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EL SALVADOR

Por trás da violência das gangues de San Salvador

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Produto de exportação da cultura norte-americana, jovens delinqüentes salvadorenhos, sem perspectiva de vida, se espalham pela periferia de San Salvador, se dedicando a pequenos crimes e, sobretudo, a uma guerra cujo único objetivo é destruir a gangue rival

Phillippe Revelli - (01/03/2004)

O conflito é totalmente irracional, sem o menor argumento racial, religioso ou ideológico, mas, aos olhos de seus membros, fundamenta em grande parte a legitimidade do bando

Soyapango, periferia de San Salvador. A única rua íngreme ao longo da qual fica o loteamento de La Campanera acaba em um terreno baldio. Cinco ou seis jovens suportam seu tédio ali: calças bem largas até os tornozelos, bonés de beisebol, gestos de rappers. Tatuado nos braços, no torso, na testa, nas bochechas, o número “18” é também pintado com spray nos muros do bairro, marcando o território da Mara (a banda). “La Eighteen (a Dezoito) é minha família, essa tatuagem me liga a ela para toda a vida”, brada El Bad Boy1. “E aí, essas três pontas em forma de triângulo significam a vida loca: sexo, droga e rock...”, continua ele. Recentemente, submeteu-se à surra iniciatória que marca sua admissão no bando e prega com o entusiasmo dos novos convertidos: “Nós protegemos o bairro contra os Mierdas Secas...”

Os Mierdas Secas são o inimigo, a Mara Salvatrucha (MS), cujo código de conduta do bando proíbe pronunciar o nome e constitui o alvo principal dos ataques da Mara 18. Entre as duas pandillas, é a guerra mortal. A socióloga Maria Santacruz Giralt2 explica: “A violência das maras é fundamentalmente orientada para a destruição daqueles que ela considera inimigos: jovens de condições sociais e econômicas muito semelhantes, que somente se diferenciam pelo fato de pertencerem ao grupo rival”. O conflito é totalmente irracional, sem o menor argumento racial, religioso ou ideológico, mas ainda mais irredutível porque, aos olhos de seus membros, fundamenta em grande parte a legitimidade do bando. Ostensivamente presentes nos bairros populares e na periferia de San Salvador, onde seus grafites cobrem os muros, a MS e a M18 agem também nas principais cidades do país e, em menor medida, na zona rural. Quinze mil? Vinte mil? As cifras sobre o número de mareros pertencentes a uma ou a outra das 309 clicas (bandas de bairro) recenseadas no país variam, entre as quais 170 são fiéis à Salvatrucha e 102 à Eighteenth3 - cada bando de bairro tendo, na verdade, autonomia quase total. Essas clicas têm geralmente entre uns trinta e uns sessenta membros, dos quais 63,7% têm entre 16 e 21 anos e 17,3% são garotas, de acordo com o estudo do Iudop.

Exportação da cultura norte-americana

A venda de droga a varejo, o roubo feito aos motoristas de ônibus e de táxis, aos comerciantes e, eventualmente, aos habitantes dos bairros que eles controlam constituem as principais fontes de renda das maras. Mas, mais que esses delitos, é a guerra entre os dois bandos dominantes que contribui para gerar um forte sentimento de insegurança na população: dos 2 mil homicídios cometidos anualmente em Salvador, 40% são atribuídos aos enfrentamentos entre as maras, afirma a polícia. E embora a principal violência se dê entre os grupos rivais, as maras são hoje apresentadas como uma das principais pragas que afetam a região, especialmente em El Salvador, em Honduras e na Guatemala.

Sua existência certamente não é um fenômeno novo na América Central, mas o número de jovens envolvidos, o nível de violência e a posição hegemônica à qual a Mara 18 e a Mara Salvatrucha chegaram em menos de uma década4 fazem de sua expansão uma característica marcante da situação da América Central.

No entanto, nenhuma dos dois bandos é originária da região! Tanto uma quanto a outra podem ser consideradas produtos de exportação da cultura norte-americana das gangues, particularmente persistentes em Los Angeles.

