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Cortázar: o Che Guevara da literatura

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Túmulo do escritor argentino em Paris, morto há 20 anos, é palco de discreta peregrinação que homenageia o lúdico e engajado defensor da ligação não dogmática entre literatura e revolução

José Manuel Fajardo - (01/02/2004)

Há cerca de vinte anos, Paris é o palco de uma discreta peregrinação que pode passar desapercebida em meio à efervescência turística. Ocorre no cemitério Montparnasse diante de um túmulo: o do escritor argentino Julio Cortázar, falecido em 12 de fevereiro de 1984. Sobre a sepultura, os peregrinos depositam algumas linhas escritas às pressas num pedaço de papel, convencidos de que o sono eterno do escritor não os impede de entrar em comunicação com ele. São leitores provenientes de todos os cantos do mundo, freqüentemente escritores.

Cada um deles tenta, a seu modo, dialogar com Cortázar. O romancista chileno Luis Sepúlveda e o mexicano Antonio Sarabia introduzem na fresta da pedra sepulcral um cigarro aceso que deixam que se consuma lentamente. Os jovens escritores cubanos Amir Valle, Karla Suárez e Raúl Aguiar instituíram o rito de se aproximarem do túmulo – para os que podem fazer a viagem a Paris – e de levar para Cuba fotos e livros destinados a passar de mão em mão. É uma homenagem a um escritor que se engajou com paixão a favor de revolução cubana, enquanto esta, atualmente, atravessa momentos bem tristes.

Encontro fantástico

Foi no universo do fantástico que sua literatura se desenvolveu, mas um fantástico que se imiscui na realidade, no discurso cotidiano e o transforma

Uma narrativa de Raúl Aguiar1 serve de ponto de partida para traçar a história do escritor argentino que encarnou (com Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes) a renovação do romance latino-americano e o espírito rebelde das décadas de 60 e 70. Muito cortazariano, Aguiar relata o encontro fantástico em Havana de uma jovem e Cortázar. Ela está vivendo em 2003. Ele, em janeiro de 1967. A sutileza está na melancolia que a narrativa instila no leitor. Este conhece previamente as respostas dolorosas que aguardam Cortázar, quando interroga a jovem sobre o futuro: “Tenho mil perguntas. O homem foi a Marte? E a guerra do Vietnã? O que aconteceu em Cuba durante todo esse tempo? Fidel ainda está vivo? E o Che? E o socialismo acabou vencendo? Você sabe alguma coisa sobre a Argentina?” Um catálogo inteiro de frustrações.

É necessário saber que Julio Cortázar, o real, levou um certo tempo para sentir semelhante interesse apaixonado pelo mundo. Confessou: “Eu tinha muito pouca curiosidade pelo gênero humano antes de escrever El Perseguidor2 ”, um de seus melhores contos. Tinha 45 anos.

O fantástico na realidade

Cortázar foi um leitor dos textos surrealistas. Considerava que a poesia faz parte de uma realidade superior que integra tanto o racional, quanto o irracional

Filho de argentinos, Cortázar nasceu em Bruxelas em 1914. Conservou, dizia ele, “uma maneira de pronunciar os ‘r’ que nunca mais me deixou”. Era uma de suas particularidades físicas. Era também muito alto e de uma extrema magreza. Sem pelos durante a maior parte da vida, seu rosto conferia-lhe um aspecto de eterno adolescente. Os olhos gigantescos, muito separados, davam a seu olhar um ar sombrio e felino. Além disso, tinha do gato o caráter individualista e enigmático.

Foi no universo do fantástico que sua literatura se desenvolveu, mas um fantástico que se imiscui na realidade, no discurso cotidiano e o transforma. Uma casa assombrada por uma presença que nunca se identifica, em Casa tomada. Um fotógrafo que surpreende uma cena entre um adolescente e uma mulher e que, quando revela o clichê, está preso em sua própria fotografia, em Las babas del diablo3 .

Cortázar foi um leitor dos textos surrealistas. Considerava que a poesia faz parte de uma realidade superior que integra tanto o racional, quanto o irracional. E pensava que os encontros fortuitos não são casuais; que o amour fou4 e o acaso são mecanismos enigmáticos com os quais os homens fabricam seu destino.

Abalo existencial

Para ele, os encontros fortuitos não são casuais; o amour fou e o acaso são mecanismos enigmáticos com os quais os homens fabricam seu destino

Um duplo encontro, com Paris e com Sibila (a “Maga”), foi a origem de uma reviravolta radical em sua vida e em sua obra. Em 1950, Julio Cortázar fez uma viagem a Paris e, durante a travessia de navio, teve um desses encontros extraordinários que marcaram sua vida. A bordo, viajava uma jovem alemã de origem judia, Edith Aron. Tinha cabelo preto e olhos verdes. Cortázar não demorou em notá-la. Sua silhueta esguia e seu rosto de criança grande também não escaparam à curiosidade de Edith. No entanto, mal trocaram algumas palavras. Chegando ao Havre, separaram-se sem mesmo deixar endereço e, alguns dias mais tarde, o que alguns chamariam de coincidência, fez com que de novo se encontrassem numa livraria. Separaram-se uma vez mais sem marcar novo encontro e, pouco tempo depois, a força estranha que os aproximava fez com que ficassem cara a cara. O sinal era claro.

