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ALEMANHA

Os “porquês” do desemprego

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Com a economia em crise desde a reunificação, a Alemanha enfrenta altas taxas de desemprego e investimentos em baixa. Mas a culpa, como sempre, recai sobre o “alto custo do trabalho”

Heiner Ganssmann - (01/02/2004)

Os especialistas continuam procurando as causas da miséria econômica alemã no mercado de trabalho

Há algum tempo, a República Federal Alemã (RFA) vem perdendo o fôlego, com um desemprego elevado e uma economia estagnando. Os economistas alemães são unânimes em seus diagnósticos: a oferta e a demanda no mercado de trabalho não se equilibram porque os custos sociais são demasiado altos e os sindicatos, exageradamente fortes. Já há alguns anos, Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia, criticava esses economistas por sua crença ingênua naquela tese, “como se o buraco de um pneu furado tivesse, necessariamente, que ser em baixo, pois é ali que o pneu toca no solo”.

Os especialistas continuam procurando as causas da miséria econômica alemã no mercado de trabalho. Experts do Deutsche Bank apontam uma série de problemas: contribuições sociais demasiado significativas; salários reais elevados; uma hierarquia de salários insuficiente entre setores, regiões e níveis de competência; uma proteção legal considerável contra demissões; sólidas barreiras contra o aumento da flexibilidade; índices de indenização por desemprego e uma assistência social que não incentivam ao trabalho. Resumindo, “um sistema de garantias sociais desenvolvido demais”.

A redução dos empregos seria devida aos “custos do trabalho demasiado elevados”. Acrescentando ainda que os trabalhadores teriam sido “os grandes vencedores das últimas décadas”. “Vencedores” que não são os únicos a ficarem perplexos. Principalmente se for analisado o que se passou após a unificação.

Crise pós-reunificação

Após a unificação, a economia da ex-Alemanha Oriental desmoronou e os empregos passaram de 10 milhões para 6 milhões

Representando 30% do território total e 20% da população, os novos “irmãos” orientais contribuíam, em 1992, com menos de 8% da produção econômica. Após a unificação, a atividade econômica da ex-Alemanha Oriental desmoronou. Os empregos evaporaram rapidamente, passando de 10 milhões para 6 milhões. Inicialmente, a desindustrialização foi compensada com uma expansão da construção civil, incentivada por subsídios, isenções fiscais e investimentos públicos na infra-estrutura. A partir de 1997, o fosso que separava as duas partes do país voltou a aumentar. O índice de desemprego no Leste era duas vezes maior do que no Oeste e a produtividade era menor, mesmo nas empresas ultramodernas. A unificação não só fracassou em dar um impulso à economia do Leste, como freou o crescimento do Oeste.

Em conseqüência disso, aumentaram os encargos sociais, passando de 22,2% do PIB, em 1990, para 32,2%, em 1992, numa progressão contínua. Essa alta brutal não foi financiada por impostos gerais suplementares, e sim por um aumento nas contribuições para a previdência social e por um rápido endividamento do Estado. A miséria alemã oriental parecia ser provisória, tanto assim que o Deutsche Bank tolerou esse endividamento. Principalmente porque investimentos consideráveis afluíam para a ex-Alemanha Oriental.

No entanto, com a recessão em 1993, os investimentos caíram em toda a Alemanha Federal. Desapareceram as esperanças de que pudessem ser extintas, progressivamente, as transferências de encargos sociais para o Leste. Entre 1991 e 2001, o índice conjunto de crescimento da economia foi de 1,5%, inferior ao de todos os países ricos da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – com exceção da Suíça e do Japão. Em 2003, chegou a ser negativo. Como o emprego não podia crescer diante de tal índice, o desemprego continuou pesando no orçamento social do Estado. De 7,7% da população economicamente ativa, em 1993, passou para 9,7%, em 1997, e depois para 7,8%, em 2000. Mas atualmente voltou a crescer.

O ônus sobre os salários

Descarregando o ônus da unificação sobre os salários, criou-se um abismo progressivo que tornou os empregos mais caros

O salário real líquido diminuiu, em média, 2,6% entre 1991 e 2002, enquanto o PIB real cresceu 15% e a produtividade por hora trabalhada cresceu em torno de 21%. Os encargos referentes aos impostos e à previdência descontados em folha aumentaram em 56,4%. Ampliou-se o abismo que separa o valor do salário líquido do salário bruto. Descarregando o ônus da unificação sobre os salários, o Estado criou esse abismo progressivo que tornou os empregos mais caros, apesar da estagnação dos rendimentos líquidos. Portanto, apesar das críticas freqüentes, os sindicatos conseguiram apenas manter o nível dos salários reais líquidos.