Briga por prestígio e território

A guerra entre os dois bandos dominantes contribui para gerar um forte sentimento de insegurança na população: dos 2 mil homicídios anuais, 40% são atribuídos aos enfrentamentos entre as maras

Los Angeles. Os escritórios da associação Homies Unidos5 estão situados a dois passos da Calle Alvarado e da Rampart Street, centro da Little San Salvador, onde se encontram imigrantes em situação irregular recém-chegados da América Central e berço da Mara Salvatrucha. “Cheguei a Los Angeles em 1979”, conta Alex Sanchez, ex-membro da MS, hoje dirigente do Homies Unidos. “Naquela época, milhares de salvadorenhos que fugiam da guerra civil começaram a emigrar para os Estados Unidos6. Na escola e na rua, os conflitos com os jovens de outras comunidades – principalmente mexicanos e chicanos – eram freqüentes. Entre salvatruchas (naturalmente, salvadorenhos), éramos solidários. A tutela parental não era exercida e a rua, o álcool, a droga exerciam sobre nós uma atração irresistível. Os roubos de automóveis, pequenos ferro-velhos e drive-by7 alternavam com os dias na prisão – dias dos quais voltávamos tatuados e aureolados de um prestígio novo...”

Naqueles anos, a gangue da Eighteenth Street – 18ª rua – já era dona do bairro. Formada, no início da década de 1960 por jovens imigrantes mexicanos furiosos por não serem admitidos em uma das mais antigas gangues de Los Angeles, a Clanton Street’s Gang. No início circunscrita a alguns conjuntos habitacionais situados na esquina da Rampart Street e da Eighteenth Street (que dá nome ao bando), seu território se estendeu rapidamente. A guerra explode com a jovem Mara Salvatrucha, quando esta começa a se apoderar do domínio da Eighteen.

Na segunda metade da década de 1980, a expansão do tráfico de drogas dopa a atividade das pandillas8 e, explica Al Valdez, encarregado da pesquisa do distrito, procurador do condado de Orange, “os contínuos ataques da justiça contra as gangues têm conseqüências inusitadas. Os chefes dos bandos, que mantêm em vigor as regras de conduta dentro da gangue, são enviados para a prisão (...) Eles perdem sua liderança sobre os jovens (...) que se acham entregues a si mesmo (...). As gangues hispânicas começam a cometer crimes em sua própria vizinhança. Pessoas estrangeiras tornam-se suas novas presas, particularmente os imigrantes em situação irregular – que começam a formar suas próprias gangues para se defenderem das já instaladas” 9.

Álibi para medidas liberticidas

Rompendo a tradição, a MS e a M18 abrem suas fileiras a outras comunidades latinas, mas também negras e asiáticas. Recrutam seus membros cada vez mais jovens, especialmente nos colégios, o que vale à M18 ser qualificada de “gangue de crianças”. Atualmente, as duas têm várias dezenas de milhares de membros simplesmente em Los Angeles. Suas atividades vão do tráfico de drogas e de carros roubados aos seqüestros, passando pela chantagem, lenocínio e os ataques à mão armada. Al Valdez afirma até que a MS negociaria diretamente com os narcotraficantes mexicanos e colombianos e, constatando a presença das duas gangues na maioria das grandes cidades dos Estados Unidos, do Canadá, do México e de toda a América Central, ele deduz que se trata de organizações criminais internacionais.

Contradizendo a tese do “crime organizado”, o padre Greg Boyle prefere falar de “crime desorganizado”

William Bratton, o novo chefe do Los Angeles Police Department (LAPD), chegou até a identificar as gangues de jovens delinqüentes às máfias e às organizações terroristas, mesmo que mais tarde tenha negado essas declarações10. Um diagnóstico terrível, que permite justificar os métodos mais opressores do LAPD e todo um arsenal de medidas liberticidas: o fato de pertencer a uma gangue torna-se uma circunstância agravante, é proibido aos membros de uma pandilla viajar em dupla em um carro ou um ônibus, reunir-se em locais públicos, estacionar na rua, utilizar telefone celular... Tantas medidas que, aos olhos dos enviados especiais da Prensa Grafica, um dos principais cotidianos de El Salvador, fazem de Los Angeles um laboratório da guerra antimaras suscetível de servir de exemplo aos governos da América Central11.

