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A Revolução dos Cravos, vista de Moçambique

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Aqueles que viviam nos bairros de zinco (a periferia pobre) fizeram verdadeiramente a festa no dia 25 de junho de 1975, data da independência nacional de Moçambique. No dia 25 de abril de 1974, na Revolução dos Cravos, eles sorriam. No dia 25 de junho de 1975, cantaram e dançaram

(01/04/2004)

O regime colonial-fascista se transformara num fardo para quase todos os quadros dos partidos políticos

O 25 de abril foi recebido em Moçambique com um misto de alegria e apreensão. De fato, até a alegria era de geometria variável. Havia aquela, inocente, das vítimas do fascismo e do colonialismo. Outras pareciam menos sinceras. Mesmo organizações coloniais saudaram a Revolução dos Cravos. Cinco meses depois, esses colonos de extrema-direita tentavam, em Lourenço Marques (futura Maputo), um golpe contra o acordo de paz entre Portugal e Moçambique, ratificado por Mário Soares e Samora Machel.

Por que essa alegria elástica, sentida por grupos com interesses tão divergentes? O regime colonial-fascista se transformara num fardo para quase todos os quadros dos partidos políticos, da esquerda à extrema-direita. A revolução se parecia, por conseqüência, com um ovo de crocodilo: podia virar macho ou fêmea, segundo a temperatura externa...

Como a alegria, a apreensão também variava. Entre os militares da Junta de Salvação Nacional, apareciam generais engajados há muito tempo no combate contra os movimentos de libertação na África. Alguns, como Galvão de Melo, faziam parte, inclusive, dos falcões da máquina militar. Outros, como Antônio Spínola, pretendiam-se adeptos de uma política colonial reformada: seu desacordo dizia respeito não à essência do regime, mas à tática escolhida para perpetuar a presença portuguesa.

“Liberdade” sob bandeira portuguesa

Os militares revolucionários tiveram que travar uma longa e dura batalha para quebrar a continuidade colonialista

As primeiras declarações da Junta eram ambíguas. No dia 29 de abril de 1974, por exemplo, o general Spínola garantia: “O que temos em mente é acelerar, no ultramar, o processo que permite a autodeterminação dos povos africanos sob a bandeira portuguesa”. Mesmo o general Costa Gomes, claramente à esquerda, afirmava: “Nossa intenção é lutar contra os guerrilheiros [...] até que eles aceitem nossa proposta de depor as armas e se transformar em partido político”. Os militares revolucionários do Movimento das Forças Armadas (MFA) tiveram que travar uma longa e dura batalha para quebrar toda forma de continuidade colonialista.

Nas cidades de Portugal, milhares de pessoas desfilavam e gritavam: “Nem mais um soldado para as colônias!” Ao mesmo tempo, em Moçambique, centenas de jovens juntavam-se clandestinamente ao exército da guerrilha. Alguns não queriam se alistar no exército colonial. Outros sonhavam ser guerrilheiros.

Depois do 25 de abril, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) decidiu continuar o combate militar: “Nós não lutamos apenas - explicava a guerrilha nacionalista - para vencer o fascismo em Portugal, mas também e principalmente para acabar com o colonialismo em Moçambique.” O conjunto dos movimentos de libertação das outras colônias portuguesas da África (Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné Bissau1) havia recebido com igual alegria a queda do regime de Lisboa, para a qual muito contribuíra sua própria luta.

Colonialismo democrático

A Frelimo acompanhava e estava a par dos movimentos de rebelião no exército colonial

O 25 de abril não os surpreendeu. A Frelimo, por exemplo – e graças a alguns de seus militantes clandestinos em Portugal – estava a par dos movimentos de rebelião no exército colonial. Um deles, Leite de Vasconcelos, locutor de plantão na rádio, transmitiu a canção de José Afonso, “Grândola Vila Morena”, dando, assim, aos capitães de abril a senha da revolução. O atual presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, dirigia, então, os serviços de segurança da Frente. Mais tarde, revelaria: “Nós já conhecíamos o Movimento dos Capitães e acompanhávamos o descontentamento que crescia dentro do exército português. Estávamos em contacto com informantes de dentro dele.”

No dia 27 de abril, o Comitê Executivo da Frelimo divulgava uma declaração em que recusava claramente a via sugerida de “democracia na metrópole e de colonialismo democrático nos Estados de ultramar. [...] Do mesmo modo”, acrescentava ele, “que o povo português tem direito à sua independência e à democracia, não é possível recusar os mesmos direitos ao povo moçambicano. [...] Os objetivos da Frelimo são muito claros: independência total e completa do povo moçambicano, término do colonialismo português”.

É necessário dizer que, em 1974, a Frelimo havia fortalecido sua implantação nas regiões rurais de quase metade do país, particularmente no norte e no centro. Mas o movimento precisava de tempo para se organizar nos centros urbanos, onde, na década de 60, suas pequenas células clandestinas, tão logo foram criadas, foram desmanteladas pela polícia secreta portuguesa, a sinistra PIDE-DGS. Evidentemente, a Frente se beneficiava da simpatia dos intelectuais nos centros urbanos, mas precisava se implantar de forma mais organizada. Em seguida ao 25 de abril, jovens citadinos ocuparam, então, rádio e jornais para melhor combater qualquer tentativa de transição neocolonial.

Agitação e ideologia colonial

No dia seguinte ao 25 de abril, as grandes manchetes dos principais jornais moçambicanos ostentavam sua ideologia colonial

Entre os estudantes de Lourenço Marques, dos quais eu fazia parte, reinava, desde 1970, um clima intenso de contestação. Mas alguns filhos de colonos e assimilados questionavam no máximo a dominação estrangeira, contentando-se com mudanças democráticas em Portugal, as quais, depois, repercutiriam no ultramar pondo “fim à guerra colonial”. Outros, em contrapartida, tinham por objetivo o “fim do colonialismo”.

