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ISRAEL

O campo da morte

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Com o assassinato do líder do Hamas, Ariel Sharon mostra continuar determinado na sua opção de subjugar completamente o povo palestino, usando para isso a violência extrema e o terrorismo de Estado. Israelenses e palestinos continuarão pagando o preço dessa loucura, que pode se estender para além das fronteiras de Israel

Alain Gresh - (01/04/2004)

O assassinato de Yassin é um dos últimos pregos no caixão da Autoridade Palestina, que Sharon destruiu meticulosamente

Eyad Serraj é uma das personalidades mais respeitadas da Faixa de Gaza. Psiquiatra, ele ajuda as crianças traumatizadas pela violência, as mulheres que tiveram suas casas destruídas, os homens enlouquecidos pela guerra. Sempre foi um defensor dos direitos humanos e já mofou em prisões da Autoridade Palestina. No dia 22 de março, sob o choque do assassinato do xeque Ahmad Yassin, líder espiritual da organização islamita Hamas e que ele conhecia muito bem, enviou a seguinte mensagem: “Ele aceitara pôr fim ao conflito por meio da construção de um Estado palestino ao lado de Israel e abandonando o sonho de um Estado islâmico para toda a Palestina. Seu principal objetivo era o fim da invasão. No verão passado, desempenhou um papel fundamental para conseguir a assinatura de um cessar-fogo unilateral que iria durar dois meses.” E conclui: “O assassinato de Yassin é um dos últimos pregos no caixão da Autoridade Palestina, que Sharon destruiu meticulosamente. (...) Só prevalece o campo da morte.” Uma descida aos infernos que abrange a Palestina, Israel e, talvez, toda a região.

Três anos atrás, prometendo a seu povo segurança e paz, Ariel Sharon venceu as eleições e varreu Ehud Barak para o esquecimento. Traumatizados pela explosão da segunda Intifada no final de setembro de 2000 – que foi provocada pela visita feita por Sharon à Esplanada das Mesquitas –, os israelenses apoiaram o velho líder da direita. Tentaram acreditar em suas promessas e preferiram não levar em consideração a longa história de um homem envolvido em vários crimes de guerra, entre os quais se tornaram símbolos a invasão do Líbano, em 1982, e os massacres dos campos de Sabra e Chatila. Naquela época, nenhum atentado suicida surgira com o levante da Intifada...

Roteiro da paz

Na verdade, a segurança dos israelenses não constava das prioridades do chefe do Likud

Mas a segurança dos israelenses não constava das prioridades do chefe do Likud. Ele achava que os acordos de Oslo eram “a maior catástrofe que jamais acontecera com Israel” e que era necessário liquidar, um por um, todos os avanços. O dirigente político de 2000 já não era aquele general impetuoso que lançara seus tanques para tomar Beirute de assalto. Soube tirar lições de seus erros de 1982. Iria se esforçar para manter a unidade do povo israelense e para preservar as relações estratégicas com os Estados Unidos. Isso, porém, sem renunciar a seus objetivos.

Do ponto de vista diplomático, Sharon demonstrou uma certa flexibilidade, afirmando estar preparado para fazer “concessões dolorosas” e consultando constantemente os dirigentes políticos norte-americanos. Quando estes tornaram público, em 30 de abril de 2003, na esteira de sua guerra contra o Iraque, o “roteiro da paz” elaborado pelo que ficou conhecido como o Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Européia e Nações Unidas), ele o aceitou a contragosto.

O “roteiro da paz” previa a criação de um Estado Palestino em três etapas, de 2003 a 2005. As exigências, na primeira etapa, são:

- que os palestinos voltem a reconhecer o direito à existência e à segurança do Estado de Israel, que renunciem ao uso da violência e que procedam a uma reforma profunda da Autoridade Palestina, com a nomeação de um primeiro-ministro com amplos poderes;

- que os israelenses se empenhem em apoiar a criação do Estado palestino, suspendendo o toque de recolher e restaurando a liberdade de circulação, suspendendo os ataques contra a população palestina – assim como o confisco e a demolição de casas –, retirando, progressivamente, suas tropas dos territórios ocupados a partir de 28 de setembro de 2000 e, por fim, congelando o processo de crescimento – ainda que “natural” – das colônias judaicas e desmantelando as chamadas colônias ilegais (ou seja, criadas sem a autorização explícita do governo; vale lembrar que todas as colônias são ilegais à luz do direito internacional).

Espiral de violência

Nada desvia Sharon de seu único objetivo: conseguir a capitulação da população palestina

Se, de seu lado, a Autoridade Palestina se empenhou na reforma – com a nomeação de um primeiro-ministro e um controle extremamente rigoroso de suas finanças –, não houve contrapartida alguma por parte de Sharon. Sua recusa em retirar as tropas israelenses até as linhas existentes antes da Intifada, de desmantelar a maioria das colônias “ilegais”, assim como a manutenção do bloqueio à circulação da população palestina, não oferece qualquer margem de manobra ao primeiro-ministro Mahmud Abas (Abu Mazen), um dos dirigentes palestinos mais moderados, que foi forçado a renunciar – seria substituído, em 10 de setembro de 2003, por Ahmad Qorei (Abu Ala). O cessar-fogo decretado em 29 de junho de 2003 por todas as organizações palestinas – inclusive o Hamas e o Jihad Islâmico – não resistiu à seqüência de assassinatos seletivos. Em suma, o primeiro-ministro israelense alimenta, deliberadamente, a espiral de violência, usando terrorismo de Estado para responder o terrorismo dos atentados-suicidas.