“Crime desorganizado”

Contradizendo a tese do “crime organizado”, o padre Greg Boyle prefere falar de “crime desorganizado”. Para esse jesuíta, que vive há anos em contato diário com os jovens delinqüentes de Los Angeles, entre os quais ganhou o nome de Big G. Dog12, “trata-se de jovens extremamente incapazes de imaginar um futuro qualquer para atingir esse nível de organização. São meninos muito pobres que não têm outra coisa para partilhar a não ser sua miséria e, em sua imensa maioria, estariam prontos para trocar o bando por um emprego estável.” Mas se o orçamento do LAPD ultrapassa o bilhão de dólares, em 2003, em compensação, os programas sociais vêem seus recursos diminuírem continuamente.

Alex Sanchez se indigna: “Na Califórnia, constroem-se mais presídios do que escolas. E quando o Homies Unidos denuncia toda a repressão e tenta ajudar os pandilleros a encontrarem alternativas para suas atividades delituosas, seus dirigentes tornam-se alvo de intrigas e de perseguições policiais”. Foi assim que, em 1999, Sanchez foi expulso para El Salvador, em virtude da Illegal Immigration Reform and Immigrant Responsability Act (IRIR) e somente foi autorizado a voltar para os Estados Unidos após a mobilização de associações de defesa dos direitos humanos. Adotada em 1996 pelo congresso dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que as outras leis “antiterroristas”, a IRIR provocou, além da expulsão de milhares de salvadorenhos em situação irregular, a de centenas de pandilleros que estiveram na origem da expansão fulgurante da Mara Salvatrucha e da Mara 18 na América Central.

Último refúgio para deportados

Toda semana um vôo proveniente, ora de Houston, ora de Los Angeles desembarca um contingente de salvadorenhos expulsos, cujas tatuagens os impedem de conseguir um emprego

Aeroporto de San Salvador. Toda semana um vôo proveniente ora de Houston, ora de Los Angeles, desembarca seu contingente de salvadorenhos expulsos. Em sua chegada, os deportados, como são chamados aqui, passam pelas mãos da polícia, particularmente atentas às tatuagens em seus corpos, que revelam que pertencem a uma gangue. Segundo a polícia nacional civil (PNC), 2.812 pessoas foram expulsas durante os oito primeiros meses de 2003; entre esses, 1.061 tinham um prontuário judicial e 175 eram membros de uma gangue. “Alguns dos pandilleros deportados haviam abandonado El Salvador quinze ou vinte anos antes”, explica Dom Miguel, diretor da Casa do Emigrante de San Salvador, que os recebe quando descem do avião em seu país: eles falam mal o espanhol e não conhecem ninguém neste país que não é mais o deles. Suas tatuagens os impedem de conseguir um emprego13 e os condenam à violência do bando rival ou de grupos de extermínio como o Sombra Negra. Nesse contexto, a Mara torna-se sempre seu último refúgio, principalmente porque eles são geralmente mais velhos que a média dos pandilleros e porque, ao chegar dos Estados Unidos, desfrutam, entre eles, de um grande prestígio...”

Embora as deportações maciças contribuam de maneira decisiva para o desenvolvimento da MS e da M18 na América Central, essa contribuição externa não é suficiente para explicar a amplitude do fenômeno. Maria Santacruz Giralt insiste: “não há uma única causa, mas um conjunto de fatores que, ao se combinarem, fazem da questão das maras um problema social complexo”. Produto de exportação, a cultura das gangues se enraíza em um terreno fértil. Os anos da guerra civil deixaram marcas, a violência continua endêmica; as milhares de armas, sempre em circulação, são vendidas a preços irrisórios; o consumo da droga aumenta; e avalia Julio Buendia, da ONG Caritas Salvador, “sobretudo a liberalização constante da economia regional tem um efeito desestabilizador sobre todo o tecido social.”

Favorecimento da emigração

O café, as culturas de subsistência e toda a produção agrícola são sacrificadas no altar do livre mercado. El Salvador torna-se uma terra não cultivada entregue às empresas terceirizadas – as maquilas – elas próprias excluídas nas zonas francas, zonas sem direito sindical, em que mulheres muito jovens constituem a maior parte da mão-de-obra. O desemprego não pára de crescer e um processo de pauperização acelerada afeta a maioria das camadas sociais. Na população, e principalmente entre os mais jovens, prevalece um sentimento de impotência e de ausência de alternativa política, que contribui para fazer da emigração a única escapatória.

