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A persistência nos erros

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Resposta do jornalista, correspondente na Índia e no Paquistão há 17 anos e autor da crítica ao livro de Bernard-Henry Lévy sobre o assassinato de Daniel Pearl

William Dalrymple - (01/02/2004)

Em sua resposta a meu artigo, Bernard-Henri Lévy expõe a mesma salada de erros, preconceitos e imprecisões de que seu livro está recheado. Um primeiro exemplo: Bernard-Henri Lévy pretende, em seu livro (página 450), que Hussain Haqqani e Najam Sethi teriam sido “seqüestrados, no Paquistão, por agentes do ISI [serviços secretos paquistaneses] que poderiam ser suspeitos de serem apoiados por homens da Al-Qaida”. Eis que agora ele imputa seu seqüestro ao “sistema de poder formado por militares e mulás”.

Na verdade, como me confirmou pessoalmente Najam Sethi, ele e Hussain não foram seqüestrados pela Al-Qaida, nem pelo ISI, nem pelos militares, nem pelos mulas e, sim, pela polícia civil do Punjab que agia sob as ordens do último primeiro-ministro democrático, Nawaz Sharif. O ISI chegou até a intervir para forçar a libertação de Sethi, colocando-o na situação insólita – conforme ele revelou, em depoimento à BBC – em que “foram os ‘bons’ (um primeiro-ministro democraticamente eleito) que me prenderam e pretendiam me levar perante uma corte marcial e foram os ‘maus’ (o ISI e o exército) que se recusaram, delicadamente, a fazê-lo”.

“Casa do diabo”?

Em sua resposta a meu artigo, Bernard-Henri Lévy expõe a mesma salada de erros, preconceitos e imprecisões de que seu livro está recheado

As inverdades de Bernard-Henri Lévy também ficam patentes quando me acusa de citá-lo equivocadamente, alegando que a expressão “casa do diabo” não é sua, e sim “de um paquistanês citado como seu autor” e que “não é do Paquistão que se trata” e, sim, da madrasa de Binori Town. Para proporcionar ao leitor uma abordagem edificante, eis aqui, ipsis litteris, como o interessado qualifica (página 14) a invasão do Iraque pelos Estados Unidos: “Uma coalizão improvisada em que – suprema ironia – se pretendia contar com aquele mesmo Paquistão que eu percebia transformar-se na casa do diabo”. Quatro linhas depois, ele persiste em utilizar alusões satânicas, mencionando “a ocasião propícia para explorar este inferno silencioso, cheio de condenados vivos”. O livro inteiro está permeado deste tipo de observações arrogantes e agressivas sobre o Paquistão e os paquistaneses comuns.

Quando se escreve sobre o mundo islâmico – e, especialmente, sobre os grupos de combatentes fanáticos do jihad, acerca dos quais tantas informações erradas são divulgadas – é de importância vital que os fatos sejam esclarecidos, verificados, aprofundados, algo que Daniel Pearl tinha plena consciência. Neste sentido, a questão do financiamento dos atentados de 11 de setembro constitui um autêntico dever escolar. São inúmeras teorias que circulam mencionando conspirações, algumas delas originárias de fontes indianas discutíveis. A versão segundo a qual Omar Sheikh (o responsável pelo seqüestro de Pearl) teria financiado a operação e teria enviado o dinheiro proveniente dos serviços secretos paquistaneses a Mohammed Atta (o suposto líder dos comandos suicidas que se lançaram contra as Torres Gêmeas) tem toda a aparência de ser uma ação de desinformação. Provém, com toda certeza, de briefings fornecidos pelos rivais diretos do ISI: os serviços de inteligência indianos, o RAW (Research and Analysis Wing).

“Investigação romanceada”

O livro inteiro está permeado deste tipo de observações arrogantes e agressivas sobre o Paquistão e os paquistaneses comuns

Nenhum pesquisador cujos trabalhos sobre a Al-Qaida sejam respeitados – como, por exemplo, Peter Bergen – leva essa teoria a sério. Ainda mais porque a identidade do principal responsável pelo financiamento dos atentados de 11 de setembro já foi estabelecida: trata-se de um saudita chamado Mustafa Ahmed Hawsawi. Ao longo das centenas de páginas do relatório sobre os atentados de 11 de setembro – publicado conjuntamente pelas Comissões de Informação do Senado e da Câmara de Representantes dos Estados Unidos – o nome de Omar Sheikh não aparece uma única vez.

A estadia de Omar Sheikh nos Bálcãs, a importância dessa estadia para a radicalização de sua personalidade e o tempo que ele passou com o grupo de combatentes do jihad (Harkat ul-Mujahedin) na Caxemira foram confirmados, sem que persista a mínima dúvida, pelo respeitadíssimo correspondente para a Ásia do Sul do jornal The Observer, de Londres, Jason Burke, que entrevistou combatentes do jihad do Paquistão e do Afeganistão. Burke, que, ao contrário de Bernard-Henri Lévy, fala fluentemente o urdu e cobriu conflitos na Ásia do Sul durante inúmeros anos, publicou o resultado de sua pesquisa num livro brilhante: Casting a Shadow of Terror1. Nele, o leitor encontrará uma biografia breve, mas seriamente documentada, do homem que organizou o seqüestro de Daniel Pearl. Ela difere, em pontos bastante importantes, daquela que se encontra na “investigação romanceada” de Lévy.