Mas nada desvia Ariel Sharon de seu único objetivo, que persegue com determinação: conseguir a capitulação da população palestina e sua renúncia a qualquer forma de resistência. Para isso, é necessário bater – e bater forte. É o que faz o exército israelense, destruindo sistematicamente as infra-estruturas, bombardeando aleatoriamente campos de refugiados, destruindo casas, atacando hospitais, destruindo de todas as maneiras possíveis a vida material e social dos palestinos. O alvo prioritário é a Autoridade Palestina e seu presidente, Yasser Arafat. Cada atentado-suicida feito pelo Hamas provoca uma escalada de violência contra a Autoridade Palestina, ainda que quem reivindique a autoria dos atentados permaneça livre, em Gaza.

Somente depois de ter esvaziado por completo a capacidade de reação da Autoridade Palestina, no verão de 2003, é que o governo israelense decidiu atacar o Hamas. Foi nesse momento que se negociou uma trégua entre todas as facções palestinas, com a esperança de reatar as negociações de paz. No dia 21 de agosto de 2003, Ismail Abu Shanab, um dos principais dirigentes do movimento islamita, foi vítima de um assassinato seletivo – o que é considerado uma “falta grave” pela IV Convenção de Genebra e, por isso mesmo, passível de processo criminal. E recomeçava a violência...

Aos palestinos, o gueto

O “muro de segurança” objetiva encarcerar a maioria da população palestina da Cisjordânia em guetos

O primeiro-ministro Sharon continua alimentando a esperança de fazer com que os palestinos aceitem a solução “de longo prazo” que ele prega desde 1998: alguns bantustans, cercados pelo jugo de colônias judaicas à sua volta; os palestinos desenvolveriam ali seus negócios, sem qualquer forma de soberania e sob a liderança de dirigentes locais – dessa maneira, o governo israelense retomaria as velhas práticas de administração colonial das populações “autóctones”. Sharon faria uma enorme concessão: consentiria em que fosse chamada de “Estado” essa entidade desprovida de qualquer independência.

Para concretizar seu programa, o governo de Sharon procedeu à construção de um “muro de segurança” cujo objetivo não é o de separar palestinos e israelenses, mas encarcerar a maioria da população palestina da Cisjordânia em guetos. Esse muro, que penetra profundamente no território palestino, destrói o ecossistema de modo irreversível, confisca a água, isola Jerusalém e o Vale do Jordão e, até 2005, dividirá a Cisjordânia em três zonas inacessíveis entre si.

Apesar dessa estratégia, os Estados Unidos aumentaram seu apoio a Sharon, enquanto a União Européia se limita a reprimendas piedosas, o que alimenta o desespero dos palestinos – deixados sós, sem qualquer proteção, diante das sucessivas violações impunes do direito internacional.

O preço da loucura

A situação era complexa e Sharon tornou-a mais trágica mandando assassinar o fundador do Hamas

Após ter enterrado de vez o “roteiro da paz”, Sharon acena agora com a idéia de uma retirada total da Faixa de Gaza. Procura tranqüilizar os israelenses, que querem pôr fim à guerra e se manifestam em favor da retirada dos territórios ocupados e das colônias. Com uma população de alguns milhares de colonos e mais de um milhão de palestinos, a Faixa de Gaza sempre foi um pesadelo para os invasores. Sharon estaria disposto a uma retirada, mas quer que as coisas ocorram paulatinamente (a evacuação não se realizaria antes de 2005), assim como quer arrancar mais concessões junto ao presidente Bush (tais como o reconhecimento do controle israelense sobre as grandes colônias).

Esse plano provocou divergências na coalizão governamental e esbarrou na oposição de determinados militares que receavam que se reproduzisse a experiência da retirada apressada do Sul do Líbano, em maio de 2000: O Hamas poderia surgir como o grande vencedor dessa evacuação. A preocupação foi ainda maior quando todas as tendências palestinas negociaram a tomada de controle da Faixa de Gaza e o xeque Ahmed Yassin se declarou pronto a suspender as operações militares naquele território se a retirada israelense fosse total1 . A situação era, portanto, complexa e Ariel Sharon tornou-a mais trágica mandando assassinar o fundador do movimento islamita. Isto não o preocupa, pois ele sabe que só com a escalada da violência poderá pôr em prática suas opiniões. Israelenses e palestinos continuarão pagando o preço dessa loucura – que poderia se estender para além das fronteiras do Oriente Médio. Eyad Serraj preveniu: “Só triunfa o campo da morte.”

(Trad.: Jô Amado)

1 - Essa declaração foi divulgada no site da facção armada do Hamas, em 17 de março de 2004.




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