontecem 90% das transações bancárias comerciais da Índia, que se erguem duas torres que abrigam a bolsa, que são investidos 80% dos fundos mútuos do país, que estão os mercados de capitais. O Banco Central indiano, as três grandes redes bancárias e os dois maiores bancos comerciais da Índia estão implantados no bairro de negócios de Mumbai.

Quanto ao porto, garante 40% do comércio marítimo indiano. O setor imobiliário vale ouro e os preços ultrapassam os de Nova Iorque e Tóquio (um apartamento chique pode custar até dois milhões de dólares). A cidade dedica-se à especulação, à loteria, às corridas hípicas e ao críquete. Os virtuoses da publicidade são melhor remunerados que os médicos nesta cidade onde a « sociedade de consumo » nada tem a invejar à dos Estados Unidos. Ela atrai os melhores talentos do país, gigantes multinacionais, investidores, artistas e intelectuais.

Assim, as luzes de Bollywood são irresistíveis: Bombaim possui a maior indústria cinematográfica do mundo e todo indiano que quer fazer carreira no cinema se instala aqui. A tal ponto que as estrelas esquecidas do Ocidente assinam contratos para aparecer nos filmes hindis, na esperança de encontrar uma nova juventude. Aqui, os atores assemelham-se a deuses e jovens de todos os meios lutam para conseguir um pequeno papel. O pessoal do cinema mora em casas grandiosas em subúrbios barulhentos e vive sob o temor permanente de um telefonema de um chefão da máfia para extorquir-lhe dinheiro.

Imagem mítica

As histórias dos sucessos espetaculares enriquecem a imagem mítica de Bombaim. Como a do falecido Dhurubhai Ambani, um frentista que se tornou magnata da petroquímica

As histórias dos sucessos espetaculares enriquecem a imagem mítica de Bombaim. Como a do falecido Dhurubhai Ambani, um frentista que se tornou magnata da petroquímica; ou de Harshad Mehta, jovem pobre vindo da cidadezinha de Raipur, que organizou um golpe de 6 milhões de rúpias (4,84 milhões de euros) e dirigiu a bolsa (antes de ser encontrado morto na prisão); ou ainda a do ator preferido dos indianos, Shah Rukh Khan, que chegou a Bombaim de bolsos vazios e depois de anos de provações, sem conhecer ninguém na cidade nem no mundo do cinema, acabou por tornar-se um superastro.

Nesse pesadelo demográfico, encontra-se champanha pagando o preço – três vezes o salário de um membro típico da classe média – mas as pessoas não têm água potável para beber. Em Dharavi, a maior favela da Ásia, 600 000 pessoas se amontoam em menos de 1,5 quilômetros quadrados. O ar é pesado e pegajoso, carregado de odores de detritos, mas é ali que são fabricados os mais lindos objetos de couro que são exportados para o resto do mundo. As clínicas onde se faz regime e as academias para ficar em forma são mais numerosas do que as organizações não-governamentais. Existe um mercado florescente de obras de auto-ajuda e gestão, vendidas por crianças que não sabem ler.

“Filhos da terra”

Bombaim é cobiçada e temida, impiedosa e compreensiva. Nos jornais diários, exibem-se os crimes mais cruéis ao lado dos exemplos mais comoventes de companheirismo e compaixão.

Bombaim é cobiçada e temida, impiedosa e compreensiva. Nos jornais diários, exibem-se os crimes mais cruéis ao lado dos exemplos mais comoventes de companheirismo e compaixão. Devido talvez ao fato de muitos dos seus habitantes terem começado do zero, Bombaim sempre foi um refúgio de tolerância onde cristãos se misturam aos parsis2 , onde os hindus têm vizinhos muçulmanos, onde os sikhs, os jains3 , os judeus e mais e mais “phirangs” (termo corrente par designar os forasteiros) vivem juntos.