Embora não reconheça oficialmente, o governo favorece essa emigração, pois ela alivia a pressão social e o envio de fundos da diáspora constituem, atualmente, a primeira fonte de divisas do país – 14% do Produto Interno Bruto salvadorenho em 2003. Buendia conclui no final dessa descrição: “Mas a saída, anualmente, de 70 mil salvadorenhos (200 por dia!) tem um impacto dramático sobre o núcleo familiar, deixando jovens sem futuro e entregues a si próprios...” Subproduto do sistema, as maras se incham com essas “gorduras”. No entanto, eles não ameaçam os bairros ricos, defendidos por milhares de vigias de empresas de segurança privadas14.

Os milhares de jovens pandilleros não são portadores de nenhuma reivindicação de natureza social ou política e sua visibilidade (tatuagens) facilita sua “conversão” em bode expiatório. De acordo com o Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop), 42,7% dos salvadorenhos consideram a violência e a delinqüência das maras como o principal problema do país15. Uma noção amplamente compartilhada na América Central, onde quase simultaneamente (entre julho e agosto de 2003), a Guatemala, Honduras e El Salvador anunciaram a efetivação respectivamente do Plano Escoba, da Operação Liberdade e do Plano Mano Dura, conjunto de medidas repressivas que nunca atacaram as raízes sociais do mal.

Plano Mano Dura

O café, as culturas de subsistência e toda a produção agrícola são sacrificadas no altar do livre mercado. El Salvador torna-se uma terra não cultivada entregue às empresas terceirizadas

Diretor da PNC de 1999 a meados de 2003, Mauricio Sandoval é o instigador da estratégia colocada em prática pelo governo salvadorenho para lutar contra as maras. É um homem da mídia, proprietário de várias empresas de comunicação e um membro importante da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido de extrema direita ligado aos esquadrões da morte durante a guerra civil, “revestido” de partido de uma direita “dura” e atualmente no poder. Em 16 de novembro de 1989, no momento do assassinato de seis jesuítas da Universidade centro-americana José Siméon Cañas (UCA) pelo exército salvadorenho, era tachado de porta-voz da presidência e tinha autorizado a difusão, pela Radio Cuscatlán, de pesquisas de opinião anônimas que demandavam o assassinato dos religiosos cúmplices da guerrilha da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) 16.

Em fevereiro passado, Sandoval afirmou, sem o menor constrangimento que “desde a assinatura dos acordos de paz (em 1992), as instituições do Estado foram purgadas de seus elementos de extrema direita, enquanto a FMLN (que se tornou partido político) não renunciou a seus métodos terroristas de extrema esquerda”. A propósito das medidas que permitem lutar contra a delinqüência, ele se declara a favor de denunciar a Convenção sobre os direitos da criança, “sem dúvida válida para democracias estabilizadas, mas não em El Salvador. E, além disso, é preciso salientar, a França e os próprios Estados Unidos endureceram sua legislação sobre a delinqüência dos menores de idade...” Em junho de 2003, disputando sua indicação pela Arena às eleições presidenciais de 21 de março de 2004, Sandoval demitiu-se de suas funções na direção do PNC, e foi sobre seu sucessor Ricardo Meneses que recaiu a incumbência de pôr em prática o Plano Mano Dura, anunciado em 23 de julho de 2003 pelo próprio presidente Francisco Flores.

Cavalo de batalha eleitoral

Na população, e principalmente entre os mais jovens, prevalece um sentimento de impotência e de ausência de alternativa política, que contribui para fazer da emigração a única escapatória.

Transformada em um dos cavalos de batalha eleitoral da Arena, a “guerra contra as maras” beneficia-se do apoio constante da maioria dos meios de comunicação que, dia após dia, mostram em sua primeira página crimes mórbidos, violações e outros excessos sistematicamente atribuídos às maras. Em outubro de 2003, depois de múltiplas manobras secretas, o governo adota uma “lei antimaras” nos termos da qual essas bandas estão ligadas a organizações criminais, o fato de pertencer à Mara torna-se um delito e, em caso de assassinato, os menores são julgados e condenados como adultos. Em 30 de outubro, em um artigo especial intitulado “Guerra às maras”, a Prensa Gráfica anuncia que 320 pandilleros foram capturados desde o lançamento do Plano Mano Dura... e que 35% deles foram soltos logo, obedecendo às decisões dos juízes encarregados de instruir os dossiês. Na verdade, vários magistrados discordam dessa lei, que consideram inconstitucional. Uma revolta que provoca a cólera do presidente Flores: “Vamos lutar para ultrapassar os obstáculos que nos impõem os políticos (subentendido a FMLN) e os juízes que defendem esses crimes”, declarou.