Os fatos em Caxemira

Quanto ao conflito da Caxemira – que cobri desde o início da insurreição – peço permissão para recusar a presunção de um escritor que nunca ali pôs os pés

Quanto ao conflito da Caxemira – que eu cobri desde o início da insurreição, em novembro de 1989, e onde por pouco não deixei a vida – peço permissão para recusar a presunção de um escritor que nunca ali pôs os pés e me pretende dar lições sobre o assunto. Confirmo que “Hurriyat” é a abreviação comumente utilizada para designar a “All Party Hurriyat Conference” e que é adotada por todos os jornais da Ásia do Sul.

Quanto a Abdul Ghani Lone, seu dirigente mais conhecido, ele foi a principal voz dos moderados na Caxemira e um dos primeiros a se opor ao nepotismo e à corrupção do governo de Sheikh Abdullah. Embora apoiando a separação da Índia, como a maioria da população local, defendeu sempre o diálogo, nunca aprovou o terrorismo e se opôs à integração da Caxemira pelo Paquistão. Por várias vezes, pediu ao governo de Islamabad que não interviesse nos assuntos da Caxemira e protestou com veemência contra o recrutamento de combatentes estrangeiros. Já no final de sua vida, o Hurriyat, assim como ele próprio, não estavam longe de aceitar o “pacote autonomista” proposto pelo governo de Nova Déli no âmbito da Constituição indiana. Foi precisamente por isto que ele foi assassinado por paquistaneses combatentes do jihad, apoiados pelo ISI. Uma pessoa a léguas de distância do “notório” agente do ISI descrito por Bernard-Henri Lévy. Por outro lado, qualificar como ONG o Hurriyat, principal partido de oposição da Caxemira, é, evidentemente, um erro que dispensa qualquer comentário.

Ar de retratação

Qualificar como ONG o Hurriyat, principal partido de oposição da Caxemira, é, evidentemente, um erro que dispensa qualquer comentário

Não aceito a observação de Bernard-Henri Lévy segundo a qual eu estaria vendo Karachi a partir do conforto de um “radioso salão de embarque” de seu aeroporto. Trabalho na Índia e no Paquistão há 17 anos e, durante esse tempo, escrevi muito sobre a guerra, as favelas, a violação dos direitos das mulheres, os “crimes de honra”, a violência ligada ao sistema de castas, a corrupção e as insurreições. Entretanto, as favelas e a morte são apenas um dos aspectos da situação na Ásia do Sul: descrever Karachi, do jeito que faz Bernard-Henri Lévy, como um “buraco negro”, um local de trevas e sofrimento, significa ignorar que esta cidade também pode ser bela e, em algumas zonas, próspera. Para muitos paquistaneses, é uma cidade de luzes que os liberta da atmosfera abafada do conservadorismo das pequenas cidades.

Finalmente, é verdade que a última página e meia de Quem matou Daniel Pearl? é, marginalmente, menos hostil ao islã que o resto do livro e que ali se vê, concretamente, Bernard-Henri Lévy visitar uma mesquita, na qual, diz ele (página 534), “foi aqui, pela primeira vez, que entrei num recinto religioso, em Karachi, sem sentir o vento da imprecação e do ódio” O pesquisador-romanceiro lembra-se, então, de seus bons amigos muçulmanos, tais como o finado presidente da Bósnia, Izetbegovic, e Massoud, o dirigente afegão assassinado. Após mais de 530 páginas de injúrias contra o Paquistão e os paquistaneses comuns, esse trecho tem a ar suspeito da clássica retratação: “Sabe, alguns de meus melhores amigos...”

NOTA DO TRADUTOR

Finalmente, é verdade que a última página e meia de Quem matou Daniel Pearl? é, marginalmente, menos hostil ao islã que o resto do livro

Bernard-Henri Lévy questiona a “falsificação” da tradução de suas citações. Por respeito aos nossos leitores, incluímos uma nota alertando que, como o autor não fornecera a referência de suas citações, algumas destas haviam sido retraduzidas a partir da tradução em inglês. Na realidade, isto apenas ocorreu em relação a duas ou três linhas de texto. Para que se possa ter uma idéia, uma “retradução” do inglês em relação aos jornalistas paquistaneses constava da seguinte forma: “Seqüestrados no Paquistão por agentes do ISI suspeitos de serem apoiados pela Al-Qaida...” Eis o original: “Seqüestrados no Paquistão por agentes do ISI que podem ser suspeitos de se apoiarem em homens da Al-Qaida...” É compreensível a razão pela qual BHL seja incapaz de citar um único caso em que o tradutor tenha “distorcido” suas palavras. E é inútil: foi ele próprio que as distorceu!

(Trad.: Jô Amado)

1 - Al-Qaida, Castin a Shadow of Terror, I.B. Tauris, Nova Iorque – Londres, 2003.




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