Em março de 1974, eu era jornalista e trabalhava como estagiário num jornal da noite, em Maputo. Ao mesmo tempo, militava em grupos clandestinos de apoio à Frelimo. A Frente me pediu que abandonasse completamente os estudos para trabalhar em um jornal da capital a fim de “infiltrar”, com quadros moçambicanos, os órgãos de informação nas mãos dos portugueses.

Um mês depois, acontecia o 25 de abril. No dia seguinte, as grandes manchetes dos principais jornais de Lourenço Marques ostentavam sua ideologia colonial. Nenhum falava de revolução ou de golpe de Estado. A manchete do Notícias dizia “General Spínola, chefe da nação portuguesa”; e o jornal dizia: “Embora não se disponha de informações oficiais, uma Junta Militar teria tomado o poder.” A mensagem dessa última foi reproduzida pelo diário da noite A Tribuna, que, entretanto, escolheu colocar em destaque a passagem seguinte: “A Junta quer garantir a sobrevivência da Nação como pátria soberana em todo o seu (território) pluricontinental.”

Visões da história

Pequenas ilhas de recusa da violência militar foram um golpe muito duro para os partidários do continuísmo

No período que se seguiu, houve, em nossa terra, conflitos de contornos imprecisos. A PIDE-DGS não foi dissolvida imediatamente em Moçambique e os principais agentes do regime continuaram suas atividades. As tropas coloniais continuavam presentes em todo o país. Apenas algumas companhias tomaram a iniciativa de depor as armas: soldados e oficiais negociavam diretamente com os guerrilheiros, criando, desse modo, espaços de liberdade na irracionalidade da guerra. Essas pequenas ilhas de recusa da violência militar foram um golpe muito duro para todos os partidários da “solução de continuidade”. Principalmente porque Moçambique tinha sido transformado numa barreira para frear o avanço da luta de libertação: 65% do contingente português encontrava-se no país, dos quais 53% eram moçambicanos negros. Raros eram os soldados dispostos a morrer numa guerra que não lhes dizia respeito.

Nesse contexto, os estrategistas da Frelimo temiam que a direita portuguesa se aproveitasse do novo clima político e, particularmente, que ela conseguisse inverter a relação de causa e efeito entre a queda do regime e a libertação dos povos africanos. Para um amplo setor da opinião, incluindo-se algumas forças de esquerda, não era a combinação da luta armada dos movimentos de libertação e da batalha do povo português que havia provocado o 25 de abril. Segundo sua leitura da história, os portugueses haviam libertado os africanos. Essa interpretação ainda predomina, atualmente, na visão portuguesa da “descolonização”. Mas quem descolonizou quem? Os africanos resolveram o problema cirurgicamente - eliminando a palavra do vocabulário.

Somente em setembro de 1974 foi que um governo transitório, de maioria moçambicana, tomou o poder em Maputo. A grande maioria dos 250 mil portugueses que viviam em Moçambique estava profundamente imbuída do sentido da história e de suas mudanças inevitáveis. Foi por isso que viram no acontecimento uma “traição”. Nos meses que se seguiram, essa incompreensão deu origem a movimentos sociais violentos que, por milagre, não se transformaram em banho de sangue.

25 de abril em junho

A espera pela independência se fez no sofrimento: em tempo de guerra, cada dia vale uma vida inteira

A maioria desses portugueses revoltou-se contra os revolucionários e os progressistas que, na metrópole, haviam conduzido o movimento antifascista e anticolonialista. Mário Soares e Almeida Santos foram seus alvos preferidos. “Esses traidores estão em via de nos vender aos negros” - era assim que esses grupos descreviam as negociações que levavam ao fim da guerra. O acordo de paz só foi assinado formalmente no dia 7 de setembro de 1974. E a guerra colonial só acabou cinco meses depois da Revolução dos Cravos. Essa longa espera se fez no sofrimento, de um lado e de outro: em tempo de guerra, cada dia vale uma vida inteira.

Em 1994, para comemorar os 25 anos do 25 de abril, meu editor português me pediu um texto para um livro de vários autores. Recusei-me a participar e expliquei minha recusa: nosso 25 não cai em abril. Dando essa explicação a vários órgãos de informação, vi que nem sempre eu era bem entendido. Alguns se diziam magoados, vendo em minha distância relativa uma ponta de ressentimento. Não: não se pode esperar dos povos africanos que reajam da mesma maneira que os portugueses às comemorações do 25 de abril. Esta festa é também nossa, é verdade, e nós a comemoramos. Mas com o respeito daquele que não é o anfitrião e, sim, o convidado. Também não esperamos dos portugueses que celebrem nossa Festa da Independência, o 25 de junho de 1975, da mesma maneira que nós.

Escrevi um romance a que dei o título de Vinco e Zinco. Infelizmente, o título da versão francesa - Chroniques des jours de cendres - não expressa o sentido da invenção lexical operada em português. O trocadilho salienta a distância entre dois universos que lançam um olhar diferente sobre um mesmo acontecimento. Aqueles que viviam nos bairros de zinco (a periferia pobre) fizeram verdadeiramente a festa no dia 25 de junho de 1975, data da independência nacional. No dia 25 de abril de 1974, eles sorriam. No dia 25 de junho de 1975, cantaram e dançaram. Mesmo se, já na época, alguns imaginavam que seriam necessárias várias gerações para acabar com sua miséria...

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler, de Tobias Engel, “A sina da instabilidade em Guinée-Bissau” e “A segunda morte de Amilcar Cabral”, Le Monde diplomatique, novembro de 2003.




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