Mirna Perla, juíza no Tribunal de menores de Santa Tecla, retruca: “A ‘lei ’ contradiz vários artigos da Constituição assim como cartas e tratados internacionais dos quais El Salvador é signatário. Trata-se de uma operação política-eleitoral. A polícia se contenta em saquear os jovens que lhe caem nas mãos, as acusações são feitas com base em pesquisas mal feitas ou em ondas de denúncias, sem nenhuma preocupação com a eficácia, para mostrar que a polícia age”. Em dezembro de 2002, o assassinato de uma adolescente, violada e decapitada, deixou a opinião pública indignada. As maras logo foram logo acusadas, mas Perla salienta: “nada permite sustentar essa acusação e um dos principais acusados estava preso no momento do crime! Os acordos de paz tinham dado uma certa independência à justiça. Hoje, o governo utiliza um problema real para retomar essas conquistas iludindo os reflexos de segurança da população. Aliás, os magistrados não são os únicos visados e, sob o pretexto de depuração, inúmeros policiais íntegros foram vítimas dessa retomada da PNC por seus setores mais reacionários... O caso de Hector B. é particularmente revelador a propósito disso.”

Os milhares de jovens pandilleros não são portadores de nenhuma reivindicação de natureza social ou política e sua visibilidade (tatuagens) facilita sua “conversão” em bode expiatório

Sério, muito correto com sua camisa bege abotoada até o pescoço e sua gravata, Hector B. não corresponde à imagem do guerrilheiro. No entanto, em 1992, quando a guerrilha e o governo assinaram os acordos de paz, era membro dos grupos de estudantes da FMLN. Militante disciplinado, aceitou entrar na nova Polícia Nacional Civil à qual deveriam se integrar guerrilheiros civis. Hector admite: “Jamais teria imaginado tornar-me policial um dia, mas a dimensão social desse trabalho me seduziu.” A polícia tornou-se, para ele, um sacerdócio, mas “a nomeação de Mauricio Sandoval, em 1999, marcou uma guinada na PNC. A corrupção se agravou, as prisões abusivas de jovens dos bairros populares multiplicaram-se, os policiais íntegros foram perseguidos.” Sem levar em conta conselhos de prudência que lhe são dados, Hector denuncia essa deriva. No início deixado de lado, deixou a PNC na onda de depuração, em 2001, sem sequer ser informado sobre o motivo de sua demissão. Chefe do departamento de prevenção da violência e da delinqüência juvenil, o ex-comandante guerrilheiro Hugo Raírez entrou também na PNC após a assinatura dos acordos de paz. No tempo em que dirigia a delegacia de polícia de Soyapango, teve a oportunidade de se relacionar com as maras com as quais procurou estabelecer um diálogo e constata: “o que desagradou meus colegas, que me perguntaram por que eu perdia meu tempo em discutir com os delinqüentes.” Certamente, reconhece Ramírez, alguns se dedicam ao tráfico de drogas (12,2% de acordo com o IUDOP), negociam espaços de venda e, às vezes, “contratos” com bandas provenientes do crime organizado.

Acontece também que alguns chefes de maras se juntam a essas, mas, mesmo que várias dezenas de líderes tenham sido identificados, não existe coordenação nacional da M18 ou da Salvatrucha. Para Ramírez, “é preciso evitar colocar todos os jovens que gravitam em torno das maras no mesmo saco”, e afirma: “uma política simplesmente repressiva que não leva em conta a dimensão social do problema está condenada ao fracasso.”

Longe de apresentar os resultados prometidos pelo governo, a estratégia da repressão conduz de fato a evoluções inquietantes. Grupos de extermínio social, reminiscência dos sinistros esquadrões da morte ressurgem, principalmente o Sombra Negra; segundo testemunhas dignas de fé, Valdemar Flores Murillo, chefe da PNC para a região ocidental e Will Salgado, prefeito de San Miguel, seriam membros notórios dela. Diante da ofensiva da polícia, as maras se adaptam, tornam-se menos delinqüentes, recrutam seus membros cada vez mais jovens enquanto os chefes se escondem, estabelecem vínculos mais estreitos com o crime organizado.