Cortázar descobriu que essa jovem de sorriso feiticeiro era “viva, complicada, irônica e entusiasmada”. Em outras palavras, irresistível. E quando, em 1951, voltou a Paris para aí se instalar, não se limitou a revê-la e a manter com ela uma ligação que, apesar das rupturas e reconciliações (e uma multiplicidade de intermédios femininos), durou a vida toda, mas acabou por fazer dela uma heroína de sua obra prima, o romance Rayuela5 , inspirando-se nela para a personagem de Sibila. Publicado em 1963, Rayuela descreve o encontro de Cortázar com Paris. “Paris foi para mim o maior abalo existencial”, dizia ele.

Engajamento apaixonado

Sua literatura harmonizava-se com o movimento revolucionário que se propagava então pelo continente e cujo centro de divulgação era a revolução cubana

“Diríamos que nasci para não aceitar as coisas como elas me são apresentadas”. Essa rebelião iria acompanhá-lo a vida inteira. Sua literatura harmonizava-se com o movimento revolucionário que se propagava então pelo continente e cujo centro de divulgação era a revolução cubana. Nada mais lógico, portanto, do que o fascínio precoce de Cortázar por Cuba. Manteve com essa revolução uma relação fiel, mas também crítica. Defendeu suas idéias (como fica demonstrado por sua admiração por Lezama Lima, mesmo durante os anos dogmáticos da década de 70), prestando atenção para que suas críticas não pudessem ser utilizadas pelos inimigos da revolução, o que lhe valeu longos períodos de solidão, incompreendido pelos adversários do castrismo, bem como pelas autoridades cubanas.

A partir de Rayuela, a obra de Cortázar procura conhecer uma outra realidade possível. Viveu o maio de 1968 francês. Depois publicou o romance El libro de Manuel (1973) 6 , reflexão sobre os novos guerrilheiros latino-americanos. Partilhava de suas opiniões, sem chegar a identificar-se com sua ação. Recebeu o prêmio Médicis, e destinou o montante à resistência chilena. Seus textos tornaram-se mais livres. Participou da constituição do Tribunal Russell para denunciar as violações dos direitos humanos. E apoiou a revolução sandinista da Nicarágua. Esse engajamento apaixonado deu origem a livros que misturam ensaios, comentários e narrativas, como Ultimo round (1969) 7 , ou romances de estrutura complexa, como 62 modelos para armar (1968) 8 . O próprio Cortázar reivindicou essa ligação não dogmática entre literatura e revolução ao afirmar: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Amor, revolução e literatura compuseram então o triângulo da aventura cortaziana.

Arte lúdica e anticonvencional

“Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”

Terminou seus dias em Paris, exilado pela ditadura argentina e declarado cidadão francês pelo presidente Mitterrand. Segundo seu biógrafo, Mario Goloboff, sua maior qualidade, sem dúvida, foi ser “sempre lúdico e sempre, apesar de tudo, anticonvencional”. O humor e o prazer são características que se encontram em sua obra e, por vezes, como em Historias de Cronopios y de Famas (1962) 9 , em seus personagens principais. Talvez por isso, quando encontramos Cortázar nesse espaço fora do tempo que são as páginas de um livro por ele escrito, estabelecemos ligações com um otimismo que pode parecer incongruente para nossa época em que a esperança deu lugar ao fatalismo.

Talvez seja por isso, também, que as perguntas que o Cortázar da narrativa de Raúl Aguiar faz à jovem cubana nos encham de melancolia. Elas nos remetem ao esboço de um outro mundo alojado no interior do nosso, mas que não sabemos desvendar. Porque perdemos essa arte do encontro de que Cortázar era mestre. É provavelmente também por isso que os leitores que vêm todos os dias se concentrar diante de seu túmulo parisiense não são simples turistas. Mas seus cúmplices.

(Trad. Regina Salgado Campos)

1 - “Figuras”, in La Letra del escriba, Havana, 2003.
2 - “O Perseguidor”, in Blow-up e outras histórias, ed. Publicações Europa-América, Lisboa, 1968; L’homme à l’affût, ed. Gallimard, Paris, 1973.
3 - Conto em que foi baseado o filme Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966), e que faz parte da coletânea Las armas secretas (1959); in Blow-up e outras histórias, 1968; Les fils de la vierge, ed. Myriam Solal, Paris, 1963.
4 - Alusão ao livro de André Breton, L’amour fou, 1937.
5 - O jogo da amarelinha, ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1970; Marelle, ed. Gallimard, Paris, 1963.
6 - O livro de Manuel, ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984; Le livre de Manuel, ed. Gallimard, Paris, 1973.
7 - Dernier round, ed. Gallimard, Paris, 1969.
8 - 62 Modelos para armar, ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975; 62 Maquette à monter, ed. Gallimard, Paris, 1968.
9 - Histórias de Cronópios e de Famas, ed. Civilização Brasileira, 1973; Histoires des Chronopiens et des Fameux, ed. Daily-Bul, La Louvière, 1968.




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