De acordo com alguns estudos comparativos, é evidente que o custo do trabalho na indústria (salários + encargos) aumentou, seja ele calculado em marcos ou em euros – em dólares, entretanto, este valor foi inferior. Partindo de um valor-base de 100, em 1992, caiu, em 2001, para um valor indexado de 94,1 nos Estados Unidos; de 89,3, no Japão; de 62,6, na França; de 78,7, na Alemanha; e de 95,3, na Grã-Bretanha. Portanto, a economia alemã sofre muito menos com o custo dos salários do que com as taxas de câmbio. E o diagnóstico segundo o qual um “mercado de trabalho não-flexível” seria o responsável pelos salários elevados – os quais, por sua vez, seriam responsáveis por um desemprego significativo – não tem por base qualquer análise empírica sólida mas, sim, um dogma orientado por interesses particulares.

Se, como diz Solow, o furo do pneu não é embaixo, então onde seria? O desemprego não pode resultar exclusivamente da inflação ou de um mercado de trabalho “rígido”. Decorre, também, de baixos investimentos. Se as reservas em capital não aumentam suficientemente e se, ao mesmo tempo, a produção se racionaliza, então, a demanda de trabalho diminui.

Investimentos em baixa

O capital segue as pistas dos grandes lucros nos Estados Unidos, da especulação e da tentação exercida pela explosão das receitas dos grandes empresários

Na República Federal Alemã, os investimentos estão em queda desde o final da década de 70. É claro que se pode argumentar que os aumentos salariais prejudicam os lucros e, portanto, os investimentos regridem. Por outro lado, isso deveria significar que um congelamento de salários levaria a investimentos de maior porte graças aos maiores lucros. No entanto, na Alemanha, os lucros aumentam e os investimentos diminuem.

Por ocasião da grande onda de especulação do final da década de 90, a parcela de investimentos diretos alemães no exterior passou de 301 bilhões de euros, no final de 1998, para 628 bilhões de euros no final de 2001. Compare-se isso com os 372 bilhões de euros de investimentos alemães na economia doméstica. Paralelamente aos investimentos diretos, a especulação com valores estrangeiros aumentou rapidamente – até o crash de 2001. As empresas e os empresários ricos alemães investiram no exterior, evidentemente, os lucros que haviam realizado na Alemanha.

O Deutsche Bank admite que “quando o retorno dos investimentos diminui, a tendência é investir pouco capital adicional. Se, durante o mesmo período, as ocasiões de investimentos forem mais interessantes no exterior, é ali que o capital será investido”. Em outras palavras, o problema não está na falta de recursos para investir. O capital segue as pistas dos grandes lucros nos Estados Unidos, da especulação e da tentação exercida pela explosão das receitas dos grandes empresários. A Daimler já deu o sinal: a fusão com a Chrysler já proporcionou aos membros da diretoria um aumento de receita da ordem de 466%.

O reinado das grandes empresas

Os políticos tendem a apoiar o projeto neoliberal, como demonstra a “agenda 2010”: menos impostos, mais desregulamentação

A recessão pressiona não só os assalariados, como também os políticos. Numa situação de desemprego elevado, quem se sentir ameaçado de demissão irá preferir acomodar-se com uma reestruturação de suas condições de trabalho e uma distribuição da riqueza que proporcione mais lucros. Os políticos, em sua maioria, tendem a apoiar o projeto neoliberal, como demonstra a “agenda 2010”, com a qual o chanceler Gerhard Schröder quer privilegiar as receitas altas: menos impostos, mais desregulamentação e custos de trabalho menos onerosos.

Quem ainda pode acreditar que serão mantidas as vantagens de uma “economia de mercado coordenada”, quando as empresas administram, reinam e ganham dinheiro como querem, copiando o modelo norte-americano? Quando as instituições complementares do capitalismo “da Renânia” são destruídas pelos impostos, por investimentos demasiado tímidos e por pretensas reformas, caberia aos empresários alemães despertarem para um mundo em que não se encontram as vantagens, e sim os inconvenientes das duas variantes do capitalismo: um setor público reduzido, que oferece serviços de má qualidade, uma economia desregulamentada, com uma concorrência frágil, uma população despreparada e, para finalizar, assalariados que só aceitam de má vontade serem comandados por executivos ávidos e autoritários.

Onde se podem ver vestígios de esperança? Na classe política, definitivamente, não. Considerando a continuidade da política financeira entre o ex-ministro das Finanças, Theo Waigel, e o atual, Hans Eichel, dificilmente se pode esperar por mudanças. A República Federal da Alemanha volta a ser, sem dúvida, a campeã da exportação no mundo, mas seus êxitos econômicos no exterior não são percebidos no mercado interno. E não dá para esperar que investimentos estrangeiros venham a tomar seu lugar.

Ou se consegue o retorno dos investidores privados, por uma nova série de concessões, ou se tenta uma variante social-democrata que implique uma política de oferta com mais investimentos e mais empregos públicos. Mas até esta simples idéia se tornou utópica no atual cenário político.

(Trad.: Jô Amado)




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