Impossibilidade de empregos

Os acordos de paz tinham dado uma certa independência à justiça. Hoje, o governo utiliza um problema real para retomar essas conquistas iludindo os reflexos de segurança da população

“A MS controla atualmente a distribuição do crack em San Salvador e seus grupos de choque seguem um treinamento de tipo militar na montanha”, afirma o padre Pepe Morataya, que trabalha há anos para a reinserção dos jovens delinqüentes. Quanto a José Cornero, que trabalha com os jovens mareros de La Campanera (Soyapango) na Pastoral das maras da Igreja Católica, constata que “os constantes ataques da polícia dissuadem os jovens de participarem das atividades educativas ou culturais por medo de serem presos na saída de uma reunião ou de um ateliê.”

Ora, segundo o estudo do IUDOP, 87% dos mareros gostariam de “se acalmar” e de se distanciar do bando, principalmente quando se casam e têm filhos. Cornero vai mais longe: “Algumas clicas de Soyapango aceitariam entregar suas armas à polícia em troca de roupas e alimentos”. E em Mejicanos, outro bairro popular da capital, mais de mil pandilleros foram ao centro de saúde de San Judas Tadeo para apagar suas tatuagens. Um tratamento doloroso e, para os que a ele recorrem, o risco de ser acusado de traição.

“No entanto, mais que essas ameaças – que não devem ser desprezadas –, o que retêm os jovens que querem “se acalmar”, é a impossibilidade de arrumar um emprego”, avalia o padre Tonio, diretor do programa Adios Tatuages.

Em outubro de 2003, a prefeitura (da FMLN) de Soyapango veio discutir com os mareros de La Capanera. Preocupação eleitoreira? Realmente, pois raros são os inscritos nas listas eleitorais. E os milhares de jovens cuja miséria é desviada para a violência estéril das maras constituem hoje, sem dúvida, uma disputa real da sociedade.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Pseudônimo.
2 - Santacruz Giralt dirigiu uma pesquisa do Instituto universitário de opinião pública (IUDOP) sobre as maras, publicada com o título de Barrio adentro (Ed. UCA, San Salvador, 2001).
3 - É preciso acrescentar 5 clicas da Mau Mau e 32 outras bandes de menor importância. Documento da Polícia nacional civil apresentado em 27 de agosto de 2002 no Fórum “Propostas e soluções para o problema da violência juvenil ”.
4 - Não conhecidas nesse país no final dos anos 1980, a M18 e a MS são atualmente onipresentes na Guatemala.
5 - Homies Unidos : essa associação, fundada por ex-pandilleros, trabalha na reinserção de jovens delinqüentes sem lhes impor como preliminar abandonarem sua banda. Ela é presente em Los Angeles e em San Salvador : ver www.homiesunidos.org/about
6 - El Salvador tem, atualmente, 6 milhões de habitantes, mas 2,5 milhões de salvadorenhos residem nos Estados Unidos, 800 mil deles em Los Angeles. No início da década de 1970 eram apenas alguns milhares.
7 - Racha de carros, acompanhados de metralhadas nos bairros controlados pela banda rival.
8 - Naquela época, a CIA, para financiar a contra nicaraguense, organizou redes de transporte de droga através da América Central.
9 - www.nagia.org/Hispanic_Gangs.htm
10 - LA Weekley, Los Angeles, 5 de dezembro de 2003.
11 - La Prensa Gráfica, San Salvador, 28/29 de outubro de 2003.
12 - O padre Greg Boyle é o fundador do Homeboys Industries, um centro de formação profissional aberto para os jovens delinqüentes que têm vontade de mudar de vida.
13 - 88% dos pandilleros deportados não trabalham. “Barrio Adentro”, op.cit.
14 - Uns 20 mil agentes de segurança privada são empregados nas 114 empresas de segurança autorizadas.
15 - “Barrio Adentro”, op. cit.
16 - Entre eles estava o padre Ignacio Ellacuria, intelectual de prestígio, reitor da UCA e fervoroso adepto do diálogo entre a FMLN e o governo salvadorenho. Esse assassinato foi cometido durante uma violenta ofensiva da guerrilha sobre as principais cidades do país e, particularmente, sobre a capital San Salvador.




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