Mas o fluxo constante de “estrangeiros” e a mistura de culturas existente também fez nascer um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena4 , dirigido por Bal Thackeray, que defende os “filhos da terra”, tendo explorado no início a divisão entre locais e forasteiros antes de se lançar numa revolta contra tudo o que não seja maharashtriano5 . Este partido manifesta sua política de ódio provocando motins e atentados. Conseguiu até mudar o nome da cidade (Bombaim era no início uma colônia portuguesa e o nome significava “Baía linda”) para Mumbai (por causa da deusa protetora da cidade), uma maneira de dizer ao mundo que a cidade pertence aos seus ocupantes maharashtrianos originais e os “estrangeiros” não têm nada a fazer ali.

Rechaço aos “imigrantes”

A mistura de culturas existente também fez nascer um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena, dirigido por Bal Thackeray, que defende os “filhos da terra”

Para provar sua determinação de rechaçar os “imigrantes”, um bando de Sainiks6 recentemente saqueou o escritório do serviço de recrutamento das estradas de ferro reclamando cotas de emprego para os maharashtrianos7 , que se sentiriam ameaçados diante dos candidatos vindos do norte da Índia. Alguns dias mais tarde, em uma estação muito freqüentada, trabalhadores do Shiv Sena, entre os quais mulheres sainik, atacaram jovens Bihari8 vindos a Bombaim fazer concurso para trabalhar nas estradas de ferro.

Os resultados da pesquisa feita pelo Times of Índia e um programa de televisão popular, “The Big Fight” (a grande luta ) não são tranqüilizadores: uma maioria pensa que o Shiv Sena tem razão e uma enorme porcentagem aprova sua política dos “filhos da terra”. Entre as pessoas interrogadas, muitas pronunciaram-se “a favor” de que sejam fixadas cotas favorecendo os naturais no acesso aos empregos não-qualificados. Certas pessoas pensam, todavia, que tais cotas prejudicariam a imagem da cidade como centro financeiro de nível internacional.

Bombaim, a cosmopolita, vai tornar-se Bombaim, a chauvinista? No entanto, escreve Suketu Mehta, um jornalista que cresceu em Bombaim e vive hoje em Nova Iorque, “se você se atrasar para ir trabalhar em Bombaim e chegar à estação no momento em que o trem sai da plataforma, você pode correr para os compartimentos lotados e muitas mãos vão-se estender para puxá-lo para dentro [...] enquanto você corre junto do trem, vão levantar você e vão dar um lugarzinho para os seus pés[...] Depois você tem que se virar [...] No momento do contato, eles não sabem se a mão que está tentando segurar a deles é a de um hindu, de um muçulmano, de um cristão, de um brâmane9 ou de um intocável10 , nem se você nasceu na cidade ou se você chegou hoje de manhã [...] nem se você é de Mumbai, de Bombaim ou de Nova Iorque. Tudo o que eles sabem é que você está tentando chegar à cidade de ouro e isso basta. Suba, dizem. A gente se aperta11 ”.

(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - Morador de Mumbai, nome da cidade de Bombaim desde meados dos anos 1990 (N.T.).
2 - Grupo étnico de origem persa cuja religião é o zoroastrianismo. 70% dos Parsis vivem em Mumbai (N.T.).
3 - Fiéis, espalhados por toda a Índia (principalmente no oeste e no sudoeste), do jainismo, religião reformista próxima do hinduísmo e do budismo.
4 - Aliado do Partido do Povo Indiano (BJP), no poder em Nova Déli.
5 - Natural do Mahrashtra, estado indiano situado a oeste da Índia, terceiro em população no país (N.T.).
6 - Militantes do Shiv Shena.
7 - Bombaim é a capital do Mahrashtra.
8 - Naturais do estado de Bihar, no nordeste da Índia (N.T.).
9 - Membro da casta superior, dos religiosos (N.T.).
10 - Indianos descendentes de africanos escravizados e auto-denominados "Dalit”. Os Dalit ou intocáveis estão excluídos do sistema de castas e são segregados na Índia (N.T.).
11 - Extraído do livro Meri Jaan, (Bombay, mon amour), Penguin Books India, Delhi, 2003.




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